Tomás Santa Rosa, leitor

Por Renata de Albuquerque

Sobrecapa do livro "Capas de Santa Rosa"

Sobrecapa do livro “Capas de Santa Rosa”

Capa do livro de Luís Bueno

Capa do livro de Luís Bueno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomás Santa Rosa (1909-1956) foi um artista visual inquieto.  Um dos mais importantes cenógrafos de sua época (criou a arquitetura cênica da histórica montagem de Vestido de Noiva, dirigida por Ziembinski), dedicou-se a várias tarefas no campo das artes plásticas: executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro, projetou decoração para festejos de carnaval.

Seis décadas depois de sua morte, o professor de Literatura Brasileira Luís Bueno lança, pela Ateliê Editorial, Capas de Santa Rosa, uma reunião de cerca de 300 capas criadas pelo artista – um trabalho de dez anos de pesquisa. A obra é uma coedição das Edições Sesc SP.

Na entrevista a seguir, Bueno dá uma pista da razão pela qual o trabalho de Santa Rosa como capista é tão singular. Para o autor, as “qualidades de leitor” de Santa Rosa foram fundamentais para que seu trabalho se tornasse tão impactante. Acompanhe:

 

Na apresentação do livro, você menciona que a ideia do livro surgiu durante o processo de sua tese de Doutorado. Gostaria que falasse mais um pouco a respeito da tese e de como sua tese o levou a Santa Rosa.

Luís Bueno: Minha tese de doutorado, que foi publicada pela Edusp e pela Editora da Unicamp em 2006, com nova edição no final de 2015, foi a escrita de uma história do romance de 30, exatamente o período em que Santa Rosa começou a atuar como capista. Para escrevê-la eu precisei ler o maior número possível de romances daquele período, e vários deles tinham capas de Santa Rosa. A beleza das capas era evidente por si mesma, mas observando as qualidades de leitor do Santa Rosa depois de ter eu mesmo lido os romances, é que pensei na singularidade do trabalho dele, na sua qualidade peculiar. Como não tenho formação nem em design nem em arte, e sim em literatura, sempre pensei no trabalho dele a partir do texto. Mais tarde, tive a oportunidade de dirigir a Editora da Universidade Federal do Paraná. Ora, essa experiência foi um curso prático de produção de livros que me deu a chance de acompanhar profissionais do design elaborando projetos gráficos e capas. Juntando as duas coisas, acabei me sentindo, por um lado, na obrigação de recolher o trabalho do Santa Rosa nesse campo, e, por outro, capaz de dizer alguma coisa sobre ele.

Luís Bueno

Luís Bueno

Qual a importância de santa Rosa no cenário da arte brasileira?

L.B.: O Brasil é um país complicado, como todos sabem, sobretudo injusto. Mas não é o fim do mundo – é parte do mundo, é um jeito de ser do mundo, e não precisa ser injusto para sempre. É mesmo absolutamente fundamental que não seja. Em boa parte do século XX a cultura brasileira se desenvolveu amplamente, contribuindo de forma decisiva para pensar, dar forma e propor mudanças a esse jeito de ser no mundo. Artistas como Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Portinari, Guimarães Rosa, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, para ficar apenas em meia dúzia de nomes mais famosos, trabalharam imensamente e precisam continuar a serem ouvidos não apenas pelos resultados estéticos a que chegaram em seu campo de atuação – o que em si já seria muito – mas também porque souberam enfrentar essa complicação brasileira e agir sobre ela, propor formas de pensar sobre ela. Santa Rosa faz parte desse grupo numeroso e significativo. A arte talvez não salve o mundo, mas o mundo não se salva sem ela. É essencial. Santa Rosa é alguém para quem a arte foi essencial. Já passou da hora de atentarmos para esse esforço e retomá-lo.

 

Como você apresentaria Santa Rosa e sua obra para um leitor de hoje em dia, que não o conhece? Por que é importante apresentá-lo às novas gerações?

L.B.: A melhor forma de apresentar a obra de Santa Rosa aos leitores de hoje é mostrá-la, colocá-la à vista em seu conjunto. É isto que o livro se propõe a fazer, além de chamar a atenção para alguns de seus aspectos essenciais para, quem sabe, interessar esses leitores. As enormes transformações práticas pelas quais passou o trabalho de um artista gráfico nos últimos 70 anos – da prancheta aos editores de imagens – não eliminam os problemas de base envolvidos no métier: a relação da materialidade do livro com seu conteúdo, a concepção artística de seus elementos. E nisso a apreciação do trabalho de Santa Rosa tem muito a dizer e é por isso que é importante apresentá-lo à novas gerações.

O que mais o encanta e chama sua atenção em Santa Rosa?

