Monthly Archives: março 2016

Teatro é fantasia

Por: Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

No dia 27 de março comemora-se o Dia Mundial do Teatro. Para lembrar a data, O Blog da Ateliê entrevista Ana Maria de Abreu Amaral. Ela é Professora Titular de Teatro de Animação na ECA/USP, onde orienta pesquisas em pós graduação ligadas ao teatro de bonecos ou teatro de animação. Também é diretora do Grupo O CASULO – BonecObjeto e autora dos livros: Teatro de Formas Animadas, Teatro de Bonecos no BrasilO Ator e seus Duplos e Teatro de Animação (em processo final de tradução para o inglês, para ser editado por uma universidade dos Estados  Unidos), além do livro de poesias Rupturas – poemas em busca de um eixo. Acompanhe:

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Por que se interessou pelo teatro de animação?

Ana Maria de Abreu Amaral: A princípio, foram duas razões. Meu primeiro emprego foi numa  das bibliotecas infantis da Prefeitura de São Paulo, num bairro além da Freguesia do Ó (Cruz das Almas)  em que  poucas  crianças sabiam ler, ou quem lia  engolia logo os poucos livros disponíveis. D. Lenira Fracaroli,  idealizadora, diretora e organizadora dessa rede de bibliotecas infantis em bairros distantes, teve a ideia de nos oferecer, na sede, um curso rápido de uma semana sobre  construção de fantoches, e com isso a atitude das crianças mudou drasticamente. O interesse das crianças pelo teatro improvisado despertou e mudou totalmente  a atitude delas na biblioteca e o interesse pelos livros. Foi  incrível a mudança. Mas  acabei me cansando pela distância, quase ausência de transporte e pedi transferência para uma seção da Biblioteca Central.

Nessa época, antes de tudo, nem livros nem bibliotecas  me interessava. Tudo  que eu lia e vivia era poesia.  Convivia com os poetas jovens da época e a poesia era para mim então fundamental. Entre 1957 e 1960 publiquei  SINCOPE, depois Eu Inconcluso, depois Viagem ao Redor do Espelho, estimulada pela incrível saudação de Sergio Milliet e outros críticos e/ou poetas,  recebendo outras ótimas críticas. Mas foi um tempo curto. Por razões inesperadas, acabei indo para Nova Iorque. Trabalhei alguns meses na biblioteca de  Brooklin, depois na Biblioteca da Nações Unidas. E fui ficando, esquecida de voltar.

Mas… do inesperado surgiu um impacto. Foi quando os bonecos surgiram.Vieram vindo um dia pela 5ª Avenida acompanhados de máscaras, atores, tambores. Foi assim que o Bread and Puppet entrou na minha vida. Bonecos incríveis, enormes, tomando toda avenida, tristes, de branco e negro vestidos, em protesto mudo contra uma guerra que eu nem tinha até então noticia, a guerra do Vietnam. Foi assim enfim que o teatro de bonecos entrou de vez na minha vida. Tímida e queda, por curiosidade, sempre que podia ia ajudar a colar papel ou cellastic nas máscaras ou bonecos políticos de Peter Schumann que com suas incríveis esculturas e personagens enormes protestava já contra a  então  guerra do Vietnam. Essa foi a mudança da minha vida: boneco em teatro para adultos ou crianças por alguma razão virou paixão. Entrei nessa.  Aluguei um quase porão e passei a ter um ateliê onde confeccionávamos e ensaiávamos, pois cheguei a formar um grupo. Lá estreei meu primeiro espetáculo para adultos, político, e sobre um fato real: Palomares.  E assim mudou  minha vida. Até hoje.

Depois de 15 anos em  Nova Iorque, com dois filhos, achei melhor voltar, pois não queria que eles deixassem de ser e viver o Brasil.  Voltei de vez. Passei a dar aula na ECA/USP, achei fundamental ajudar a formar bonequeiros. E essa é minha família, até hoje.

 

Esta é uma modalidade destinada apenas ao público infantil ou também ao adulto?

AMAA: Antes  de tudo acho que arte, teatro, pintura, não tem idade. Não vejo diferença alguma entre teatro para e com crianças ou adultos. As crianças são mais sensíveis, mas por isso mesmo a gente precisa ter em relação a elas mais sensibilidade, pois nem tudo é bom para as crianças. E por influência de Peter Schumann [fundador do Bread and Puppet Theater] passei a entender e a falar com os adultos através de bonecos, de máscaras; mais tarde, usando objetos, formas abstratas que tanto crianças quanto adultos entendem e por meio das quais percebem melhor o sentido das coisas que nos rodeiam e não chegam só através das palavras, mas das formas, do choro, do medo, da fantasia e do riso.

