Monthly Archives: dezembro 2015

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (segunda parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

cancioneiro

Terceira Sugestão.

Situe-se, mesmo que precariamente, em relação ao espaço e ao tempo do Cancioneiro. Imagine-se na Itália dividida em principados e ducados entre 1304 e 1374. Se você julgar complicado transportar-se a tempos tão recuados, faça de conta que está em Florença, onde nasceram os pais do poeta. Depois viaje até Arezzo onde o poeta nasceu, cidade mundialmente célebre pelos afrescos sobre “A Legenda da Santa Cruz”, com que Piero della Francesca adornou a capela-mor da Basílica de São Francisco (Piero nasceu 36 anos após a morte do poeta). Transfira-se para esse período. Após tal tomada de posição, esqueça espaço e tempo, e faça um esforço de reimplantação da Natureza, não propriamente no espaço territorial da Itália, mas no contexto dos versos do poeta. No tempo dele não havia energia elétrica, nem transportes rodoviários e ferroviários. As cidades já eram populosas quando chegavam a 100.000 habitantes. Digo-lhe isso porque as pessoas de então nem tinham sequer descoberto o gosto pelas paisagens. A luta pela vida, o esforço para extrair do chão a alimentação, era tão áspero, que não sobrava tempo para contemplar o entorno. Os homens dessa época olhavam unicamente para o céu, para pedir a Deus bom sol e chuvas moderadas que favorecessem as colheitas. Não esqueça que Petrarca foi o primeiro homem a escalar um monte – o Ventoux – porque desejava gozar de uma verdadeira paisagem. Um autor francês chamou-o, já em 1914,“o primeiro turista, o primeiro alpinista dos tempos modernos”.[1] Depois de você estar bem posicionado em termos de espaço e tempo, prepare-se para uma surpresa: o primeiro poema do Cancioneiro não é um olhar para fora, é um olhar para dentro. É um olhar moderno. Até então, o universo subjetivo, que hoje nos obsessiona, e que acabou por favorecer-nos com um Comandante Cousteau da psique humana, Sigmund Freud, ainda não existia. Um dos primeiros exploradores da subjetividade foi o próprio Petrarca, considerado criador do lirismo ocidental, pioneiro da prospecção das jazidas até certo ponto insondáveis de nosso subconsciente e inconsciente.

LEIA A PARTE 1 DO TEXTO AQUI

[1] Henri Hauvette. Littérature Italienne. Troisième édition. Paris, Librairie Armand Colin, 1914. p.128.

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (primeira parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que, a partir de hoje e nas próximas quatro semanas, vamos publicar aqui no Blog da Ateliê algumas sugestões de como tornar a leitura do Cancioneiro mais aprazível e próxima do leitor do século XXI. O texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca é do  poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

“Sempre me interessei pela poesia de Petrarca. Não sou um entendido nela, mas um leitor apaixonado por ela. Escrevi este texto inspirado na  excelência da tradução do Pozenato, visto que que um leitor capaz de degustar o original italiano,  não precisa recorrer à versão esplêndida que o Pozenato realizou para a língua portuguesa. Meu texto é uma homenagem afetuosa ao Pozenato, para  agradecer-lhe o serviço que prestou à Cultura Brasileira. Não é admirável que um autor – do gabarito do Pozenato – dedique cinco anos a uma tarefa de tal envergadura?”, pergunta o autor, antes de iniciar suas sugestões:

cancioneiro

Capa da edição do Cancioneiro, que concorreu ao Prêmio Jabuti de tradução

Primeira Sugestão:

Siga ao pé da letra o conselho de Roland Barthes: deleite-se, primeiramente, com o prazer do texto. Na medida do possível – e do razoável – esqueça o que lhe ensinaram sobre os Clássicos, sobre sua perenidade, sobre o que teriam sido, ou poderiam ter sido. Ponha entre parênteses as elucubrações de historiadores da literatura e críticos. Seja você mesmo: saboreie o texto, o texto nu, a poesia de Petrarca na sua esplendorosa e erótica nudez de mulher que saiu do banho. Afaste de si as sutilezas de teóricos que tendem a considerar você um pobre diabo! Tenha auto-estima; diga-lhes que você é capaz de ler um grande clássico. mesmo que ele seja um gigante, e você um pigmeu.

