Monthly Archives: novembro 2015

10 livros mais vendidos do Black Week Ateliê Editorial

Preparamos uma lista dos livros mais vendidos do Black Week Ateliê Editorial para você aproveitar o último dia de descontos especiais.

Cancioneiro
Francesco Petrarca
De: R$ 160,00
Por: R$ 96,00
Cancioneiro de Petraca
Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Eliane Robert Moraes
De: R$ 82,00
Por: R$ 49,20
Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa
Paulo Franchetti
De: R$ 48,00
Por: R$ 14,40
Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa
 Almanaque Tipográfico Brasileiro
Carlos M. Horcades
De: R$ 61,00
Por: R$ 18,30
Almanaque Tipográfico Brasileiro
O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel
François Rabelais
De: R$ 120,00
Por: R$ 72,00
O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel
Ensaiando a Canção – Paulinho da Viola e Outros Escritos
Eliete Eça Negreiros
De: R$ 48,00
Por: R$ 14,40
Ensaiando a Canção – Paulinho da Viola e Outros Escritos
A Acústica Musical em Palavras e Sons
Flo Menezes
De: R$ 63,00
Por: R$ 31,50
Acústica Musical em Palavras e Sons
Bucólicas
Virgílio
De: R$ 64,00
Por: R$ 32,00
bucolicas
A Cultura Literária Medieval
Segismundo Spina
De: R$ 26,00
Por: R$ 10,40
 A Cultura Literária Medieval
A Arte Invisível ou a Arte do Livro
Plinio Martins Filho
De: R$ 25,00
Por: R$ 12,50
Arte Invisível ou a Arte do Livro

Veja as demais promoções do Black Week Ateliê Editorial.

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Conheça as obras sobre psicanálise já publicadas pela Ateliê

Primeiro Black Week Ateliê Editorial

Black Friday é um termo criado pelo varejo nos Estados Unidos para nomear a ação de vendas anual que acontece na sexta-feira após o feriado de Ação de Graças, que é a 4°quinta-feira do mês de Novembro. A ideia vem sendo adotada por outros países como Canadá, Austrália, Reino Unido, Portugal, Paraguai e Brasil. O primeiro Black Friday do Brasil aconteceu no dia 28 de novembro de 2010 e foi totalmente online. A data reuniu mais de 50 lojas do varejo nacional. (fonte Wikipedia)

Black Week Ateliê Editorial

Pela primeira vez a Ateliê Editorial marca sua presença vez no Black Friday com 180 títulos em promoção com descontos de 30 a 70%. Mas ao invés de um, serão cinco dias, é o Black Week Ateliê Editorial.

E o melhor de tudo, aqui o desconto é real sobre o preço de capa. Quem já comprou sabe que pode confiar, quem tiver dúvidas, pode pesquisar.

Tem descontos até em obras de autores premiados e alguns lançamentos recentes da editora. Confira alguns livros em promoção:

Viva Vaia – Poesia 1949-1979
Augusto de Campos
De: R$ 145,00
Por: R$ 87,00
Livro Viva Vaia
Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Eliane Robert Moraes
De: R$ 82,00
Por: R$ 49,20
Antologia da Poesia Erótica Brasileira
O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel
François Rabelais
De: R$ 120,00
Por: R$ 72,00
O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel
Poesia É Criação: Uma Antologia
José de Almada Negreiros
De: R$ 56,00
Por: R$ 33,60
Poesia É Criação: Uma Antologia
Casas Importadoras de Santos e seus Agentes
Carina Marcondes Ferreira Pedro
De: R$ 38,00
Por: R$ 22,80
Casas Importadoras de Santos e seus Agentes
Hannah Arendt – Ética e Política
Eugenia Sales Wagner
De: R$ 56,00
Por: R$ 33,60
Hannah Arendt – Ética e Política

Confira outras ofertas do Black Week Ateliê Editorial.

Preconceito racial?

Por: Renata de Albuquerque*

 

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra em 2003. A data lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695. Há quem diga que lembrar a data com um feriado não é necessário,  já que o Brasil é um país de mestiços e que a escravidão acabou há muito tempo. Mas será que não há mesmo racismo no país que foi o último de seu continente a abolir a escravidão, em 1888?

