Para António Apolinário Lourenço, “Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor”

Pesquisador, responsável pela nova edição lançada pela Ateliê Editorial, acredita que o leitor menos experimentado só precisa de uma leitura orientada para “descobrir” o clássico português

 

Por Renata de Albuquerque

Mensagem é a única obra literária em português lançada por Fernando Pessoa em vida. São 44 poemas sobre os grandes personagens históricos portugueses, as grandes navegações e as glórias passadas e vindouras do país. Apesar de ser muito conhecido e um dos livros mais lidos – e por isso fazer parte da Coleção Clássicos Ateliê – Mensagem é uma obra cheia de complexidades. Por isso, para elaborar esta edição, a Ateliê Editorial convidou o pesquisador português António Apolinário Lourenço para realizar o trabalho de edição da obra.  Ele, que é professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa, escreve um ensaio de apresentação da obra e notas que auxiliam professores e alunos a compreender os sentidos mais profundos do livro. A seguir, ele fala sobre a obra para o Blog da Ateliê:

 

 

 

apolinárioMensagem é uma obra complexa. Em sua opinião, como jovens leitores podem fruir dela, superando eventuais dificuldades? O livro de alguma maneira auxilia o professor a ser o mediador/facilitador dessa leitura?

António Apolinário Lourenço: Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor, mas exige uma leitura orientada e esclarecida para aceder aos níveis de entendimento mais profundos ou mais obscuros. É necessário compreender, desde logo, o caráter simbólico do sebastianismo pessoano, designadamente a forma como o poeta, chegando a colocar-se a si próprio no lugar do rei Desejado, patrocina a regeneração da cultura e da literatura que se exprimem em português. Estamos certos que esta edição coloca ao alcance dos professores a informação necessária para que estes se constituam como mediadores e facilitadores da leitura de Mensagem junto do público juvenil.

Por que a leitura de Mensagem é importante no contexto escolar do Brasil, neste início de século XXI? Como a presente edição procura auxiliar e aproximar o estudante deste texto que data da primeira metade do século XX? De que instrumentos esta edição lança mão para realizar esta aproximação?

AAL: Mensagem é um poema profético no qual se desenha e se sustenta uma utopia nacionalista: o Quinto Império, um império cultural português, já divinamente prenunciado na fundação do país e nas grandes Descobertas marítimas e prestes a concretizar-se no presente. Um império cultural português, um império de poetas e gramáticos, como também escreveu o autor, é evidentemente um império da língua portuguesa, que Pessoa dizia ser a língua com maior capacidade imperial. O mito sebastianista que alimenta ideologicamente Mensagem, e que nela se cruza com a simbólica templária e rosacruciana, está também enraizado na cultura brasileira. Através da introdução e das notas, proporciona-se ao leitor, e particularmente ao público escolar, a chave interpretativa de cada um dos poemas.

Por que a intertextualidade entre Camões e Pessoa (Os Lusíadas e Mensagem) é considerada polêmica, como afirma a introdução desta edição?

AAL:O problema não reside na afirmação da existência de uma relação intertextual, que é óbvia, entre Os Lusíadas e a Mensagem, mas em apresentar a epopeia camoniana como única fonte de inspiração do livro de Pessoa ou, pior ainda, em considerar Mensagem como uma versão atualizada de Os Lusíadas. O que pretendo provar é que, apesar de Camões ser considerado por Fernando Pessoa como um marco a superar, não era visto pelo autor de Mensagem como um modelo a seguir, e o seu diálogo com Os Lusíadas é suplantado por outros diálogos poéticos com obras mais próximas cronologicamente da sua, como é o caso de Pátria, de Guerra Junqueiro (obra que Pessoa afirmou ter ultrapassado a epopeia de Camões) e principalmente de D. Sebastião, de Luís de Magalhães, um contemporâneo de Eça de Queirós cuja obra mais conhecida é O Brasileiro Soares.

 

capa mensagem

De que maneira as ilustrações ajudam o leitor, no caso desta edição?

AAL: Esta edição de Mensagem tem dois tipos de ilustrações. Por um lado, há reproduções de gravuras, de capas de livros ou de retratos de personagens históricas, com um caráter essencialmente informativo; por outro lado, há um conjunto de ilustrações inéditas, propositadamente produzidas para esta edição por Kaio Romero, que constituem em si mesmas uma leitura e uma interpretação do livro de Fernando Pessoa. Num registo estético muito próximo da linguagem dos quadrinhos, estas ilustrações não desrespeitam a semântica de Mensagem, mas acrescentam-lhe uma nota humorística que enriquece a sua recepção.

 

Em sua opinião, o que pode chamar a atenção e gerar interesse do jovem brasileiro, em uma obra que é um “épico” tão distante da realidade atual, tanto do ponto de vista cronológico quanto geográfico – e, porque não dizer – linguístico?

AAL: Mensagem sempre foi um livro apreciado no Brasil e, surpreendentemente, tem sido inclusivamente menos questionado politicamente aqui do que em Portugal, onde por vezes é ideologicamente associado à ditadura de Salazar, que começava a desenhar-se na época em que se publicou o livro de Pessoa. Mas o que se expõe em Mensagem é uma utopia (a construção de um Império cultural de matriz portuguesa, a que facilmente o Brasil se associa) e não a glorificação do regime ou do país real habitado pelo poeta. E as utopias não envelhecem facilmente. Também o simbolismo religioso esotérico de que Mensagem está impregnada mantém plena atualidade e está dentro da linha de muitas obras literárias que ocupam hoje os tops mundiais de vendas. Por outro lado, Mensagem tem igualmente uma dimensão lúdica, poucas vezes mencionada, que também procurei revelar nas notas que acompanham os poemas. Finalmente, não creio que se possa falar de um problema linguístico. O Brasil tem uma forte tradição da edição comentada dos clássicos do idioma (infelizmente Portugal é, nesse aspecto, bem mais paroquial). Não entendo as obras dos grandes escritores como modelos do uso da língua, mas como paradigmas do seu bom uso artístico. É por isso que Machado de Assis, Eça de Queirós, Luandino Vieira ou Guimarães Rosa, do mesmo modo que Fernando Pessoa, são reconhecidamente património comum da língua portuguesa.

 

Qual a mensagem de Mensagem para os dias de hoje?

AAL: O desafio enfrentado por Fernando Pessoa é um desafio que tem plena atualidade. A regeneração nacional que, sob a máscara do Sebastiano, se perfila em Mensagem, é uma regeneração cultural que continua sendo necessária. Recusa-se neste livro tanto a acomodação como a mediocridade (“Triste de quem é feliz”, escreveu o poeta). Noutros textos, que deixou inéditos, Pessoa registou que a tripla vinda do Encoberto (outro dos símbolos com que designa a regeneração cultural pretendida) ocorreria em 1640 (ano em Portugal recuperou a sua independência face a Espanha), 1888 (o ano em que nasceu o próprio Fernando Pessoa) e 2198. Talvez devamos, brasileiros, portuguesas, africanos, asiáticos e timorenses que nos expressamos em português, trabalhar para a glória do idioma tendo em vista esse horizonte temporal. Não é seguro que D. Sebastião regresse nessa ou em qualquer outra data da ilha encantada em que a sua alma se refugiou depois da desastrosa derrota de Alcácer-Quibir. Mas, como também escreveu Pessoa, no combate pelo Quinto Império não vai ser derramada qualquer “gota de sangue” e, “se falharmos, sempre conseguimos alguma coisa — aperfeiçoar a língua. Na pior hipótese, sempre ficamos escrevendo melhor”.

 

 

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