Monthly Archives: fevereiro 2016

Prazo para inscrições para concurso literário AFEIGRAF acaba em 31/3

concurso afeigraf

O Concurso Literário da AFEIGRAF – Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica – está com inscrições abertas até o dia 31 de março.

São quatro categorias: Livro infantil ilustrado, Livro de ficção (ilustrado ou não), Livro de não-ficção  (ilustrado ou não) e Livro de Poesias. O concurso aceita apenas obras inéditas, de autores brasileiros ou estrangeiros. As inscrições são gratuitas e os vencedores serão conhecidos no segundo semestre.

Mais informações aqui.

Forte, feito palavra

Renato Tardivo*

tripe

Tripé é um dos primeiros livros daquele que viria a ser um dos escritores brasileiros mais reconhecidos e premiados de sua geração. Rodrigo Lacerda estreou em 1995 com O Mistério do Leão Rampante, obra que lhe rendeu um Jabuti na categoria Romance (aos 27 anos apenas).

Tripé foi publicado em 1999 e, conforme indicação do título, divide-se em três partes. A primeira traz três textos cujo formato se aproxima da crônica – retratos do cotidiano, falas de crianças, o mundo interno do cronista. Na segunda parte, há duas narrativas inventivamente escritas em formato de roteiro (Teatro? Cinema? Novela? Projeto de romance?), mas que em sua dinâmica avizinham-se do conto e da novela – ambas com fortes traços rodriguianos. A terceira parte traz três textos – desta vez, contos, no sentido forte do termo.

Sabemos que três pontos formam um – e apenas um – plano e que por isso são emblemas de estabilidade, equilíbrio. Nesse sentido, o “tripé” do título não se refere à reunião aleatória de três seções que, bem escritas, poderiam resultar em um projeto equilibrado.

Mais que isso, muito sutilmente e com a habilidade que conheceríamos em seus demais livros, o jovem Rodrigo Lacerda brinca com aspectos estruturais da linguagem, habitando-a por dentro. O tripé perpassa os três pontos.

O último conto sintetiza a tese do livro:

“A consciência dos homens é sustentada por um tripé. O primeiro pé traz a observação da realidade cotidiana, pura e às vezes até prosaica. O segundo é onde a subjetividade de cada um se encontra com o mundo real, distorcendo-o fatalmente. O terceiro é exclusivo dos sonhos e das fantasias, ou dos pesadelos. É este que me prende aqui. Nunca vou poder sair. Tenho um pesadelo que não vai embora.”

Neste conto derradeiro – “Hospital” –, histórias narradas anteriormente retornam, não vão embora. Onde o prosaico e o infantil tornam-se fatalidade, e a fatalidade retorna em fantasias ou pesadelos, resta a certeza: enquanto houver vida, o esqueleto irá se sustentar – sólido, equilibrado, forte – feito palavra.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou, entre outros, os livros Girassol Voltado para a Terra (Ateliê), Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Poesia e Erotismo – Breve Nota sobre a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”

Paulo César Cedran*

“São misteriosos o laços que unem a poesia ao erotismo”.
Eliana Robert Moraes

Antologia da Poesia Erótica Brasileira

Das temáticas que já abordei em meus artigos, acredito ser esta uma das mais difíceis de lidar, em especial pelo preconceito e pelos estereótipos que envolvem a temática erótica. O brilhante ensaio que apresenta a Antologia da Poesia Erótica Brasileira escrito pela Prof. Dra. Eliane Robert Moraes e intitulado “Da Lira Abdominal”, apresenta com propriedade esta temática contada em verso nos poemas selecionados.

Mesmo assim, tomei a liberdade de tentar apresentar suas principais considerações quanto à singularidade da poesia erótica brasileira. Eliane busca essa singularidade na idade do ouro do lirismo grego e, em especial na poesia de Safo – poetisa de Lesbos que inaugura a poesia erótica ocidental, sob a temática da homossexualidade feminina. Da insinuação que a imaginação tem em prolongar o encontro amoroso, o passo a seguir será o de considerar que esse prolongamento se manifesta de forma múltipla, seja na pintura, na música e no gênero literário. Neste, o destaque é dado ao poema.

O erotismo, considerado por muitos críticos como um tema de segunda categoria ou mera pornografia, encontrou no poema um terreno em que se torna uma temática recorrente às diversas escolas literárias, que no Brasil nasce com Gregório de Matos e chega a Arnaldo Antunes. Assim, no corpus da obra procurou-se levar em conta tanto as formas literárias populares quanto as eruditas que trataram da temática erótica.

Dessa forma, o chamado rebaixamento da temática pode ser compreendido em duplo sentido, ou seja, o sentido literal por tratar os poemas das partes baixas do corpo humano; como também no sentido metafórico, por tratar de uma forma de amor degradada e/ou centrada no aspecto sensual  e nada sublime do modus vivendi do amor ocidental. Como lidar com esse impasse? Como fugir do lugar comum do explícito que caracteriza o pornográfico, sem deixar que o erotismo vulgarize a temática afetiva? A solução proposta por Eliane Robert Moraes isenta e ironicamente redime os supostos perversos interessados na antologia.

Ítalo Calvino (1923 - 1985)

Ítalo Calvino (1923 – 1985)

Ao buscar em Ítalo Calvino uma chave para a interpretação e solução deste impasse, assim afirma: “Ao submeter a referência sexual a uma estilização, o escritor fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado como formula Ítalo Calvino, ‘aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa’, sendo que ‘essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável.’” (MORAES, 2015, p.27).

Sob esta perspectiva outros olhares desafiantes e libertos da pecha do pecado podem olhar o erótico sob o cunho religioso ou até mesmo filosófico nos moldes propostos por exemplo pelo Kama Sutra indiano. Nos dias de hoje a vulgarização e a banalização do sexo se encontra no auge da fomentação e criação de distorcidos seres desejantes e menos alcançados, que é a união por meio de Eros. Como afirma Claude Calame na obra Eros na Grécia Antiga: “não corresponder ao amor que se oferece, é, portanto, recusar ou romper o contrato de fidelidade que a philotês estabelece, particularmente, pela ligação erótica; e, assim, cometer um ato injusto. (CALAME, 2013, p.18).

Busquemos essa união na fidelidade que se realiza não na mercantilização do corpo tomado como objeto, mas na necessária erotização que divinamente nos humaniza.

*Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e da Iesp de Taquaritinga.

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Concurso Fundação Eça de Queiroz tem inscrições prorrogadas

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Foi prorrogado o prazo para quem quiser inscrever-se no Prêmio FEQ Edição 2015/2016. Agora o prazo vai até 1º de maio deste ano.

São aceitas obras literárias (romance ou conto) inéditas e trabalhos acadêmicos (ensaios) já entregues para avaliação antes de serem submetidos à comissão julgadora do concurso.

Os trabalhos devem ter ligação com o universo literário de Eça de Queiroz e/ou da “Geração de 70”, nomeadamente nas áreas dos estudos literários, estudos históricos, estudos culturais, estudos ecoliterários e outros.

 

Mais informações: http://www.feq.pt/premio-feq-edicao-2015-2016.html

 

 

A arte do encontro

Leia a seguir o depoimento de Pedro Henrique Varoni de Carvalho, autor de A Voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que encontrou com o artista baiano em pleno carnaval:

varoni com gil 3

Chego de véspera para o compromisso, vindo de carro de Aracaju com minha mulher, Adriana, e meu filho, Gabriel. Salvador respira carnaval, dois dias antes da abertura oficial. Hospedo-me num hotel no corredor da vitória, numa alameda arborizada margeando a Baía de Todos os Santos. No fim de tarde, refaço os poucos metros que levam até a porta do apartamento de Gilberto Gil.  Deixo-me invadir por uma espécie de beatitude – a cidade anda nos meus passos: gente, cores, arquitetura,cheiros. É uma preparação para usufruir da melhor forma o encontro, marcado para o dia seguinte. Estou aqui para entregar uma cópia do livro A voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, publicado pela Ateliê e Edunit e baseado em  meu trabalho de doutorado na Universidade Federal de São Carlos. Estive com ele antes, rapidamente, para entregar a tese no ensaio de um show em Ribeirão Preto, há pouco mais de dois anos. Muita coisa mudou na minha vida desde então, mudei de emprego, de cidade. Estou próximo de realizar algo impensável para o adolescente, fã da música de Gilberto Gil: ser recebido por ele em casa para uma conversa. Não ia como jornalista e nem pesquisador. É o momento de agradecer, compartilhar a boa acolhida que o livro tem tido em alguns lançamentos.

