Perspectiva da micro-história permeia conteúdo do quarto número da Revista Livro

Em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê, a professora Ana Luiza Martins, que faz parte do conselho editorial da publicação,  fala sobre o número recém-lançado.

Renata de Albuquerque

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançada no início de março, a Livro – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, editado pelo NELE e publicada pela Ateliê Editorial traz, mais uma vez, farto material para a discussão do livro como objeto. A publicação, que é anual, tem como objetivo promover a pesquisa, agregar profissionais, provocar o espírito crítico.

A seguir, Ana Luiza Martins, Doutora em História Social pela FFLCH – USP, conselheira do Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – e membro do Conselho Editorial da publicação fala sobre o recente lançamento em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê:

Em sua opinião, qual a importância deste lançamento para o mercado editorial?

Ana Luiza Martins: Ele veio preencher uma grande lacuna do mercado editorial. Trata-se de uma iniciativa e publicação únicas no periodismo brasileiro. Os estudiosos do impresso e da história cultural do país se ressentiam de uma revista voltada especialmente para a temática do impresso no Brasil. Os assuntos que Livro trabalha –  estudos de livros, leitores, bibliofilia, arte gráfica, parque gráfico,editoração e outros afins – foram tardiamente cultivados entre nós e têm agora o acerto de contas com essa imensa defasagem da área. Seus textos permitem a recuperação de fontes inovadoras e imprescindíveis para a reconstrução da História, em suas várias dimensões. Sobretudo num país que nasceu Colônia, figurou como rara Monarquia nas Américas e conheceu formação heterogênea de seu público leitor, com trajetórias peculiares no campo da leitura, do consumo livreiro, da editoração. Além disso, a revista Livro, por seu caráter diversificado e abrangente em relação à temática, tem mobilizado estudiosos de campos de conhecimentos diversos que, inspirados na publicação, enveredam por trilhas jamais cogitadas da busca de fontes do impresso no Brasil, que subsidiam as mais diferentes disciplinas, até mesmo aquelas das ciências exatas.

Qual o conceito por trás deste número da revista?

ALM: Ressaltou para mim que, particularmente nesse número, a maioria dos artigos foram trabalhados, de certa forma, na perspectiva da micro-história, de Carlo Ginzburg. Ou seja: revelando o quanto o objeto livro, aparentemente circunscrito tão só a seu conteúdo e forma, permite a ampliação incomensurável da apreensão de sua história e da História, desde que inserido na ampla pesquisa suscitada por todos os seus componenentes, no tempo e no espaço de sua produção. Ou, conforme vem em seu prefácio: “a questão primordial que move Livro n. 4 reside no fato de um objeto por vezes minúculo, quase imperceptível – ou com proporções monumentais, pouco importa – concentrar temáticas, abordagens, perspectivas, leituras, arquivos, debates e uma produção ficcional que se renova ad infinitum”.

Que assuntos balizaram a elaboração desta edição?

ALM: As onze seções que compõem a revista Livro e que vêm se ampliando gradativamente em número de colaborações – contemplam nesse 4º número a pluralidade de abordagens sugeridas pelo objeto livro, envolvendo: o cotidiano de antigas livrarias revisitadas; os caminhos percorridos pelo livro da Europa ao Brasil; a recuperação de autores e personagens emblemáticos da literatura e da ilustração gráfica;  a história de bibliotecas históricas; a epistolografia de escritores afamados; as coleções particulares de livros; bibliofilia; novos títulos bibliográficos da área, as relações entre texto e imagem na produção do impresso; e até a recepção da literatura infantil.

De que maneira, em sua opinião, a Revista Livro nº4 contribui para a discussão da questão do livro no Brasil, hoje?

ALM: Particularmente este nº 4 abre um leque de questões que revelam a abrangência cultural da temática, ampliando as possibilidades de discussão. Torna-se mais instigante, contudo, por enriquecer tempos culturais diversos, balizando a importância do livro impresso, com seus lugares de memória na cidade, com suas marginalias e marcas pessoais de colecionadores, assim como pelas tantas histórias que estão por trás do livro. Mais que isso, este nº 4 potencializa a importância do livro impresso neste momento crucial, em que o livro digital conhece penetração expressiva. Da leitura do nº 4 – que não trata dessa questão e neste número nem caberia – fica clara a necessidade de se debruçar sobre esse objeto, que muito longe de viver sua extinção, se renova e se faz cada vez mais necessário no universo do conhecimento, das artes gráficas, da editoração e de processos históricos múltiplos.

Quais são, na sua opinião, os maiores destaques desta edição?

ALM: É uma pergunta difícil. Destaco, por ora, aqueles que incidem sobre temáticas com as quais trabalho no momento, pois senão teria que elencar praticamente todos. E me limito apenas a nomeá-los, pois comentar os respectivos conteúdos levaria longe essa apreciação de Livro nº 4. Todos os artigos, balizados nos propósitos de suas seções, são reveladores, deliciosos, instigantes. Seleciono por partes:

Já de início me encantei com os relatos informais da seção Conversas de Livraria. Revisitar a Livraria Kosmos, a Livraria Francesa, sentir o aprendizado do mundo no espaço de sebos, de Ubiratan Machado (com saudade, até porque hoje em dia estão se transformando em estantes virtuais…) e o relato inédito de Rubens Borba de Morais sobre nossas bibliotecas, livrarias e brasilianas foi um belo começo para iniciar a viagem pelas páginas de Livro nº 4.

A seção Leituras está bastante ampliada, com dez artigos. Três particularmente me interessaram por virem ao encontro de estudos de pesquisas que realizo sobre livros do século XIX: Sandra G. T. Vasconcelos, Da Mancha ao Rio de Janeiro; Rosângela M. Oliveira Guimarães, Alexandre Dumas no Brasil; Ubiratan Machado, Balzac e o Brasil.

Em Dossiê, que revisita bibliotecas, destaco o artigo de Frédéric Barbier – A Cidade, o Príncipe e a Biblioteca, enriquecido com ilustrações preciosas de tradicionais bibliotecas dos séculos XV e XVI.

Na seção Arquivo, a descoberta da correspondência entre Euclides da Cunha e Vicente de Carvalho foi uma surpresa! Nunca imaginei que se relacionassem…

No Acervo, dois textos lúdicos – até em razão de registrarem as ilustrações dos impressos analisados – são de autoria de Cristina Antunes – Uma Coleção Particular de Literatura de Cordel – e de Ésio Macedo Ribeiro: Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade.

Almanaque é uma festa, mas me detive no Jean Pierre Chauvin, Um Ensaio do Jovem Machado de Assis (Machado de Assis, O jornal e o Livro).

Bibliomania traz o sensível texto de Marisa Midori Deaecto, que homenageia a figura especial de Cláudio Giordano, em Um Livro, um Sonho.

Em Debate, o tema é sedutor ao relacionar O Poder do Livro e sua Relação com o Cinema.

Todos os textos de Letra & Arte, selecionados por José de Paula Ramos Junior foram aperitivos estimulantes para se ir atrás de outros títulos de Luiz Rufatto, Aguinaldo J. Gonçalves, Zepa Ferrer e tantos novos nomes…

Sem falar na estante editorial, com títulos sobre a temática, alguns inéditos entre nós, outros já em novas edições reelaboradas, um convite para se ampliar de imediato a biblioteca! E envolvendo tudo isso, dando a Livro nº 4 uma ambiência plástica, a atmosfera de biblioteca, própria do universo do livro, as fotografias inusitadas de Patricia Osses.

Confira aqui essa e todas as revistas já publicadas pela Ateliê.

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