Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (segunda parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

cancioneiro

Terceira Sugestão.

Situe-se, mesmo que precariamente, em relação ao espaço e ao tempo do Cancioneiro. Imagine-se na Itália dividida em principados e ducados entre 1304 e 1374. Se você julgar complicado transportar-se a tempos tão recuados, faça de conta que está em Florença, onde nasceram os pais do poeta. Depois viaje até Arezzo onde o poeta nasceu, cidade mundialmente célebre pelos afrescos sobre “A Legenda da Santa Cruz”, com que Piero della Francesca adornou a capela-mor da Basílica de São Francisco (Piero nasceu 36 anos após a morte do poeta). Transfira-se para esse período. Após tal tomada de posição, esqueça espaço e tempo, e faça um esforço de reimplantação da Natureza, não propriamente no espaço territorial da Itália, mas no contexto dos versos do poeta. No tempo dele não havia energia elétrica, nem transportes rodoviários e ferroviários. As cidades já eram populosas quando chegavam a 100.000 habitantes. Digo-lhe isso porque as pessoas de então nem tinham sequer descoberto o gosto pelas paisagens. A luta pela vida, o esforço para extrair do chão a alimentação, era tão áspero, que não sobrava tempo para contemplar o entorno. Os homens dessa época olhavam unicamente para o céu, para pedir a Deus bom sol e chuvas moderadas que favorecessem as colheitas. Não esqueça que Petrarca foi o primeiro homem a escalar um monte – o Ventoux – porque desejava gozar de uma verdadeira paisagem. Um autor francês chamou-o, já em 1914,“o primeiro turista, o primeiro alpinista dos tempos modernos”.[1] Depois de você estar bem posicionado em termos de espaço e tempo, prepare-se para uma surpresa: o primeiro poema do Cancioneiro não é um olhar para fora, é um olhar para dentro. É um olhar moderno. Até então, o universo subjetivo, que hoje nos obsessiona, e que acabou por favorecer-nos com um Comandante Cousteau da psique humana, Sigmund Freud, ainda não existia. Um dos primeiros exploradores da subjetividade foi o próprio Petrarca, considerado criador do lirismo ocidental, pioneiro da prospecção das jazidas até certo ponto insondáveis de nosso subconsciente e inconsciente.

LEIA A PARTE 1 DO TEXTO AQUI

[1] Henri Hauvette. Littérature Italienne. Troisième édition. Paris, Librairie Armand Colin, 1914. p.128.

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