Monthly Archives: julho 2015

Livro “A Descoberta do Frio” aborda o racismo no Brasil

O escritor Oswaldo de Camargo fala de sua motivação para escrever o livro, que agora ganha reedição da Ateliê

Por Oswaldo de Camargo*

Oswaldo de Camargo_crédito Clarissa Di CiommoComecei, com 16 anos, a escrever versos, no geral escorados nas minhas leituras de poetas românticos e parnasianos, depois nas de alguns poemas do simbolista negro Cruz e Sousa. Eu já havia passado por experiências bem dolorosas, como a orfandade, com a perda da mãe aos seis anos, e pai, aos sete.

Como escritor, a cidade em que nasci, Bragança Paulista, tem extrema importância. Ali começou o rastro que até hoje me impulsiona a escrever, na tentativa de desvendar a razão daquilo que me levou a mim, minha família e a tantos negros de minha geração à borda da quase miserabilidade.
Percebi, após, que o que eu queria expressar não podia ser pelo verso, nem pela metáfora pura, mas pela prosa. Escrevi e publiquei, então, pela Editora Martins, O Carro do Êxito (contos), 1972. Depois enveredei pela novela com A Descoberta do Frio, cujo inicial enredo foi uma tentativa de escrever teatro.

O Carro do Êxito, A Descoberta do Frio, bem como minha recente novela Oboé, publicada pela ECA, da USP, graças ao empenho de Plínio Martins, se inserem em uma linha ficcional e poética que vem sendo estudada e vista como Literatura Negra, a qual pode ser datada, nos meados do século XIX, a partir dos versos de “Quem sou eu? ou Bodarrada”, do precursor do abolicionismo no Brasil e poeta Luís Gama.

Por que negra?

Porque, após séculos sem fala, o negro pôs se a expor e continua expondo, com ficção ou poesia, suas experiências particulares, sua visão da história pátria, que, acredito, vem secularmente trazendo consequências infelizes ao seu viver. Sou, pela persistência no tema, um dos mais antigos nesta temática.

Descobertafrio_fioA Descoberta do Frio traz, bem disfarçados, em vários capítulos, fatos de minha própria história de negro brasileiro. A escritaé de alguém que trabalhou por muito tempo o verso, a linguagem imagística. Se eu tentasse fazer uma obra de não ficção, eu depararia com dois fatores: não tenho vocação para pesquisa, para o texto de análise social ou histórico, etc. Por outro lado, só vou adiante quando algo me entusiasma.

E a Literatura, desde o início, me entusiasmou, tornou-se a minha segunda vida, já com os poemas, já com a prosa, a partir de O Carro do Êxito. Em muitos aspectos, A Descoberta do Frio é livro de quem conhece o “frio” e tenta mostrar a cara horrenda dele com beleza e estética, fatores fundamentais para o convencimento em arte.

Fato que não posso ocultar é que, com 13 anos, tive o primeiro vislumbre do preconceito ou, mais grave, racismo em nosso país. Minha resposta, a que mais me entusiasma, é escrever.

Como escritor, reconheço também que tive muita sorte, pois, logo que saí do Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto (SP), em 1954, pude conhecer, na Associação Cultural do Negro, no Prédio Martinelli, hoje Edifício América, escritores que eu admirava, como Afonso Schmidt, Colombina, Nestor Gonçalves, Solano Trindade, Abdias Nascimento, Florestan Fernandes, muitas vezes ali presente, e que prefaciou meu livro 15 Poemas Negros.

Tive sorte porque, filho de apanhadores de café, em uma fazenda de Bragança Paulista, pais analfabetos, pude com o tempo avaliar a importância fundamental do livro e da leitura para a melhor e mais prazerosa vida das pessoas. Também para que o “frio” seja descoberto e combatido.

E o que li de ficção?

