Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

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*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.

 

 

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