Monthly Archives: julho 2016

Estimar Canções – Estimativas íntimas na formação do sentido é o novo livro de Luiz Tatit

Estimar

Na obra, autor faz uso de conceitos da Semiótica para explicar a construção de sentido nas canções brasileiras

Como estimar os elementos de uma canção? Segundo Luiz Tatit, é comum que se avalie uma canção do ponto de vista musical, o que pouco ajuda na compreensão sobre essa linguagem. Por isso, o mais novo livro do professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Estimar Canções – Estimativas íntimas na formação do sentido, traz um enfoque que em geral não é considerado: como se forma o sentido na canção.

Na obra, Tatit também chama atenção para as dosagens avaliativas e as quantificações subjetivas típicas do pensamento humano para, a partir disso, detalhar como essas estimativas ocorrem nas canções. Assim, o “estimar” do título tem um duplo significado. “A gente analisa aquilo que gosta”, diz o autor, para, em seguida, completar: “estimar também corresponde a ‘calcular’ o tanto de musicalização, oralização, tematização e passionalização que o compositor investe em cada canção produzida”.

Segundo Tatit, o estudo da linguagem da canção deve sempre focalizar o encontro da melodia com a letra. É esse encontro que faz a melodia (neutra) virar um modo de dizer, uma sequência entoativa semelhante a que usamos em nossa fala diária. Uma vez configurado o modo de dizer, o compositor pode submetê-lo a um tratamento musical apurado ou intensificar ainda mais o processo de oralização. “No caso da musicalização, as unidades entoativas valem menos, pois o compositor faz prevalecer os recursos harmônicos e rítmicos, ao mesmo tempo em que atenua a relevância da letra, criando versos avulsos (sem narrativa) ou aproveitando sobretudo suas aliterações e suas rimas. No caso da oralização, as unidades entoativas valem mais e, no extremo, chegamos à quase neutralização de parte dos elementos musicais para que a ênfase fique na mensagem do componente linguístico, como é o caso do rap,” explica o autor.

Em outros casos, o que o compositor acrescenta à canção pode fazer dela um gênero no qual prevalece a recorrência de motivos melódicos ou refrãos que se compatibilizam com letras de exaltação de algum conteúdo – como o amor, a terra natal etc. É o caso de algumas antigas marchinhas, baiões e música axé. A isso, Tatit chama de tematização. Já alguns boleros, sertanejos, sambas-canções e músicas românticas são exemplo de canções passionais, na medida em que apresentam melodias desaceleradas, que estendem a duração das notas sem formação clara de motivos, e estão ligadas à busca do objeto desejado.

Para o autor, esse processo é como uma receita culinária: “Se acrescentar oralização, a canção pode virar um gênero mais falado, como o rap por exemplo. Se insistir na pureza musical, a canção pode adquirir traços do jazz ou mesmo da nossa bossa nova dos anos 60”, diz Tatit, que explica que os aspectos da teoria semiótica utilizados na obra servem para “estimar” qualquer canção.

Serviço

Estimar Canções – Estimativas íntimas na formação do sentido

Formato:  14 x 21 cm

Número de páginas: 176

ISBN: 978-85-7480-737-9

Preço: R$ 34,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183

Cel: (11) 98384-3500

 

 

 

Falta de tempo é a principal razão pela qual brasileiros não leem mais

Por Renata de Albuquerque

livros na estante

 

 

Brasileiros alegam falta de tempo para ler, segundo a quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada recentemente – 43% das pessoas entrevistadas não lê mais por falta de tempo. Não há dados anteriores para comparação do número, já que a pergunta “Por que não leu mais?” foi incluída na pesquisa pela primeira vez nesta edição.

Mas, mesmo assim, o dado é interessante, porque aponta que, para além de fatores como altos preços (apenas 7% declararam achar livros caros e apenas 5% disseram não ter dinheiro para comprar livros), o maior impedimento para a atividade da leitura está em um bem que não pode ser comprado, mas sim organizado: o tempo.

Entre os estudantes, o índice cai mais de dez pontos. 32% declararam não ler mais por falta de tempo, apontando para o fato de que priorizar a leitura é um elemento fundamental para que ela se realize. Estudantes encontram mais tempo para ler porque essa atividade já é habitual no seu cotidiano, não necessariamente porque são “obrigados” a ler.

Quanto ao interesse na atividade, a pesquisa – realizada pelo Instituto Pró-Livro e com apoio da ABRELIVROS, CBL, Snel e IBOPE Inteligência – aponta que apenas 5% das pessoas que leram algum livro nos últimos três meses “não gostam de ler”. Esse número sobe para 28% no grupo de pessoas que não leu nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Esses números indicam que quem lê livros o faz porque gosta. Sob esse aspecto, então, despertar o interesse pela leitura ainda na infância é fundamental.

 

Influência dos pais no hábito de leitura dos filhos

O percentual total de entrevistados que disse “gostar muito de ler” é de 30%. O número sobe para 45% quando se leva em conta apenas o público leitor (que leu ao menos um livro, total ou parcialmente, no trimestre em que a pesquisa foi realizada). Segundo o levantamento, a mãe tem um papel central na formação do leitor. “A figura da mãe é bastante importante na influência da leitura, especialmente quando se comparada à influência do pai ou de algum parente”, informa a pesquisa.

Como quem lê o faz porque gosta (e não por obrigação), fica claro que incentivar a leitura como um hábito, desde a infância, faz a diferença. “Os resultados da pesquisa reforçam a análise de que o hábito de leitura é uma construção que vem da infância, bastante influenciada por terceiros, especialmente por mães e pais, uma vez que os leitores, ao mesmo tempo em que tiveram mais experiências com a leitura na infância pela mediação de outras pessoas, também promovem essa experiência às crianças com as quais se relacionam em maior medida que os não leitores”, avaliam os pesquisadores.

 

Analfabetismo literário

Entretanto, o grande entrave para a leitura, infelizmente, ainda é o analfabetismo. 20% dos não leitores (que não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa) declararam não saber ler. “De acordo com o INAF, apesar do percentual da população alfabetizada funcionalmente ter passado de 61% em 2001 para 73% em 2011, apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Ou seja, o aumento da escolaridade média da população brasileira teve um caráter mais quantitativo (mais pessoas alfabetizadas) que qualitativo (do ponto de vista do incremento na compreensão leitora) ”, apontam os pesquisadores.