Após a poesia, me aproximei de autores de variado naipe, como Adonias Filho (Memórias de Lázaro), O Encontro Marcado, do Fernando Sabino, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ficção de Dostoievski, Hermann Hesse, Kafka, o nigeriano Amos Tutuola. Negro ou branco, pela leitura somos todos miscigenados…
É preciso ficar claro: n´A Descoberta do Frio, “frio” é o preconceito, digo mesmo, o racismo. Sobre este, vem montada há séculos a Indiferença, o quinto cavaleiro do Apocalipse.

Alguns estudiosos têm apontado que, em vários aspectos, A Descoberta do Frio consegue mostrar, com ficção, por que a existência de grande parte da população negra brasileira continua, de vários modos, difícil, dolorosa, mesmo amarga.

A maior esperteza dos que pretenderam manter privilégio e poder, após a Abolição, foi manter o negro analfabeto.
Se tivesse aprendido a ler…

*Oswaldo de Camargo é escritor e jornalista

Muito antes do Twitter, os livros

Textos curtos já eram tema de diversas obras muito antes do microblog existir

Por Renata de Albuquerque

Para algumas pessoas, o Twitter já está tão incorporado ao dia a dia que há quem nem se lembre de como era a vida sem #. Mas o Twitter, microblog que nos ensinou a sintetizar ideias, emoções e opiniões em apenas 140 caracteres, nasceu há menos de uma década, em 2006.

E, se ainda hoje há quem ache que é impossível se expressar com tão poucos caracteres, imagine antes dessa ferramenta se tornar popular?  O ano era 1998 quando Marcelino Freire lançou a primeira edição de EraOdito, um livro que se propunha a revisitar os provérbios, máximas e anexins populares, redescobrindo neles (e dentro deles, inclusive visualmente) novos sentidos e significados. Signos pululam das páginas, num exercício de criatividade de quem sabe que é possível dizer mais usando apenas o mesmo e já repisado texto:

 

 

acura

 

Outras vezes, em EraOdito, Marcelino “deturpa”, modifica essas frases tão comuns e nos presenteia com o inesperado:

amaids

 

Tudo muito curto, visual, com um poder de síntese que, se não prenunciava o Twitter, denunciava que era possível comunicar mais do que o óbvio usando apenas (ou quase unicamente) o evidente. Em 2002, EraOdito ganhou uma edição da Ateliê e, dois anos depois, Marcelino voltou a fazer muito com pouco.

Sem t’tulo-12O desafio, desta vez, era reunir cem histórias inéditas, de cem escritores brasileiros do século XXI, escritas com apenas 50 letras (sem contar título e pontuação). O resultado, Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, é tão espantoso quanto apaixonante. Glauco Mattoso, Índigo, Fernando Bonassi, Ivana Arruda Leite e muitos outros provam que é possível contar uma história tão curta que cabe em um tuíte:

“- Morreu de quê?

– Gastou-se.”

(Eugênia Menezes)

 

Em 2009, a economia de caracteres voltou à pauta na Ateliê Editorial, com o lançamento de Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer, de Carlos Castelo. A agudeza e ironia das frases curtas atingem em cheio problemas atuais do país: corrupção, autoritarismo, conservadorismo. A inversão de frases conhecidas desloca-nos do conforto do senso comum:

oracoes_insubordinadas

“Narcotráfico é organizado demais. Nós aqui temos anarcotráfico”, escreve o autor, conhecido também por ser letrista do provocativo Língua de Trapo.

Em outras passagens, a reflexão vem de uma ambiguidade estudada e cheia de segundas intenções:

 

“Temos ao menos uma coisa em comum com a Suécia: somos um país bárbaro”

 

Ironia pura, destilada em pouquíssimas letras, e que produz acidez no riso amarelo – e por vezes tragicômico – do leitor.

