Monthly Archives: junho 2016

Revista LIVRO é “compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro”

Por: Renata de Albuquerque

A LIVRO – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição – acaba de chegar ao número cinco, ultrapassando a “barreira do quarto número”. O objetivo da publicação – pensar o livro como um objeto que carrega significados e conteúdos para além dele mesmo – cumpre-se, desta vez, com a participação de mais de duas dezenas de colaboradores renomados em diversos setores, do acadêmico ao editorial. Entre eles estão Jean-Pierre Chauvin, Mônica Gama, Iuri Pereira e Marisa Midori Deaecto, editora da publicação e com quem o Blog da Ateliê conversou a respeito:

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Qual o tema central desta edição da Livro?

Marisa Midori Deaecto: Na verdade, o tema central é o livro. É o objeto de estudo privilegiado pelos editores e pelos autores para a construção da revista. O propósito da publicação é justamente o de valorizar o caráter múltiplo do livro, o que provoca, por extensão, múltiplas frentes de investigação. O que a revista traz como diferencial para cada número é o que chamamos de dossiê temático, ou seja, em todos os números convidamos autores para contribuir em algum campo em comum e reunimos estes estudos sob a forma de um dossiê. O número 5 traz artigos reunidos no Dossiê Tipografias. Com isso, nossa intenção é a de valorizar estudos sobre a arte do livro, tendo como chave a própria palavra tipografia, que se tornou, ela também, polissêmica.

Com base em que parâmetros foram escolhidos os colaboradores desta edição?

MMD: Os colaboradores se auto convidam ou são convidados. Como a revista tem uma tradição, pois manteve sua permanência e se fixou como a principal revista especializada em estudos do livro no Brasil, então é natural que sejamos procurados. Há outro aspecto: ela não se fecha para a produção acadêmica. Entendemos que o livro é objeto de admiração e de estudos por toda parte, não apenas por aqueles que atuam nas universidades. Vem daí o amplo interesse que a revista desperta.

 

PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5Ao iniciar o trabalho, como foi o convite feito aos colaboradores? Havia alguma preocupação com um fio condutor ou os temas abordados eram livres?

MMD: Não, uma revista se diferencia de um livro pelo fato de ser uma obra aberta. Quando começamos, não sabemos no que vai dar. A boa surpresa é que o trabalho resulta sempre em volumes alentados e muito interessantes. E volumes bem diferentes uns dos outros. Aliás, quem coleciona nossos números não encontra artigos com temas repetidos. Se considerarmos que a revista soma aproximadamente 1500 páginas, isto é um grande feito!

 

 

O editorial fala da importância da revista ter chegado à quinta edição e do apoio que receberam de vários pesquisadores. Quais são os desafios de manter uma publicação como essa e por que ela se tornou referência para se pensar sobre o papel da comunicação?

MMD: Há uma lenda que diz que as revistas independentes não sobrevivem ao quarto número. Se nos basearmos nessa premissa, o número 5 é um feito histórico. Recebemos o apoio irrestrito dos autores que confiam em nosso trabalho e na qualidade editorial da revista. Este ponto é muito importante, pois há estudiosos brasileiros que se preocupam com a pontuação que um determinado artigo poderá lhe render no ranking acadêmico. Esta preocupação não existe entre nós. Editores e autores firmam seu compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro. Mas revista é um artigo de venda difícil. Mais difícil do que vender livro. Primeiro porque, na cultura acadêmica, as revistas são feitas para seus pares, muitas são financiadas por programas de pós-graduação, portanto, não são vendidas, são distribuídas. Segundo, porque fora do mundo acadêmico não existe a cultura de venda e aquisição de revistas extremamente especializadas como a nossa. Terceiro, somando um e outro aspecto, porque os canais de distribuição são raros, raríssimos. No nosso caso, eles dependem da editora e dos parceiros, ou seja, da ajuda de autores, artistas e dos conselhos editorial e científico. Mas a LIVRO segue como referência nos estudos da área e, de forma mais abrangente, nos estudos sobre a comunicação, entendendo, aqui, o livro e o impresso – pois há matérias sobre a imprensa jornalística, sobre revistas etc. – como um componente poderoso da comunicação. O livro é uma media, logo, revelar seus múltiplos aspectos constitui um exercício fundamental de análise e reflexão sobre a comunicação no sentido histórico, sociológico e econômico.
O próprio editorial da edição trata do fato de que o Brasil tem mudado muito rapidamente nos últimos tempos. Quais são as mudanças que poderiam ser destacadas e de que maneira elas são abordadas nessa edição?

MMD: O editorial trata de uma crise sistêmica que começa na política, ou termina na política, mas que tem suas raízes em uma crise que, na falta de termo mais seguro, poderíamos chamar de uma crise estrutural do país.

 

A intolerância é a expressão mais trágica e eloquente deste cataclismo social que estamos vivendo.

Porém, aparentemente, nada muda nas análises sobre o livro. Elas continuam e o interesse de autores e leitores sobre a revista só aumenta. Já temos matérias para o número 6. O que mudou, talvez, foi o estado de espírito de seus editores. Mas isto certamente não tem uma influência direta na edição.

 

Como uma publicação anual pretende dar conta dessas rápidas mudanças? Como essas mudanças refletiram nesta edição da Livro? 

MMD: A revista não tem a pretensão de abraçar as mudanças em tempos reais. Ela é editada por um editor de profissão e por uma historiadora convertida em editora. Logo, há poucas chances de querermos abraçar o presente. Mais vale pensar na perenidade das palavras impressas e no potencial do livro para a preservação da memória dos homens.

 

Qual a importância do livro (e do saber) para que possamos sair deste momento de crise social, política e econômica? 

MMD: Já escrevi noutra ocasião que o livro é um instrumento de fuga e de transformação. São dois caminhos opostos e contraditórios e cabe ao leitor fazer as suas escolhas. Mas tudo está no livro, desde que bem escolhido e bem lido! O livro é um instrumento para se compreender o mundo sem pressa. No jornal estão as informações do dia a dia. No livro estão os instrumentos para se pensar além. Às vezes é preciso sublimar a realidade dura descrita nos jornais para uma compreensão mais profunda dos fatos e para a sua superação. Às vezes, no entanto, é preciso apenas sublimar a realidade que nos cerca, pois isto faz bem à alma. Também nesse caso a leitura se apresenta como uma forma de panaceia do mundo. É por isso que nossa revista investe também em uma seção literária muito incomum na cultura periódica brasileira de nossos dias. Publicamos prosa e poesia em português ou em traduções inéditas, tudo sob a curadoria e edição do Prof. José De Paula Ramos Jr., um grande especialista de Mario de Andrade, professor da USP dedicado ao ensino da ecdótica.

Ateliê Editorial lança 5ª edição da Revista Livro

Para Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho, editores da revista, publicação guarda um projeto maior: preservar a memória do livro como guardião da humanidade

 PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5

 

Uma revista para quem ama os livros e, ainda mais, ama ler sobre eles. A Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) une textos de vários professores e pesquisadores que, em várias seções, apresentam o livro como objeto de estudo. Acervo e Arquivo, por exemplo, trazem ao conhecimento o que antes estava guardado. Na primeira João Carlos de Oliveira e Álvaro Costa de Matos mostram ao público brasileiro alguns aspectos da composição da Hemeroteca de Lisboa. Na segunda, Felipe P. Rissatto e Leopoldo Bernucci apresentam novidades fresquinhas sobre Machado de Assis e Euclides da Cunha, mostrando que é possível (re)descobri-los.

 

Já Almanaque exibe peças curiosas do que há de melhor na seara brasileira. O leitor verá uma série de pequenas publicações destinadas a resgatar os vínculos de Mário de Andrade com os livros e uma faceta pouco conhecida do “poetinha” Vinícius de Moraes: sua atuação como editor.

 

A seção Letra & Arte dedica-se à tradução de poesias, em trabalhos inéditos, de autores gregos, latinos e modernos. Vale a pena destacar a colaboração de Augusto de Campos, no bloco dos Latinos. José de Paula Ramos Jr. explica que Augusto de Campos resgata do esquecimento os poetas Sousândrade e Pedro Kilkerry, e contribuiu de modo decisivo para a revalorização da obra de Oswald de Andrade e para o reconhecimento de Pagu (Patrícia Galvão), tanto como escritora quanto como militante política e cultural. Além disso, Augusto de Campos oferece dez poemas latinos de autores célebres, recriados por ele em língua portuguesa.

 

Já em Conversas de Livraria, o historiador Carlos Guilherme Mota relembra a influência que sua família e seus mestres tiveram em seu gosto pela leitura, mostra preocupação com os professores da atualidade, que, exaustos, leem pouco, e fala, entre outras coisas, dos desafios encontrados em 2014 quando passou a dirigir a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em São Paulo.“Os livros, sobretudo certos livros, foram ao longo do tempo meus companheiros fundamentais e queridos”, diz.

 

A cada edição a Revista Livro apresenta ainda um Dossiê Temático em que os autores são convidados a escrever sobre algum campo em comum. Neste número, há o Dossiê Tipografias, que tem a participação de nomes como Gustavo Piqueira. Mas não para por aí. Esta edição traz ainda as seções Bibliomania, com resenhas de livros que falam sobre livros, e Leituras, que apresenta artigos como “As Marcas de um Autor Revisor – Graciliano Ramos à Roda dos Jornais e das Edições de seus Próprios Livros”, de Thiago Mio Salla, destacando o duplo papel do escritor alagoano. Já em “Paratextos: Expectativas de Leitura e Campo Editorial — A Editora Jose Olympio e o Caso Guimarães Rosa”,Mônica Gama destaca a “maneira severa e minuciosa de trabalhar” do autor mineiro.

 

 

Lançamento da Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) nº 5

 

Dia 29 de junho (quarta-feira)

Horário: das 18 às 21:30

Local: Livraria da Vila – Fradique Coutinho

Rua Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, São Paulo

Tel.: (11) 3814-5811

 

 

 

Serviço

Formato: 18 x 27 cm

Número de páginas: 392

ISBN: 9772179801009

Preço: R$ 70,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

 

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

 

 

 

 

Produção Gráfica para Designers, de Mark Gatter, chega ao Brasil em tradução inédita

Production for Print, obra considerada referência mundial quando o assunto é produção e design, chega ao mercado editorial brasileiro

Por: Renata de Albuquerque

capa produção gráfica

Para que qualquer trabalho seja impresso em papel, há um longo caminho, que envolve diversos profissionais, a ser percorrido. Para evitar erros, não basta ter atenção e conhecer profundamente os detalhes da sua própria atividade. Muitas vezes, é preciso conhecer também o trabalho de outras etapas do processo. É o caso do trabalho dos designers gráficos, que precisam entender detalhes do trabalho das gráficas, para entregar os arquivos de maneira que não haja necessidade de retrabalho ou margem para erros na impressão.

Foi a partir de sua experiência como designer gráfico, e para ajudar os demais designers a conhecerem detalhes de outras etapas do processo em que estão envolvidos, que Mark Gatter compilou o vasto conhecimento adquirido na indústria gráfica, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, no livro Production for Print. O livro, que se tornou uma referência mundial na área, acaba de ser traduzido para o português por Alexandre Cleaver e ganhou uma edição caprichada, com o título de Produção Gráfica para Designers. Para falar sobre a novidade, o Blog da Ateliê entrevistou o revisor técnico da obra, Thiago Cesar Teixeira Justo.

Ele é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de cinco anos, é professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

 

Qual a importância do lançamento deste livro em português?

Thiago Cesar Teixeira Justo: O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes a produção gráfica de um trabalho impresso em offset, deste modo o designer pode ter um maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico. Sabendo da grande diferença entre a língua inglesa e o português e da pequena parcela da população brasileira que não dominam o inglês, a importância de traduzir este livro é a de proporcionar o acesso a este conteúdo as pessoas que não dominam o inglês, inclusive entre os universitários, já que a obra pode ser adotada em faculdades.

prodgrafparadesigners

Ilustração da página 32 do livro

Quais são os erros mais comuns que os designers gráficos cometem e que comprometem significativamente a qualidade da impressão?

TCTJ: Falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

 

Qual o público-alvo de leitores desta obra? 

TCTJ: Designers gráficos, são o público principal, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalhem com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

 

Por que é importante para um designer gráfico já profissional conhecer as “reais necessidades do processo de impressão”, como aponta o autor no prefácio do livro?

TCTJ: Porque assim ele já pode fazer o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado. Isso acelera o processo à medida que não precisa da análise de um profissional de fora da área de criação, também contribui para menos retrabalho do designer, caso precise corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

De que maneira ele pode contribuir com o trabalho dos profissionais da área de design?

TCTJ: Como a maioria dos designers não possui conhecimento profundo em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset.

 

 

 

 

Produção Gráfica para Designers é especialmente útil para estudantes universitários

Thiago Cesar Teixeira Justo*

A Ateliê Editorial acaba de lançar Produção Gráfica para Designers, livro do qual fui revisor técnico. O livro é resultado da primeira tradução em português, feita por Alexandre Cleaver, do fundamental Production for Print, de Mark Gatter.

capa produção gráfica

Produção Gráfica para Designers é, ainda hoje, uma obra de referência para o mercado, porque, mesmo com o avanço das mídias digitais, a mídia impressa continua sendo um dos meios de comunicação mais eficazes. Daí vem a importância desta obra, que esclarece os principais pontos técnicos que precisam ser levados em consideração no momento de criar um arquivo para impressão.

Entre os erros mais comuns que a leitura da obra pode ajudar a evitar estão: falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes à produção gráfica de um trabalho impresso em offset. Deste modo, o profissional pode ter maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico.

Por ter essa característica, o livro é destinado especialmente a designers gráficos, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalham com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

Como a maioria dos designers não possui uma formação profunda em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset. Atualmente os processos de verificação prévia dos arquivos fazem com que a maioria dos erros seja encontrada antes de o trabalho ser produzido. De qualquer forma, mesmo nestes casos, é preciso corrigir o arquivo, o que demanda tempo, um item cada vez mais precioso nos dias atuais. Por isso, preparar o trabalho o mais próximo da necessidade real representa economia de tempo e recurso.

“Produção Gráfica para Designers” também tem uma utilidade especial para estudantes, pois nem todo universitário é fluente em inglês (língua em que o livro estava disponível até agora) e porque a obra explica todos os aspectos mais importantes do assunto, desde o básico.Ela pode ser adotada pela maioria das faculdades de comunicação (jornalismo, publicidade, editoração, design gráfico e artes visuais) e de arquitetura e urbanismo (design e comunicação visual).

É muito importante que designer gráfico conheça “as reais necessidades do processo de impressão”, como aponta Gatter no prefácio do livro. Conhecendo essas necessidades, o profissional já começa o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado.

Esse conhecimento acelera o processo à medida que, com ele, o designer gráfico prescinde da análise de um profissional de fora da área de criação caso seja necessário corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

 

* Sou mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de 5 anos sou professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

Produção Gráfica para Designers, de Mark Gatter, ganha edição inédita da Ateliê Editorial

Production for Print, obra considerada referência mundial quando o assunto é produção e design, é traduzida pela primeira vez no Brasil

 

capa produção gráfica

O que um designer gráfico precisa saber sobre os processos de impressão para poder realizar melhor seu trabalho, diminuindo as chances de erros? Foi para responder a essa pergunta que o designer gráfico Mark Gatter compilou seu vasto conhecimento na indústria gráfica, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, no livro Production for Print.

 

Considerado uma referência quando o assunto é produção e design, o livro acaba de ganhar uma tradução inédita em português, com o título de Produção Gráfica para Designers. O trabalho de tradução foi feito por Alexandre Cleaver, com revisão técnica de Thiago Cesar Teixeira Justo.

 

“Frequentemente encontro outros designers gráficos que possuem uma graduação em cursos de três anos ou outro tipo de preparação similar, ou que têm trabalhado na área há anos, mas que, mesmo assim, não conhecem as reais necessidades do processo de impressão. A consequência disso é que, toda vez que enviam um trabalho para impressão, são tomados por grande ansiedade, já que não sabem exatamente qual será o resultado”, afirma Gatter no prefácio da edição, ao explicar a motivação que teve para escrever o livro. Por isso, a obra aborda temas como tratamento de imagem, ajuste de trapping, uso de CMYK x RGB, produção de arquivos PDF isentos de erro para a gráfica, entre outros (veja box).

 

Focado na pré-impressão e na forma correta de preparar arquivos destinados à impressão nos principais softwares gráficos do mercado, Produção Gráfica para Designers traz instruções detalhadas, que permitem a qualquer profissional, de todos os níveis de experiência na área, mesmo aos iniciantes, fazer por conta própria o necessário para enviar o trabalho para a impressão sem que ele tenha de ser refeito. Segundo Thiago Justo, alguns dos erros mais comuns que a leitura de Produção Gráfica para Designers permite prevenir são:  falta de sangria no documento; texto preto nas quatro cores de impressão; escolha incorreta do perfil de cor no momento de tratar uma imagem para impressão, além de falta de trapping e overprint. O revisor técnico explica que atualmente os processos de verificação prévia dos arquivos faz com que a maioria desses erros sejam encontrados antes de serem produzidos. Todavia, mesmo nesses casos, é preciso corrigir o arquivo, o que demanda tempo, um item cada vez mais precioso nos dias atuais. “O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes à produção gráfica de um trabalho impresso em offset. Deste modo, o designer pode ter um maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico”, conclui.

 

Produção Gráfica para Designers possui 185 ilustrações, 150 em cores, e traz ainda uma lista de verificação que pode ser usada na hora de enviar um trabalho para a gráfica e um glossário que ajuda a desvendar os jargões do universo da impressão. Agora, com a tradução que a Ateliê está lançando, todo esse conhecimento está disponível em português.

 

Conheça o conteúdo de Produção Gráfica para Designers em detalhes

 

  • O texto é focado na pré-impressão e em como preparar arquivos destinados à impressão nos principais softwares gráficos do mercado;
  • Ele explica como tratar imagens, ajustar trapping, fazer a mistura das cores que serão impressas do jeito que você espera e criar e usar um preto calçado;
  • Abrange digitalização e resolução, dá dicas técnicas para garantir a qualidade de impressão de cada imagem e um capítulo inteiro de dicas de Photoshop como arrumar a perspectiva, mudar a cor de um objeto entre outras;
  • Ensina como calibrar seu monitor;
  • Detalha a impressão quatro cores: entendimento da cor, aprendizado do tratamento das imagens coloridas e em tons de cinza e orientação na utilização de cores pantone;
  • Explica os diferentes formatos de arquivos de imagem conforme a classificação do autor: bons e ruins… e outros;
  • Além da offset plana aborda outros sistemas de impressão: offset rotativa, flexografia, serigrafia e rotogravura;
  • Preparação de arquivos para impressão, resolvendo problemas e dúvidas mais frequentes e uma lista de verificação para envio do trabalho para a gráfica.

Serviço

Produção Gráfica para Designers

Formato:  21,6 x 28 cm

Número de páginas: 160

ISBN: 978-85-7480-731-7

Preço: R$ 148,00

 

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

 

Contatos para Imprensa:

 Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

 

 

 

A gênese de uma obra-prima do cinema brasileiro: Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho

Filme, que é do mesmo diretor de Velho Chico, vai além da mera adaptação e estabelece um diálogo com o livro que o originou

por Fabio Camarneiro*

lavourarcaica

Apesar de hoje parecer banal pensarmos o cinema como uma forma artística séria – a chamada “sétima” arte –, houve um lento processo para que os cineastas fossem reconhecidos para além de meros técnicos a serviço de uma dramaturgia na maioria das vezes pasteurizada. Um dos importantes pontos de virada nessa história é o célebre livro com as entrevistas que o francês François Truffaut (autor de Os incompreendidos, Jules e Jim, A noite americana, entre outros) realizou com o diretor Alfred Hitchcock, nome incontornável que,mesmo já bastante famoso, era contudo desprezado pelos, digamos assim, “meios intelectuais mais sérios”.

Durante a conversa com seu admirador francês, Hitchcock revela um pensamento bastante organizado a orientar cada escolha de cenário ou de luz, a escolha do elenco, a movimentação dos atores e da câmera, os cortes etc. Ou seja: há um objetivo bastante consciente em cada uma dessas escolhas, que forma esse imenso mosaico de imagens e sons que nós normalmente chamamos de “um filme”.

O livro Sobre o Filme Lavour’Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, retoma a ideia de que uma obra cinematograficamente relevante começa com um elaborado pensamento a partir da matéria fílmica. No caso do longa de estreia de Carvalho, a partir do romance de Raduan Nassar e de suas idiossincrasias literárias. Nas palavras do diretor, trata-se de um“trabalho de linguagem excepcional” que levou a uma aproximação bastante distinta da mera adaptação – a encenação do entrecho dramático – mas, ao invés disso, a um “diálogo” entre o filme e a obra original. Em certa passagem do livro, Carvalho – que atualmente dirige a novela Velho Chico – afirma que sua busca era “o exercício da narrativa não descritiva, hiperbólica, como a música árabe, a cerâmica, a dança. Eu perseguia o sensório. Era ele que me guiava.”

O resultado é um dos trabalhos mais originais e ao mesmo tempo mais celebrados do período conhecido como a chamada “Retomada” do cinema brasileiro, durante os anos 1990. Após a atividade cinematográfica ter chegado perto da extinção durante o governo do presidente Fernando Collor, era hora dos cineastas buscarem reencontrar o público. Nesse contexto, Carvalho ousou em realizar um filme longo (165 min.) e denso, com a fotografia deslumbrante de Walter Carvalho a ressaltar os estados de espírito dos personagens do romance de Raduan Nassar.

Um grupo de seis entrevistadores (José Carlos Avellar, Geraldo Sarno, Miguel Pereira, Ivana Bentes, Arnaldo Carrilho e Liliane Heynemann) coloca Carvalho para discorrer sobre suas opções estéticas em Lavoura Arcaica, mas também sobre sua formação (vendo filmes compulsivamente na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro), o início na profissão (como assistente de Walter Avancini na televisão), suas primeiras novelas (das quais destaca-se Renascer) e seu método ao lidar com o livro Lavoura Arcaica (o contato com elementos da cultura libanesa, mediterrânica). Durante essas conversas, aprendemos que o diretor, em busca da história de sua mãe, realizou uma viagem a Alagoas, guiado por sua antiga babá, que o fez reencontrar com as tradições da cultura no Nordeste brasileiro, tão presentes em sua origem. Ou de outra viagem ao Líbano, durante a preparação para Lavoura Arcaica, onde foi atrás dos elementos que povoariam as imagens e os sons do filme e, mais que isso, onde encontraria os fios com os quais teceria seu filme em um lento processo de imersão que, por meses, envolveu atores e equipe.

Assim, aprendemos que o diretor optou por montar o filme sequência por sequência, sem ter, de antemão, uma estrutura definida (um “começo, meio e fim” para o filme como um todo) – gesto inusitado, mas que Carvalho justifica ao lembrar que queria que uma imagem ou um som, em determinada sequência, pudesse “chamar” a sequência seguinte. Também ficamos sabendo que o diretor não trabalhou com um roteiro prévio, e que – apesar de ter bastante consciência do que buscava em cada cena – lançou mão do improviso com os atores. Nesse sentido, elogia especialmente a presença de Raul Cortez, cuja entrega ao método do diretor serviu de inspiração para todo o elenco.

A escolha do menino que interpreta o jovem André e do André adulto (Selton Mello) também guardam surpresas: se este empenhou-se em impressionar o diretor para ganhar o papel, aquele foi quase atropelado por uma pessoa da equipe, golpe de sorte que o levou, mais tarde, a ser a escolha do diretor.

As pequenas histórias se sucedem com graça, e o interesse do depoimento de Carvalho pode fascinar o leigo como interessar ao conhecedor de cinema, seja ele profissional ou mero diletante. Acima de tudo, Sobre o Filme Lavour’Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, nos aproxima da realização de uma obra-prima do cinema nacional a partir das palavras de seu autor – um dos maiores diretores da TV brasileira. Ao colocar em primeiro plano, ao invés das curiosidades de bastidor ou da vida pessoal do artista, a estética fílmica e as opções do realizador, o livro preenche uma lacuna que outrora era preenchida pela imprensa especializada, cujo papel torna-se cada vez menos pertinente em nosso país. Uma importante obra para pesquisadores e interessados pelo cinema brasileiro, bem como para o público em geral.

Fabio Camarneiro é professor no curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. É doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP e mestre em Comunicação Impressa e Audiovisual pela mesma instituição.

 

Prêmio Escola Voluntária recebe inscrições até o dia 30 de junho

15o escola voluntaria

As inscrições para a  já estão abertas. Projetos de voluntariado realizados por alunos de escolas do Ensino Fundamental e Médio podem ser inscritos na 15ª edição do Prêmio Escola Voluntária. A premiação é uma iniciativa da Fundação Itaú Social e da Rádio Bandeirantes e tem como objetivo formar, incentivar e reconhecer escolas de Ensino Fundamental e Médio, públicas ou privadas, que desenvolvem projetos de voluntariado junto à comunidade. O projeto deve contar com a participação voluntária de alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e/ou em qualquer série do Ensino Médio. Podem participar instituições de ensino dos seguintes estados: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal.

 

Mais informações no site http://www.escolavoluntaria.com.br

 

 

Nheengatu – resgate da língua indígena

Indio

O nheengatu pertence à família linguística tupi-guarani. Surgiu no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional, em um desenvolvimento paralelo ao da língua geral paulista, que acabou se extinguindo.  Usado para catequisar os índios e como ação social e política luso-brasileira na Amazônia, o nheengatu foi mais falado que o português no Amazonas e no Pará até 1877. Atualmente, continua a ser falado por aproximadamente 8.000 pessoas na região do vale do Rio Negro.

Nheengatu, a Língua Geral Amazônica

Nheengatu, a Língua Geral Amazônica, no contexto das lutas e conquistas do movimento indígena no Baixo Tapajós, é tema de um documentário, gravado a partir de experiências e reflexões de estudantes, professores e pesquisadores que estão redescobrindo a língua.

“Continuar essa luta que a muito tempo nossos antepassados começaram, e não deixar morrer. Porque depois que o fogo se apaga, sobram só as cinzas. E essas cinzas são levadas pelo vento. Se forem levadas pelo vento fica muito difícil reconstruir aquele fogo. Por isso, sempre que a fogueira estiver apagando, nós povos indígenas e não indígenas que se deparam com a causa, vai lá e acrescente o seu tição (pedaço de lenha ou carvão) para que esse fogo nunca se apague. Vamos lutar!”

Jonas Tapajós – Aldeia de Arimum (Povo Arapium)

O vocabulário de Stradelli

Nascido na Itália, Ermanno Stradelli também buscou resgatar essa língua falada pelos índios que estava se perdendo. Viveu no Brasil por 43 anos, passando a maior parte deste tempo no Amazonas, onde se estabeleceu e conviveu com os missionários franciscanos italianos, participando de suas missões no interior. Foi quando conheceu o nheengatu, cujo estudo e pesquisa abraçou até o fim da vida. Ele mesmo era fluente em nheengatu e conhecia a fundo a cultura regional e indígena. Quando morreu em 1926, Stradelli deixou esta obra inédita, publicada postumamente em formato de revista pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1929.

Vocabulario-Portugues-Nheengatu de Ermano StradelliEm 2014 a Ateliê Editorial lança a obra em formato de livro – Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português. Preenchendo uma lacuna no conhecimento da língua que falamos hoje no Brasil, essencial para linguistas, professores e indigenistas.

Em Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português, o nheengatu foi mantido tal e qual o da primeira edição, de 1929. A ideia é que os leitores possam apreciar mais a lógica do texto e a imensa dificuldade – explicitada na “Nota Preliminar” – enfrentada pelo conde ao tentar compor o vocabulário de uma língua cuja versão escrita ainda não havia sido normatizada.

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Euclides da Cunha: 150 anos de um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira

Por:  Renata de Albuquerque

Em 2016, comemoramos os 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha. O escritor fluminense– que foi engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, cartógrafo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, e escritor – escreveu o clássico Os Sertões,  no qual retrata a Guerra de Canudos. Para falar sobre esta importante figura, o Blog da Ateliê entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), para quem a leitura do autor de Os Sertões tem uma atualidade surpreendente. Bernucci é responsável por edição, prefácio, cronologia, notas e índices do livro Os Sertões – Campanha de Canudos e também pela apresentação de Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, ambos da Ateliê Editorial.

Leopoldo-BernucciQual é a sua ligação com Euclides da Cunha? Como surgiu o seu interesse nesse escritor e de que maneira aprofundou seus estudos e conhecimentos a respeito?

Leopoldo M. Bernucci: As minhas primeiras incursões, como estudioso, no universo literário de Euclides foram realizadas por volta de 1981, ano em que o romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo – que trata da Guerra de Canudos – foi publicado. Naqueles anos eu estava terminando o meu mestrado em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Michigan, Ann Arbor, MI, U.S.A., depois de me formar na USP também em Letras. Foi um encontro fortuito e curioso, porque se não fosse talvez pelo interesse que eu já tinha pela literatura de Vargas Llosa, não teria chegado a Euclides da forma como cheguei. A partir desse momento, já não pude deixar de estudar a obra euclidiana, tanto pelo lado fascinante do seu universo artístico, científico, retórico e histórico como também pela necessidade de aprofundar certos aspectos de sua obra que haviam sido examinados, porém, de modo muito superficial; e outros que nem haviam sido tocados ainda.

A maneira pela qual eu fui me adentrando nos textos de Euclides foi em primeiro lugar pela via comparada; e depois, estudando os manuscritos do autor, dispersos em diversas bibliotecas, públicas e privadas, e em arquivos. Essa investigação arqueológica dos textos de Euclides foi para mim reveladora, porque descobri de repente coisas que nunca imaginara que ele pudesse ter escrito e que ficaram sem publicar durante todos esses anos; e também porque muitas vezes o estudo dos manuscritos ilumina a compreensão de textos seus já publicados, mas ilegíveis em certas passagens, dado que a porcentagem de erros tipográficos é muito alta, e sem dúvida cria um obstáculo à leitura. Assim, a comparação entre texto publicado e manuscrito lança luz sobre esses aspectos obscuros e equivocados, e oferece uma boa oportunidade para esclarecê-los ou corrigi-los em edições modernas mais cuidadosas. O que eu estou descrevendo se refere principalmente aos livros mais tardios do autor e que passaram por mãos de revisores incautos: Contraste e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e À Margem da História  (póstumo, 1909).

 

Neste ano em que se comemoram os 150 anos de Euclides da Cunha, é possível fazer um balanço de qual foi sua contribuição para o jornalismo e a literatura no Brasil?

LMB: Sem dúvida. A contribuição de Euclides da Cunha é enorme, tanto para o jornalismo como para a literatura e, acrescento ainda, as ciências, a cultura e a nossa história. Não devemos nos esquecer de que Euclides foi também um militante ativo em prol da República, e que portanto defendia os ideais democráticos constantemente em seus artigos na imprensa. Sintetizando, poderíamos dizer que ele é um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira. Euclides nos mostrou esse talento, principalmente, através de Os Sertões, mas também em outros textos sobre a Amazônia, por exemplo, publicados em Contrastes e Confrontos e À Margem da História. A sua obra magna, Os Sertões, quando publicada em 1902, elevou a sua estatura de excelente e combatente escritor mais ainda. Descobriu-se que seu dom literário e historiográfico era agudíssimo e essa obra não só começou a ser lida como livro de história mas também como obra literária, já que o seu belo e complexo discurso se equipara ao dos melhores romances da literatura mundial. A alta qualidade retórica da linguagem de Os Sertões por si só faz dele um dos grandes livros da literatura brasileira de todos os tempos. Esta, quando aliada ao desenho épico do livro e a sofisticados recursos estilísticos e retóricos, já bastaria para defini-lo como objeto dos estudos literários, sem que – e isto é muito importante frisar – o  consideremos ficcional. A feliz adequação de um achado estético (sua linguagem) ao assunto histórico é o que transforma esta obra em objeto de arte, salvando-a de permanecer somente no mundo da historiografia ou do ensaio sociológico, como também Os Sertões pode ser lido, evidentemente. Para concluir a minha resposta a essa pergunta, devo repetir algo que já disse alhures: que a dívida de Euclides para com o jornalismo é enorme. Na imprensa, como jornalista, ele encontrou um modo de apresentar suas ideias antes de lançá-las em capítulos de livros escritos mais tarde por ele. Fora dela, na sua condição de leitor, Euclides canibalizou artigos e editoriais que foram absolutamente importantes para a confecção da sua narrativa sobre Canudos (ver sobre este assunto o meu livro A Imitação dos Sentidos: Prógonos e Epígonos de Euclides da Cunha).

A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil

Qual o legado dessa importante figura ainda hoje?

LMB: A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil. Nesses textos encontram-se observações sobre o desrespeito à democracia durante a primeira República, a perniciosa herança do colonialismo, o populismo, a perda da Razão como resultado do fanatismo político e religioso, o favoritismo político, a corrupção do governo e o esvaecimento da confiança nas instituições públicas. A sua crítica à nossa cultura e ao nosso modo de ser, plasmada naquilo que Sérgio Buarque de Holanda chamaria depois o “homem cordial”, não poderia ser mais clara em alguns de seus escritos. Em suma, Euclides quando escrevia não podia deixar de fazer sempre um balanço da destruição paulatina, embora vigorosa do nosso idealismo, tão aviltado pelos interesses individuais e mesquinhos e pelos vícios de políticas interesseiras em detrimento da coisa pública. É claro que, diante deste quadro Euclides já preludiava o que estamos vendo hoje em dia: a dificuldade e até mesmo a impossibilidade de conceber uma nação genuinamente republicana e democrática, dedicada ao bem-estar público e não ao privado. Compartilhamos do seu ceticismo daquela época porque é o mesmo ceticismo que vivemos hoje com respeito ao nosso país. Assim, damo-nos conta de que, infelizmente, pouca coisa mudou desde então.

 

capa sertoes

A edição da Ateliê de Os Sertões – A Campanha de Canudos tem notas, prefácio e cronologia de sua autoria. Pode, por gentileza, contar-nos como foi realizar esse trabalho, quais foram os maiores desafios desse grande projeto? Quanto tempo o senhor esteve envolvido nesse trabalho?

LMB: A ideia dessa edição partiu de dois grandes amigos meus, Plínio Martins Filho, editor da Ateliê e do nosso saudoso Ivan Teixeira, professor também da ECA. Na verdade, eles foram os que, de modo conceitual, me sugeriram essa edição com esse formato. Eu gostei da sugestão e comecei a trabalhar imediatamente nesse projeto. Acredito que foi por volta de 1995, quando eu morava no Colorado, que dei início a essa edição. Foram meses dedicados a esse projeto, entre outros afazeres do meio acadêmico, evidentemente. A nossa preocupação era oferecer uma edição que mantivesse o maior respeito pelo texto de Euclides e que facilitasse a leitura de Os Sertões. Euclides é um escritor difícil, sem dúvida, mas quando conseguimos romper essa camada de dificuldades de seu texto, o prazer de lê-lo, então, torna-se insuperável. Os maiores desafios, para mim foram, em primeiro lugar, fazer toda a pesquisa das fontes do livro. Em seguida, e isto não era menos desafiante, tive que estabelecer o texto, isto é, “corrigi-lo”, comparando-o com as primeiras edições publicadas e com os fragmentos de manuscritos. Esta última tarefa era necessária para que obtivéssemos uma melhor leitura, inclusive no que diz respeito à virgulação e à pontuação dessa obra. Finalmente, e isto foi mais prazer do que trabalho, era necessário mostrar em forma de Prefácio ao leitor o tipo de livro – aliás único na história da literatura do Brasil – que ele é, no qual se convergem diferentes discursos emprestados de várias disciplinas, escolas literárias ou determinados livros: história, arquitetura, botânica, geologia, a Bíblia, barroco, romantismo, épica e estratégia militar.

 

capa odisseia nos tropicosO senhor também é responsável pela apresentação do volume Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Em sua opinião, qual o diferencial e a importância dessa obra? É um título de interesse apenas para quem estuda o tema ou é uma obra de interesse geral, que pode ser entendida pelo grande público? Por que ela deve ser lida?

LMB: O trabalho biográfico executado por outro grande amigo, já falecido, o Prof. Frederic Amory, daqui da Califórnia, é um complemento a certas biografias em forma de livro mais antigas ou esboços biográficos de Euclides. Em primeiro lugar, refiro-me às biografias de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Leandro Tocantins, Olímpio de Souza Andrade, Sylvio Rabello; em segundo, aos escritos de Oswaldo Galotti, Walnice Nogueira Galvão, José Carlos Barreto de Santana, Roberto Ventura e outros. O que diferencia a biografia de Amory dos textos biográficos escritos anteriormente a essa obra é a estrutura, o escopo e o ângulo da análise de Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Estruturalmente, o autor distribui os vários capítulos do livros, sempre em ordem cronológica, dando-lhes títulos sugestivos que emblematizam o ponto principal de cada momento histórico. “A Ponte e o Livro”, por exemplo, narra esse Euclides nos melhores momentos de sua atividade de engenheiro e homem de letras, às vésperas da publicação de Os Sertões. No que diz respeito ao escopo, o livro serve tanto para um iniciante quanto para um leitor mais familiarizado com Euclides. Quanto às análises ali oferecidas, deve-se mencionar a capacidade de erudição e de síntese do biógrafo, quando, por exemplo, ele se debruça sobre dois ensaios de Euclides: “O Primado do Pacífico” e “Estrelas Indecifráveis”. No primeiro, Amory resgata para nós o melhor de Euclides, a sua enorme curiosidade pela História das grandes civilizações e o seu método de arguir sempre criativo quando aplicado a um assunto contemporâneo a ele; no segundo, o crítico norte-americano demonstra o seu profundo conhecimento histórico da Idade Clássica greco-romana e das religiões, fazendo-nos ver ainda, mais uma vez, que é impossível desvincular ciência e arte no pensamento crítico de Euclides. Por não ser brasileiro, Amory lança um olhar distanciado sobre a vida do escritor fluminense, adotando uma perspectiva de alguém de fora da nossa cultura, o que criticamente resulta ser muito salutar neste caso. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas este dois dão ao leitor uma ideia de como pela primeira vez os principais ensaios euclidianos foram abordados nas suas minúcias, utilizando-se de um instrumental de alta qualidade e de verdadeiro scholar.

 

Em sua opinião, o trabalho de Euclides da Cunha recebe, no Brasil, o valor devido? Por quê?

LMB: Acredito que sim, mesmo porque, salvo engano, ele é o autor que sustenta a mais extensa bibliografia crítica até hoje, mais extensa que a de Machado de Assis, para ficar com uma comparação. Mas, cuidado. Estamos vivendo um momento problemático e de crise da leitura. Euclides é uma “dor de cabeça muito gostosa”. Ele demanda paciência e releituras. Ele também nos fascina com a sua escrita ao mesmo tempo que nos provoca e nos desafia a pensar criticamente. Euclides nos convida ainda a raciocinarmos de forma lógica sem prejuízo da paixão que tenhamos pela arte e pela imaginação. Este é, a meu ver, o grande legado que ele nos deixou.

 

Como é a recepção da obra de Euclides da Cunha no exterior?

LMB: Eu não poderia falar senão de modo mais geral sobre este assunto,  já que não temos dados estatísticos ou comprovantes de leitura para o continente Europeu e Ásia, por exemplo. Portanto a minha opinião é bastante informal e se limita aos Estados Unidos, país onde moro e trabalho há 38 anos, e onde esses medidores existem. Infelizmente, Euclides da Cunha como tantos outros grandes escritores brasileiros não é um bestseller e assim é pouco lido nos Estados Unidos, sendo que aqueles que o leem são alunos e professores de nível universitário na sua grande maioria. Dentro deste círculo restrito de leitores, a obra de Euclides é bastante discutida e estudada e as produções acadêmicas (livros e artigos) vem comprovar este fato. O problema da recepção de Euclides no exterior não tem nada a ver com ele como tampouco estaria relacionado a quaisquer outros grandes autores. Tem a ver com uma política cultural que nunca se fez de forma eficiente no Brasil. Ao longo dos anos, as agências do governo brasileiro não têm investido inteligentemente neste aspecto e acredito que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras tem feito algo duradouro para que as letras brasileiras sejam conhecidas e continuem sendo apreciadas lá fora.O problema não é só divulgar os autores numa feira como a de Frankfurt, por exemplo, ou algo parecido, mas de criar e manter um sistema de divulgação constante. Nessa política, se é que ainda existe hoje em dia, falta a continuidade, fato tão necessário para não desacelerar o momentum da divulgação e publicidade. A feira de livros termina e com ela se esfuma da memória os nomes dos nossos melhores escritores. Eis um assunto intrigante. O Brasil com uma respeitável literatura nacional que pode competir facilmente com a de outros países latino-americanos, lamentavelmente não possui um só caso de Prêmio Nobel. Em contrapartida a Guatemala possui um, Miguel Ángel Asturias; o Chile dois: Gabriela Mistral, amiga e contemporânea da grande Cecília Meireles, e Pablo Neruda; o México um, Octavio Paz; e o Peru também um, Mario Vargas Llosa. Com grande probabilidade, Carlos Drummond de Andrade ou Clarice Lispector poderiam ter recebido este prêmio se a visibilidade deles tivesse sido trabalhada de modo eficaz nos setores diplomáticos e culturais fora do Brasil.

 

Livros de papel e consciência ecológica combinam?

Dia 5 de junho se comemora o Dia do Meio Ambiente. A data foi recomendada pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, realizada em 1972, em Estocolmo, na Suécia. No Brasil, a Semana Nacional do Meio Ambiente acontece todos os anos, desde 1981, com o objetivo de apoiar a participação da comunidade nacional na preservação do patrimônio natural do País.

Aqui na Ateliê Editorial, a gente leva muito a sério a preservação dos recursos naturais. Mas, você pode estar se perguntando: Como é que uma empresa preza o meio ambiente se usa árvore como matéria-prima para seu negócio?

Bom, esta é uma pergunta bem pertinente. O fato é que, se levarmos em conta que para ler um e-book também se gasta energia elétrica e que a produção de microcomputadores também consome recursos naturais, chegaremos à conclusão de que não dá para produzir livros sem consumir recursos.

Na Ateliê, damos preferência ao livro físico porque acreditamos que, para além de trazer conteúdo, o livro é um objeto importante em si. Tocar, cheirar e folhear tornam a experiência da leitura em papel diferente da experiência da leitura em meios virtuais. O suporte do livro físico muda tudo. Mas nós também temos e-books, que estão à venda em sites como Livraria Cultura, Amazon, Saraiva e outros.

E justamente porque nosso negócio depende de recursos naturais, na editora, temos uma preocupação muito grande com o não-desperdício desses recursos. Aqui, procuramos reciclar tudo o que for possível e só jogar no lixo resto de comida e lixo de banheiro e cozinha.

Temos recipientes próprios para descarte de plástico (copo de água, embalagem de iogurte, bala, bolacha, etc.) e para descarte de papel. Conversamos com os novos funcionários sobre a importância da reciclagem e a política da empresa. Dizemos sempre que um pequeno gesto, como pôr para reciclar uma embalagem de bolacha, evitará que essa embalagem vá para o aterro sanitário, e que sirva de criadouro de mosquitos.

Também queremos que as pessoas se sintam responsáveis pelo uso dos recursos da natureza, por isso coletamos água da chuva em tonéis próprios para uso na lavagem de piso.

Exatamente porque os livros que produzimos precisam de papel para existir, valorizamos muito essa matéria-prima. Sabemos que cada folha de papel branco veio de uma árvore, e que a industrialização do papel envolve muita química e poluição atmosférica.

Temos consciência de que precisamos diminuir esse processo todo. Aqui na Ateliê, toda prova de livro é aproveitada no verso em branco para imprimirmos cópias de nota e documentos para nosso controle. Cada pedaço em branco é utilizado nem que seja em pequenos blocos para anotação.

Nossos funcionários sabem que o papel é um material nobre, tem que ser usado com parcimônia, sem desperdícios. É o chamado “ouro branco”. Foram gastos muitos recursos (árvore, água, eletricidade) para se chegar até ele. Por isso, não podemos descartá-lo para sumir no aterro sanitário, misturado com o lixo comum.

É com orgulho que dizemos que juntamos muito mais material para reciclagem do que lixo comum. Todo o material é levado até um ponto de reciclagem do supermercado Pão de Açúcar, que disponibiliza um espaço em suas dependências para que uma empresa de reciclagem possa recolher esse material. Além de ajudar com a reciclagem de lixo, possibilita a abertura de novos empregos para pessoas que estão afastadas do mercado de trabalho. Quanto mais essa empresa recebe material para reciclagem, mais postos de recebimento ela abre e mais empregos ela oferece.

Nossos computadores, impressoras e no breaks antigos ou quebrados são descartados no prédio da Poli-USP, que utiliza esses equipamentos no seu Laboratório de Sustentabilidade, o Lassu (http://lassu.usp.br/). Lá, os catadores de diversas cooperativas aprendem a desmontar os equipamentos de forma correta, sem poluir o ambiente com os metais pesados presentes nesses equipamentos, como chumbo, mercúrio, cádmio.

E o melhor é que sabemos que essas ações de responsabilidade se espalham, marcam muito. Tanto que a maioria dos nossos funcionários também reciclam seu lixo em suas casas.  E é por isso que, para marcar o Dia do Meio Ambiente, queremos compartilhar com você algumas informações sobre reciclagem, fornecidas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente: