Lima Barreto: nota biográfica

José de Paula Ramos Jr.*

LimaBarretoAfonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, numa sexta-feira 13 do mês de maio, ano de 1881. Segundo a superstição, um dia nefasto, que marcaria a triste sina da criança.

Filho de Amália, professora primária, e João Henriques, respeitado tipógrafo da Imprensa Nacional, o jovem Afonso Henriques estuda no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II) para ingressar, em 1897, no primeiro ano de engenharia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Após cinco anos, Lima Barreto abandona o curso superior sem concluí-lo, ingressa na Secretaria da Guerra como amanuense concursado e, com modestos proventos, muda-se para o subúrbio de Todos os Santos com o pai, que havia enlouquecido, três irmãos, Priciliana (companheira de João Henriques desde a morte da esposa) e seus três filhos, além do velho agregado Manuel de Oliveira, todos dependentes dele.

A vida de burocrata era tediosa. Sentia-se amesquinhado na repartição. Havia nela o mesmo preconceito que tanto ferira seu orgulho na Politécnica. Via gente sem merecimento subir na hierarquia, enquanto ele era preterido. Com o tempo, foi relaxando o zelo profissional, ao passo que intensificava a participação no jornalismo e na vida boêmia, adquirindo o vício da bebida. O álcool foi um trágico refúgio para aquela alma orgulhosa e sofrida, que se sabia superior, mas que era barrada pela sociedade preconceituosa. Faltava dias e semanas na repartição, tornara-se extremamente desleixado com sua pessoa, andava roto e sujo, chegava a exalar um odor desagradável. Nas crises de bebedeira, ficava horas parado na rua de maior movimento do Rio, afrontando com sua figura bizarra os elegantes que passavam; depois, andava quilômetros, por toda a cidade, parando nos botecos, bebendo cachaça até cair na sarjeta. Assim, veio a sofrer seu primeiro delírio. A família decidiu interná-lo no Hospital Nacional de Alienados, onde ficou dois meses. Não adiantou o tratamento, em pouco tempo estava de novo enredado na bebida.

De novembro de 1918 a janeiro de 1919, o escritor esteve internado no Hospital Central do Exército. Estava com a clavícula fraturada e padecia de muitos males decorrentes do “alcoolismo crônico”, como dizia o laudo médico. Ao sair, aposentou-se, com vencimentos proporcionais aos 14 anos de serviço público.

Os últimos anos de Lima Barreto foram mais que melancólicos. Sua aparência de quase indigente afastava até os admiradores, como Monteiro Lobato, que, numa passagem pelo Rio, quis conhecer o “mestre” pessoalmente, mas foi encontrá-lo num estado de embriaguez e miséria humana tão deprimente que preferiu ir embora, sem se fazer apresentar.

Lima Barreto, vencido pela doença, finalmente falece no dia primeiro de novembro de 1922. Um pequeno grupo de amigos compareceu ao velório na casa suburbana, que o extinto costumava chamar “Vila Quilombo”. Levaram o caixão para a estação de Todos os Santos, de onde o carro fúnebre da Central do Brasil o transportaria para ser enterrado no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo. Chovia muito, mas, à passagem do corpo pelas ruas barrentas do subúrbio, aquela gente sofrida da vizinhança, os “humilhados e ofendidos” que Lima Barreto dignificara em sua obra, aproximava-se e, em silêncio sentido, acompanhava o cortejo.

* Professor do curso de Editoração na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre outros, é autor do livro Leituras de Macunaíma: Primeira Onda (1928-1936), publicado pela parceria EDUSP-FAPESP, em 2012. Dirige a Coleção Clássicos Ateliê.

Conheça a obra O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto no site da Ateliê.

 

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