voz que canta

No dia seguinte faço o caminho ensaiado no dia anterior – dessa vez, acompanhado por Adriana. Agora é pra valer. Transpomos a portaria, caminhamos os metros que separam a área comum do prédio até o elevador e tocamos a campainha. A moça que nos atende pede para esperar um pouco porque Gil está chegando de um compromisso. Na sala ampla, conversamos sobre aquele momento, folheio um livro do fotógrafo Mário Cravo Neto com imagens representativas da diversidade cultural de Salvador: A Roma negra cantada por Gil. Um pouco mais e escuto pelos fundos da casa a algazarra das crianças chegando de um passeio com o avô. Gilberto Gil chega à sala de bermuda branca, sandálias de borracha e camisa de estampas tropicais. Caminha em nossa direção e após os cumprimentos se senta num banco em frente ao sofá onde estamos. Agradeço a acolhida e encontro um interlocutor afetuoso, interessado em saber as histórias de minha vida: como foi o processo de escrita do livro, como equilibrava a função de jornalista de televisão com a pesquisa. Por um momento parece que ele é o jornalista e eu o entrevistado.

 

gil2Depois de alguns anos vasculhando a obra do artista procuro agora ler o homem. Os olhos muito vivos, uma disposição para a escuta, aqui e agora em atenção plena. Agradeço por ser recebido em pleno carnaval, em meio aos compromissos com o camarote Expresso 2222, já tradicional na Bahia. Há, entre as falas e pausas, pequenos silêncios cheios de sentido. A conversa é sobre pais e filhos, tradições familiares.  Gil fala da experiência de tocar no bloco de Preta Gil, dias antes no Rio. “Nunca deixamos de criar os filhos, quis ir lá ver como é.” Lembra que já é bisavô – o que me leva a pensar na verve roqueira presente na interpretação de “Punk da Periferia”, no show pelo aniversário de São Paulo exibido dias antes na TV.

Pergunto se o espírito do carnaval ainda aquece seu coração. Gil acha que a cidade fica melhor nessa época e lembra como os antigos carnavais de Veneza duravam meses. “Talvez seja a hora de retomarmos esse hábito”, diz ecoando a risada aberta e franca. Falamos da crise brasileira, da importância do carnaval como afirmação de uma identidade balançada pelas derrotas no futebol, na política. O carnaval como rito de fortalecimento coletivo e individual. Confirmo uma impressão que já tinha a respeito de Gil: o ar sereno e calmo de quem, como o Dorival Caymmi cantado por ele é Buda Nagô, contrasta com a figura eletrizante nos palcos, quando ele se entrega à Deusa Música.

varoni com gil1A conversa desliza para indagações filosóficas sobre o mundo dos silêncios interiores que perdemos nesse processo intenso de refinamento dos mecanismos de controle com ares de inovações tecnológicas. Quais os rumos da história nessa segunda década do século XXI? A conquista ao direito a seis meses de carnaval ou a volta triunfal do ET de Varginha? A pergunta provoca novas risadas e recordações de uma dascanções mais filosóficas de Gil: “Queremos saber”. Ele cantarola a letra: “queremos saber/quando vamos ter/raio laser mais barato/queremos de fato um relato / retrato mais sério/ do mistério da luz/ luz do disco-voador/ pra iluminação do homem/ tão carente e sofredor/ tão perdido na distância/ da morada do Senhor.”.

É hora da despedida. No abraço final desejo, espontaneamente, vida longa ao poeta. Ele nos acompanha até a porta. É inicio da noite no Corredor da Vitória, foliões caminham em direção a Praça Castro Alves. Sigo em paz e procuro, no fundo do hotel, um canto inacreditavelmente silencioso.  Peço uma cerveja e contemploas águas calmas da Bahia de todos os santos, indiferentes ao carnaval. Penso nas pontes: entre Caymmi e Gil, entre a Bahia e Minas, entre sujeitos e objetos. Tenho vontade de ouvir a voz dos meus pais e ligo para minha terra.

Como incentivar os alunos à leitura?

