A natureza e a essência da fotografia

Por: Renata de Albuquerque

Lançado pela primeira vez em 1999, Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, escrito por um dos mais importantes pesquisadores e ensaístas brasileiros dedicados à fotografia, Boris Kossoy, acaba de chegar à sua quinta edição. A obra, agora revista e reformulada em seu aspecto visual, tem se constituído em obra de referência interdisciplinar.

Para falar sobre essa nova edição, o Blog da Ateliê convida Boris Kossoy, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP que prioriza em suas reflexões os modos como se constroem ficções e realidades por meio do documento visual, abordando questões da história, da memória e do jornalismo.

 

Capa Realidades e Ficções_2016A primeira edição do livro é de 1999. Desde então, muita coisa mudou: por exemplo, a popularização da internet, a fotografia digital e aplicativos como Instagram e Snapchat, que mudam a relação que havíamos estabelecido antes com a fotografia.  Nesse contexto, qual ainda é a atualidade do livro e de que forma ele pode nos fazer refletir sobre o assunto?

Boris Kossoy: A primeira edição foi lançada há 17 anos. Durante este período, todas essas tecnologias que surgiram vieram a interferir fortemente na forma de apreciar, transmitir e utilizar as imagens fotográficas. Mas isto não interfere em nada quando se trata de pensar a fotografia enquanto meio de comunicação e expressão que tem modificado a vida do homem e das sociedades nos últimos 170 anos.  Com Realidades e ficções na trama fotográfica espero estar contribuindo para o pensamento fotográfico no que tange ao estudo dos mecanismos que regem a produção e a recepção das imagens. Neste livro formulo um conjunto de conceitos sobre a natureza e a essência da fotografia, conceitos estes desvinculados das tentativas que sempre se fizeram de compreender a fotografia a partir de parâmetros estabelecido para a comunicações escrita e verbal.

 

Quais são as realidades e ficções da fotografia?

BS: Quando falo em “realidades” no plural, é justamente porque procuro desvelar um componente nebuloso intrínseco da imagem fotográfica que é sua natureza ficcional,não importando a tecnologia, a época e o lugar em que ela tenha sido produzida e independentemente de quem tenha sido seu autor.

A ficção se instala na fotografia a partir do próprio sistema de representação que a  torna possível e, naturalmente, pelos componentes de ordem imaterial que marcam a atuação do autor durante a sua produção: o repertório, cultura, convicções políticas, visão de mundo, enfim, de seu operador.

Neste processo, novas realidades são constantemente criadas a partir do objeto. E o mesmo se dá na recepção das imagens. Basta ver como as imagens são interpretadas e reinterpretadas diariamente pelos órgãos de imprensa e também por todos aqueles, fotógrafos ou não, que se permitem construir fantasias a partir das imagens.

A esse fenômeno dei o nome de processo de criação/construção de realidades, que, ao fim e ao cabo é verdadeira vocação da fotografia.

Toda fotografia é um “recorte”, um ponto de vista?

BK: Sim, toda fotografia resulta de um recorte, de um ponto de vista, de uma visão do mundo, de uma formação cultural, de um  intenção e finalidade e de outras coisas.Não há nenhuma objetividade no documento fotográfico, nunca houve, no passado, não haverá no futuro. É por tais razões que o livro permanece atual.

Parece que a desmontagem da imagem, conforme desenvolvo no livro, tem sido apreciada, desde os conceitos que estabeleço à metodologia de análise e interpretação que proponho. Fico feliz que a obra tem sido lida, estudada e indicada em diferentes áreas das Ciências Humanas e Sociais durante todo este tempo juntamente com os outros dois livros que complementam minha trilogia teórica, ambos também publicados pela Ateliê (Fotografia & História eOs Tempos da Fotografia, o Efêmero e o Perpétuo na Imagem Fotográfica). Creio que por tudo isso o livro se acha hoje na sua quinta edição.

Diagrama presente na obra

Diagrama presente na obra

Um leitor que está tendo o primeiro contato com a obra nesta 5ª edição terá percepções diferentes daquele que tomou conhecimento dela no início dos anos 2000?

BK A referência cultural dos leitores de hoje, em particular dos mais jovens, é diferente da dos leitores do ano 2000, isto é verdadeiro. Basta pensarmos nas câmeras digitais altamente sofisticadas que estão no mercado, além do impressionante avanço da internet, dos softwares, dos programas de “tratamento de imagens” disponíveis, que tudo fazem, tudo modificam, tudo manipulam.

Contudo, a manipulação das imagens – e das mentes – não teve início no ano 2000.O homem tem se servido das imagens desde tempos imemoriais. Todo este equipamento de produção, distribuição e veiculação disponíveis hoje continua necessitando do olhar e repertóriodo operador da câmera. É este um aspecto que creio ser importante no livro, pois não é a tecnologia, e sim a compreensão da natureza da imagem fotográfica e a forma como tem sido usada na representação da vida e do mundo que está em questão. A contribuição está na percepção das realidades, ficções, usos e aplicações da imagem fotográfica como instrumento de informação e desinformação, meio de conhecimento e como forma de expressão artística.

 

Com a popularização do ato de fotografar (pois agora isto pode ser feito por qualquer um que tenha um celular em mãos) e com a foto não sendo mais um objeto concreto (ampliar não é mais uma necessidade), altera-se de alguma forma o conceito de documento/representação da fotografia? Como se coloca a questão ideológica se pensada a partir deste panorama?

BK: Temos aqui duas perguntas em uma. Primeiro: é importante que se compreenda que existem duas categorias de produtores de fotos que jamais vão deixar de existir. Os que “clicam” convulsivamente a tudo e a todos e, principalmente, a si mesmos (os “selfies”) e a segunda categoria: a dos fotógrafos propriamente ditos.

Para estes fotógrafos, sejam profissionais ou não, mas que costumam participar de exposições, as fotografias continuam, sim, a ser impressas, seja a partir de negativos fotográficos, (as chamadas fotos analógicas, a fotografia química), embora em número bem reduzido, ou as obtidas a partir de arquivos digitais.

Em ambos os casos, os verdadeiros amantes da arte fotográfica seguem ampliando suas fotos, buscando a melhor qualidade de produção física para serem apresentadas em galerias e museus. E há todo um público interessado também em ter fotos de determinados autores nas paredes de suas casas.

Em síntese, existe a foto “convulsiva” – que se presta para ser vista na tela do computador ou do celular – e a foto pensada, construída, criada e produzida como forma de expressão pessoal e artística. Penso que isto responde a primeira parte da pergunta.

Agora a segunda parte, que poderia se ligar de alguma forma à primeira, é conceitual: quando formulei a relação documento/representação esclareci que se trata de uma relação fundante da fotografia, e como tal, ocorre em todas as fotografias que encontrarão sua aplicação e uso (dirigido de alguma forma) no jornalismo, na história, na arquitetura, na antropologia e assim por diante. No livro esclareço em detalhe o fato da fotografia ser um registro a partir de um processo de criação, um registro expressivo, portanto.  De qualquer modo, e para finalizar, o documento fotográfico só existe a partir de uma representaçãoconstruída, elaborada de um cenário, personagem, objeto, de um assunto enfim do real cuja aparência foi registrada pela fotografia.Mas o que está por trás da aparência?E do aparente?Muito bem, aí começa a questão do mistério inerente às imagens e a discussão ideológica da fotografia enquanto documento e representação. Nesta altura recomendo a leitura do livro!

 

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