Não há diferenças quando o meio que usamos para nos expressar – seja uma figura humana, um ator ou um boneco, uma forma inusitada ou uma pedra, um fio fino e sutil, um rosto – nos transmite  emoção. E tudo fica muito mais amplo ou complexo.

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A introdução do livro Teatro de Animação diz que esse teatro tem se desenvolvido extraordinariamente. A que isso se deve?

AMAA: Acho que muita coisa muda quando se deixa de usar em excesso as palavras, apesar que as palavras podem ser também poéticas,  mas nem sempre… pois uma forma  ou figura, às vezes, fala muito mais.

O livro diz que o teatro de animação, por falta de parâmetros, muitas vezes é ignorado pela crítica especializada ou apresentado como inusitado. Nesse sentido, quais são os principais parâmetros para avaliar o teatro de animação?

AMAA: Não consigo definir esses parâmetros, mas o que existe  é pouco teatro bom de animação no palco. Ou há dificuldades de entrar e se manter em  cena, ou muito preconceito contra, quando o que mais aparece não é fruto de experimentação, busca ou pesquisa.

 

Fale, por gentileza, sobre as experiências que o teatro de animação proporciona ao público.  

AMAA: Teatro é fantasia. Acho que o bom é tudo que não é muito real. Ou quando não é resultado de pesquisa. E quando vai além do racional não é entendido. Mas se perturba é porque é bom, seja ele real ou poético.

 

Em um mundo em que as crianças se interessam cada vez mais cedo por produtos tecnológicos como tablets e celulares, o teatro de animação tem um desafio frente a esse público?

AMAA: O teatro de animação é, antes de tudo,  não realista. Mas, me parece às vezes que o que se está perdendo em meio a muita tecnologia é a poesia.

 

O lúdico perdeu lugar entre esse público ou não?

AMAA: Qual publico? O bom seria não se fazer muita distinção entre crianças, poetas, loucos e adultos. Ou que os adultos gozassem mais com fantasias.

 

Como enfrentar esse desafio? Como despertar o interesse das crianças nesse contexto?

AMAA: Acho que mais importante é despertar a criança que existe (ou existiu) nos adultos. E manter sempre vivo o lúdico e não levar a vida ou o dia-a-dia muito a sério.

Conheça outros livros que a Ateliê publicou sobre teatro 

Livro impresso ainda é o preferido pelos universitários, diz pesquisa

Renata de Albuquerque

livros de papel

Uma recente pesquisa da American University de Washington (EUA) mostrou que 92% dos universitários preferem os livros impressos aos digitais para leituras sérias.O dado está no livro Words Onscreen: the Fate of Reading in a Digital World (“Palavras na Tela: o Destino da Leitura no Mundo Digital”, em tradução livre). A pesquisa, feita com 300 estudantes de diferentes países (como EUA, Japão e Alemanha), foi encabeçada pela autora do livro, Naomi Baron, que é professora de linguística. Ela e sua equipe entrevistaram 300 estudantes de países como EUA, Japão, Alemanha e Eslováquia.

Segundo os pesquisadores, a leitura do livro em papel proporciona sensações táteis e físicas, como, por exemplo, sentir o cheiro do livro. A pesquisa aponta ainda que o livro digital tende a distrair mais o leitor e que o cansaço nos olhos também influencia a escolha.

 

*Com informações do HuffPost Brasil

Fuvest e Unicamp já divulgaram listas de obras obrigatórias

Renata de Albuquerque

A Fuvest e a Unicamp já divulgaram a lista de obras para leitura obrigatória do vestibular 2017. Na lista, estão clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), O Cortiço (Aluísio Azevedo) e Iracema (José de Alencar).

fuvest2017

Pacote especial com 04 livros de leitura obrigatória da Fuvest 2017

A grande dificuldade, para quem vai prestar vestibular, é entrar em contato com essas obras clássicas, escritas há tanto tempo e tão distantes da realidade contemporânea. Por isso, na Coleção Clássicos Ateliê, além de textos fieis aos originais, cada título traz uma apresentação escrita por um especialista, que ajuda o leitor a entender a importância de cada livro.

Unicamp 2017

Pacote especial com 04 livros de leitura obrigatória da Unicamp 2017

Para melhorar, o pacote  Livros para Fuvest  e o pacote de  Livros para Unicamp está sendo vendido com desconto!