 

Motivações para a leitura

A boa notícia que “Retratos da Leitura no Brasil” traz é que aumentou a importância dos livros lidos por iniciativa própria em relação aos indicados pela escola, mesmo entre os estudantes. Gosto e atualização cultural, além de conhecimento geral são os principais fatores que motivam os brasileiros a ler. Ou seja: a “leitura por obrigação” ocupa um espaço hoje menor do que antes.

 

E você, gosta de ler? Como encontra tempo para ler mais livros? Deixe um comentário, compartilhe sua experiência com a gente!

Para loucos por livros, um livro sobre livros

A Casa dos Seis Tostões é uma história bem contada, recheada de informações reais sobre livros, para o deleite de editores, escritores e demais profissionais do mercado editorial, amantes da arte do livro e da leitura. Lançamento da Ateliê Editorial, vai ser a próxima leitura da fotógrafa Lucia Mindlin Loeb, que trabalha com arte em livros e concedeu entrevista exclusiva para o blog 

 

Por Katherine Funke*

Se você está lendo este blog, possui certo grau de loucura por livros, digo, loucura suficiente para desejar e, quem sabe, comprar mais livros do que pode ler ou guardar. Ou, mais loucura ainda: paixão, e o bastante para transformar o livro em seu trabalho, em uma livraria, sebo ou biblioteca. Mais um passo, e aí já está escrevendo, revisando ou editando livros. E, como a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb, deixando o livro “atravessar” sua trajetória e vice-versa – a ponto de criar e editar livros aparentemente impossíveis ou incoerentes, com a mesma fotografia impressa em todas as páginas ou serrado em duas partes (veja a entrevista com a artista)

Isto ainda não é loucura suficiente? Então junte toda uma vida relacionada ao livro, case com alguém que também está escrevendo um livro, tenha um filho e, enquanto está corrigindo as provas do seu primeiro livro a ser publicado, e seu bebê ainda precisa ser amamentado, venda sua bela casa nas colinas da Califórnia e se mude para uma pequena cidade no interior do País de Gales, com mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias.

Casa dos seis tostoesEsta é a história de A Casa dos Seis Tostões – Perdido numa Cidade de Livros, lançamento da Ateliê Editorial. Um livro que remete a muitos, muitos outros livros, desde a capa, em que dimensões diferentes de tipografia convivem na página, enquadrados de modo a dar ideia de que aí estão três títulos em um só. Solução genial de design: afinal,não existe livro solitário. Pelo menos desde Mallarmé e seus textos sobre o livro como instrumento espiritual, sabemos que os livros se comunicam, se exigem, demandam interações infinitas, entre diferentes épocas, edições, editorações e escritas.

Esta saborosa obra de Paul Collins, traduzida do inglês americano por Marcello Rollemberg e Ana Maria Fiorini, deleita ao mesmo tempo bibliófilos, amantes da cultura do livro, assim como quem procura uma leitura leve, dotada da fluidez de um narrador “encarregado de ver divinamente”, diria Mallarmé no ensaio citado, capaz de contar “das relações entre tudo.”

É por isso que um público tão abrangente pode se deliciar com A Casa dos Seis Tostões: Collins consegue relacionar as marcantes diferenças entre britânicos e americanos com o jeito como é recebido por colegas de trabalho, por exemplo. Entrelaça sua vida pessoal mais visível – é uma história autobiográfica –, isto é, os cuidados com o bebê, com aquilo que profissionalmente oferece de mais mágico – uma pesquisa vasta, dinâmica, sobre diferentes etapas da literatura e da cultura do livro. É a vida em todas as suas circunstâncias, dentro e fora do livro.

Em Hay-on-Wye, Collins tem muitas oportunidades para entrar no assunto do livro,  desde descrever as aventuras do inusitado trabalho temporário como “especialista em literatura americana” em uma anárquica loja gigante de livros usados até o processo de edição de um novo título, sofrido por ninguém menos que o próprio autor.

Pesquisas

O ruim de um livro tão bom é que ele, de um modo ou outro, acaba. Mas, também, não acaba: a diversão posterior é pesquisar, por conta própria, as centenas de dados apresentados sobre autores raros ou conhecidos, fatos peculiares e edições marcantes da história do livro. A uma pessoa ansiosa por informação de qualidade, como eu e Collins, difícil, na verdade, é parar de pesquisar coisas como: desde quando os livros têm sobrecapas? Quando o livro passou a ser produto popular? Existiu mesmo o título I was Hitler’s Maid?

Outra pausa útil, provocada pelo autor durante a leitura, pode ser dada para que se pense em temas metafísicos como o da duração de um livro, não só como objeto físico (delicado, especialmente quando antigo), mas também do que foi lido: o modo como ecoa ou interage com o que surge décadas, ou séculos depois.

Outro tema, mais misterioso ainda, é como, apesar de serem tantos fatores em torno do sucesso de um livro, não há fórmula que possa antever o que vai se tornar um bestseller e o que, por outro lado, será colocado na pilha do saldão. Collins conta casos de fracasso e sucesso com facilidade, dando a entender que pesquisa o tema há tanto tempo quanto se entende como leitor.

Aliás, para que escrever um livro sobre livros se já existem tantos outros livros sobre livros? “Para quê? É preciso arriscar: é preciso escrever sobre o livro por uma libertação”, responderia o filósofo francês Jean-Luc Nancy, em um texto chamado “As Razões de Escrever” (em: Demanda – Literatura e Filosofia, Edufsc, 2016).

Libertar-se de quê? Bem, talvez de um modelo ou de uma expectativa. Sabe-se lá. Cada caso, um caso. Neste, Paul Collins encontra um modo totalmente original de contar um pedaço da sua vida em que esteve, mais do que nunca, mergulhado em livros.

Tarefa infinita

Hay On Wye

Hay On Wye

Collins encontrou uma atmosfera envolvente e dinâmica na Booth’s, um sebo gigante com várias sedes espalhadas pela cidade. Ali, contratado como especialista em literatura americana, ele trabalhou durante alguns meses, até dar por terminada a tarefa de organizar uma seção em um dos prédios.