Com tantas mensagens curtas – mas complexas – em seu catálogo, a Ateliê envereda, em outubro de 2009, pelo microblog. Em abril de 2010, publica seu primeiro Tweet:

Primeiro Tweet com borda

 

Hoje, já são quase 10 mil seguidores. E ainda há quem diga que não é possível se expressar com tão poucos caracteres…

 

 

“O preocupante para Arendt é que o ódio conta com aqueles que não têm o hábito da reflexão”, diz autora de Hannah Arendt – Ética & Política

Em entrevista, Eugenia Sales Wagner fala da atualidade do pensamento da filósofa alemã de origem judaica

Por Renata de Albuquerque

eugenia wagner

Eugenia Sales Wagner

Hannah Arendt acreditava que o ódio, “assentado em interesses particulares inconfessáveis”, tem uma grande força destrutiva. Na obra, que acaba de chegar à sua segunda edição, a pesquisadora analisa a teoria arendtiana tendo como base os cinco tipos de amor descritos pela filósofa alemã – o amor à sabedoria, o amor ao próximo, o amor à liberdade, o amor da vontade e o amor ao mundo.

Como conjugar temas como Filosofia, Ética e Política com liberdade e amor?

Eugenia Sales Wagner:  Hannah Arendt: Ética & Política procura aproximar-se do que Arendt trataria em “O Julgar”, a última parte prevista, mas não escrita, de A Vida do Espírito. Essa aproximação, conquistada apenas ao final do livro, coincide com o desvendamento das relações entre Filosofia, Ética, Política, Liberdade e Amor no pensamento arendtiano, de modo que tratar com ligeireza dessas relações e conceitos só seria possível à custa de depauperá-los. Além disso, ao seguir pistas e enigmas deixados por Arendt, o percurso que revela tais relações guarda um certo mistério e suspense, necessários a  captura e domínio desses conceitos, que devem ser preservados para o leitor. Posso adiantar, apenas, que Liberdade, Amor, Ética e Política no pensamento arendtiano são ideias intimamente associadas.

 

Como se dá a mudança do código de ética, de maneira que se verifica a origem do Mal (o totalitarismo)?

ESW: Essa questão é interessante, pois foi com ela que Arendt se viu às voltas desde os idos da ascensão do nazismo na Alemanha. Refletiu sobre esse tema em diferentes obras, tendo admitido que havia dado, inicialmente, uma importância excessiva ao papel da ideologia em Origens do Totalitarismo. Perguntava-se como, na Alemanha, durante a Segunda Guerra, parte das pessoas comuns aceitou de imediato e sem estranheza o código “matar” em detrimento do antigo “não matar”, ainda que nem todas elas tivessem cometido crimes. Depois de presenciar o julgamento de Eichmann, em Jerusalém, Arendt passou a acreditar que a irreflexão é a marca daqueles que, sem qualquer questionamento, deixam se guiar por meio de códigos e de regras de conduta e tornam-se, por isso, pouco confiáveis em momentos de crise, facilitando o estabelecimento e o fortalecimento de Regimes Totalitários. Esse fenômeno está na origem do conceito político por ela denominado “banalidade do mal”. Ainda que não seja a única condição para o cometimento do mal, a irreflexão e, assim, a incapacidade para julgar sem parâmetros em momentos de crise é, segundo H. Arendt, cada vez mais presente em nossas sociedades. Parece significativo o número de indivíduos que, uma vez dedicados exclusivamente às atividades voltadas para a sobrevivência – ao consumo e às ocupações cotidianas –, não costuma cultivar o hábito de pensar os acontecimentos políticos, de modo que a irreflexão pode ser percebida em pessoas pertencentes a diferentes condições sociais, culturais e educacionais.

 

Como compreender e julgar podem ser postos em prática em um panorama de policiamento ideológico (como foi o momento dos governos totalitários do século XX)?

ESW: Arendt crê que aqueles que têm o hábito de refletir levando em conta os outros, isto é, as diferentes perspectivas a partir das quais um acontecimento pode ser visto, aprimoram a compreensão e a capacidade para julgar.  Um julgamento firmado exclusivamente em interesses privados atesta que aquele que julga não leva em consideração outras formas de ver o mundo, pois, ainda que pense é destituído de um “pensamento alargado”, o pensamento fundado na comunidade. É possível, portanto, compreender e julgar em momentos de crise ou em um panorama de policiamento ideológico, como você mencionou; o que é impossível, no último caso, é manifestar essa compreensão e esse julgamento publicamente sem se tornar um mártir.