Veja a lista completa de livros da Fuvest 2017
Veja a lista completa de livros para Unicamp 2017

Ateliê celebra o Dia Mundial do Teatro com Pacote Especial

Leitor poderá adquirir quatro títulos com 45% de desconto
 

“Ir ao teatro é como ir à vida sem nos comprometer”, disse o poeta Carlos Drummond de Andrade. Nessa grande viagem cabem todos os corações e por isso a Ateliê Editorial criou um pacote especial para celebrar o Dia Mundial do Teatro, em 27 de março, data criada pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI) em homenagem à inauguração do Teatro das Nações, em Paris.
No site da editora, quatro livros relacionados ao tema estão disponíveis com 45% de desconto, por tempo limitado: Teatro de Animação; Tragédia Grega – O Mito em Cena; Meu Fausto (Esboços); e Teatro Russo – Literatura e Espetáculo.
Sem t’tulo-6Em Teatro de Animação, Ana Maria Amaral analisa como bonecos, máscaras, objetos e sombras são capazes de representar, com sensibilidade e poesia, pessoas, animais e ideias abstratas. No teatro de animação, os recursos convencionais de voz e corpo cedem lugar a uma experiência cênica que exige outras técnicas para estimular a imaginação do espectador. Ana Maria Amaral reflete sobre a história dessa manifestação artística e discute seu papel em instigar novas formas de fazer, ver e entender o teatro.
Sem t’tulo-10Tragédia Grega – O Mito em Cena, é um ensaio em que Daisi Malhadas traça as origens da tragédia, descreve as representações em Atenas e analisa a presença do gênero no Brasil. Professora e pesquisadora da Unesp, a autora faz uma releitura crítica do teatro clássico e, de modo claro e inovador, fornece um contraponto à teoria aristotélica, segundo a qual existe uma superioridade da arte literária em relação ao teatro.
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Esta edição de Meu Fausto (Esboços), de Paul Valéry, tem apresentação de João Alexandre Barbosa; Introdução, Tradução e Notas de Lídia Fachin e Sílvia Maria Azevedo. Valéry, então um homem de sessenta e dois anos, se apaixona pela jovem Jeanne Loviton, que irá abandoná-lo para se casar com o editor Robert Denöel, ao final, assassinado em 1944, por ter colaborado com os nazistas. O poeta jamais vai se recuperar do duro golpe, e morre no verão de 1945. Por isso, Meu Fausto, que se esperava seria a grande realização de Paul Valéry, permanece na condição de esboço, uma obra aberta à espera de continuidade nas recriações futuras do mito do Fausto.
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Teatro Russo – Literatura e Espetáculo, traz um amplo debate sobre os mais variados aspectos, que cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia. Organizado por Arlete Cavaliere e Elena Vássina, o livro faz um exame atento da interação orgânica entre as diferentes linguagens, que conformam o ato teatral. Assim, os textos deste volume interessam pelo alto grau de inovação investigativa na abordagem de questões cruciais para os estudos do fenômeno do teatro, tais como a arte do ator e a do encenador, a função do diretor, o papel do dramaturgo e do texto literário, a criação do cenógrafo e do coreógrafo na estruturação do texto cênico.
Saiba mais em: http://www.atelie.com.br/livro/especial-teatro/

 
Serviço
Pacote Especial Teatro: R$ 85,25

Teatro de Animação
ISBN: 85-85851-25-2
Número de páginas: 128
Edição: 3ª
Ano: 2007 (1ª edição: 1997)

Tragédia Grega – O Mito em Cena
ISBN: 85-7480-187-9
Número de páginas: 111
Edição: 1ª
Ano: 2003

Meu Fausto (Esboços)
ISBN: 978-85-7480-542-9
Número de páginas: 176
Edição: 1ª
Ano: 2011

Teatro Russo – Literatura e Espetáculo
ISBN: 978-85-7480-567-2
Número de páginas: 432
Edição: 1ª
Ano: 2011

Sobre a Ateliê
A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).
Site: www.atelie.com.br
Blog: blog.atelie.com.br
Twitter: @atelieeditorial
Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

Contatos para Imprensa:
Milena O. Cruz
imprensa@rda.jor.br
Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

Ateliê Editorial coloca novo site no ar

Com um design totalmente remodelado, a página apresenta novos conteúdos e mudanças para facilitar navegação dos amantes de livros

SiteO acesso à página da Ateliê Editorial ficou mais atrativo e fácil de navegar. Novos recursos estão disponíveis para compartilhar com o internauta informações de maneira mais moderna, dinâmica e intuitiva.