O preconceito no Brasil é tão forte que até mesmo Machado de Assis foi vitimado por ele. O escritor carioca, que fundou a Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros, passou por um processo de  “embranquecimento”.

No início do século XX – Machado morreu em 1908 – ainda era vigente o pensamento segundo o qual os negros não eram capacitados para o trabalho intelectual. Machado de Assis, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira de origem portuguesa, era descendente de escravos alforriados. Mas, para torná-lo um exemplo, um modelo brasileiro, foi preciso “branqueá-lo”.

Machado de Assis por volta dos 25 anos

Machado de Assis por volta dos 25 anos

A "foto oficial" de Machado de Assis

A “foto oficial” de Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo o atestado de óbito do escritor carioca afirma que ele era branco, ainda que sua máscara mortuária ateste o contrário. A foto “oficial” de Machado ameniza os traços africanos que ele pudesse vir a ter. Uma depuração que foi possível graças a uma prática comum de então: a reaplicação de produtos químicos para reavivar os traços das imagens. O cabelo alisado e esbranquiçado, a pele clareada; o nariz mais afilado; os lábios escondidos por barba e bigode, para parecerem mais finos na foto de perfil.

Em 1939, em pleno Estado Novo, comemorou-se o centenário de Machado de Assis. A Ditadura Vargas aproveitou a oportunidade para fazer dele um mito nacional. A exposição “Machado de Assis” foi organizada pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Estreou o  filme Um Apólogo – Machado de Assis, de Humberto Mauro, realizado pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Fotos de Machado “branqueado”  passaram a enfeitar escolas recém-inauguradas e sua imagem passa a ilustrar moedas de 500 réis.

Houve um tempo em que nem mesmo a qualidade literária daquele que muitos consideram o maior escritor brasileiro de todos os tempos não era suficiente para deixar a questão da cor da pele em segundo plano. Recentemente, em 2011, quando muitos achavam que o racismo era uma questão superada, a propaganda de um banco retratou o escritor por meio de um ator de pele branca.

O racismo ainda é uma triste realidade que ainda é preciso combater.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis.

 

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê

Conheça as obras sobre Machado de Assis publicadas pela Ateliê

A voz de Gilberto Gil

Por: Renata de Albuquerque

 

De fã a pesquisador. Essa é a trajetória que o jornalista e pesquisador Pedro Henrique Varoni de Carvalho percorreu para tentar apreender e explicar a trajetória de Gilberto Gil dos palcos ao Ministério da Cultura – posto que assumiu em janeiro de 2003, durante o primeiro mandato do  presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

voz que cantaVaroni é autor do livro A Voz que Canta na Voz que Fala: A Trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que acaba de ser lançado agora pela Ateliê Editorial. Na obra, ele trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

O autor, que é Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes (Aracaju/SE) e Diretor de Jornalismo da TV Sergipe (afiliada da Rede Globo em Aracaju), fala sobre sua obra ao Blog da Ateliê:

Como teve a ideia de escrever sobre Gilberto Gil? Quando a admiração de fã tornou-se curiosidade de pesquisador?

Pedro Henrique Varoni de Carvalho: As canções de Gil e Caetano foram uma descoberta da infância. Um tio tinha uma boa coleção de discos e fui seduzido pela sonoridade das canções. Poucas coisas são tão fortes como a gravação de “Aquele Abraço” ou o violão de “Expresso 2222”, pra ficar em alguns exemplos. Essas e outras canções de Gil sempre me impressionaram.   Ele é um artista que conjuga uma expressão poética densa, uma musicalidade rica e um jeito de interpretar as canções, bastante original. A curiosidade sobre a música orientou desde então meu trabalho de jornalista e pesquisador. Então as questões relacionadas à música brasileira estão, desde sempre, no meu campo de interesse.

Pedro-Varoni-2015

Pedro Varoni

Durante o Mestrado no Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos propus a noção conceito que seria trabalhada no Doutorado, a de arquivo de brasilidade baseada no pensamento de Foucault. O arquivo é tanto depositário da memória quanto o que garante as condições de enunciabilidade. Trata-se da busca de uma metodologia baseada na Análise do Discurso a partir das contribuições de Michel Pêcheux e Foucault para descrever e interpretar a história brasileira, tomando por referência a relação entre acontecimentos e memória.  Essas inquietações levaram-me ao tropicalismo como um momento histórico que instaurou outra ordem do discurso no meio cultural brasileiro.  As linhas de pesquisa do programa de Pós Graduação em Linguística da UFSCar tinham, naquele período, um foco na análise dos discursos políticos.   A imagem de Gilberto Gil tocando no plenário da ONU motivou a busca de respostas relacionadas às relações de saber e poder em torno da canção. O Ministro artista evocava outra imagem: a do jovem músico se apresentando no Festival da Record em 1967. Nessa fase da pesquisa estava sendo lançado o documentário “Uma Noite em “1967” que muito contribuiu para as reflexões do meu trabalho. Assim, Gilberto Gil aparece como uma síntese de alguns acontecimentos daquele momento: o encontro entre o artista tropicalista e o líder sindical tornado Presidente da República, as transferências simbólicas da política para a canção e da canção para a politica. Tudo isso a partir do referencial teórico metodológico da Análise do Discurso.

 

Como se deu o processo de pesquisa: como foi essa trajetória, quais as dificuldades encontradas no caminho?

PHVC: Era preciso separar, desde o início, o indivíduo do sujeito do discurso. Pela Análise do Discurso, o sujeito é interpelado pela linguagem, história e inconsciente.   Não há sujeito pleno como origem e fim do discurso, como não há assujeitamento pleno.  Assim, a dificuldade inicial era encontrar este sujeito do discurso por detrás dos aspectos biográficos.  A noção de subjetividade lançada por Foucault e trabalhada por outros autores foi a que possibilitou esse encontro com o sujeito do discurso Gilberto Gil. O pensamento de Suely Rolnik foi de grande valia para se pensar a subjetividade hippie-tropicalista-antropofágica, fruto do exílio e das experimentações existenciais dos anos 1960 e 1970 que se davam a ver na dimensão do corpo, das micropolíticas. Ao mesmo tempo em que Gil se insere nessa ordem do discurso para criar suas canções a subverte, contribuindo para a emergência de uma contracultura tropical litorânea.

Refazenda-capa

Capa do álbum Refazenda (1975)

O tropicalismo foi o acontecimento discursivo que possibilitou uma ampliação das bandeiras micropolíticas no Brasil. A trilogia de Gil – os álbuns Refazenda, Refavela e Realce, antecipa tendências comportamentais e políticas. A questão da valorização de estilo de vida sustentável, os direitos de cidadania, contra o racismo, o machismo e por fim a legitimidade do entretenimento e da poesia popular são temáticas atuais e que já estavam lá nesses álbuns conceituais de Gil.  Essa complexidade demandou um trabalho arqueológico e genealógico tanto sobre a eclosão do tropicalismo quanto seus desdobramentos. Ao mesmo tempo como o assunto já foi tema de muitas e importantes pesquisas, era preciso tentar ir além. Buscar responder qual o sentido do tropicalismo hoje, tentar analisá-lo com olhos contemporâneos para refletir sobre o seu lugar no arquivo de brasilidade.

O que mais o surpreendeu durante a pesquisa?

PHVC: As hipóteses foram sendo construídas durante o trabalho. No momento do projeto interessava saber as condições da transferência de valor simbólico da canção para a política institucional, principalmente ligada à ascensão de Lula ao poder. A investigação revelou de um lado o processo histórico de constituição da canção brasileira como rede de recados do popular para o político-midiático. Desde o samba, passando pela geração dos Festivais – que inclui além de Gil, Caetano, Chico, os grandes nomes da chamada MPB – há uma relação entre a canção e o dinamismo dos acontecimentos.  Talvez o último momento em que isso se dê seja com a geração do rock dos anos 1980, período que coincide com a volta da democracia no país.  A partir daí as linhas de força da canção perdem o elo entre o passado recente e o futuro próximo, uma crise de transmissibilidade nos termos do filósofo Giorgio Agambem.  É justamente esse momento que coincide com a chegada de Lula ao poder e a escolha de Gilberto Gil como seu Ministro da Cultura.  Por isso, o trabalho se chama a voz que canta na voz que fala. Procurei, de certa forma, inverter a descoberta de Luís Tatit de que há sempre uma voz que fala na voz que canta. No caso da presença física e simbólica de Gilberto Gil como Ministro da Cultura de Lula há uma transferência desse capital da canção para a política, da voz que canta na voz que fala.

Gilberto Gil canta "Imagine" na ONU

Gilberto Gil canta “Imagine” na ONU

A grande imagem desse movimento é justamente a apresentação de Gil no plenário da ONU, num momento em que o Brasil aparecia, aos olhos do mundo, como exemplo de tolerância mestiça e Lula era saudado como “O cara” por Barack Obama. Caetano Veloso disse que Gil era o Lula do Lula. Esse enunciado pode ser interpretado a partir das dicotomias entre uma esquerda engajada que gerou o movimento sindical de onde Lula surgiu e os elementos comportamentais de uma contracultura negro-baiana de onde vem Gilberto Gil.  As questões de gênero, raça, da diversidade entram no Governo Lula também pela voz de Gilberto Gil.  Esses valores simbólicos contribuem, naquele momento, para uma nova posição do Brasil no jogo geopolítico internacional.

De que maneira o conceito de Antropofagia, que o Tropicalismo tão bem utilizou, aplica-se à atuação de Gilberto Gil como ministro de Lula? Que exemplos concretos podem se dados dessa atuação nesse contexto?

PHVC: Em Oswald de Andrade a antropofagia era um pensamento filosófico, uma intuição no contexto da busca do nacional-popular que justifica o modernismo brasileiro.  Defendemos na nossa pesquisa que com o tropicalismo esse pressuposto filosófico se torna estratégica político-midiática, foi algo que transcendeu o projeto estético das canções.  Nesse sentido, o tropicalismo é uma aplicação prática do preceito filosófico antropológico. A motivação para que Gilberto Gil se engajasse no tropicalismo, no final dos anos 1960, veio de uma imersão sua na cultura popular do interior de Pernambuco em que a vitalidade da Banda de Pífanos o fez pensar no jovem rock inglês. Essa aproximação entre universos simbólicos tidos como inconciliáveis pelos defensores de uma autêntica música brasileira procura chamar atenção, sobretudo, para as relações entre mídia e cultura popular. Se aqui chegavam os Beatles e os Rolling Stones teríamos de criar uma sonoridade brasileira moderna e cosmopolita. É o movimento que desagua, por exemplo, no mangue beat.

O ministro segue essa trilha da “guerrilha cultural nos canais do sistema”. A proposta dos pontos de cultura, em que comunidades do interior teriam direito a uma ilha de edição, uma câmara e internet de banda larga é uma atualização da antropofagia tal como foi lida pelo tropicalismo. Fazer circular a cultura popular é a única forma de revitalizá-la, de manter o vínculo com o contemporâneo. Tornar todos potencialmente produtores de conteúdo e não apenas consumidores passivos da cultura de massa. A ideia de antropofagia é, nesse sentido, como salientam muitos pensadores, uma das mais profundas e originais contribuições do modernismo brasileiro ao mundo. A relação entre fluxos homogeneizantes da sociedade globalizada e sínteses antropofágicas das culturas histórico-territoriais tornou-se uma das possibilidades para a crise de identidades nesses tempos líquidos.

Em sua opinião, como a atuação de Gilberto Gil enquanto ministro contribuiu para a criação (ou manutenção) de uma (nova?) autoimagem brasileira durante os anos Lula?

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

PHVC: A presença de um artista com a trajetória de Gilberto Gil contribuiu para o efeito simbólico de que a chegada de Lula ao poder significava uma correção histórica de séculos de mazelas sociais no país.  De um lado a trajetória de um pau de arara, líder sindical. De outro a de um negro, filho de uma classe média baiana que contribuiu com sua arte para a criação de uma linguagem original e moderna, que o habilitou a transitar pelas plateias do mundo. A potência do canto com mensagens pacifistas e de defesa da diversidade fizeram de Gil uma espécie de embaixador brasileiro em momentos marcantes. Na ONU além de suas canções, ele cantou músicas de John Lennon, Bob Marley e saudou Luiz Gonzaga. É um acontecimento que dialoga com a eclosão do tropicalismo e, de alguma forma, com as utopias da geração dos anos 1960, não só no Brasil, mas no mundo.

É possível fazer uma análise dialética dessa atuação do artista no Ministério? Existe uma síntese possível para o “caso Gilberto Gil”, cuja atuação política (esperada na esfera artística) transbordou os limites da arte e passou a se realizar na política partidária e na esfera do poder público?

PHVC: “O caso Gilberto Gil” é exemplar da potência poética e política vivenciada no Brasil pela geração de artistas surgida nos anos 1960. Do cinema novo ao tropicalismo, passando pela canção de protesto, pelos vários movimentos teatrais havia um desejo de transformação do real a partir de uma nova linguagem. Esse lugar da arte sofre uma cisão a partir dos anos 1980 em que de um lado há um aumento do aspecto mercadológico, do culto às celebridades, de certa frivolidade que resulta numa música para fazer dançar ou provocar emoção fácil. Visto por esse ângulo o movimento de Gil em direção a política não deixa de ser a retomada dessa utopia de uma juventude revolucionária.

O movimento de Gil em direção ao Ministério é também sintoma de uma crise nas linhas de força da canção popular. A MPB de gosto universitário dos anos 1960 não gera prosseguimento a não ser em nichos. Naquele período eclodiram as discussões sobre o fim da canção, a partir de uma provocação de Chico Buarque, na verdade indicando o deslocamento para o rap, a nova voz da periferia nos anos Lula.  Essa possibilidade de expressão periférica possibilitada pelas novas tecnologias e o movimento da sociedade não deixa de ser o sonho da geração dos anos 1960. Então quando Gil se aventura no dispositivo governamental ele legitima esse fluxo a partir de políticas como os pontos de cultura. E o faz não mais só como artista, mas como aquele que propõe as políticas públicas para a cultura. Conceitualmente, os pontos de cultura são o equivalente simbólico da bolsa-família, no sentido de dar voz à diversidade brasileira.

Outro aspecto da atuação do Ministro é esse status de embaixador cultural do país defendendo uma ideia que vem de Gilberto Freyre, passa por Darcy Ribeiro de que somos uma nação mestiça e criativa, muitas vezes promovendo um relativo apagamento da colonização violenta que nos constitui. Isso apesar das canções de Gil como “A Mão da Limpeza” e “Nos Barracos da Cidade” colocar o dedo na ferida.

Qual o legado da atuação de Gilberto Gil, nesse sentido, para o Brasil de hoje, que vê o fortalecimento do conservadorismo nas mais diversas esferas?

PHVC: O artista como sujeito do discurso se inscreve na subjetividade hippie-antropofágica de matriz africana que tem sido um elemento de resistência à onda conservadora porque preconiza o direito às liberdades do corpo, contra o racismo. Suely Rolnik fala nas subjetividades dos anos 1960 que continuam a produzir sentido na sociedade. Assim, temos o “Coronel em nós”, “o hippie em nós”, “a tradição, família e propriedade em nós”. Essas subjetividades explicam muito das radicalizações e conservadorismo que eclodem nesse momento. Elas não surgem agora, são atualizadas, vêm à luz diante de uma nova ordem do discurso ainda de difícil apreensão. É algo que o trabalho apenas sugere, mas seria um prosseguimento dele.

Rolnik também tem uma discussão bastante interessante sobre o que denomina de “Zumbi antropofágico”, que seria uma banalização da mistura fazendo com que a energia revolucionária dos anos 1960 fosse domesticada pelo capitalismo. O resultado é um excesso de relativismo gerando misturas inodoras, sem alma, quase sempre a favor apenas do mercado. Há um núcleo de identidade a partir do qual se promovem as misturas. No caso de Gil é a baianidade de Caymmi e a poética sertaneja de Luiz Gonzaga. Gil resulta do encontro do sertão com o litoral.  É preciso uma dissociação do próprio tempo, demonstra-nos Agambem, para capturar o contemporâneo, traduzir em linguagem o que o real quer dizer. Esse é o principal ensinamento da trajetória deste artista ímpar.

Alfabetização e analfabetismo funcional

Ler é mais do que saber unir letras e sílabas; quem não consegue escrever, ler ou interpretar textos é considerado analfabeto funcional e perde a oportunidade de adquirir os conhecimentos que a leitura de um bom livro pode proporcionar e entender melhor o mundo ao seu redor

Antônio Suárez Abreu*

Antônio Suárez Abreu 2Houve época em que bastava alguém conseguir escrever o próprio nome para ser considerado alfabetizado. Assinar um documento, em vez de pôr nele a impressão digital, era sinal de progresso.  Há, ainda hoje, treze milhões de brasileiros que põem impressão digital no lugar do nome.  São os completamente analfabetos. Há, também, uma quantidade muito maior de brasileiros que, embora sejam capazes de escrever algo além do próprio nome e de ler anúncios publicitários, tropeçam de forma vergonhosa, quando têm de escrever ou ler um texto mais complexo.  São os chamados analfabetos funcionais.  Compõem mais da metade da população do país e ultrapassam, em número, aqueles que têm apenas o ensino fundamental. Muitos universitários não alcançam a efetiva competência em leitura e escrita e, quando formados, só conseguem acesso a subempregos. A quantidade de gente reprovada nos exames da OAB é um bom indicador dessa realidade.

Numa primeira etapa, alfabetizar-se não é apenas estabelecer relações entre letras, sons e palavras.  É, simultaneamente a isso, ser capaz de responder a duas demandas cognitivas: entender o significado de cada palavra e inseri-la em um papel sintático dentro da frase.  Quando uma criança lê sequências como A menina fechou a porta e Minha mãe carregou a menina, tem de compreender não apenas que menina é uma criança do sexo feminino, mas também que essa palavra tem a função de agente, na primeira frase, e de paciente, na segunda.  O nome técnico desse procedimento é parsing.  Por incrível que pareça, há até mesmo alunos de pós-graduação com baixa competência nessa habilidade.  A maior parte das redações de vestibular e até mesmo dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentam frases truncadas e pontuação caótica.   Vejamos um trecho retirado de uma das redações do último Enem: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher.Educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Certamente a segunda oração deve fazer parte da anterior, ou seja, o ponto final deve ser substituído por uma vírgula: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Porém, como não é a escola que deve ver a mulher como companheira, mas os jovens que aprenderam isso na escola, o aluno poderia dar a esse período outra redação: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e aprendam a ver a mulher como companheira.

Essa competência em escrever se aprende com a tradicional análise sintática, hoje execrada pelos planos de ensino e dominada precariamente até mesmo pelos professores.  Fiz uma pesquisa informal na Unesp, entre os meus pouquíssimos alunos de Letras – sete ou oito por sala – que apresentavam escrita adequada e fluente: todos eles tinham tido aulas de análise sintática no ensino fundamental e médio.  O outros não sabiam sequer localizar um sujeito posposto e tiveram de aprender isso na Universidade.

colher de sopa de manteigaVamos, agora, à leitura.  Ao ler, vamos construindo o sentido do texto dentro de nossas cabeças, a partir das informações que temos arquivadas em nossa memória.   Ao ler uma simples frase como: Coloque uma colher de sopa de manteiga  numa tigela, temos de saber, antecipadamente, que não existe sopa de manteiga, que colheres de sopa, de sobremesa etc. são utilizadas para medir ingredientes na cozinha e que apenas a manteiga medida pela colher deve ser posta na tigela, e não a colher.   A leitura competente e fluente depende, pois, do nosso passado.   Aprender a ler, ter uma alfabetização completa implicam construir esse passado por meio de leituras acumuladas.   Isso vale tanto para o domínio do vocabulário quanto para outros como cultura, história, tecnologias.  Durante a primeira aula do curso de Economia de uma importante universidade pública paulista, o professor disse aos alunos que  essa ciência tem palavras com sentido diferente do uso comum e que os alunos não se acanhassem em perguntar quando não soubessem.  Imediatamente, um dos calouros levantou a mão e perguntou: “Professor o que significa debalde”?   O mestre teve de explicar o sentido desse advérbio a um aluno que, apesar de ter passado num vestibular concorrido, havia lido muito pouco.

Em alguns textos, a exigência desse conhecimento passado é muito maior.   Imagine alguém lendo um trecho do livro Autoengano, em que o economista e filósofo Eduardo Giannetti fala do autoengano dos amantes: “É como se estivessem fora de si – embriagados  por poções wagnerianas, hipnotizados pelo fascínio de Circe ou enfeitiçados  por encantamentos como o que, segundo a lenda, enlouqueceu Lucrécio.  Os apaixonados perdem o sono, dançam na chuva e ouvem estrelas.   Para entendê-lo plenamente, o leitor deve ter, em sua memória, o enredo  da ópera de WagnerTristão e Isolda, em que Tristão, inadvertidamente, bebe uma poção amorosa e se apaixona por Isolda, princesa que ele devia conduzir ao seu tio em matrimônio.

singingintherainDeve ter, também, em seu passado, a história de Ulisses, que foi enfeitiçado pela deusa Circe, em sua viagem de volta da Guerra de Troia, e a lenda segundo a qual Lucrécio, poeta romano, teria enlouquecido de amores e se suicidado.  Deve ter, ainda, em sua memória, o filme Cantando na Chuva, protagonizado por Gene Kelly e um dos mais famosos poemas da “Via Láctea” de Olavo Bilac: “Ora, direis, ouvir estrelas…”.

Concluindo, para não ser analfabeto funcional, é preciso ter o hábito da leitura como lazer, que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos, mas extremamente raro no Brasil, em que a leitura per capita é calculada em rasos 1,7 livros por ano.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Da Europa à América Latina

 

Por: Renata de Albuquerque

 

As cerca de quatro décadas e a questão geográfica que separam a Segunda Guerra Mundial da Guerra das Malvinas podem, em uma análise superficial, fazer com que não se consiga estabelecer relação entre esses dois conflitos. Mas o Doutor em História Osvaldo Coggiola vê pontos de intersecção entre essas duas guerras.

outra guerra fim do mundo“A Inglaterra e os EUA, que venceram a Guerra das Malvinas, também venceram a Segunda Guerra Mundial. A posse inglesa das Malvinas é um ressabio da hegemonia mundial ainda presente das potências anglo-saxãs. O único navio norte-americano não afundado em Pearl Harbor foi vendido depois à Argentina, onde foi se transformando no Cruzador General Belgrano, que foi afundado pela Inglaterra na  Guerra das Malvinas, com centenas de marinheiros argentinos mortos. São marcas muito profundas”, explica ele, que é autor de A Outra Guerra do Fim do Mundo, livro em que trata de detalhes do conflito (como dados e movimentações dos exércitos) e analisa a legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições.

Coggiola nasceu na Argentina e, em 1976, foi expulso da Universidade Nacional de Córdoba por causa do Regime Militar vigente, então. Estudou na França, onde se doutorou em História, e hoje e Professor Titula e Chefe do Departamento de História da USP. Em sua avaliação, na Argentina, a questão Malvinas continua presente no sentido histórico, político e cultural. Já na Inglaterra, segundo o autor, formou-se um consenso acerca da necessidade de uma soberania compartilhada.

“O conflito pela soberania das ilhas continua presente, embora hoje por vias diplomáticas. A questão diz respeito a toda a América do Sul. Não só pela soberania territorial e pelas riquezas petroleiras hoje comprovadas do arquipélago, mas sobretudo porque existe uma forte base militar da OTAN a escassos 400 quilômetros da Argentina, a quinze minutos de voo de aviões militares, ou seja, vizinha às costas da América do Sul. As Malvinas, na posse da Inglaterra, e o embargo norte-americano a Cuba são as duas mais importantes questões pendentes a respeito da soberania territorial da América Latina”, afirma.

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

dissipatio

Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.