O sentido político do livro

Por: Renata de Albuquerque

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Composto de seis textos inéditos, escritos por diferentes pesquisadores de diversas áreas, Livros e Subversão – Seis Estudos é fruto de um dos trabalhos do grupo Censura a Livros e Ditadura no Brasil.

O volume foi organizado por Sandra Reimão, Professora na Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)  e na Pós Graduação em Comunicação (PPGCOM-ECA). Os estudos mostram como os livros eram vistos pela Ditadura (1964 a 1985) como possíveis instrumentos de subversão da ordem estabelecida e como potenciais inimigos a serem combatidos. Os textos são assinados pelos pesquisadores Felipe Quintino, Ana Caroline Castro, Andréa Lemos, a própria Sandra Reimão, João Elias Nery e Flamarion Maués.

É Maués, Doutor em História pela Universidade de São Paulo/USP, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, autor de Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 1974-1984 (Publisher, 2013) e professor substituto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que fala sobre o lançamento com exclusividade ao Blog da Ateliê:

 

Como surgiu a ideia de reunir os textos para a obra?

Flamarion Maués: O livro surgiu como decorrência do nosso trabalho no Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, vinculado à EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP). Este grupo tem por objetivo identificar, compreender e discutir a censura à publicação de livros durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Nosso trabalho busca estudar o processo de censura a livros nos diferentes momentos da ditadura militar brasileira; verificar as repercussões dos vetos no panorama editorial do momento; e seguir o percurso editorial das obras em questão após o ato da censura.

Entendemos a censura, durante a ditadura militar brasileira, como parte de um aparelho de coerção e repressão que resultou em enormes prejuízos para o exercício da cidadania e da cultura.

 

Os ensaios foram escritos exclusivamente para o livro?

FM: Os artigos são inéditos e escritos especialmente para o livro. Eles são fruto de pesquisas de doutorado ou pós-doutorado de cada membro do grupo, assim como de trabalhos coletivos que desenvolvemos, como é o caso dos artigos sobre a Banca de Cultura do CRUSP e sobre a Editora Diálogo, de autoria minha, de Sandra Reimão e João Elias Nery.

 

Os pesquisadores autores dos ensaios não são todos da mesma área. De que maneira essa multidisciplinaridade enriquece um estudo como este?

FM: A interdisciplinaridade é uma das marcas fortes das pesquisas no campo da história do livro e da edição. No nosso caso, os pesquisadores são da área de Comunicação e História, mas poderiam ser também das áreas de Letras, Sociologia, Educação ou mesmo Economia ou Ciência Política, uma vez que este campo de estudos tem congregado colaborações desses diversos ramos de conhecimento. Isto tem enriquecido as pesquisas referentes à história do livro e da edição, permitindo olhares plurais e a utilização de métodos diversificados, sem perda de uma perspectiva crítica e inovadora.

 

Alguns personagens dos estudos (como Ênio Silveira e Zuenir Ventura) são figuras centrais na história da resistência da imprensa durante a Ditadura; bem como algumas instituições, como a Banca do Crusp. Mas, por exemplo, o caso da obra de Lenin não é tão debatido.  Como se deu a escolha dos temas de cada ensaio? O que o senhor tem a dizer sobre isso?

FM: Os temas se relacionam às preocupações relacionadas ao Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, e à pesquisa que cada um dos autores desenvolve. Então, os temas às vezes nem tão conhecidos – como a edição da obra de Lenin às vésperas do AI-5 por uma pequena editora de Niterói (a Editora Diálogo), ou sobre o uso de livros como elemento de provaem processos judiciais contra pessoas acusadas de subversão, ou ainda sobre a Global Editora – se relacionam a pesquisas que cada um de nós desenvolve. No primeiro caso, da Editora Diálogo, a ideia surgiu em decorrência da entrevista que fizemos (Sandra Reimão, eu e João Elias Nery) com o editor Fernando Mangarielo, responsável pela Banca da Cultura (e depois fundador da editora Alfa-Ômega), que mencionou a história do livro do Lenin. Ficamos curiosos em relação ao tema, e acabamos descobrindo que o professor Aníbal Bragança tinha sido um dos proprietários da Editora Diálogo. O professor Aníbal é um dos principais estudiosos da história do livro no Brasil, e como nós o conhecemos ficou mais fácil fazermos o artigo.

 

livrosQual o traço em comum que pode ser percebido nos seis estudos agora publicados?

FM: Penso que é a preocupação em entender o sentido político do livro e da edição, buscando destacar seu papel como elemento relacionado a formas de intervenção política e social, principalmente no que diz respeito à difusão e ao debate de ideias inovadoras e/ou contestadoras. Ao mesmo tempo, relacionar isso ao fato de o livro ser sempre perseguido pelos regimes autoritários, sofrendo censura e restrições a sua circulação. Desse modo, buscamos destacar aqueles momentos em que esse embate se deu, seja de modo mais direto, seja de maneira mais sutil. E também mostrar como a atuação dos editores se deu, na maior parte dos casos, na confrontação dessas perseguições e censuras, buscando levar a público as obras que colocavam em questão os poderes autoritários e que proporcionavam o debate democrático.

 

Em um contexto histórico no qual parte da sociedade julga “golpe” o impeachment recém-sofrido pela ex-presidente, qual a relevância de um lançamento como este? O senhor acredita que é possível traçar algum paralelo ou fazer alguma relação entre os momentos históricos retratados na obra e o que o Brasil vive, em 2016?

FM: É preocupante – e sintomático – que atualmente as manifestações políticas estejam sendo criminalizadas. Aqui em São Paulo (mas não só aqui) a ação do governo estadual, por meio da Polícia Militar, tem sido de repressão sistemática e desproporcional dessas manifestações, com conivência da Justiça, que considera normal que a PM use balas de borracha e cause ferimentos e até cegueira em manifestantes. Isso tem se relacionado ao tema que tratamos em Livros e subversão, uma vez que tem havido casos de prisões de pessoas em manifestações políticas em que a posse de certos livros (de autores anarquistas ou marxistas) está sendo usada como “prova” de acusação contra essas pessoas.

O golpe que acabamos de viver reflete esse quadro de criminalização da participação política pluralista. É uma situação preocupante. Todavia, vemos que o campo editorial tem se manifestado a respeito, ou ao menos algumas pequenas editoras, com o lançamento de livros como Por que Gritamos Golpe (Boitempo) ou Historiadores pela Democracia: o Golpe de 2016 e a Força do Passado (Alameda). São ações editoriais de cunho político que mostram que os editores estão atentos.

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