Agora o site é responsivo. Isso significa que ele se adapta às mais diferentes telas, permitindo que a navegação seja feita do tablet, do celular ou do computador tradicional. Assim, fica mais fácil que antes para o internauta encontrar o que precisa. E como a Ateliê sabe a importância que o leitor dá a livros bonitos e bem-acabados, o novo site tem um espaço ainda maior para as capas, no qual é possível conhecer cada detalhe e observar melhor as cores e as ilustrações. Além disso, ele apresenta informações mais profundas e detalhadas sobre cada obra. Dá até para baixar partes de alguns livros em PDF, saber melhor do que tratam e como cada autor enfoca o tema.

O novo site tem uma área reservada especialmente para que os leitores avaliem os livros. Para deixar uma opinião, basta estar logado como cliente. Essa é uma ferramenta que reforça o objetivo da editora de criar uma comunidade de leitores, que já vem acontecendo com a campanha #minhahistoriacomlivros. Usando a hashtag, os leitores podem compartilhar histórias e opiniões nas redes sociais. Agora, a ferramenta disponível no site amplia a possibilidade de interação. Na área do cliente também é possível criar a própria lista de desejos e assim concentrar em um só lugar toda aquela lista que – quem é leitor sabe – vive crescendo.

Mais um ponto positivo é que o site disponibiliza o histórico de compras do cliente, fazendo com que seja mais simples saber o que já se tem ou não. Por meio do rastreamento de entrega, também é possível saber o status do pedido: se o pagamento já foi aprovado, se o livro já foi postado no correio e qual a previsão de chegada. E como não podia deixar de ser, a economia também tem lugar garantido no novo site da Ateliê. Foi criada a seção Outlet, na qual o leitor encontra livros em promoção a preços realmente baixos. Outra novidade são os cupons de desconto, que podem ser adquiridos de muitas formas diferentes. Acesse www.atelie.com.br e veja todas essas mudanças.

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

 

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

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Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

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Março, mês da poesia (seleta)

Março é o mês da poesia. No dia 14 é comemorado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. No dia 21, celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, em 1999, para promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo. A data lembra da importância da diversidade do diálogo, da livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação e tem como propósito estabelecer uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa. Por isso, hoje, no Blog, alguns autores da Ateliê indicam a leitura de poemas de seus mais recentes livros:

Renato Tardivo (Girassol Voltado para a Terra)

grassol

Canção

                                        caminhava pernas fracas pisando

teclas riscando notas na terra a embalar a vida que a espe-

rava uma oitava acima, qualquer

 

Ponteiro

Às vezes o passado. Às vezes, o passado. Às vezes o, passado.

 

Ida

O medo de que o outro se apaixone como lembrança
encobridora de] se apaixonar como lembrança encobridora
de amar a si mesmo sobre todas as coisas como lembrança encobridora do desejo de
morrer.

Ricardo Lima (Desconhecer)

desconhecer

p.17

admito não saber
onde anda o futuro

dedico dias inteiros
às asas cruas do filho que aprende a nadar
planto
rego
retiro ervas daninhas

a manhã traz pássaro
que se esborracha no vidro
a acácia
refletida em estilhaços
retumbante amarelo.

 

p.21

quando um amigo se vai
o silêncio que amplia a sala
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos
sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor
mas o amigo se foi.

 

p.47

não tenho mais olhos para dicionário

as letras ficaram pequenas

o sentido frágil
agora outros compromissos

com amigos ausentes

em jantares e missa

 

vivo

entre livros

e árvores

em nenhum

respostas ou raposas
quase sempre um cão em silêncio
e a alma colhe

lugares

que nunca

olhei.

 

Marise Hansen (Porta-retratos)

portaretrato

Passo à palavra
Passo
À palavra
Peço

        Me refugio
Na palavra
Me alivio

Me liberto
Na palavra
Me desperto

            Falo
Pela palavra
Espero
Apelo
Para a palavra
Paro

Koan
Entre a poesia do dia a dia e a da filosofia

Fico com o sonho

Da padaria.

Inverso
Escrever em verso
é criar ritmo até então
inexistente neste (pelo menos)
universo.

Criar consórcio
entre palavras entre
outras, divórcio.

Usar a roupa do avesso
e descobrir
ser inverso o lado certo.

Ter compromisso com o partido
do conciso e com a total falta
de juízo.

Wassily Chuck (Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se)

 Capa

A Celan

Nessa viagem, nenhuma bagagem, além

do vazio na concha das mãos.

 

Deixa tua fala

para trás, tua última

máscara,

e sente

a carência de ser,

o vazio

que germina

e há de ser tua voz. Sete

sonos mais dentro, vem

um verso junto

ao mar.

 

 

Quase Elegia

Toda voz que morre escorre para o mar.