Mas o problema (e a maravilha) de trabalhar na Booth’s parece ser o fato de que há livros demais para serem organizados, e diferentes modos de sistematização e hierarquização de acervo convivendo década após década nos vários imóveis pelos quais se espalha a livraria. Collins compara o modelo de negócios da Booth’s com o de concorrentes da cidade; ao mesmo tempo, também dá um ar muito humano, contraditório e engraçado para o antigo patrão e colegas de trabalho, revelando que, além de prestar atenção em livros, lia também as pessoas ao seu redor.

Ao final do seu contrato na Booth’s, e com seu próprio livro já na etapa da revisão final (que volta dos Estados Unidos pelo correio com dezenas de bilhetes cheios de dúvidas colados no manuscrito), Collins também decide voltar para casa.

O problema é que já não era tão estrangeiro assim em Hay-on-Wye, e já não tinha um lar para chamar de seu nos Estados Unidos: dilema existencial que, poderíamos dizer, foi antecipado por outro livro, O Estrangeiro, de Albert Camus – mas isto é outra história… O que importa é que Collins não parece se preocupar demais com o que vem depois. Ao contrário, cada uma das páginas desse seu delicioso livro de memórias, especialmente as páginas finais, condensam todo aquele tipo de “informação inútil” pelo qual nós, bibliófilos, escritores, jornalistas, editores, somos absolutamente apaixonados.

E, se não adianto nesta resenha mais nenhum desses detalhes, é porque consideraria um spoiler mais grave do que contar que, enfim, a família de Collins não fixa moradia em Hay-on-Wye.

* Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC. 

 

Entrevista com Lucia Mindlin Loeb

Por: Katherine Funke*

Ao saber do enredo de A Casa dos Seis Tostões, a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb já escala o título como próxima leitura. Seu avô era ninguém menos que o bibliófilo José Mindlin; seu pai é arquiteto e lhe deu a primeira câmera fotográfica. “Fotografava pessoas, animais, casas, livros. Engraçado; fotografava livros. Abertos naquelas páginas de que eu mais gostava, como se não bastassem eles próprios, queria experimentar o fato de registrá-los”, ela conta no Manual de Uso que acompanha Mestrado, livro dividido em 8 volumes de diferentes tamanhos, que repetem a mesma fotografia em todas as páginas.

Nesta entrevista exclusiva para o blog da Ateliê, a artista conta detalhes de sua trajetória, desde o início até os principais desafios em mostras individuais e coletivas, revelando, por exemplo, que tem por livro de referência A Book of Books, de Abelardo Morell, editado em Nova York, em 2002.

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia, seu portfolio vem com o título “O Livro Através”. Ou seja: já deixa claro que a história da sua vida, sua trajetória, seu trabalho, é atravessada pelo “livro”. Pode nos contar um pouco de como isso tudo começou – e quando percebeu que seria sempre assim?

Lucia Mindlin Loeb – Esse título foi inspirado no título de uma exposição de livros, que foi no Metropolitan/NY, organizada por Adrian Wilson em setembro de 1985; The Book Thought Through. O catálogo é um livro fininho de capa vermelha com poucas imagens. Diz na introdução que os livros escolhidos expressam inesperada combinação de materiais e métodos. Não dá para saber direito como foi, nem sei se consegui entender a tradução do título direito, mas eu gosto da ideia de atravessar o livro de alguma maneira. Com um furo, com um pensamento, com uma serra, com um monte de livro pensando sobre o livro.

Pode se dizer que sim, que a minha vida sempre foi cercada por livros. Meu avô começou a formar uma biblioteca ainda menino, e não parou mais. Minha avó tinha uma oficina de restauro e encadernação em casa. Minha mãe se formou em arquitetura, mas sempre trabalhou como artista gráfica de livros. Eram coisas que eu gostava, e gostava de ver eles fazendo. Falo um pouco sobre isso no meu mestrado.

Das suas artes em torno do tema livro, qual foi a que trouxe mais prazer em realizar? Por quê?

LML: Não sei uma específica. Talvez a primeira vez que fiz um trabalho que tem furos e deslocamentos de impressão. Eu deixei na gráfica para furar, e tive que esperar não lembro quantos dias pra ver o resultado, pra ver se tinha dado certo. Abri ali mesmo e foi bem emocionante.

Imagem da obra "Abismo"

Imagem da obra “Abismo”

Você mesma serrou seu livro Abismo?

LML: Eu adoro colocar a mão na realização do projeto. Em todas as etapas que envolvem a produção. Muitas vezes levo para algum outro profissional fazer uma parte, ou mais de uma. Mas tenho uma oficina que me permite fazer bastante coisa (já consigo fazer os furos que tinha que levar pra fazer na gráfica, por exemplo), o que me dá mais agilidade para experimentar.

Não fui eu que serrei o Abismo. Depois de costurado ele ficou quase um cubo de 18 x 18 x 18 cm. Foi bem difícil encontrar alguém que tivesse essa serra e topasse fazer esse corte. A caixa de madeira serviu para prensar as páginas na hora do corte e também como gabarito para cortar uma série de 7 exemplares. Parecia muito simples; prensar e serrar. Mas o volume de folhas e a fibra do papel deixaram o livro mais duro que madeira. Cada exemplar ficou de um jeito, mais ou menos reto, mais ou menos queimado, alguns eu lixei depois, outros não. Mesmo ele tendo sido impresso em offset, teve um acabamento bem manual. Acabei gostando dessas variações.

Algumas de suas ideias parecem nascer em momentos de profunda abstração, ou meditação, em torno do sentido de existência do livro como objeto, como em Devaneio. É isso mesmo? Explique um pouco mais de como tem feito do livro um tema que marca sua assinatura de artista.

LML: As ideias aparecem em momentos variados. As vezes vêm de alguma palavra, de alguma coisa que eu li ou vi, de algum outro trabalho que eu esteja fazendo, de alguma coisa que eu esteja estudando. E quanto mais estiver produzindo, mais ideias vão surgindo. Às vezes de reflexões; e às vezes de ações. Devaneio foi assim: um devaneio sobre um caminhar de páginas, sobre um passeio qualquer (um tanto carioca), organizado em uma sequência, com um corpo. Que desperta uma ilusão de ótica, um devaneio do olhar.

Que referências e influências atuam no seu trabalho?

LML: Muitas referências influenciaram e influenciam meu trabalho, o tempo todo. Muitos fotógrafos, artistas e gráficos. Cinema e literatura. Tudo pode ser alimento. Mas tem um livro que me deixou maluca quando eu vi: A Book of Books, Abelardo Morell. São fotografias em preto e branco, muito bonitas, de livros, lombadas, detalhes da página, do corte do papel, da textura, do volume, e da forma. Aquilo me chamou atenção para a escultura que um livro, ou vários livros juntos, podem ser.

Detalhe da obra "Matriz"

Detalhe da obra “Matriz”

Como surgiu a ideia de Matriz, em que as mesmas fotos (uma para as páginas pares, outra para as ímpares) são repetidas do início ao fim, esvaecendo-se aos poucos?

LML: Matriz é um livro que vai revelando duas imagens, uma sempre na página da direita, outra sempre na da esquerda, que são meus avós fotografando. Nas primeiras páginas não se vê nada, mas aos poucos, com o folhear, as duas imagens vão surgindo, como a imagem latente em um papel fotográfico vai surgindo na bacia do revelador. Ele é um livro sobre isso. Sobre revelação, fotografia, matriz, imagem, memória e herança.

Vendo o panorama de suas realizações, há instalações mais conceituais e de efeito efêmero, como Memória Fotográfica, em que o livro é uma câmara escura capaz de captar as imagens efêmeras dos transeuntes, e objetos em que uma imagem se repete igual, página após página, e se torna tão sólida no livro que faz peso, faz volume, como em Maré e Tronco. Ambos os casos, livro e fotografia são temas em pauta. Além disso, o que essas fases aparentemente tão distintas têm em comum, como base conceitual?

LML: Elas têm em comum uma linguagem circular entre a forma, o assunto e o objeto. Uma troca de ideias, sentidos e materiais, que falam de si próprios. Uma metalinguagem.

Por que alguns de seus livros-objeto ou instalações não têm exatamente “capa”, no sentido mais habitual em um livro?

LML: Alguns dos meus livros não têm capa porque a capa não faz falta neles, porque quero que a costura apareça, ou porque a capa poderia atrapalhar o movimento das páginas.

Qual sua livraria favorita (de qualquer lugar do mundo) e por quê?

LML: Adoro livraria. Grande, pequena, de um assunto, de vários. Gosto da Livraria Cultura, da Livraria da Vila, da livraria da EDUSP, da Martins Fontes, de uma pequena que tem perto da minha casa, da banca do Tijuana, da Banca Tatuí, de todas essas feiras alternativas de livros, como a própria Tijuana, feira plana etc… Estive em Nova York na livraria da Printed Matter. Passei mais de três horas lá, tem muita coisa boa de publicações de artistas, livros experimentais, livros conceituais, livros objetos, livros sobre livros, flip books, revistas e etc. Muito legal!

Frequenta alguma biblioteca pública ou de acesso público, atualmente? Qual e o que indica nela para outros artistas ou amantes das artes do livro?

LML:  Em Belo Horizonte tem a coleção de livros de Artista da UFMG. Organizada pelo Amir Brito Cadôr, ocupa duas salas do prédio da biblioteca central do campus, tem muita coisa bacana e está bem organizada. Também gosto da biblioteca da ECA/ USP, tem muitos livros sobre arte, livros sobre livros, livros obra, livros de artista, dissertações. Assim como a biblioteca do MAC/USP, no Ibirapuera. Também gosto de navegar na internet, tem muita coisa boa. O www.bacanasbooks.blogspot.com.br do Fabio Morais, por exemplo, ou a própria pesquisa no google usando palavras chaves.

Na internet, como fotos de perfil ou retratos de divulgação, você divulga uma foto interessante, feita pela sua filha, de você equilibrando um livro na cabeça…  Como surgiu esta imagem, tão cheia de simbolismo? Foi pensada ou obra do acaso?

LML: Aquela foto (que abre esta entrevista) foi feita para algum evento que participei sobre livros de fotografia, e precisava de uma foto. Pedi pra Flora, minha filha, me fotografar com o Lines of May Hand, do Robert Frank, na minha cabeça, que é um livro que eu adoro. Não é uma coletânea de fotografias, é um livro com pensamento de livro. Na estrutura, na narrativa, na sequência, no ritmo.

Como mãe, gosta de ler para sua filha? (Qual a idade dela e que tipo de livro estão lendo agora?)

LML: Sempre gostei de ler para minha filha, mas agora ela tem quase 15 anos, já tem suas próprias leituras. No ano passado ela leu para a escola O Apanhador no Campo de Centeio. Me deu vontade de ler de novo, li e adorei. Quando ela era pequena alguns dos bestsellers eram: O Sapo Bocarrão, Chapeuzinho Amarelo, Carlota quer Ser Princesa, Um Garoto Chamado Rorbeto, De Passagem do Marcelo Cipis, que não tem texto, mas era ótimo pra gente inventar histórias, entre outros. É verdade que ainda hoje leio um pouquinho pra ela, algum conto, ou outra coisa qualquer.

E você, pessoalmente, gosta de ler o que, quando apenas deseja curtir o hábito de leitura?

LML: Gosto de ler. Acho que a leitura é além de uma fonte de prazer, uma espécie de meditação. Acabei de ler Zazie no Metrô do Raymond Queneau, antes estava lendo Murakami, e agora vou ler A Casa dos Seis Tostões, aproveitando a dica que veio com essa entrevista.

Conheça mais sobre a obra de Lucia Mindlin Loeb:

https://vimeo.com/138408266

https://vimeo.com/138407629

https://vimeo.com/135132379

https://vimeo.com/111785486

https://vimeo.com/103371437

https://www.youtube.com/playlist?list=FL-1152QN7mEhfp1B2wfONPA

*Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC.

10 livros para viajar sem sair de casa

Férias é sinônimo de descanso, diversão e viagem, certo? Só quem nem sempre dá para viajar durante esse período e as razões são diversas: as férias da faculdade não casam com as do trabalho; você gosta de praia mas estamos no inverno; a grana está curta e não dá pra viajar… Por isso mesmo a gente, aqui na Ateliê, decidiu dar uma forcinha para você viajar sem sair de casa.