 

 

Segunda Sugestão:

Agradeça ao ficcionista e poeta José Clemente Pozenato por ter traduzido essa obra-prima da literatura italiana, a maior de todas depois da Divina Comédia – ou melhor, ao lado dela. Agradeça-lhe o imenso serviço que prestou à literatura de língua portuguesa. Lembre-se de que, pela primeira vez em nosso idioma, alguém pode ler o Cancioneiro como ele é – ou como Petrarca teria apreciado que o lessem, se falasse a nossa língua. Antes de o Pozenato verter seus versos para nossos ouvidos – sim, principalmente para nossos ouvidos, uma vez que, no tempo de Petrarca, Gutenberg não havia inventado a imprensa – existia um hábito entre os medievais que praticamente esquecemos: a leitura em voz alta. Atente nisto: a tradução de Pozenato não só é uma recriação verbal de alta excelência, mas principalmente, constitui um esforço de invenção acústica a partir de uma criação melódica insuperável. Pozenato conseguiu quase sempre, diria gentilmente: sempre,  transpô-la para o português preservando-lhe a melodia de nascença. Cá e lá, o tradutor foi obrigado a recorrer a algumas jóias guardadas nos baús de cedro de nossos dicionários antigos, como o substantivo “louçania” e o adjetivo “loução”. Como manter em toda a versão, sem quebra de tensão e agrado, o tilintar saboroso das rimas? Lembre-se que boa parte do gosto de uma iguaria provém de seus condimentos. Na primeira vez que provamos determinado prato, podemos não apreciá-lo totalmente. Com o tempo, verificamos que seu sabor tornou-se para nós mais delicioso.

Nesta altura, não considero inoportuno referir a você um episódio pessoal: em 1960, tentei pela primeira vez ler o Cancioneiro na sua versão original. Vi logo que não possuía vocabulário suficiente para tal aventura, tampouco argúcia e finura para apreender os requebros lexicais e sintáticos de seu autor. Anos depois, aventurei-me novamente a ler o Poeta. Fiquei sempre com a sensação de o ter lido pela metade. Com a tradução do Pozenato, pude realizar uma leitura cuidadosamente bilíngue. Só então avaliei, com a devida justiça, o trabalho do tradutor! Ele será lembrado, em nossa terra, pelo apreciadores da grande literatura!

Retrospectiva 2015: o que ler agora?

Por: Renata de Albuquerque

“Finalmente!”. Essa é a sensação da maior parte das pessoas quando chega o final do ano. Afinal, esse é um momento em que (quase) todo mundo faz uma pausa no trabalho e nos estudos, para recuperar as energias para o ano que vai começar.

E, para quem gosta de ler, a pergunta que fica é: o que ler agora? Durante o ano todo priorizamos as leituras “necessárias” e deixamos as “prazerosas” para depois. Ou são os livros técnicos, ou são os didáticos e paradidáticos que acabam tomando o espaço de poesia, romance, contos e biografias.

Então, para ajudar na escolha das “leituras de férias”, a Ateliê faz uma Retrospectiva dos seus principais lançamentos do ano:

angu de sangue bxAngu de Sangue

Marcelino Freire

Estreia de Marcelino Freire como contista, neste ano o livro ganhou uma nova edição, em comemoração aos seus 15 anos de lançamento.

 

 

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Elaine Robert Moraes

Um dos maiores sucessos do ano, foi lançado durante a Flip e traz mais de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros.

 

 

 

kalevala capaKalevala – Poema Primeiro

Elias Lönnrot; tradução  Álvaro Faleiros e José Bizerril

Pela primeira vez esta parte do poema épico finlandês foi traduzida para o português. A edição estava esgotada e, em 2015, a Ateliê reeditou o volume.

 

 

 

capa mensagemMensagem

Fernando Pessoa

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. A apresentação é de António Apolinário Lourenço.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia É Criação: Uma Antologia

José de Almada Negreiros; Organização Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa

Antologia que reúne poemas, crônicas, contos, diferentes prosas e até desenhos do multiartista português.

 

 

 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom PantagruelO Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

François Rabelais; tradução Élide Valarini Oliver

Nesta tradução inédita, Élide Valarini Oliver desvenda dois trechos até então obscuros da obra clássica.

 

 

 


decioblogTerceiro Tempo

Décio Pignatari

O futebol visto pelos olhos do poeta concretista e a partir dos pés de craques como Ademir da Guia, Rivellino, Nilton Santos, Garrincha e Pelé.

 

 

 

 

voz que cantaA Voz que canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

O autor trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao Ministério da Cultura.

 

Ateliê fecha 2015 com poesia

Por Renata de Albuquerque

2015 foi um ano cheio de dificuldades: econômicas, políticas, sociais. Mas, como disse Nietzsche, “nós temos a arte para não sucumbirmos junto à verdade”. Por isso, a Ateliê resolveu apostar na poesia para celebrar o final do ano e presenteia seus leitores com três obras que, se não são feitas apenas de versos, tecem-se de poética, criam imagens cheias de significações transcendentes e fazem da linguagem uma ferramenta lúdica de fruição:

 

Desconhecer, Ricardo Lima

desconhecer

Obra contém 40 poemas, escritos ao longo de três anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Poema da página 11 de Desconhecer

nasci para cultivar

mundo

que não verei

 

neto do meu filho

cidadezinha asiática

sombra de algumas sementes

 

nasci para cultivar uma encosta

com floresta.

 

 

 

Girassol Voltado para a Terra, Renato Tardivo

grassol

A intenção de Tardivo era a de que seu terceiro livro de ficção fosse um romance. No entanto, ele explica, frases curtas, enredos concisos, mistérios cotidianos e existenciais foram surgindo.Depois de entrar nas redes sociais, diz, passou a se interessar pelo exercício da comunicação imediata e concisa.“Há um ou outro poema também, mas, em que se pese a transgressão de gênero, considero que se trata de um livro escrito em prosa”, define.

Metamorfose

Ela arrancou o texto à unha, enrodilhou-se em suas

frases. Envergonhadas, letras escorriam – como lágrimas –

das pernas.

 

Porta-retratos, Marise Hansen

portaretrato

Com apresentação de Ricardo Aleixo e quarta-capa escrita por Arnaldo Antunes, Porta-retratos é a estreia de Marise Hansen na poesia, que compila poemas escritos entre 2011 e 2014. Os temas variam: a lua, a solidão, o amor, a espera, o tempo, o mar, os mitos, mas costumam, em comum, estabelecer estreito vínculo com imagens, vistas sob novas perspectivas. “Muitos de meus poemas surgem de imagens, de momentos, de flagrantes. Gosto do ato de enquadrar, de encontrar ângulos, expressões de rosto, paisagens, contrastes e luzes”, esclarece a autora.

Peso Leve

Pesa

Transitar entre o invisível

Tanto quanto pesa

Esta poesia substantiva,

Tangível.

 

 

Esta poesia substantiva

De coisas e verbos

No infinitivo

Em que o tangível

É tão – e só –

Infinito.

 

Ateliê Editorial na 17ª Festa do Livro da USP

Nos dias 09, 10 e 11 de dezembro a Ateliê Editorial marca sua presença na 17ª Festa do Livro da USP.

17a Festadolivro_Usp

A Festa do Livro da USP é um dos mais concorridos eventos do mercado editorial, que recebe milhares de leitores em busca de livros de reconhecida qualidade editorial a preços reduzidos.

TODOS OS LIVROS COM NO MÍNIMO 50% DE DESCONTO.
Confira no Catálogo da Ateliê Editorial.

A Festa do Livro da USP este ano será na travessa C da avenida Professor Mello Moraes, entre a Raia Olímpica e Praça do Relógio Solar, na Cidade Universitária.

mapa usp

É a primeira vez que o evento ocupará um ambiente externo, numa rua fechada para o trânsito de veículos. Uma estrutura de três tendas galpões totalizará 3.600 m² para comportar as editoras e seu público. O público esperado é de cerca de 130.000 pessoas.
A Ateliê Editorial vai estar na Tenda Verde – Ilha 02.

Festa do Livro Usp Tenda Ateliê

Aguardamos sua visita

Festa do Livro da USP
Dias 09, 10 e 11 de dezembro de 2015
Das 9h às 21h
Av. Prof. Mello Moraes, travessa C
Mais informações: www.edusp.com.br/festadolivro

Fetichismos Visuais: as contradições da comunicação na metrópole contemporânea

Por: Renata de Albuquerque

Em Fetichismos Visuais– Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional, o antropólogo italiano  Massimo Canevacci lança um olhar sobre a experiência pós-moderna da cidade polifônica e suas contradições, lançando mão de um novo conceito: o metafetichismo. A seguir, Canevacci fala sobre o livro, que acaba de ser reeditado pela Ateliê Editorial:

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

Você optou por se distanciar das definições de Marx e Freud sobre fetichismo. Como define esse novo fetichismo que investiga no livro, à luz do mundo globalizado, da sociedade da informação e dos excessos em que vivemos?

Massimo Canevacci: Marx e Freud utilizam o conceito de fetichismo da mesma maneira colonial dos primeiros portugueses, que encontraram na África rituais sagrados que não entenderam e que classificaram como animistas, bárbaros, mágicos, primitivos. Feitiço é palavra que deriva da latim, facticius; isto é fabricado, coisa material sem espiritualidade. Por isso, animismo significa uma alma menor, uma quase-alma. Infelizmente, para Marx, fetichismo é parte da alienação; e, para Freud, da perversão (só masculina). Assim, eles continuam a utilizar esta palavra no sentido colonial e discriminativo, que foi difundido pelo pesquisador francês de Brosses. No sentido comum atual, fetichismo continua a ser estigmatizado como uma aura suja que circunda uma atitude ou define um site pornô. Para mim, o fetichismo visual – e ainda mais o digital – manifestam uma ruptura em relação a este sentidos clássicos ou populares. O conceito de fetichismo esconde um enigma que eu queria tentar de desvelar e que não é possível elaborar numa maneira tradicional.  Nesse sentido “cotidiano”, o fetichismo é aplicado à moda, publicidade, cinema, videoclipes, design, arquitetura e, claramente, no youporn. Mas esta palavra tornou-se vazia, porque não consegue penetrar o enigma daquele que se continua a chamar fetiche.

primeira capafetichismos_visuais

O que é o “além do metafetichismo”? Qual a metáfora possível?

MC: A minha tentativa vai na direção de liberar tendencialmente o fetichismo das incrustações coloniais e modernas que continuam a ser divulgadas na contemporaneidade. Uma tentativa de separar fetichismo da alienação   ou reificação. Observar a potencialidade  de um conceito que vai além do dualismo objeto/sujeito, além do pensamento dicotômico em geral e afirmar uma antropologia não-antropocêntrica. Neste sentido, uma coisa, um objeto, uma mercadoria  ou – na minha palavra que unifica tudo isso,  facticidade – é possível perceber um lado vivente, de entidade, que tem uma sua biografia e sempre mais também uma biologia.  O meta-fetichismo tenta explorar o além do domínio que em parte está ainda incorporado no tradicional fetiche e verificar  a potencialidade de libertação das coisas de não ser só útil. O meta-fetichismo é a metáfora do  desejo difundido da meta-morfoses: mudar identidades, prazeres, formas, “corpos”, vidas…

Como o fetichismo que você define se coloca diante da nova realidade do voyeurismo que passou a existir a partir do advento da internet (caso, por exemplo, dos reality shows, que fazem tanto sucesso)?

MC: Voyerismo e narcisismo são duas palavras-chaves que foram inventadas antes da revolução digital ou da pessoa “normal” que vira famosa – mais que no sentido de Warhol (dos quinze minutos de fama) – por um reality show. Voyerismo e narcisismo cruzam a tela do computador, skin and screen, carne e pixel, e fundamentalmente o inconsciente não é mais uma articulação  dentro o “eu”. Ele se estende fora do sujeito e vai incorporando uma dilatação onde orgânico e inorgânico se misturam sempre mais. Isto é, sujeito e objeito… ou tecno-digital e tecno-cultura. Assim fetichismo por um lado vira uma das possível perversão normalizada apresentada da comunicação atual, entre dezenas e de cenas de outras; por outro lado, para mim, vira só um slogan ou melhor um símbolo vazio sem sentido. Este voyerismo adéqua a sua potência ao nível mais “normal” (desculpe a palavra) que cruza as antigas divisões de classes e vira a potencia da banalidade que se autorrepresenta. E agora todo o  mundo se pode autorrepresentar. Esse é o desafio da política e da antropologia comunicacional.

Andy Warhol: "todos têm direito a 15 minutos de fama"

Andy Warhol: “todos têm direito a 15 minutos de fama”

Como se coloca, dentro de sua hipótese, a questão da visão psicanalítica do “constituir-se pelo olhar do outro” versus o “reificar-se no olhar do outro”? Há alguma síntese possível que possa acolher o conceito de metafetichismo?

MC:  A clássica dialógica, seja psicanalítica que antropológica ou narrativa,  sempre afirmou que o indivíduo é tal enquanto existe o olhar do outro. É o outro que constrói a minha identidade. Mas alguns autores (me refiro a Adorno) afirmam que é impossível anular cada elemento reificado; que existe uma relação complexa entre reificação e objetivação. Quero dizer que não é possível purificar cada objeto de fragmentos reificados. Para amplificar o discurso, precisamos dizer que entra em cena também a petrificação, ou seja: como o mito é ainda presente na cultura cotidiana em cada experiência metropolitana ou indígena.   A objetivação é a natureza mediada pela cultura; a petrificação é a ratio mediada pela mitologia; a reificação é o objeto mediado pela indústria. Uma síntese é impossível: a síntese e a dialética estão mortas. É possível só aceitar o desafio de sincretizar os olhares: o olhar nunca é puro ou autêntico, mas felizmente é sempre híbrido e cheio de sintomas que manifestam a impuridade reprimida pelo domínio não somente ocidental.

Como se constitui a relação entre coisa, criatura e cultura a partir do conceito de metafetichismo?

MC: Esta composição – conceito para mim determinante em direção a uma nova narrativa  antropológica – deseja misturar, cruzar e atravessar  artes, performances, contos, vídeos, “digital storytellers” onde o meta-fetichismo elabora nas pragmáticas indisciplinadas modos outros de enfrentar natureza/cultura, criatura/coisa, mito/razão. Eu acho que muitos artistas em sentidos expandidos (incluindo cientistas) ou rituais em parte consumados (carnaval ou mega-concertos) tentam elaborar  este meta-fetichismo além do colonialismo, da reificação, da perversão ou do sentido “comum”. Aqui nasce a aliança e a dança entre meta-fetichismo e meta-morfoses.