L.B.: Há muita coisa que me encanta e me chama a atenção na trajetória artística de Santa Rosa. Seu interesse amplo pela arte e pela vida, traduzida numa obra que não ficou concentrada numa única atividade, tem a capacidade de se colocar em diálogo direto com a gente. Ele foi um militante da arte, em especial da arte moderna, em sentido muito amplo. Militou como pintor, como professor e como escritor, publicando vários artigos nos jornais, planejando cursos de percepção artística para o grande público. Mas, principalmente, como o artista que misturava tudo isso e colocava na rua – nas livrarias, nos teatros, na decoração de carnaval – uma nova sensibilidade artística. Em suma, o que mais me encanta no trabalho de Santa Rosa é que se trata de uma experiência viva, ainda hoje, 60 anos depois de sua morte. Aliás, quando ele morreu, na Índia, em 1956, Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema que define isso de maneira sintética e que diz: “Essa alegria de criar/ que é tua explanação maior e mais tocante”. Não é à toa que um trecho deste poema é a epígrafe do livro.

 

Em sua opinião, como ele influencia nosso design até hoje?

L.B.: Santa Rosa tem importância capital para o design brasileiro. Atuou num momento em que a indústria moderna do livro no Brasil se estabelecia. Pensou o livro como artista, mas também como designer – palavra que não se usava em seu tempo – com um olho na ilustração e outro no layout. Seu desejo de transformar a arte moderna em experiência concreta acabou se materializando em capas de livro ao mesmo tempo atrativas – pela ilustração – e sérias – pela sobriedade e pela leitura que propunha. Ainda que indireta, sua influência dura até hoje, e pode ser mais ampla se seu trabalho for conhecido. É essa a principal ambição deste livro: a de contribuir para que seu trabalho fique mais visível e possa, quem sabe, influenciar mais diretamente os novos designers e os novos leitores.

Capa de santa Rosa para "Cangaceiros", de José Lins do Rego (1953)

Capa de Santa Rosa para “Cangaceiros”, de José Lins do Rego (1953)

Quais são suas três capas preferidas e por quê?

L.B.: É obviamente difícil, se não impossível, apontar as três capas que seriam minhas preferidas. Por motivos diversos, considero várias capas maravilhosas. Mas vou apontar uma de cada década em que ele atuou, que podem dar ideia da excelência do trabalho dele. Sua primeira incumbência como capista, com Urucungo, de Raul Bopp seria uma delas. É uma capa que dialoga com todo o livro e, de sua maneira, analisa-o, com um desenho original que faz até aquilo que deveria ser mera informação, o título e o nome do autor, integrar a ilustração. A segunda, da década de 40, é a de Fonte Invisível, livro de poemas de Augusto Frederico Schmidt, onde ele conseguiu transformar uma simples linha ondulada em ilustração e em comentário ao conteúdo do livro: parece impossível tirar tanto significado de tão pouco. Por fim, dos anos 50, um momento em que ele retoma o uso da cor e experimenta novas técnicas, como a gravura, é representativa a capa de Cangaceiros, de José Lins do Rego.

 

Você considera que sua pesquisa se esgotou ou prevê desdobramentos dela? Como seria essa continuação?

L.B.: Há muita coisa a se pesquisar e se avaliar quando se trata de Santa Rosa. Só no campo das artes gráficas, além das capas, seria preciso estudar sua atividade como designer do miolo do livro, da produção gráfica em geral. Além disso, ainda não se recolheu nem se estudou o resultado de sua atividade como ilustrador, tanto para livros – arte que eu já levantei razoavelmente bem e quem sabe no futuro apareça num outro livro – quanto para jornais, Mas isso está longe de ser tudo. Ainda falta dar a dimensão exata da importância de Santa Rosa para o teatro brasileiro. Assim como no que diz respeito ao livro, ele foi elemento-chave na criação do moderno teatro brasileiro, com uma atuação espantosa como figurinista e cenógrafo. Por fim, mas não menos importante, está sua obra de pintor, que ficou à sombra da de outros artistas brasileiros de seu tempo, como seu grande amigo Portinari, mas que tem lugar garantido no cânone da moderna arte brasileira. Isso tudo sem mencionar sua atividade como agitador cultural, professor e boêmio. A julgar pelas histórias que contam dele escritores como Rubem Braga e Rachel de Queiroz, há um mundo de coisas a se descobrir aí. É claro que este não é um trabalho para uma pessoa. Desdobramentos há vários e para vários pesquisadores.

  1 comment for “Tomás Santa Rosa, leitor

  1. marcelo
    03/05/2017 at 10:35

    o livro é maravilhoso…parabéns!
    gostaria de convida-lo para ver a exposição: Encena o pintor ilustrado, Tomás Santa Rosa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *