Correspondência preciosa

Pela primeira vez, as Cartas a Miranda são traduzidas para o português, tornando disponível aos pesquisadores o conhecimento e as reflexões que deram origem ao campo disciplinar do restauro

Por Renata de Albuquerque

Teste

Ao decidirem trabalhar na tradução e organização de Cartas a Miranda: Sobre o Prejuízo que o Deslocamento dos Monumentos da Arte da Itália Ocasionaria às Artes e à Ciência, o pesquisadores Paulo Mugayar Kühl e Beatriz Mugayar Kühl sabiam da responsabilidade que os esperava. Afinal, esta tornou-se a primeira tradução para o português desse conjunto de textos epistolares – escrito por Antoine-Chrysostome Quatremère de Quincy ao general Francisco de Miranda no final do século XVIII – que deu origem ao que hoje conhecemos como restauro, tanto do ponto de vista conceitual quanto ético.

O trabalho resultou na publicação que a Ateliê Editorial acaba de lançar, um volume da Coleção Artes & Ofícios que conta com um texto de apresentação e dois ensaios – cada um assinado por um dos pesquisadores – sobre dois dos assuntos centrais das cartas. No primeiro, Paulo Mugayar Kühl aborda o problema da transferência de obras de arte, inclusive no que respeita a repercussões para o Brasil. No segundo, Beatriz Mugayar Kühl explora algumas das questões levantadas por Quatremère de Quincy em suas implicações para a preservação de bens culturais.

A seguir, a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, que é Mestre em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica; Doutora pela FAUUSP e Pós-Doutora pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, fala sobre o trabalho:

Beatriz Mugayar Kühl

Beatriz Mugayar Kühl

Por gentileza, explique brevemente para quem não conhece a obra, do que se trata Cartas a Miranda

Beatriz Mugayar Kühl:  Quatremère de Quincy, publicou as Cartas a Miranda em 1796. As cartas teriam por destinatário o general Francisco de Miranda, que propôs que Quatremère abordasse os perigos de espoliação dos monumentos de Roma depois das vitórias do General Bonaparte no norte da Itália, sob o ponto de vista das artes. No texto, Quatremère elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de como se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Como um texto original do século XVIII pode ajudar a pensar a preservação dos bens culturais no século XXI?

BMK: Isso acontece pelo fato de  Quatremère de Quincy antecipar o debate de determinadas questões sobre a produção artística e a preservação e lançar luzes sobre temas  que permanecem essenciais para a atual reflexão sobre a preservação de bens culturais – como o papel do contexto para a apreensão dos monumentos e a necessidade de sua conservação, evidenciando a intrínseca articulação entre o que hoje chamamos patrimônio material e patrimônio imaterial.

Ele desenvolve formulações teóricas da apreensão e do aprendizado das artes, tanto no que respeita às suas implicações para o fazer artístico, quanto para a apreciação das obras de arte, um tema que explora ao longo das várias cartas. Aponta os malefícios da remoção de obras de um país para outro para o estudo das artes, pois obras espalhadas ofereceriam meios incompletos para a educação.  Observa que as obras de arte são mais bem apreciadas juntamente com outras da mesma época, comparando-as com as escolas que as precederam e sucederam e questiona se ao deslocar esses objetos serão trazidas também as razões  das diversas maneiras de elaborar de várias escolas. Enfatiza, assim, a necessidade da preservação das obras de arte em seu contexto, e a importância capital desse contexto, entendido de modo muito alargado, abarcando variadíssimos aspectos como o clima, as formas da natureza, as fisionomias, as lembranças e as tradições locais, os jogos, as festas. Trabalha, pois, de modo articulado com aquilo que hoje chamamos de patrimônio material e imaterial, mostrando sua inter-relação e o fato de serem incindíveis.

Quatremère de Quincy em imagem de F. Bonneville

Quatremère de Quincy em imagem de F. Bonneville

O que Quatremère de Quincy pode ensinar ainda hoje para o leitor contemporâneo?

BMK: Muito o que refletir sobre a arte e o patrimônio nos dias de hoje, como nos temas mencionados acima. Quatremère desenvolve seu raciocínio a partir de uma base ética em prol do interesse público e do bem comum, outra lição essencial nos dias de hoje.

 

De que maneira as Cartas a Miranda ajudaram a formatar as bases da transferência da obra de arte e do restauro?

BMK: De muitas maneiras e não apenas nas Cartas a Miranda. Ele invoca diversos temas de maneira inovadora, a exemplo do papel do contexto mencionado acima.  Em outros textos, como em sua Encyclopédie Méthodique ou ainda em Considérations Morales,  sintetizou experiências diversas que se sucederam ao longo dos séculos, antecipou e lançou luzes sobre duas das principais vertentes da restauração no século XIX, uma mais conservativa e com grande apreço pelos valores formais da pátina, com ênfase na manutenção constante (que teria entre seus expoentes John Ruskin) e outra, mais voltada a completamentos e refazimentos em estilo, seguindo a lógica constitutiva da obra, cujo mais notório representante, na França, foi Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc. Ou seja, os textos de Quatremère de Quincy oferecem vários pontos para reflexão e antecipam algumas das principais vertentes de atuação do século XIX, que ofereceram bases essenciais, a partir de releituras críticas, ao pensamento sobre o restauro ao longo do século XX e até os dias de hoje.

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