Criamos uma lista de livros, com descontos especiais, que com certeza vão fazer a alegria de quem está com tempo livre, mas não vai viajar.

E, vamos ser sinceros, se você foi viajar nas férias, com certeza colocou na mala alguns bons livros, porque viajar sem sair do lugar é bom até quando a gente está de férias. Se esse é o seu caso, dê uma olhadinha na lista e se inspire a ler outros títulos que não levou, porque o site entrega em todo o Brasil!

 

capa afinador de passarinhoO Afinador de Passarinhos, Gil Perini

A obra é uma reunião de crônicas que o autor publicou no diário O Popular, de Goiânia, onde ele mora. Crônicas são uma ótima ideia para ler nas férias, pois são curtas, fáceis e podem ser lidas em qualquer ordem, dependendo do humor do leitor. Nos textos desta coletânea, Perini exercita seus dotes de observador, que recolhe o fato singelo e comezinho e a partir dele faz uma reflexão amena, mas nem por isso menos contundente.

 

 

 

Um Amor Literário, Letícia Malard Sem título-1

Muitas vezes, o tempo livre pode ser uma chance de ler textos de mais fôlego, como romances. Este é um livro de autoajuda às avessas, em que a autora  constrói uma narrativa sobre o que fazer diante das paixões fadadas ao fracasso. A protagonista, a viúva Lutécia, é uma literata na casa dos cinquenta. Ela tenta a todo custo ser correspondida por um amor dos tempos de criança que ressurge após a morte do marido.

 

 

 

angu de sangue bxAngu de Sangue, Marcelino Freire

O primeiro livro de contos do escritor pernambucano já pode ser considerado um clássico recente da literatura brasileira, um retrato realista e inusitado do submundo das grandes cidades. Aqui, os protagonistas são violentados pelas dores e frustrações de uma sociedade injusta, que os estigmatiza. O autor aborda a realidade dos conflitos urbanos sem demagogias, escapando de uma armadilha comum da ficção social: a sentimentalização da miséria.

 

 

Beira-Mar, Pedro Navabeiramar.indd

Mesmo que você não esteja passando férias na praia, esta é uma boa pedida. Beira-Mar apresenta dois momentos cruciais na vida de Pedro Nava. O primeiro é sua passagem pela Faculdade de Medicina. O segundo é o encontro com Miltom Campos, Abgar Renaut e João Aphonsus, responsáveis pela publicação modernista de A Revista. Marcado pela originalidade, este livro é um poema em prosa e verso sobre Belo Horizonte, onde o memorialista viveu a juventude.

 

 

Casa dos seis tostoesA Casa dos Seis Tostões, Paul Collins

Este é um livro sobre livros, uma obra perfeita para quem é apaixonado por este objeto que é capaz de carregar universos infinitos. Neste volume, Paul Collins conta a experiência de ter se mudado com a família para o interior do País de Gales – mais precisamente, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, um “verdadeiro paraíso” para os bibliófilos, com mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias.

 

 

 

Contos do Divã, Sylvia LoebConvite.qxd

O que há de literatura numa sessão de psicanálise? Entre quatro paredes, dois sujeitos enfrentam palavras e silêncios, revelações e resistências, tramas de desejo, sofrimento e angústia. São histórias assim que a psicanalista Sylvia Loeb relata neste livro. No sentido inverso dos textos técnicos, a autora optou pela ficção como forma de capturar o assombro e os impasses que pontuam esse encontro. A partir da relação entre analista e analisando, ela faz uma literatura das paixões humanas.

 

 

capa deuses chutam lata consolaçãoOs Deuses Chutam Lata na Consolação, Gílson Rampazzo

Um bom livro policial é diversão garantida. E o que mais se poderia querer durante as férias? Boas risadas. Neste livro, o autor consegue juntar esses dois ingredientes, em uma  narrativa ágil. Aqui estão presentes os ingredientes essenciais do romance policial, que têm como pano de fundo o humor, por meio do qual o autor faz uma paródia do gênero. A trama é conduzida pelo divertido detetive Ed Silver (Ednaldo Silveira, de nascença), que passo a passo vai descortinando grandes mistérios. Em seu romance de estreia, Gilson Rampazzo cria um suspense que faz rir.

 

 

Dissipatio HG – O Fim do Gênero Humano, Guido Morsellidissipatio

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, que foi sucesso nos cinemas, e este  Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano, a última obra que Morselli escreveu antes de cometer o suicídio. O livro, perturbador, parte da premissa de que, de um dia para o outro, toda a humanidade desaparece sem deixar vestígio, e o protagonista desta narrativa se encontra sozinho no mundo. A condição humana é explorada pelo autor italiano numa elaboração kafkiana.

 

 

Sem título-2O Filho do Crucificado, Nelson Oliveira

Vencedor do Prêmio APCA de Melhor Livro de Contos, este volume traz também a novela que dá nome à obra.  Em todas essas narrativas, o jornalista e escritor Nelson de Oliveira trata de um tema que assombra a humanidade desde sempre: o fim do mundo. De um intercurso sexual com Deus a um bizarro suicídio coletivo, as situações envolvem o leitor da primeira à última linha.

 

 

O Fluxo Silencioso das Máquinas, Bruno ZeniCAPA ok

O livro de estreia do autor traz textos que captam instantes de uma cidade fraturada: a São Paulo do começo do século 21. Os contos oscilam entre a narrativa e a descrição da paisagem, o jornalístico e o confessional, a colagem e a poesia. Leituras conjuntas do autor e dos artistas convidados levaram a uma unidade orgânica entre os textos e as imagens, especialmente elaboradas para a edição.

 

Ateliê Editorial inscreve sete obras para o Prêmio Jabuti 2016

A Ateliê Editorial inscreveu sete títulos publicados pela editora no ano passado para concorrer ao Prêmio Jabuti 2016, um dos mais importantes do país. Esta é a 58ª edição do prêmio, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, que em 2016 vai premiar obras em 27 categorias diferentes. Confira a seguir a lista dos inscritos da Ateliê:

Antologia da Poesia Erótica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira – categoria poesia

Esta Antologia da Poesia Erótica Brasileira, fruto de rigorosa pesquisa, apresenta ao leitor as principais figuras de pensamento e formas de criação que compõem nossa lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje. Figuram nela poetas de épocas, estéticas e contextos bastante diversos – de Gregório de Matos a Hilda Hilst, de Gonçalves Dias a Carlos Drummond de Andrade, de Álvares de Azevedo a Ana Cristina César, de Olavo Bilac a Ferreira Gullar, entre muitos outros –, cujos versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

bibliomania_caixa_Page_1

Bibliomania – categoria projeto gráfico

“Escrever sobre livros é tarefa sem fim”, diz Marisa MidoriDeacto na abertura de Bibliomania. No entanto, o material que ela e o autor Lincoln Secco produziram sobre o tema nos dois anos que escrevem para a Revista Brasileiros permitiu a criação de uma bela edição, com capa dura e projeto gráfico de Gustavo Piqueira. Os textos, de curto formato, falam sobre todo tipo de assunto, sendo o livro sempre o protagonista: das mudanças no mercado editorial, até sonhos, fé e razão.

 

desconhecerDesconhecer – categoria poesia

Desconhecer contém 40 poemas, escritos ao longo de três anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Ilustrações Lygia Eluf

 

Girassol Voltado para a Terra– categoria poesiagrassol

A obra traz ao público minicontos, microcontos e poemas que exploram a linguagem em sua potência alusiva. A intenção inicial de Renato Tardivo era a de que seu terceiro livro de ficção fosse um romance. No entanto, ele explica, frases curtas, enredos concisos, mistérios cotidianos e existenciais foram surgindo. Depois de entrar nas redes sociais, diz, passou a se interessar pelo exercício da comunicação imediata e concisa.“Há um ou outro poema também, mas, em que se pese a transgressão de gênero, considero que se trata de um livro escrito em prosa”, define.

 

portaretratoPorta-Retratos– categoria poesia

Porta-retratos reúne poemas escritos de 2011 a 2014. A obra é prefaciada pelo poeta Ricardo Aleixo e tem a contracapa assinada pelo também poeta e compositor Arnaldo Antunes, o que chancela essa estreia.O título vem do poema que abre o livro, “Escolha”, e que fala, no fim, sobre aseleção das fotos do porta-retratos como um ato solitário. Apaixonada por fotografia, Marise Hansen explica que muitos poemas surgem de imagens, momentos, flagrantes.

 

Viagem a um Deserto Interior– categoria poesiaImagem2

Resultado de um processo de produção que levou dois anos para ser concluído, o livro surgiu de um desejo da autora, Leila Guenther, até então com vasta experiência com a prosa, mais especificamente com os contos, de experimentar outro gênero.Reunindo poemas e haicais, Viagem a um Deserto Interior está dividido em cinco partes: Paisagens de Dentro, O Deserto Alheio, Castelo de Areia, Um Jardim de Pedra e A Possibilidade do Oásis.

 

 

voz que cantaA Voz que Canta na Voz que Fala- Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil – categoria teoria/crítica literária

Nesta obra da Ateliê Editorial em coedição com a Editora Universitária Tiradentes, o autor Pedro Henrique Varoni de Carvalho trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

Inscrições para Prêmio CNNP 2016 já estão abertas

livro com flor

O Concurso Nacional Novos Poetas (Prêmio CNNP 2016) recebe inscrições até 5 de setembro. O Prêmio é realizado pela Vivara Editora Nacional com apoio cultural da Revista Universidade. Podem participar brasileiros natos ou naturalizados, com mais de 16 anos. Cada candidato pode concorrer com até dois poemas de autoria própria e o tema é livre. A única exigência é que o texto seja escrito em português. Os vencedores participarão de uma antologia poética. Mais informações no site: www.cnnp.com.br

Para entender Proust

Por: Renata de Albuquerque

Capa2

Psicanálise e Literatura têm, desde longa data, uma relação muito próxima ao ponto que o psicanalista suíço François Ansermet disse que a literatura inventou a psicanálise. Édipo de Sófocles e Hamlet de Shakespeare fundamentaram a teoria psicanalítica desde o início. A crítica literária feita com o auxílio dos conceitos vindos da psicanálise resulta, não raro, em descobertas que ajudam o leitor a entender camadas mais profundas da ficção e a compreender significados, muitas vezes “escondidos”.

Em “Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust”, o professor aposentado da USP de formação psicanalítica, Philippe Willemart, toma como base conceitos de Jacques Lacan e Pascal Quignard, “que insistem no lugar central da pulsão invocante nestas tentativas de captar o Real no ato da escritura e da leitura” para tratar do personagem Bergotte e pensar sobre um aspecto bastante específico da obra do autor francês na primeira parte de À Sombra das Raparigas em Flor, “Em torno da sra. Swann”.

 “A riqueza da invenção proustiana consiste em contar com a dimensão temporal a sua maneira, isto é, esquecendo o fluxo cronológico do tempo. Parecido nisso com o que realiza o analisante no divã, o narrador mostra uma lógica dos acontecimentos que não depende das reminiscências no sentido platônico do termo, mas de uma memória simbólica ou lógica que, a partir de uma primeira lembrança, tenta se constituir”, explica Willemart na Introdução do estudo.  O ensaio tem como origem as aulas ministradas aos estudantes do último ano da graduação em francês na Universidade de São Paulo.

Philippe Willemart, que já publicou diversas obras, é membro fundador do Laboratório do Manuscrito Literário ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo e foi um  dos fundadores da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética. Sua pesquisa tem como foco o manuscrito literário através dos manuscritos de Flaubert, de Proust e Bauchau. Ainda orienta doutorandos e pós-doutorandos, além de coordenar a equipe Proust de São Paulo e de fazer parte da equipe Proust do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do CNRS (França). A seguir, ele fala sobre seu mais recente livro:

 

Quando começou a estudar Proust? O que o fez se interessar por ele?

Philippe Willemart: A obra de Proust consta do currículo de Letras Francesas da USP onde comecei a lecionar em 1976. Publiquei o primeiro livro Proust, poeta e psicanalista em Paris em 1996 e, no Brasil, pela Ateliê Editorial em 2000. Mas já tinha um interesse especial por Proust quando, em 1993, publiquei o artigo Les sources de l’art et de la jouissance chez Proust na revista de Universidade de Paris VIII Littérature. Como testemunham o título deste artigo e meu primeiro livro sobre a obra proustiana, Proust me parecia bem próximo das descobertas freudianas, o que suscitou meu interesse.

Philippe Willemart

Philippe Willemart

Por que a escolha por À Sombra das Raparigas em Flor e qual o motivo de um recorte tão específico,  já que o senhor analisa somente a primeira parte do primeiro capítulo da obra?

PW: A primeira parte do livro é a transcrição das aulas dada na Universidade. Tinha publicado análises do primeiro e do último volume, No caminho de Swann e o Tempo Redescoberto em Proust, Poeta e psicanalista; em seguida, do terceiro volume, O caminho de Guermantes em Educação sentimental em Proust em 2002 e enfim, do quarto volume, a Prisioneira em Tratado das sensações em “A Prisioneira” de Marcel Proust em 2008. Faltavam o segundo, o quinto e o sexto volume. O segundo foi contemplado, mas o quinto e o sexto ainda são uma promessa.   O recorte decorre do número de aulas limitado a 12 ou 13 num semestre.

 

Quais os processos de criação que Proust utilizou em À Sombra das Raparigas em Flor? O que diferencia esse volume do restante de Em Busca do Tempo Perdido em termos de composição?

PW: Há vários processos de criação que o leitor descobrirá nas análises. Citá-los tiraria a surpresa da leitura.  Mas ficou claro que insisti na pulsão invocante explorada através do personagem Bergotte, diferenciando seu pensamento, sua voz e seu estilo que reflete a estética proustiana. Ressalto a segunda parte do livro que trata especificamente da crítica genética na qual tento entender melhor os movimentos da escritura através das rodas da escritura e da leitura. A teorização da escritura literária que estou construindo aos poucos permite mergulhar o manuscrito neste virtual imaginário e torna-lo mais inteligível com a nova abordagem.

 

Qual a contribuição dos cadernos manuscritos de Proust para a composição do volume que agora o sr. lança pela Ateliê?

PW: O estudo dos cadernos proustianos são fundamentais por vários motivos. Um deles é entender como não há um romance proustiano, mas vários não publicados porque abandonados, cada rasura corta uma evolução possível e encontra outro caminho para desenvolver a narrativa. Os rascunhos permitem distinguir o essencial da narrativa. É o caso, por exemplo, da substituição de Gabriel d´Annunzio por Anatole France, que sublinha a vontade do autor de destacar não a personagem histórica, mas a fama de qualquer homem ilustro que dá impressão do sublime ao herói. A adjetivação era importante e não o substantivo personagem. Os cadernos  confirmam ou desmentem uma interpretação do crítico, mostram as hesitações do escritor que conseguem ou não se desligar dos hábitos e da tradição literária para a construção de uma personagem, lhe atribuindo qualidades que passaram em seguida, para outra. Também ajudam a entender o agenciamento dos episódios que de instáveis, aos poucos ficam estáveis e invariantes na narrativa e a constatar o afastamento progressivo da biografia do escritor no decorrer da construção do romance.

proust

O escritor Marcel Proust

 

É comum o uso dos manuscritos como “material de apoio” à análise da obra proustiana?

PW: O uso dos manuscritos  ainda não está generalizado, mas à medida em que os cadernos serão editados pela Editora Brepols de Turnhout (Bélgica), isto é, fotografados e transcritos, será até normal utilizá-los. Dos 75 cadernos, a Editora publicou até hoje os cadernos 26, 54, 71, 53 e 44. Mas todos são acessíveis em imagens embora não transcritos no site da Biblioteca Nacional de França no site : gallica.bnf.fr

 

Há um importante viés psicanalítico (com ênfase, salvo engano, em Lacan) na análise da obra de Proust apresentada neste livro. Quais são os aspectos psicanalíticos mais relevantes para o entendimento de À Sombra das Raparigas em Flor?

PW: Construí a roda da escritura apoiado nas pulsões descritas por Lacan, notadamente as  pulsões oral e escópica que se referem à pulsão do ouvir ou invocante. O estudo do escritor Bergotte e do pintor Elsir comprovam a relação da pulsão com a arte de escrever ou de pintar.

 

Para este ensaio, o senhor utilizou apenas o original em francês ou também alguma tradução em português? Esta pergunta se justifica pois existe mais de uma tradução em português para À Sombra das Raparigas em Flor, uma delas, inclusive, feita por Mario Quintana. Sabendo-se do viés psicanalítico que sua análise da obra possui, qual a importância de tomar uma ou outra tradução específica para poder compreender os conceitos? Ou, ainda: é fundamental tomar o texto original, em francês? Quais as implicações da escolha por uma ou outra tradução?

PW: As aulas eram dadas em francês para alunos de francês; portanto, líamos apenas a edição original. Para a edição na Ateliê, usei a nova edição da Globo dirigida por um proustiano experiente, Guilherme Ignácio da Silva, ex-orientando, agora professor na UNIFESP, que, aliás assinou a apresentação do livro.

Por outro lado, acho fundamental trabalhar com o original sempre que puder, já que as traduções, por melhores que sejam, traduzem o embate entre dois universos culturais. A sonoridade da língua proustiana encanta quem sabe ouvir, o que a tradução dificilmente torna visível.

 

8 Livros para ler no inverno

Atêlie selecionou uma lista com 8 livros para ler no inverno

Inverno é a estação mais aconchegante do ano. Perfeito para a leitura de um bom livro. Por isso a Ateliê Editorial separou uma seleção de 8 livros para ler no inverno.São livros que vão prender tanto a sua atenção que você vai até esquecer qual a estação do ano.

E para aquecer ainda mais seu inverno! Os livros da lista estão com um super desconto!

