Preconceito racial?

Por: Renata de Albuquerque*

 

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra em 2003. A data lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695. Há quem diga que lembrar a data com um feriado não é necessário,  já que o Brasil é um país de mestiços e que a escravidão acabou há muito tempo. Mas será que não há mesmo racismo no país que foi o último de seu continente a abolir a escravidão, em 1888?

O preconceito no Brasil é tão forte que até mesmo Machado de Assis foi vitimado por ele. O escritor carioca, que fundou a Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros, passou por um processo de  “embranquecimento”.

No início do século XX – Machado morreu em 1908 – ainda era vigente o pensamento segundo o qual os negros não eram capacitados para o trabalho intelectual. Machado de Assis, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira de origem portuguesa, era descendente de escravos alforriados. Mas, para torná-lo um exemplo, um modelo brasileiro, foi preciso “branqueá-lo”.

Machado de Assis por volta dos 25 anos

Machado de Assis por volta dos 25 anos

A "foto oficial" de Machado de Assis

A “foto oficial” de Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo o atestado de óbito do escritor carioca afirma que ele era branco, ainda que sua máscara mortuária ateste o contrário. A foto “oficial” de Machado ameniza os traços africanos que ele pudesse vir a ter. Uma depuração que foi possível graças a uma prática comum de então: a reaplicação de produtos químicos para reavivar os traços das imagens. O cabelo alisado e esbranquiçado, a pele clareada; o nariz mais afilado; os lábios escondidos por barba e bigode, para parecerem mais finos na foto de perfil.

Em 1939, em pleno Estado Novo, comemorou-se o centenário de Machado de Assis. A Ditadura Vargas aproveitou a oportunidade para fazer dele um mito nacional. A exposição “Machado de Assis” foi organizada pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Estreou o  filme Um Apólogo – Machado de Assis, de Humberto Mauro, realizado pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Fotos de Machado “branqueado”  passaram a enfeitar escolas recém-inauguradas e sua imagem passa a ilustrar moedas de 500 réis.

Houve um tempo em que nem mesmo a qualidade literária daquele que muitos consideram o maior escritor brasileiro de todos os tempos não era suficiente para deixar a questão da cor da pele em segundo plano. Recentemente, em 2011, quando muitos achavam que o racismo era uma questão superada, a propaganda de um banco retratou o escritor por meio de um ator de pele branca.

O racismo ainda é uma triste realidade que ainda é preciso combater.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis.

 

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê

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