Monthly Archives: abril 2015

Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

Conheça outros livros de Augusto de Campos publicados pela Ateliê Editorial

 

*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.

 

 

Capa Premiada

Escritores, Gatos e TeologiaA capa do livro Escritores, Gatos e Teologia, criada por Gustavo Piqueira para a obra de Waldecy Tenório, que a Ateliê Editorial publicou em 2014 acaba de receber o prêmio de melhor capa de livro de ficção e não ficção do IDA. Um reconhecimento que, certamente, só reforça e confirma o compromisso da Ateliê não apenas com o conteúdo mas com a qualidade estética das obras que edita. A seguir, Piqueira fala sobre a premiação:

Blog da Ateliê: Que Prêmio o livro recebeu? 

Gustavo Piqueira: A capa do livro Escritores, Gatos e Teologia recebeu um IDA International Design Award 2015, prêmio internacional de design com base nos Estados Unidos.

 

Qual a importância dele? O que significa esse prêmio na sua carreira?

GP: Um prêmio é, acima de tudo, um reconhecimento da consistência do trabalho que desenvolvo, especialmente quando se trata de um prêmio internacional, onde a seleção é feita frente a projetos desenvolvidos ao redor do mundo. Eu já ganhei um número considerável de prêmios – mais de 300 – mas sempre é bacana ir adicionando novos à lista…

 

O que, em sua opinião, fez com que essa capa fosse vencedora? Quais os diferenciais dela?

GP: Na verdade, isso é muito difícil dizer, o critério do júri é sempre algo muito subjetivo. Acredito que a capa busca não fazer qualquer leitura muito literal do texto (ou do título) mas, por outro lado, tenta não se tornar neutra demais. Talvez tenha sido essa combinação o que encantou o júri. Mas, como disse, é apenas uma hipótese.

 

 

Marina Abramović – singular e múltipla

Renato Tardivo*

 

A servia Marina Abramović é uma das artistas mais relevantes da atualidade. Com a exposição Terra comunal, em cartaz até maio deste ano no Sesc Pompeia, em São Paulo, o público tem a oportunidade de conhecer de perto o seu trabalho, além de participar de bate-papos e vivências com a artista.

Conhecida como a “avó da performance”, Abramović vem se notabilizando nas últimas décadas ao propor diversas obras cujo continente é o seu próprio corpo. Assim, ao levar as possibilidades corpóreas ao limite – explorando suas relações com outros corpos e com a natureza e, ainda, desafiando muitas vezes o seu funcionamento – a artista convoca o espectador a refletir sobre a sua própria condição.

 

Perspectiva relacional

É célebre a proposição de Marcel Duchamp: “São os espectadores que realizam as obras”. Em direção análoga, o historiador da arte Giulio Carlo Argan afirma que “a arte existe para ser percebida”. O papel do espectador, dessa perspectiva, é essencial, pois não se limita a assimilar ou acessar elementos contidos na obra, mas participa ativamente da construção de sentido. Esta é, portanto, uma perspectiva relacional, segundo a qual o sentido não se encerra apenas na obra nem apenas no espectador: ele se constrói entre a obra e o espectador.

Marina Abramović potencializa esse efeito ao eleger como temas das performances esse espaço do entre, sobretudo nas obras que criou com o artista e companheiro de vida por 13 anos, Uwe Laysiepen (conhecido como Ulay). Vamos relembrar algumas delas.

Em 1977, o casal expôs “Imponderabilia”, performance que consistia no seguinte: nus, de frente um para o outro, estáticos e simétricos, os artistas apoiavam-se em colunas de modo a deixar um espaço estreito entre seus corpos. Ao público, cabia passar por esse espaço, inevitavelmente tocando os corpos dos artistas. Nessa mesma época, o casal propôs “Light/Dark”: frente à frente e sentados sobre os calcanhares, ambos estapeavam a face um do outro, iluminados por duas fontes de luz sobre o fundo escuro em que se encontrava o público – que reagia das mais diferentes formas. E em “Rest energy”, performance apresentada em 1980, Abramović segurava um arco, enquanto Ulay tensionava uma flecha, apontada para a artista. Nessas e em outras performances, há, portanto, uma tensão entre os corpos, seja entre os corpos dos artistas, seja entre estes e os espectadores.

Com o fim da parceria com Ulay, Marina dedicou-se às aproximações da performance com o teatro, interpelando ainda mais diretamente o espectador. Célebre, nesse sentido, é “The artist is present”, performance de 2010 que se estendeu por mais de 700 horas, ao longo de meses, no MoMA, em Nova York. Nela, a artista ficava sentada, imóvel, de um lado de uma mesa e o espectador sentava-se do outro lado, olhando os olhos da artista por tempo previamente indeterminado. Ao longo da exposição, Abramović prescindiu da mesa, restando apenas as cadeiras.

Marina Abramović - The Artist is Present - A Artista está Presente The Artist is Present**

Trata-se, com efeito, de uma performance emblemática, uma vez que, nela, mais do que nunca, a artista explorou corpo e mente à exaustão, mas dessa vez imbuída de raro minimalismo: viver em silêncio a troca de olhares com o outro. Com efeito, “The artist is present” empreende um mergulho radical no espaço intermediário entre artista e público, de modo a questionar essas próprias condições: o espectador é convocado a participar da obra enquanto a artista o contempla.

 

Espaço invisível

Ao convocar o espectador a partir de um mergulho nas faculdades expressivas do corpo, Marina Abramović dialoga com o pensamento de Maurice Merleau-Ponty, filósofo que supera o dualismo entre o sentir e o entender ao propor que o pensamento recue ao seu ponto de partida, isto é, ao mergulho no sensível.

É também em consonância com Merleau-Ponty que, por exemplo, João A. Frayze-Pereira mostra a construção da arte a partir do encontro entre a forma e o mundo em Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise.

No caso de Abramović, o corpo, tocante e tangível, zona de fronteira entre mundo interno e mundo externo, é emblema da ambiguidade perceptiva: como no encontro entre as mãos que se tocam (qual toca e qual é tocada?), há uma reversibilidade que jamais se esgota. Este hiato entre nós e as coisas, sujeito e objeto, artista e espectador, é o espaço invisível que preexiste e amadurece em sintonia com o visível. E é a este lugar que as performances de Marina Abramović nos convocam – porque é dali que partem e para lá que retornam. Não é aleatória, portanto, a ênfase na sensorialidade em suas obras.

Em “The artist is present”, a propósito, há uma exaustão que ultrapassa o cansaço físico. Desde Freud, sabemos que somos muitos e que, por isso, convocamos o outro (que também nos convoca) a múltiplos lugares. Resumidamente, este é o fenômeno da transferência: transferimos todo o tempo (e não apenas em análise) emoções e afetos que dizem respeito à nossa complexa trama histórica. Assim, em direção contrária à banalização tipicamente contemporânea em que somos muitos e nenhum, Marina Abramović se expõe à multiplicidade feroz do olhar do outro, de modo que esse outro, refletido no corpo da artista, possa se ver, se sentir, se pensar: singular e múltiplo.

 

* Escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

**Marina Abramović

The Artist is Present (A ArtistaestáPresente)

Performance

3 meses

The Museum of Modern Art, Nova York, NY

2010

Fotografia de Marco Anelli

Cortesia do Acervo Marina Abramović

“Décio sempre falou em Nísia”

Em entrevista exclusiva ao Blog da Ateliê, o Professor Francisco Ivan da Silva, que acompanhou Décio Pignatari nas pesquisas sobre a personagem de Viagem Magnética

Por Renata de Albuquerque

Quando faleceu, em 2012, o poeta concretista, semioticista, crítico literário e pesquisador Décio Pignatari deixou uma obra inédita. Viagem Magnética, que a Ateliê Editorial acaba de publicar, é o segundo texto dele como dramaturgo. Na peça, ele conta, em 26 segmentos, sobre a vida e a obra de Nísia Floresta (1810-1885), escritora e educadora potiguar considerada uma pioneira do feminismo no Brasil.

A obra, escrita entre 2004 e 2007, fez com que Décio Pignatari se debruçasse sobre o mundo de Nísia Floresta. Esse mergulho incluiu uma viagem ao Rio Grande do Norte, onde foi recebido pelo Professor Francisco Ivan da Silva, ex-orientando de Décio. A seguir, o Professor Francisco, que ensina Literatura Brasileira há mais de 30 anos na UFRN, conta como foi esse encontro:  

Como conheceu Décio Pignatari?

Francisco Ivan da Silva: Conheci, pessoalmente, Décio Pigantari na PUC de São Paulo, quando lá fazia curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica, em 1978. Ele lá era professor, ao lado de outro Concreto, Haroldo de Campos. Foi um momento epifânico. Ele era meu orientador de Dissertação de Mestrado e iniciou a orientação de minha Tese de Doutorado. Mas antes disso já conhecia sua obra. Chegar à PUC de São Paulo e me deparar com o homem e o poeta que já havia lido foi um grande acontecimento em minha vida. Logo ficamos amigos. Ele me convidou a escrever em uma revista que ele organizava, a De-Signos.

Qual a relação de Décio Pignatari com Nísia Floresta?

FIS: Nas primeiras aulas de Décio que assisti já ele falava em Nísia. Certa vez, ele disse que ela era paraibana e no intervalo da aula, na hora do cafezinho, houve a correção:  “Décio, o senhor disse que Nísia é paraibana, mas ela nasceu no Rio Grande do Norte”. Logo, como conterrâneo de Nísia, ajudei-o a fazer a correção, juntamente com mais um professor da Universidade do Rio Grande do Norte, Manoel Nely da Rocha Vieira. A partir daí sempre estávamos ouvindo Décio falando o nome de Nísia. Décio não tinha pesquisa formal sobre a obra de Nísia, mas era um curioso e grande estudioso da cultura. Décio sempre falou em Nísia. E falava de forma livre, sem amarrações acadêmicas.

Como se deu essa visita dele ao Rio Grande do Norte, no qual o senhor acompanhou-o?

FIS: Em 1980, Décio vem a Natal como conferencista do I Congresso de Semiótica, organizado pela UFRN. Veja: Décio não veio a Natal com o propósito de pesquisar a obra de Nísia. Mas creio que para ele conhecer o chão, a terra de Nísia foi algo inesquecível. Diria, foi um acontecimento na vida do poeta. Visitamos o túmulo de Nisia em Papari, hoje cidade que recebe seu nome. Foi uma visita rápida a esse recanto da cidade onde se ergue um interessante obelisco onde se acham seus restos mortais.

Depois convidei Décio, em 1995, para um ciclo de conferências. Ele veio com sua esposa, Lila. Foram dias muito proveitosos. De novo visitamos o túmulo da escritora. Ele olhava com atenção aquele obelisco, lia as placas, as datas, epitáfio. Emitia opiniões de maneira muito natural. Ele não dizia que estava pesquisando a obra de Nísia. Ele só queria saber mais. Ficou cercado de professores e estudantes que lhe contavam coisas da vida de Nísia e ele ouvia; relia livros sobre a escritora.

Em junho de 2008 ele voltou a Natal para uma conferência sobre Ulisses, de James Joyce. O tema da conferência, sugerido por ele mesmo, foi: Bloomsday/Doomsday, O dia do Juízo Final. Mas ele não pode vir, adoeceu e na última hora tivemos que modificar tudo. Adiamos sua vinda. Ele finalmente veio em 2010 participar de um Colóquio de Estudos Barrocos, evento que ocorre anualmente na UFRN. Deu duas conferências, passou três dias conosco.

 Visitamos mais uma vez o túmulo de Nísia (foto ao lado), fizemos fotografias, ele falou, ele comentou, ele leu placas, tocou com tom solene, quase em ritual, a pedra do obelisco.

Ele nos falou de sua pesquisa em progresso; da obra que escrevia sobre Nísia, sublinhava que era uma trilogia de três mulheres. Ele disse que a parte dedicada a Nísia ainda não estava pronta, mas prometia logo publicar.

O que o senhor destaca nessa obra tão singular, a Viagem Magnética?

FIS: Só Décio Pignatari faria um texto tão atual, tão expressivo, tão aberto ao leitor moderno, tão polêmico. Não se trata de um texto descritivo, biografia historicista, que aponta como nasceu, viveu e morreu. O texto de Décio ilustra desde seu realismo o universo da criação. Estamos na esfera dos signos, e nisto Décio extrapola deixando a autora no universo artístico e teatral da criação.

 

*Francisco Ivan é autor de vários livros de poesia, entre eles Thálassa, A Chave Azul, Variações, Epiphanias e Azul Grego. É autor do livro Augusto dos Anjos dos Deuses e dos Diabos. Recentemente publicou a Antologia hispano-brasileira, uma coletânea da Geração dos poetas de 27, na Espanha. Atualmente é professor de Literatura Comparada no Programa de Pós-Gradução em Estudos da Linguagem da UFRN.

 

Conheça outros livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê Editorial

“O leitor não precisa concordar com as ideias do livro, mas ele se vê ali”, afirma autor de História do PT, relançado pela Ateliê Editorial

Lincoln Secco fala, em entrevista exclusiva ao Blog da Ateliê, sobre sua obra, que chega agora à quarta edição

Por Renata de Albuquerque

lincoln secco

Lincoln Secco

Contra ou a favor, uma coisa é certa: é impossível falar da política no Brasil dos últimos 35 anos sem falar do Partido dos Trabalhadores. De oposição a situação, o partido mexeu, durante esse período, com as estruturas do poder no país, seja levando um ex-metalúrgico e uma ex-presa política à presidência; seja tendo o nome de seus quadros envolvidos em escândalos nacionais.

No início de 2011 o Professor de História da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, aproveitou o momento que chama de “compasso de espera” para, em quatro meses, escrever o texto que avalia a trajetória do partido ao longo dessas mais de três décadas. A relevância do trabalho pode ser medida pelo resultado editorial: com três edições esgotadas, agora a Ateliê Editorial lança a 4ª edição da obra, revista e atualizada, apenas quatro anos depois da primeira edição. Acompanhe, a seguir, a entrevista exclusiva que o autor concedeu ao Blog da Ateliê:

O que o motivou a realizar esse trabalho?

Lincoln Secco: Não havia uma história do PT. Havia trabalhos de cientistas políticos, alguns ótimos. E pesquisas regionais: narrativas do surgimento do PT em várias cidades. Acredito que não havia uma avaliação do conjunto da trajetória petista porque ele ainda não tinha completado um ciclo, que era o da experiência do poder. A forma ensaística e o meu passado militante me ajudaram. Eu conheci o PT por dentro. Embora nunca tivesse tido cargos no partido, conheci ou vi em reuniões todos os principais dirigentes partidários. Também acompanhei a evolução ideológica do PT e li muitos livros e documentos sobre o partido. Tudo isso facilitou. O livro foi feito em alguns meses, mas pensei nele muitos anos.

Como foi o processo?

LS: Eu escrevi o livro no único momento em que talvez fosse possível fazê-lo. Em 2011,  o PT estava em compasso de espera, com uma história atrás de si e um futuro incerto. Depois disso, se torna inviável outra história ao mesmo tempo abrangente e sucinta do PT. A massa de documentos e de artigos e livros sobre o partido, se multiplicou no Brasil e no exterior. Uma história do PT melhor, mais abrangente, será provavelmente obra coletiva ou de um abnegado estudioso que passe muitos anos estudando o tema.

Em menos de cinco anos, esta já é a 4ª edição do livro. A que atribui este sucesso?

LS: O livro mostra o PT através das formas que ele assumiu ao longo do tempo. Não faz uma análise do partido pela mudança de seu discurso. Não demoniza seus opositores sociais. Procura entender. Não julgar. Embora certas simpatias aflorem aqui ou acolá, como em toda obra de história. Não é o discurso que muda a realidade. Assim, eu dei preferência não ao que dirigentes diziam apenas, mas à militância de base, ao surgimento e declínio dos núcleos, ao cotidiano dos encontros, às lutas populares, às campanhas eleitorais, comícios etc. É uma história do PT vista a partir de baixo e não dos dirigentes. Creio que tenha empolgado o militante comum do PT, o antigo eleitor. E também jornalistas que precisam entender um partido que possivelmente governará o país por 16 anos ou mais. O leitor não precisa concordar com as ideias do livro, mas ele se vê ali.

O que mudou da primeira para esta atual edição?

LS: O livro tem defeitos, como qualquer obra. Eu acrescentei algumas informações pontuais que não alteram a tese central do livro. O livro é um ensaio sobre formas. Sobre as formas que os construtores do PT encontraram para enfrentar distintos momentos políticos do país.

O que foi revisto e atualizado para esta edição? Quais são as novidades a que o leitor terá acesso nesta edição?

LS: No final do livro eu previa que o modelo social-rentista que sustentava Lula no poder iria se esgotar quando a economia não pudesse mais acomodar os muito ricos e os pobres num mesmo projeto político. Isso aconteceu. Eu pensava que seria importante narrar como aconteceu. Houve um convite de uma editora francesa para publicar a obra lá. A editora pediu uma atualização da obra para cobrir o mandato de Dilma Rousseff. Por isso, escrevi um posfácio narrando as dificuldades do PT após as jornadas de junho de 2013. Esse posfácio foi incorporado à quarta edição.

Quais as implicações e qual a importância de lançar mais uma vez esta obra no atual contexto sócio-político do Brasil?   

LS: Não é possível narrar a história do Brasil recente sem falar do PT. O Partido não é mais aquele movimento federativo, militante, basista e radical dos anos 1980. Seus dirigentes envelheceram nos cargos, acomodaram-se no Estado e, muitas vezes, condenaram os novos manifestantes da esquerda. Daqui para a frente a história é outra. Por isso, acredito que junho de 2013 e as eleições do ano passado encerram a história daquele PT. A sigla deverá continuar. Se não houver uma ruptura institucional, um golpe travestido de impeachment ou coisa semelhante, para muita gente o PT continuará sendo um partido importante da política oficial e até melhor do que seus opositores do congresso, como PMDB, PSDB etc. Para a juventude que quer transformar o Brasil, ele não serve mais. E ela terá que construir outro instrumento de luta.

O Centenário de Triste Fim De Policarpo Quaresma (1915-2015)

José de Paula Ramos Jr.*

José De PaulaLima Barreto (1881-1922) entendia que o escritor tem compromisso com a realidade, devendo esforçar-se para revelar o que os simples fatos não dizem. A literatura deveria também cumprir um papel ético, contribuindo para melhorar a humanidade. Por isso, julgou necessário denunciar a hipocrisia, a intolerância, a ambição egoísta e a injustiça, que ele via na base da sociedade brasileira no tempo da então jovem república. Tinha da literatura uma visão militante e usou dela para expressar sua revolta, solidarizando-se com a gente humilde.

Entre os poucos livros publicados em vida do autor e vários outros póstumos, a crítica e a história da literatura brasileira distingue o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) como a obra-prima de Lima Barreto. Ele conta a história de um idealista, que dedica toda a sua vida ao Brasil e acaba condenado à morte, acusado de traição à pátria.

Policarpo Quaresma faz lembrar o otimismo do doutor Pangloss. Para essa personagem da sátira de Voltaire, este mundo é o melhor dos mundos possíveis; para o protagonista da sátira de Lima Barreto, o Brasil é o melhor dos mundos possíveis. E se não é, deveria ser, pois teria todas as condições favoráveis para isso, desde que o país e a nação se encontrassem com sua própria cultura. Assim pensando, ele lê e estuda todos os livros de sua vasta biblioteca, totalmente dedicada ao Brasil, até decidir pôr em prática as suas ideias, para espanto de vizinhos e amigos, para o deboche da imprensa e da população carioca, quando ele propõe ao Congresso Nacional um decreto que tornasse o tupi-guarani a língua oficial do Brasil, em desfavor da língua portuguesa, e para escândalo dos burocratas do Arsenal de Guerra, onde ocupava o cargo de subsecretário. A hostilidade dos colegas de trabalho e da chefia leva o ingênuo Quaresma ao delírio persecutório e ao manicômio, onde fica internado por seis meses. Ao sair, deprimido e aposentado, muda-se do bairro carioca de São Cristóvão para um sítio, em Curuzu, pouco distante do Rio de Janeiro.

Na roça, Quaresma recupera o antigo entusiasmo nacionalista, agora voltado à convicção de que o Brasil poderia tornar-se o celeiro do mundo. Dedica-se ao trabalho em sua propriedade rural com afinco, para decepcionar-se com a quebra de safra, por força do ataque de saúvas, com a peste que dizimara metade dos animais de criação, e com os magros resultados comerciais apurados, em decorrência dos custos de embalagem e transporte dos produtos, da especulação dos atravessadores e dos achaques fiscais. Chega à conclusão de que “tornava-se necessário refazer a administração. Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves, […] espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador… Então sim! o celeiro surgiria e a pátria seria feliz”.

Quando tem notícia da Revolta da Armada (1893), que considera um movimento impatriótico, redige um memorial propondo profunda reforma da economia agrária do país e o entrega pessoalmente ao presidente da república, o marechal Floriano Peixoto, na ocasião em que se oferece como voluntário na luta contra os insurgentes. Quaresma, então, recebe a patente de major de artilharia, mediante o pagamento de vultosa quantia, mesmo sem nunca haver disparado um tiro.

Durante as refregas, Quaresma tem a oportunidade de encontrar Floriano Peixoto, que visitava o posto do major, e de perguntar sobre o memorial. Floriano responde que o havia lido e considerava as propostas como a obra inexequível de um “visionário”.

Decepcionado, Quaresma começa a questionar as qualidades do presidente:

Era pois para sustentar tal homem que deixava o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?

Vencidos, os marinheiros revoltosos são aprisionados. Quaresma é designado carcereiro, até ser preso e condenado à morte por uma carta escrita ao presidente, em que denunciava as injustiças e atrocidades cometidas contra prisioneiros, arbitrariamente fuzilados.

Eis aí o triste e irônico fim desse Dom Quixote carioca e, sobretudo, brasileiro cujo nome é um oximoro, pois “Policarpo” significa “muitos frutos” (do grego, “poli” + “karpós”), enquanto “Quaresma” é vocábulo que designa o período litúrgico cristão em que a vida se recolhe. Por dar tantos frutos em tempo estéril, o herói visionário sucumbe, vencido pela hipocrisia, pela mediocridade, pelos preconceitos, pelo egoísmo, pelo descaso com os interesses republicanos do país e de seu povo.

Há cem anos o romance se mantém atual.

O texto de Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado na coleção Clássicos Ateliê, foi estabelecido com base no da primeira edição da obra em livro (1915), lançada no Rio de Janeiro pela Revista dos Tribunais, em cotejo com o do segundo volume das Obras Completas de Lima Barreto, organizadas por Francisco de Assis Barbosa, Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença, em 1956, para a Editora Brasiliense, de São Paulo. A ortografia foi atualizada, segundo o Acordo Ortográfico vigente, mas mantida a pontuação original do autor. Obedecendo ao rigoroso padrão de qualidade da Ateliê Editorial, o volume traz uma ampla e lúcida apresentação crítica de Ivan Teixeira e notas ao romance, elaboradas por Gustavo B. Martins. As ilustrações artísticas foram executadas por Paulo Batista. Há, ainda, documentação iconográfica.

Ivan Teixeira (1950-2013) foi professor de Literatura Brasileira na ECA/ USP e na Universidade do Texas, em Austin. Escreveu, entre outros, Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (EDUSP) e O Altar e o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista (Ateliê Editorial; Editora UNICAMP). Gustavo B. Martins é jornalista formado pela Universidade de São Paulo, autor de A Arca de Noésio e Fábulas para o Ano 2000 (ambos publicados pela Ateliê Editorial). Paulo Batista é designer gráfico, ilustrador e cartunista, tendo participado de revistas como Chiclete com Banana e Animal.

* Professor do curso de Editoração na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre outros, é autor do livro Leituras de Macunaíma: Primeira Onda (1928-1936), publicado pela parceria EDUSP-FAPESP, em 2012. Dirige a Coleção Clássicos Ateliê.

 

Lima Barreto: nota biográfica

José de Paula Ramos Jr.*

LimaBarretoAfonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, numa sexta-feira 13 do mês de maio, ano de 1881. Segundo a superstição, um dia nefasto, que marcaria a triste sina da criança.

Filho de Amália, professora primária, e João Henriques, respeitado tipógrafo da Imprensa Nacional, o jovem Afonso Henriques estuda no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II) para ingressar, em 1897, no primeiro ano de engenharia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Após cinco anos, Lima Barreto abandona o curso superior sem concluí-lo, ingressa na Secretaria da Guerra como amanuense concursado e, com modestos proventos, muda-se para o subúrbio de Todos os Santos com o pai, que havia enlouquecido, três irmãos, Priciliana (companheira de João Henriques desde a morte da esposa) e seus três filhos, além do velho agregado Manuel de Oliveira, todos dependentes dele.

A vida de burocrata era tediosa. Sentia-se amesquinhado na repartição. Havia nela o mesmo preconceito que tanto ferira seu orgulho na Politécnica. Via gente sem merecimento subir na hierarquia, enquanto ele era preterido. Com o tempo, foi relaxando o zelo profissional, ao passo que intensificava a participação no jornalismo e na vida boêmia, adquirindo o vício da bebida. O álcool foi um trágico refúgio para aquela alma orgulhosa e sofrida, que se sabia superior, mas que era barrada pela sociedade preconceituosa. Faltava dias e semanas na repartição, tornara-se extremamente desleixado com sua pessoa, andava roto e sujo, chegava a exalar um odor desagradável. Nas crises de bebedeira, ficava horas parado na rua de maior movimento do Rio, afrontando com sua figura bizarra os elegantes que passavam; depois, andava quilômetros, por toda a cidade, parando nos botecos, bebendo cachaça até cair na sarjeta. Assim, veio a sofrer seu primeiro delírio. A família decidiu interná-lo no Hospital Nacional de Alienados, onde ficou dois meses. Não adiantou o tratamento, em pouco tempo estava de novo enredado na bebida.

De novembro de 1918 a janeiro de 1919, o escritor esteve internado no Hospital Central do Exército. Estava com a clavícula fraturada e padecia de muitos males decorrentes do “alcoolismo crônico”, como dizia o laudo médico. Ao sair, aposentou-se, com vencimentos proporcionais aos 14 anos de serviço público.

Os últimos anos de Lima Barreto foram mais que melancólicos. Sua aparência de quase indigente afastava até os admiradores, como Monteiro Lobato, que, numa passagem pelo Rio, quis conhecer o “mestre” pessoalmente, mas foi encontrá-lo num estado de embriaguez e miséria humana tão deprimente que preferiu ir embora, sem se fazer apresentar.

Lima Barreto, vencido pela doença, finalmente falece no dia primeiro de novembro de 1922. Um pequeno grupo de amigos compareceu ao velório na casa suburbana, que o extinto costumava chamar “Vila Quilombo”. Levaram o caixão para a estação de Todos os Santos, de onde o carro fúnebre da Central do Brasil o transportaria para ser enterrado no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo. Chovia muito, mas, à passagem do corpo pelas ruas barrentas do subúrbio, aquela gente sofrida da vizinhança, os “humilhados e ofendidos” que Lima Barreto dignificara em sua obra, aproximava-se e, em silêncio sentido, acompanhava o cortejo.

* Professor do curso de Editoração na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre outros, é autor do livro Leituras de Macunaíma: Primeira Onda (1928-1936), publicado pela parceria EDUSP-FAPESP, em 2012. Dirige a Coleção Clássicos Ateliê.

Conheça a obra O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto no site da Ateliê.