Casa dos seis tostoesCasa dos 6 Tostões

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós. Confira a Casa dos Seis Tostões

 

Eromar Bomfim

Coisas do Diabo Contra

A narrativa épica e romanesca consagrou a eliminação do homem pelo homem como padrão de heroísmo e universalizou o herói guerreiro na literatura e no cinema. A ficção de Eromar Bomfim rasga essa máscara de heroísmo, que tradicionalmente embelezou e enobreceu o assassinato, e liga uma luz no labirinto turvo, e nada honroso, da violência que motiva os personagens de Coisas do Diabo Contra. [Thelma Guedes]

Saiba mais sobre o livro Coisas do Diabo Contra

dissipatioDissipatio HG

De um dia para o outro, toda a humanidade desaparece sem deixar vestígio, e o protagonista desta narrativa se encontra sozinho no mundo. Esta é a mais perturbadora obra de Guido Morselli, a última que escreveu antes de cometer o suicídio. A condição humana é explorada pelo autor italiano numa elaboração kafkiana: para muito além do plano metafórico, ele trabalha com o vazio e a morte do sujeito. Nós conhecemos o mundo aqui descrito – e o pior: é neste cenário que nos sentimos mais confortáveis.

Confira Dissipatio HG

meu_faustoMeu Fausto

A correspondência do poeta francês e muitas páginas dos Cahiers também vieram revelar os “arredores” da elaboração de “Meu Fausto”: Valéry, então um homem de sessenta e dois anos, se apaixona pela jovem Jeanne Loviton, que irá abandoná-lo para se casar com o editor Robert Denöel, ao final, assassinado em 1944, por ter colaborado com os nazistas. O poeta jamais vai se recuperar do duro golpe, e morre no verão de 1945, permanecendo “Meu Fausto”, que se esperava seria a grande realização de Paul Valéry, na condição de “esboços”, obra aberta à espera de continuidade nas recriações futuras do mito do Fausto. Confira

Poema dos LunaticosPoema dos Lunáticos

A obra mais famosa do escritor italiano Ermanno Cavazzoni é, ao contrário do que sugere o título, um romance. O protagonista vive situações absurdas, permeadas por um humor nonsense. Influenciado por Kafka e Beckett, o autor oferece um novo ponto de vista sobre a realidade aparentemente lógica e racional que nos rodeia. O Poema dos Lunáticos aproximou Cavazzoni de Federico Fellini. O filme A Voz da Lua (1990), último longa do cineasta, foi inspirado no clima de lirismo e fantasia deste livro.

Confira o livro Poema dos Lunáticos

 

til-romanceTil

Além do texto fidedigno de Til, o presente volume contém o primeiro ensaio sistemático sobre o romance de José de Alencar. Nele, Ivan Teixeira desenvolve a hipótese de que, por trás de aparente ingenuidade romântica, a narrativa esconde uma densa investigação poética da existência. A obra conta ainda com notas de esclarecimento ao texto de Til, em que se discutem aspectos de construção narrativa e de sentido literário, e um extenso glossário de termos considerados estranhos ao leitor atual. As ilustrações são de Sergio Kon. Confira o Romance Brasileiro Til

Velho ChicoVelho Chico

Este é o relato de uma viagem realizada em 1975 pelo rio São Francisco. A autora, então colaboradora em programas culturais do governo federal, preparava uma exposição sobre carrancas e a vida ribeirinha. O que ela encontrou no caminho foram tocantes histórias de vida, transcritas num diário cheio de poesia. Em paralelo a essa narrativa com personagens de um universo estranho, há uma viagem interior também surpreendente. Nesse encontro de mundos, o rio torna-se metáfora de algo maior.

Confira Velho Chico ou a vida é amável

viagens-minha-terraViagens na Minha Terra

Viagens na Minha Terra trata-se de um tipo de narrativa multifacetada, conhecida como livro de viagem. Almeida Garrett, ao adotar matéria contemporânea como núcleo da narrativa em Viagens na Minha Terra, conferiu agilidade e senso de experimentação ao romance português. Um dos livros mais importantes do século XIX no país, os efeitos culturais desse romance só encontrariam paralelo nas obras de Eça de Queirós, surgidas cerca de trinta anos depois.

Confira Viagens na Minha Terra

 

Que tal passar os dias de frio na companhia de um bom livro?

Ah! Não precisa estar sozinho para aproveitar uma boa leitura. Ler a dois, debaixo de uma boa coberta, também é aconchegante.

Boa leitura!

Se gostou da lista? Deixei seu comentário abaixo ou sugira outros livros da Ateliê Editorial que você prefere.

Ateliê lança Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor

Novo livro de Philippe Willemart aprofunda o estudo do segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

A Ateliê EditorCapa2ial está lançando Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust. O livro foi escrito por Philippe Willemart, prof. titular em literatura francesa pela USP, de formação psicanalítica. Na obra, ele analisa a primeira parte do primeiro capítulo de À Sombra das Raparigas em Flor, segundo dos sete volumes do clássico Em Busca do Tempo Perdido, obra-prima de Marcel Proust, escrita entre 1908 e 1922.

“Numa primeira parte, leremos treze análises que percorrem o livro até as numerosas páginas sobre o escritor Bergotte, onde parei”, afirma Willemart na introdução da obra. “Numa segunda parte, aperfeiçoei o que tinha elaborado sobre as rodas da escritura e da leitura nas obras anteriores, com a ajuda das descobertas proustianas e outras”, completa.

Ao longo do processo de criação de Em Busca do Tempo Perdido, Proust escreveu 75 cadernos de rascunho, conhecidos como os cadernos manuscritos. Willemart fez uso deles ao empregar em seu estudo um número considerável de passagens desse material, registrando assim etapas muito diferentes da criação do livro. Segundo o pesquisador, os rascunhos permitem distinguir o essencial da narrativa.

“Como ‘o analista que conclui as palavras do analisando’, faz parte da proposta dos livros de Philippe Willemart sobre Proust conseguir verbalizar o que ficou apenas sugerido pelo escritor”, reflete Guilherme Ignácio da Silva no prefácio do lançamento.

O ensaio teve origem na preparação de uma disciplina para estudantes do último ano da graduação em francês na Universidade de São Paulo, o que faz a obra apresentar um caráter didático sobre Proust.

Serviço

Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust

Formato:  12,5 x 20,5 cm

Número de páginas: 224

ISBN: 978-85-7480-732-4

Preço: R$ 38,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

 

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500