 

capa Hannah Arendt Etica Politica_2a  edQuais os desafios de levar a filosofia a um público amplo, como defende Arendt?

ESW: Vários são os desafios e podemos destacar, inicialmente, a importância que Arendt concedeu ao pensador capaz de permanecer conectado com os problemas de seu tempo, evitando o solipsismo que condiciona o aparecimento de ideias obscuras e incomunicáveis. Outro desafio é o de aceitar o convite que essa pensadora faz para nos juntarmos a ela, a Sócrates, a Kant e a Jaspers, na exploração das sendas abertas pelo pensamento crítico, o pensamento modesto e não doutrinário, despojado da vaidade e da arrogância de considerar a si próprio como definitivo a respeito de um determinado tema; o pensamento crítico procura popularizar-se e abrir-se ao exame livre de muitos. Neste livro há ainda o desafio de criar um espaço de compreensão entre Arendt, a autora e o leitor ou leitora que possua maior ou menor intimidade com o pensamento arendtiano, um espaço em que clareza e complexidade não concorram entre si, mas encontrem-se conectados.

 

O que o entendimento dos cinco tipos de amor pode agregar à compreensão do momento atual?

ESW: O amor à sabedoria, o amor ao próximo, o amor à liberdade, o amor da vontade e o amor ao mundo, que conformam, respectivamente, cada um dos cinco capítulos do livro, foram estruturados e elaborados com a intenção de que cumprissem dois movimentos concomitantes: o de destruir preconceitos e o de introduzir conceitos. Refletir sobre essas formas de amor permitiu destituí-las de falsas conotações, bem como revelá-las como formas de poder. Cada uma das formas de amor tem o seu lugar próprio no mundo; nem todas têm vocação política, ainda que façam morada no coração dos seres humanos.

 

Qual a atualidade da obra de H. Arendt para o mundo de hoje? Por que discuti-la?

ESW: As ideias arendtianas guardam uma atualidade impressionante, até mesmo porque H. Arendt (1909-1975)  não está tão distante de nós; o tempo dela é ainda, sob vários aspectos, o nosso tempo. A importância de repensar e discutir tais ideias encontra-se, principalmente, na força do pensamento de Arendt, que se dedicou a refletir sobre a importância política do livre pensar, da comunicabilidade daquilo que é pensado, da vontade enraizada na comunidade e do julgar sem parâmetros em momentos de crise, para dar apenas alguns exemplos.

 

Qual a implicação de discutir Ética e Política sob o signo do Amor nos dias de hoje, em que há um discurso de ódio que contamina a esfera política na sociedade brasileira, enfraquecendo a argumentação e a discussão saudável e substituindo-as por insultos, muitas vezes infundados?

ESW: O preocupante para Arendt é que o ódio, geralmente assentado em interesses particulares inconfessáveis, conta com aqueles que não têm o hábito da reflexão e nenhum compromisso com a comunidade para criar uma força de grande poder destrutivo. O ódio não apenas avilta, mas destrói o espaço público-político, que no sentido arendtiano é um espaço de compreensão compartilhado por cidadãos dispostos não apenas a falar, mas também a ouvir; cidadãos que trazem no espírito o senso de comunidade.

O ódio e a violência – que nem sempre se manifesta como violência física – não podem instaurar um novo espaço comum após a destruição que provocam, pois deixam suas marcas nas entranhas daquilo que criam. É nesse sentido mesmo que Arendt convoca todos aqueles que têm o hábito de pensar para aparecerem em momentos de crise, ainda que seja no papel de espectador, para julgar os acontecimentos, recolocando a verdade política em seu lugar, pois para ela a verdade política existe: é a verdade fatual, que o desejo de dominação falsifica. Para Arendt “a liberdade de opinião é uma farsa se não garantir a informação fatual”. Naturalmente isso se torna um empreendimento nada fácil quando o poder da informação encontra-se concentrado em poucas mãos. Creio que para Arendt a maior corrupção é a corrupção dos fatos.

 

Conheça outras obras de Eugenia Sales Wagner

Para António Apolinário Lourenço, “Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor”

Pesquisador, responsável pela nova edição lançada pela Ateliê Editorial, acredita que o leitor menos experimentado só precisa de uma leitura orientada para “descobrir” o clássico português

 

Por Renata de Albuquerque

Mensagem é a única obra literária em português lançada por Fernando Pessoa em vida. São 44 poemas sobre os grandes personagens históricos portugueses, as grandes navegações e as glórias passadas e vindouras do país. Apesar de ser muito conhecido e um dos livros mais lidos – e por isso fazer parte da Coleção Clássicos Ateliê – Mensagem é uma obra cheia de complexidades. Por isso, para elaborar esta edição, a Ateliê Editorial convidou o pesquisador português António Apolinário Lourenço para realizar o trabalho de edição da obra.  Ele, que é professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa, escreve um ensaio de apresentação da obra e notas que auxiliam professores e alunos a compreender os sentidos mais profundos do livro. A seguir, ele fala sobre a obra para o Blog da Ateliê:

 

 

 

apolinárioMensagem é uma obra complexa. Em sua opinião, como jovens leitores podem fruir dela, superando eventuais dificuldades? O livro de alguma maneira auxilia o professor a ser o mediador/facilitador dessa leitura?

António Apolinário Lourenço: Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor, mas exige uma leitura orientada e esclarecida para aceder aos níveis de entendimento mais profundos ou mais obscuros. É necessário compreender, desde logo, o caráter simbólico do sebastianismo pessoano, designadamente a forma como o poeta, chegando a colocar-se a si próprio no lugar do rei Desejado, patrocina a regeneração da cultura e da literatura que se exprimem em português. Estamos certos que esta edição coloca ao alcance dos professores a informação necessária para que estes se constituam como mediadores e facilitadores da leitura de Mensagem junto do público juvenil.

Por que a leitura de Mensagem é importante no contexto escolar do Brasil, neste início de século XXI? Como a presente edição procura auxiliar e aproximar o estudante deste texto que data da primeira metade do século XX? De que instrumentos esta edição lança mão para realizar esta aproximação?

AAL: Mensagem é um poema profético no qual se desenha e se sustenta uma utopia nacionalista: o Quinto Império, um império cultural português, já divinamente prenunciado na fundação do país e nas grandes Descobertas marítimas e prestes a concretizar-se no presente. Um império cultural português, um império de poetas e gramáticos, como também escreveu o autor, é evidentemente um império da língua portuguesa, que Pessoa dizia ser a língua com maior capacidade imperial. O mito sebastianista que alimenta ideologicamente Mensagem, e que nela se cruza com a simbólica templária e rosacruciana, está também enraizado na cultura brasileira. Através da introdução e das notas, proporciona-se ao leitor, e particularmente ao público escolar, a chave interpretativa de cada um dos poemas.

Por que a intertextualidade entre Camões e Pessoa (Os Lusíadas e Mensagem) é considerada polêmica, como afirma a introdução desta edição?

AAL:O problema não reside na afirmação da existência de uma relação intertextual, que é óbvia, entre Os Lusíadas e a Mensagem, mas em apresentar a epopeia camoniana como única fonte de inspiração do livro de Pessoa ou, pior ainda, em considerar Mensagem como uma versão atualizada de Os Lusíadas. O que pretendo provar é que, apesar de Camões ser considerado por Fernando Pessoa como um marco a superar, não era visto pelo autor de Mensagem como um modelo a seguir, e o seu diálogo com Os Lusíadas é suplantado por outros diálogos poéticos com obras mais próximas cronologicamente da sua, como é o caso de Pátria, de Guerra Junqueiro (obra que Pessoa afirmou ter ultrapassado a epopeia de Camões) e principalmente de D. Sebastião, de Luís de Magalhães, um contemporâneo de Eça de Queirós cuja obra mais conhecida é O Brasileiro Soares.

 

capa mensagem

De que maneira as ilustrações ajudam o leitor, no caso desta edição?

AAL: Esta edição de Mensagem tem dois tipos de ilustrações. Por um lado, há reproduções de gravuras, de capas de livros ou de retratos de personagens históricas, com um caráter essencialmente informativo; por outro lado, há um conjunto de ilustrações inéditas, propositadamente produzidas para esta edição por Kaio Romero, que constituem em si mesmas uma leitura e uma interpretação do livro de Fernando Pessoa. Num registo estético muito próximo da linguagem dos quadrinhos, estas ilustrações não desrespeitam a semântica de Mensagem, mas acrescentam-lhe uma nota humorística que enriquece a sua recepção.

 

Em sua opinião, o que pode chamar a atenção e gerar interesse do jovem brasileiro, em uma obra que é um “épico” tão distante da realidade atual, tanto do ponto de vista cronológico quanto geográfico – e, porque não dizer – linguístico?

AAL: Mensagem sempre foi um livro apreciado no Brasil e, surpreendentemente, tem sido inclusivamente menos questionado politicamente aqui do que em Portugal, onde por vezes é ideologicamente associado à ditadura de Salazar, que começava a desenhar-se na época em que se publicou o livro de Pessoa. Mas o que se expõe em Mensagem é uma utopia (a construção de um Império cultural de matriz portuguesa, a que facilmente o Brasil se associa) e não a glorificação do regime ou do país real habitado pelo poeta. E as utopias não envelhecem facilmente. Também o simbolismo religioso esotérico de que Mensagem está impregnada mantém plena atualidade e está dentro da linha de muitas obras literárias que ocupam hoje os tops mundiais de vendas. Por outro lado, Mensagem tem igualmente uma dimensão lúdica, poucas vezes mencionada, que também procurei revelar nas notas que acompanham os poemas. Finalmente, não creio que se possa falar de um problema linguístico. O Brasil tem uma forte tradição da edição comentada dos clássicos do idioma (infelizmente Portugal é, nesse aspecto, bem mais paroquial). Não entendo as obras dos grandes escritores como modelos do uso da língua, mas como paradigmas do seu bom uso artístico. É por isso que Machado de Assis, Eça de Queirós, Luandino Vieira ou Guimarães Rosa, do mesmo modo que Fernando Pessoa, são reconhecidamente património comum da língua portuguesa.

 

Qual a mensagem de Mensagem para os dias de hoje?

AAL: O desafio enfrentado por Fernando Pessoa é um desafio que tem plena atualidade. A regeneração nacional que, sob a máscara do Sebastiano, se perfila em Mensagem, é uma regeneração cultural que continua sendo necessária. Recusa-se neste livro tanto a acomodação como a mediocridade (“Triste de quem é feliz”, escreveu o poeta). Noutros textos, que deixou inéditos, Pessoa registou que a tripla vinda do Encoberto (outro dos símbolos com que designa a regeneração cultural pretendida) ocorreria em 1640 (ano em Portugal recuperou a sua independência face a Espanha), 1888 (o ano em que nasceu o próprio Fernando Pessoa) e 2198. Talvez devamos, brasileiros, portuguesas, africanos, asiáticos e timorenses que nos expressamos em português, trabalhar para a glória do idioma tendo em vista esse horizonte temporal. Não é seguro que D. Sebastião regresse nessa ou em qualquer outra data da ilha encantada em que a sua alma se refugiou depois da desastrosa derrota de Alcácer-Quibir. Mas, como também escreveu Pessoa, no combate pelo Quinto Império não vai ser derramada qualquer “gota de sangue” e, “se falharmos, sempre conseguimos alguma coisa — aperfeiçoar a língua. Na pior hipótese, sempre ficamos escrevendo melhor”.