Por: Paulo Cesar da Motta Ribeiro*

livro com flor

Início de ano letivo. Hora de usar a criatividade para (re)inventar maneiras de lecionar conteúdos e de pensar como superar velhos obstáculos, que se renovam a cada turma de alunos. Um deles diz respeito a como incentivar os alunos à leitura, sem fazer disso uma obrigação maçante e despertando interesse real pelo mundo de possibilidades que ela pode descortinar. E não é apenas no Ensino Fundamental e Médio que esse hábito pode (e deve) ser incentivado. O Professor Paulo Cesar da Motta Ribeiro, que leciona na FURB (Universidade Regional de Blumenau) e na UNIFEBE (Centro Universitário de Brusque), em Santa Catarina, explica como tem feito para trazer a leitura para mais perto de seus alunos. Ele é economista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela mesma instituição. Empresário, autodefine-se como “audiófilo, bibliófilo, cinéfilo e amante do que a vida tem de melhor”. Por isso, é grande seu empenho em trazer seus alunos cada vez mais perto dos livros. A seguir, ele compartilha sua experiência com os leitores do Blog da Ateliê:

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Minha condição de amante da literatura pode ser em parte explicada pelo fato de que na formação e na atuação como Economista a leitura é primordial, não apenas de livros-texto como de obras em geral para melhorar a base de conhecimentos. A utilização de filmes e documentários também auxilia na formação acadêmica e profissional. Em sala de aula eu sempre pergunto a cada aluno qual livro ele tem em mãos e, naquele momento, converso com o aluno e seus colegas sobre literatura. Como, nessas abordagens informais, ocorriam cada vez mais e mais conversas sobre livros, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre as leituras recentes dos alunos. É fácil, basta pedir para que anotem no cabeçalho da primeira prova qual sua leitura atual ou mais recente.

Eu coleto todos os títulos e autores citados, pesquiso para garantir que estejam corretos, informo também minhas leituras e repasso a lista completa para toda a turma.

aldous huxley

Aldous Huxley, um dos autores que o professor sempre recomenda

Os resultados são ótimos. O nível de leitura é mais alto do que a maioria pode imaginar, sendo que alguns leem em outros idiomas. Eu descobri obras magníficas a partir desta pesquisa e já li alguns títulos das listas dos alunos.

Segue um resumo das turmas de 2015:

244 alunos com 191 respostas, sendo que aproximadamente 20% informaram dois ou mais livros.

A faixa etária é a dos estudantes do ensino superior, notadamente das graduações em Engenharia (minha principal disciplina é Engenharia Econômica).

No rodapé das provas eu sempre indico alguns livros e filmes para que eles entendam que a realidade não é exatamente aquela que eles percebem. Alguns ainda se iludem, idealizam, mitificam e se deixam levar por influências que pouco têm de honestas e, atualmente, democráticas.

Há anos o “trio de ferro” de minhas indicações é:

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

1984, George Orwell

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Eu explico a eles o que são obras distópicas e como elas podem nos ajudar a entender o mundo e como melhorá-lo. Segue parte do texto que eu coloco no rodapé das provas:

Ray Bradbury: autor de distopias

Ray Bradbury

Fahrenheit 451′ de Ray Bradbury. O livro foi publicado em 1953 e fatos descritos na obra fazem parte de nosso dia a dia (na obra consta inclusive a explicação do motivo pelo qual acontecem). Além disso, o seu entendimento sobre o papel da cultura e da informação será irremediavelmente transformado. Também existe uma película de François Truffaut.’

Outra sugestão que eu faço é: O homem medíocre, de José Ingenieros.

Em virtude da minha base de conhecimentos não se limitar aos livros-texto, eu sempre utilizo nas aulas conteúdos que no princípio parecem que não se relacionam, ou até que são uma viagem, mas que facilitam a aprendizagem. Meus alunos estão acostumados a receberem sugestões de filmes e documentários para melhor entender os conteúdos ministrados.

Eu sempre informo na primeira aula em todas as turmas que o meu objetivo principal é o desenvolvimento pessoal e profissional deles. Que o meu papel é o de ser aquele que abre as mentes para que eles melhor se posicionem na vida com bases sólidas, portanto verdadeiras. E a literatura permite que eles melhor se preparem para assimilarem muito do que o mundo pode proporcionar.

 

E você, leitor-professor, tem alguma sugestão ou dica de como estimular a prática da leitura junto aos alunos? Mande uma mensagem para a gente, compartilhe seus conhecimentos!