 

 

Tudo se foi, até o que virá, levado

pelo sopro que vem do mar. Mas,

só é belo o dia porque finda.

Também o vento. Também

a vida. Vê:

não há poemas no eterno. Só

nasce a beleza no instante,

que, leve, se equilibra

entre o erguer e o quebrar

da onda. Nasce

com as cores do adeus. Nasce

para morrer. Como o dia

e o homem. Como a vida. Vê:

toda beleza é triste. E um resto

de verso, ao lado da voz,

insiste em ficar, feito

um consolo, talvez,

da vida pouca que há na vida,

da morte muita que há também,

um resto de verso

consolando

da tristeza de todo verso, da vida

que nunca basta, sempre o sonho

a completá-la, o sonho

que é sempre a vida.

 

Tübingen 

Do convés da alma, avistas vazios

que não podes nomear.

 

Repouso algum, sob um céu

que não mais dá frutos –

o ponto em torno ao qual

gravita o verso

agora está

no vento. Sobre

o Neckar,

a voz ainda vagueia

atrás do vento, distraindo,

sem ver, a solidão

dos campos.

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Ateliê lança Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz

Obra da coleção Estudos Literários chega ao número 50 e apresenta quatro ensaios de leitura crítica de poesia

Lítica“Lítico” é o adjetivo relativo à pedra e Mario Higa, em Matéria Lítica, reuniu poetas conhecidos por usarem o mineral em suas obras literárias. A presença da “pedra”, portanto, é o ponto de partida para ajudar o leitor a entender e interpretar textos de quatro poetas latino-americanos do século XX.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central. Higa conta que esse poema fez com que Drummond muitas vezes fosse chamado, na maioria com sentido pejorativo, de poeta da pedra, por conta de sua ‘pedra no meio do caminho’.

Em Matéria Lítica o autor, que é professor assistente do departamento de Espanhol e Português do Middlebury College (Vermont, EUA), adotou um método crítico que entende o texto poético como um objeto dinâmico, que formula problemas ou impasses interpretativos. Nesse sentido, ele diz: “Nos capítulos deste livro, o poema constituirá o espaço onde o ‘combate entre clareira e ocultação’ se trava diante do leitor, combate que busca não apenas fazer emergir pela abertura, ou clareira do poema, o sentido que se oculta nos interstícios de sua malha textual, mas também, e sobretudo, o efeito de espanto do pensamento que a desocultação desse sentido produz.”

 

Coleção Estudos Literários

O lançamento de Matéria Lítica é marcado por ser o 50º título da coleção Estudos Literários, que nasceu em 1999. O objetivo é levar ao grande público, interessado pelo universo da literatura, estudos e pesquisas acadêmicas que, sem a existência da coleção, só chegariam ao conhecimento de um número restrito de pessoas. Para fazer parte da coleção, os trabalhos acadêmicos ganham uma edição cuidadosa e um belo projeto gráfico para que levem um conteúdo rico, de maneira agradável, aos leitores. Assim, a coleção dá espaço à nova geração de pesquisadores brasileiros e permite o conhecimento de ideias originais e contemporâneas.

 

Serviço

Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz

Formato:  12,5 x 20,5 cm

Número de páginas: 304

ISBN:978-85-7480-726-3

Preço: R$ 44,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br

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Contatos para Imprensa:

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Raduan Nassar concorre ao Man Booker Prize

Por Renata de Albuquerque

Raduan Nassar foi indicado ao Man Booker International Prize, um dos mais importantes prêmios literários do mundo. Sua obra A Cup of Rage (tradução de Stefan Tobler para Um Copo de Cólera), publicado pela Penguin Modern Classics, foi uma das treze escolhidas pela comissão julgadora em um universo de 155 títulos participantes.

Esta é a primeira vez que obras traduzidas concorrem á premiação e, apesar de Um Copo de |Cólera ter sido lançado em 1978, só recentemente foi traduzido para o inglês, o que permitiu que participasse da seleção do Booker Prize. A lista final de concorrentes, com apenas seis títulos, será divulgada em 14 de abril e o vencedor será conhecido em 16 de maio. O prêmio vai pagar 50 mil libras, valor a ser dividido entre autor e tradutor.

Raduan Nassar tem apenas três obras editadas em livro. Além da novela Um Copo de Cólera, publicou o romance Lavoura Arcaica e o conto Menina a Caminho. Apesar de pequena, sua obra é uma das mais interessantes e singulares da literatura nacional do século XX. Tanto assim que é objeto de diversos estudos  críticos, entre eles Porvir que Vem Antes de Tudo: Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo.