Monthly Archives: março 2015

Livros e Leituras na Espanha do Século de Ouro

Carolina Ferro | Revista História da Biblioteca Nacional | Seção: Livros | Página 94 Março de 2015

765_01O acesso ao livro nunca foi tão democrático. Esta reflexão ganha peso ao compararmos nossa época com momentos anteriores, quando esse objeto podia ser obscuro e proibido – por isso mesmo, instigante. Foi o que ocorreu na Espanha do século XVII, período conhecido como Barroco ou Século de Ouro. A maioria da população era analfabeta, mas, em época de poucas mídias, uma obra literária podia ter um alcance maior do que se imagina. Castillo Gómez recorre a documentos de arquivo, testemunhos escritos, pistas encontradas na materialidade das obras, folhas soltas, panfletos e bilhetes para compreender como e onde aquela sociedade lia e qual era o sentido dessas leituras.

O autor aborda aquela que era considerada boa ou má leitura, a forma erudita de fazê-Ia somada à produção de conhecimento, as transgressões daqueles que liam obras censuradas pela Inquisição, a leitura solitária e em comunidade, que fazia com que o acesso à obra fosse além de um único leitor, tanto no âmbito religioso quanto no profano. A importância dada aos livros aparece também nas biografias de homens do período.

Todos os temas se dividem em seis capítulos, e estes, em subcapítulos estimulantes, e contam com uma excelente tradução realizada por  Claudio Giordano. O exemplar tem nove reproduções de documentos  que dão a dimensão da variedade de suportes e tipos de escrita pesquisados, como um cartaz publicitário do ilusionista flamengo Juan Rogé (impresso) e anotações de leitura de Juan Vázquez del Marmol (manuscrito). Uma obra memorável para os bibliófilos.

Cotação do Livro: Altamente recomendável

Conheça a obra Livros e Leituras na Espanha do Século de Ouro no site da Ateliê.

 

A Outra Guerra do Fim do Mundo

Bruno Garcia | Revista História da Biblioteca Nacional | Seção: Livros | Página 95 Fevereiro de 2015

760_01“Dois homens carecas brigando por um pente”, era como o escritor argentino Jorge Luis Borges descrevia a Guerra das Malvinas.

O pequeno arquipélago no Atlântico Sul atiçou a ambição patriótica da ditadura militar argentina no começo a década de 80. Mas, a despeito de suas intenções, a aventura durou pouco mais de dois meses, terminando com a vitória retumbante do Reino Unido. Em A Outra Guerra do Fim do Mundo, Osvaldo Coggiola recupera não apenas detalhes preciosos do conflito, dados e movimentações dos exércitos, como também investe na legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições. De um lado, o regime argentino em crise, apelando urgentemente para um nacionalismo redentor, de outro, o imperialismo britânico, e suas idiossincrasias imorais. O resultado é um precioso trabalho por parte do historiador argentino que termina por colocar os pingos nos is, demonstrando a perplexidade e os absurdos de um dos conflitos mais inusitados da história contemporânea.

Cotação do Livro: Muito recomendável

Conheça a obra A Outra Guerra do Fim do Mundo no site da Ateliê.

No Rastro dos Mitos

Maria Luiza Tucci Carneiro escreve sobre como surgiu a obra Dez Mitos sobre os Judeus, um trabalho que marca sua própria trajetória de pesquisadora acadêmica

Maria Luiza Tucci - Foto por Boris Kossoy, 2014

Maria Luiza Tucci – Foto por Boris Kossoy, 2014

Por Maria Luiza Tucci Carneiro

Escrever o livro Dez Mitos Sobre os Judeus foi um grande desafio, por exigir a depuração de uma pesquisa que realizo desde 1972 quando iniciei o meu mestrado junto a Universidade de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Anita Novinsky. Ao investigar as raízes do racismo no Brasil desde os tempos coloniais, deparei-me com o mito da pureza de sangue que, desde o século XV, servia aos interesses da Inquisição e do Império absolutista na Espanha e, posteriormente, em Portugal. As primeiras descobertas surgiram das pesquisas que realizei nos arquivos da Torre do Tombo em Portugal, na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Cúria Metropolitana de São Paulo e Belém do Pará. Analisando os Sermões de Autos-de-Fé, os Processos Inquisitoriais e os Processos de Habilitação de Genere e Moribus, deparei-me com um mundo intolerante, delineado pela força dos mitos. Constatei que, ao longo de séculos, uma retórica intolerante era articulada com o objetivo de excluir os judeus, os ciganos, os negros e os mouros das sociedades ibérica e brasileira. O discurso dominante, ordenador da sociedade, fundamentava-se na mentira que é portadora de uma aparência  ou de uma probabilidade de verdade.

Procurando compreender a narrativa do mito da pureza de sangue, que classificava os judeus e seus descendentes como uma “raça infecta”, deparei-me com outros mitos: do judeu errante, do judeu deicida, do judeu avarento e parasita. Seduzida pelas possibilidades metodológicas oferecidas pela análise do discurso à luz do imaginário e dos mitos, ampliei meu repertório ao constatar que a maioria dos estigmas que caracterizavam o antissemitismo de fundamentação teológica (do século XV ao XIX) persistiam no século XX servindo também aos nazistas interessados em divulgar a imagem maligna dos judeus. Inquieta, saí em busca de documentos que comprovassem também o endosso do mito da pureza de sangue por intelectuais, cientistas e diplomatas brasileiros. Adentrei aos arquivos diplomáticos e bibliotecas brasileiras em busca de documentos oficiais, obras raras, peças de teatro e charges que expressassem a circulação dos mitos no Brasil. Foi quando identifiquei um corpus documental  expressivo do discurso antissemita que, a partir  de 1930 e 1940, servia para “diabolizar os judeus enquanto eternos “bodes expiatórios”. Estavam abertas as portas para a minha tese de doutorado publicada em 1988 sob o titulo O Anti-semitismo na Era Vargas: Fantasmas de uma Geração, hoje na sua 3a edição.

A partir deste momento, defrontei-me com a persistência de outros mitos que, ainda hoje, circulam pela internet: do complô internacional judaico-comunista fundamentado na obra apócrifa Os Protocolos dos Sábios de Sião e do Judeu Internacional, de Henry Ford. Cruzando com outras narrativas, identifiquei um universo rico em mentiras que, de forma generalizada, construíam teorias conspiratórias seduzindo todos os tipos de indivíduos, bem e mal informados. Interessados em encontrar uma resposta para os seus problemas pessoais ou do seu grupo, deixavam-se envolver pelo medo e por referências do passado. Concentrei o foco das minhas pesquisas nos documentos que acusavam os judeus de formarem uma “sociedade secreta” relacionando-os com a Maçonaria. Endossados pelos nazistas, estes mitos ajudaram a construir a imagem do “perigo judaico” ou “perigo semita” interpretado sob o prisma do capitalismo enquanto sistema econômico destruidor da Humanidade. Emergia assim a imagem da hidra e do “monstro das sete cabeças” que quer tragar o povo, alimentando as mentes fantasiosas que não precisam ver para acreditar.

Analisando as charges divulgadas na Alemanha, na França, na Argentina, no México, e no Brasil durante as décadas de 30 e 40,  constatei que um conjunto de metáforas – do sangue impuro, do judeu avarento, do judeu comunista-maçon, dentre outras – facilitavam a circulação dos mitos, sendo destiladas por cartunistas, caricaturistas e literatos. Percebi que, em doses homeopáticas, as mentes vão sendo forjadas, ao longo dos séculos, pela introdução de personagens que amedrontam instigando o ódio e a repulsa aos judeus. Daí o livro Dez Mitos Sobre os Judeus articular textos com imagens propagadas através da pintura e da caricatura. A partir destes registros, procurei analisar a ideia de “perigo judaico” sob a lógica da desconfiança. Constatei que ao longo dos séculos, um conjunto de mentiras instigaram os movimentos de “caça as bruxas”, transformando os argumentos em forças mobilizadoras, ou seja: justificavam as prisões e o extermínio do povo judeu, incitando o ódio, prisões, torturas, deportações e massacres que culminaram no Holocausto.

À luz das teorias racistas, retomei a imagem do judeu apátrida que, cruzada com a imagem do judeu errante, levou-me a refletir sobre a imagem do judeu enquanto cidadão do mundo, tema que serviu de inspiração para a minha tese de Livre-Docência apresentada na FFLCH/Universidade de São Paulo em 2001. Hoje, publicada em livro, este livro sintetiza a minha trajetória de historiadora dedicada aos estudos dos mitos e do antissemitismo, em particular.

A partir destas narrativas, fui reconstituindo os centros produtores do ódio e da intolerância antissemita com o objetivo de identificar a multiplicação da mentira que atravessa séculos. Para compreender o processo de construção dos mitos – dentre os quais o mito ariano divulgado pelos nacional-socialistas e endossado por milhares de cidadãos dos países colaboracionistas da Alemanha nazista – optei por analisar a ideia/imagem de “perigo judaico” sob a lógica da desconfiança. Imediatamente, constatei que ao longo dos séculos, um conjunto de mentiras instigavam os movimentos de “caça as bruxas”, transformando os argumentos em forças mobilizadoras, ou seja: justificavam a prisão e os extermínio do povo judeu, incitando o ódio, prisões, torturas, deportações e massacres que culminaram no Holocausto.

Para “descontruir” o processo  de demonização dos judeus enquanto símbolo do Mal, recuei no tempo em busca da gênese do mito que afirma que “os judeus mataram Cristo”. Passei a analisar as Sagradas Escrituras que, durante o Medievo, receberam acréscimos e alegorias por parte dos cristãos que procuravam se autodefinir como aqueles “respeitavam D’us e não cometiam delitos”. Constatei também que representações artísticas somavam forças às mentiras propagadas pelos cristãos que, desde os séculos II e III, instigavam o ódio aos judeus acusando-os de terem “matado Cristo”. Lembrei-me dos meus catecismos e dos sermões que ouvi durante a minha infância na minha cidade natal. Constatei que, assim como tantos outros católicos, eu havia sido “educada” à luz dos mitos do deicismo e do judeu errante, imagens que permeiam (ainda hoje) o imaginário cristão.

Foi assim que reuni, ao longo as minhas pesquisas e instigada pela atual realidade que abala a sociedade ocidental, o conjunto de mitos que deram origem ao livro Dez Mitos Sobre os Judeus. Dentre os mais popularizados, selecionei: Os judeus mataram Cristo, são uma entidade secreta, dominam a economia mundial, não existem judeus pobres, são avarentos, não têm pátria, são racistas, são parasitas, controlam a mídia e manipulam os Estados Unidos. Articulando o passado com o presente e alertando para o perigo de um futuro intolerante e racista, apresento alguns dos mitos políticos que deturpam a união e identidade religiosa dos judeus, enquanto mitos criados por “outros”, em uma visão preconceituosa, que deprecia com a intenção de acusar e condenar.

Para facilitar a leitura, estruturei os Dez Mitos Sobre os Judeus no formato de um breviário, uma composição de textos breves que podem ser lidos em doses homeopáticas. Apesar de numerados, não têm uma ordem obrigatória, cada qual tem vida própria. Para encerrar cito um fragmento do Prefácio escrito pelo sociólogo Kabengele Munanga:

Os judeus não são os únicos sujeitos/objetos de mitos em nossa sociedade, salienta a autora: as mulheres, os indígenas, os ciganos, os negros e os homossexuais são também objetos de mitos e das piadas que, mesmo contadas de maneira lúdica, não deixam, apesar dos risos relaxantes, de nos transportar ao mundo simbólico cujos efeitos políticos e ideológicos não devemos minimizar.”

*Maria Luiza Tucci Carneiro: Historiadora e Professora Associada do Departamento de História da FFLCH, Universidade de São Paulo, credenciada nos seguintes Programas de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo: História Social da FFLCH/USP; Direitos Humanos da Faculdade de Direito São Francisco/USP; e Língua Hebraica e Árabe, FFLCH-USP. Coordenadora do LEER – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, do Departamento de História, onde desenvolve o projeto Arqshoah – Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo. Além do Dez Mitos Sobre os Judeus, publicou pela Ateliê Editorial: A Imprensa Confiscada pelo DEOPS – 1924-1954 (Vencedora do Prêmio Jabuti em 2004), em co-autoria com Boris Kossoy; Judeus e Judaísmo na Obra de Lasar Segall, este em co-autoria com Celso Lafer, e Livros Proibidos, Ideias Malditas. Pela editora Perspectiva: Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: O Mito da Pureza de Sangue, Séculos XVI ao XIX; O Anti-Semitismo na Era Vargas; Cidadão do Mundo. O Brasil Diante do Holocausto e dos Refugiados do Nazifascismo, 1933-1948; O Veneno da Serpente: Reflexões sobre o Anti-semitismo no Brasil. 

Conheça essa e todas as obras de Maria Luiza Tucci Carneiro publicadas pela Ateliê.

 

Lagoa da Conceição e uma tarde de domingo

Brechó na Rua 3 - blog

por Daniel De Luccas

Domingo, 22, o tempo virou em Floripa. Para quem planejava vender alguma coisinha no Brechó na Rua, a pergunta era, “será que chove?”. Digno do ócio pra curtir o friozinho que bateu, o domingo esperava por uma decisão, mesmo por parte daquele que dizia “irei guardar este dia como meu ‘sábado’ e as atividades serão: virar página de livro ou dar play em filme”. Mas foi o “preciso pagar minhas aulas de Yoga” que me deu o ponta-pé pra sair da cama, juntar as tralhas, achar um espaço no gramado da Lagoa e expor os poucos itens que eu tinha e nem sabia o preço ainda.

Em meio a roupas, malas, discos, livros, sanduíches e incensos, achei um cantinho acuado, estendi a canga, sentei e comecei a folhear um livro. Assim que levantei a cabeça reconheci, de um café que frequento, minha “vizinha de canga”. Iniciei ali uma conversa com ela, depois, com um casal que vendia livros usados à minha frente (do Sebo O Escambau), com os interessados em meus apetrechos, com o fotógrafo que gostou da minha máscara da Indonésia e com os novos vizinhos que chegavam. Sem perceber, a tarde de domingo se foi, sem chuva, e eu saí no lucro, não financeiro, mas de novos conhecidos e histórias.

BrechoNaRua-PedroCunha

Foto: Pedro Cunha

Lara, recém mudada para a Lagoa, resolveu fazer uma limpa no armário. Levou uma mala cheia e vendeu quase tudo. Vi sapatos lindos sendo vendidos por R$ 5,00. Desde que cheguei no evento, até escurecer, quando ela tentava fechar a mala, chegavam meninas revirando suas roupas para levar algo. Carla, professora de idiomas, já participou do encontro outras vezes. Ela levou diversos itens que juntou durante suas viagens pela Europa, dentre eles, livros importados, malabares, roupas e até uma gravata, algo um pouco difícil de se vender aqui na Lagoa. A cada hora que passava eu via Carla falando em uma língua diferente. Ao deixar o local puxando sua mala, ela notou a diferença no peso: “Até que minha mala deu uma boa esvaziada!”, comemorou.

Durante o evento, que ocorrerá mensalmente, rolou doação, troca, negociação e até algumas vendas pra mim. Comi uma empanada deliciosa, feita por uma senhora que vendia comidas por ali. Assisti a criançada correr na grama e brincar no trapézio. E, sob o olhar do fotógrafo Pedro Cunha, vi a máscara, que não consegui vender, passar de carrancuda para tranquila. Foi bonito de ver o gramado da Lagoa ocupado por essa galera. Mês que vem tem mais!

Os Manuais de Desenho da Escrita, título da coleção Artes do Livro, estuda a evolução do percurso tipográfico

"Os Manuais de Desenho da Escrita", de Maria Helena Werneck Bomeny

Depois da invenção da escrita, a invenção da tipografia é considerada como o avanço mais importante da civilização, pois permitiu a expansão da palavra escrita em escala global. A letra é a unidade básica da escrita alfabética, parte fundamental do sistema de comunicação universal. Ela passou e continua passando por constantes adaptações às novas tecnologias, que implicam em alterações formais de seu desenho. Ao longo de séculos, sua configuração visual sempre foi determinada pela criatividade do designer e pela busca permanente de formas de letra mais simples e rápidas, no intuito de acelerar sua execução e leitura.

Os Manuais de Desenho da Escrita, oitavo título da Coleção Artes do Livro, da Ateliê Editorial, oferece uma análise das letras no aspecto particular de seu desenho, principalmente em suas relações com os suportes em que elas eram impressas ou gravadas.

O ponto de partida de Maria Helena Werneck Bomeny é a releitura dos principais manuais de desenho da escrita de quatro épocas consideradas renovadoras: o Renascimento, da chancelesca de Ludovico degli Arrighi (1522); o Neoclássico e a tipografia de Giambattista Bodoni (1818); as vanguardas do século XX e os traba- lhos/manifestos de Jan Tschichold (1928) e, finalmente, o Estilo Internacional ou Suíço e a obra de Emil Ruder (1967).

Estes manuais representam verdadeiras compilações das essências conceituais mais significativas de cada período. São testemunhos fundamentais do desenvolvimento da escrita e da maneira de se apresentar uma mensagem a um leitor. Estudando-os, torna-se possível entender e interpretar a evolução conceitual, formal e tecnológica que aconteceu no percurso tipográfico e quais os vínculos formais criados entre os processos caligráficos, tipográficos e digitais.

Maria Helena Werneck Bomeny é graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, mestre e doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É professora de design gráfico da Escola Panamericana de Artes e do Centro Universitário Senac. 

Acesse o livro no site da Ateliê

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Ilustrando Petrarca

Por Enio Squeff*

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Ilustração de Enio Squeff para a obra “Cancioneiro”

Não foi por qualquer coisa como o Guiness que resolvi testar minha capacidade de improvisar, quando pedi ao editor Plínio Martins Filho para desenhar sobre os originais da tradução do Cancioneiro de Francisco Petrarca. Este trabalho, soube há pouco, resultou em mais de 700 ilustrações, feitas alla prima.  Não sei (e realmente não interessa) se alguém fez tantas ilustrações para um único livro, diretamente sobre as provas da obra. Claro, havia o acordo tácito de que, se qualquer desenho não saísse a contento, eu o substituiria por uma ilustração à parte: fazer desenhos sobre as provas de uma publicação é, penso eu, algo mais ou menos inédito. Conclui, no entanto, não ter sido necessário apor qualquer “correção”. Digamos que, a meu critério, tudo saiu comme il faut.

A contento?

Nem tanto, talvez – poderão afirmar alguns; e serei, então, persuadido a reconsiderar meu juízo, assim como o editor que aceitou o que eu fiz, sem restrições. Na verdade, trabalhei durante uns dois meses: eu e meu pincel, com as cerdas devidamente amarfanhadas. Era a única maneira de fazer as ilustrações com um caráter de impromptu, como as definiu uma colega. Não é por imodéstia, portanto, que me arrisquei ao exame dos leitores críticos e aos críticos leitores. Petrarca, o grande, o excelso Petrarca, certamente não mereceria esse tipo de façanha, se fosse apenas isso – façanha. E não a arte de improvisar como uma homenagem à franqueza, e à espontaneidade que o seu gênio – de Petrarca – induz, a despeito do risco inerente ao desafio.

Mas acertamo-nos, o Plínio e eu, diante da possibilidade de certas obras de arte suscitarem outras. A de José Clemente Pozenato é a segunda, depois de Petrarca do original; ficamos, sem falsa modéstia, o editor e eu, com a terceira possibilidade, a da arte sobretudo musical, do improviso.

*Enio Squeff, nascido em Porto Alegre (RS), iniciou sua vida profissional como jornalista na revista Veja, transferindo-se depois para o jornal O Estado de S. Paulo,  onde se tornou editor da página de arte e, mais tarde, para a Folha de S. Paulo, na qual atuou como editorialista, crítico de música e, por fim, a convite da direção do jornal, como ilustrador, iniciando, assim, sua trajetória de artista plástico.

Acesse o livro Cancioneio, de Francesco Petrarca no site da Ateliê

 

Importante obra do concretismo brasileiro foi recentemente reeditada: “Viva Vaia – Poesia 1949-1979”, de Augusto de Campos

"Viva Vaia", de Augusto de Campos

Clique na imagem para ver o encarte ampliado

"Viva Vaia" – Augusto de CamposLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por OlhossO Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Acesse o livro “Viva Vaia” no site da Ateliê

 

Poema recém-descoberto de Machado mostra evidente influência romântica

Wilton Marques Folha de S. Paulo | Ilustrada | 16 de março de 2015

No dia 9 de setembro de 1856, Machado de Assis, então com 17 anos, publicou no jornal Correio Mercantil (1848-1868) o poema O Grito do Ipiranga.

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Machado de Assis

De antemão, a grande novidade desse texto, datado de 7 de setembro de 1856, reside no fato de que ele nunca foi coligido pelos estudiosos da obra poética do escritor carioca. Em outras palavras, é um poema esquecido e inédito.

Para além da mera curiosidade do achado, O Grito do Ipiranga é antes de mais nada um texto de juventude, o que obviamente explica sua qualidade estética ainda algo hesitante.

No entanto, o seu (re)aparecimento no universo literário machadiano é um acontecimento importante, sobretudo por não apenas lembrar que, ainda hoje, o principal escritor brasileiro não tem sequer sua obra literária completamente mapeada e/ou publicada, como também por trazer em si algumas informações novas sobre Machado Assis, seja em relação a aspectos biográficos desconhecidos, seja em relação à evidente influência romântica na fatura do texto.

Desse modo, e ao contrário do que afirma o crítico Jean Michel Massa em A Juventude de Machado de Assis – 1839-1870 (Unesp) de que foi em outubro de 1858 que Machado publicou seu primeiro texto no Correio Mercantil, O Grito do Ipiranga é, na verdade, a sua primeira contribuição ao jornal.

Tal fato traz naturalmente novas indagações aos estudos machadianos, notadamente no que diz respeito ao seu processo de inserção na grande imprensa do Rio de Janeiro, num período da vida do autor sabidamente carente de maiores detalhes.

Quanto ao poema, além da presença temática de referenciais histórico-literários clássicos (expediente, digamos, altamente machadiano), a louvação a D. Pedro 1º se dá não apenas no exagero da comparação com Napoleão Bonaparte, mas sobretudo na explícita referência romântica ao Brasil através de elementos da natureza local, como marcas de nacionalidade (floresta tropical, sol ardente, oceano, etc.).

SURPRESA

Essa, aliás, é uma novidade em Machado. Tanto que, pouco tempo depois, o escritor não apenas abandonará tal postura nacionalista como, inclusive, tecerá varias críticas a ela, notadamente no ensaio Passado, Presente e Futuro da Literatura Brasileira (1858) e, posteriormente, no famoso Instinto de Nacionalidade (1873).

Enfim, O Grito do Ipiranga é mais uma agradável surpresa do velho Bruxo e, com certeza, renderá algum pano para manga nos estudos machadianos. Isso, no entanto, já é outra história…

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê.

Autor de Eça de Queiroz. Uma Biografia fala de sua paixão pela obra do escritor português e de como foi realizar este trabalho

Alfredo Campos Matos, que interessou-se por Eça ainda na juventude, fala de seu novo livro com exclusividade para o Blog da Ateliê

Por Renata de Albuquerque

Alfredo Campos Matos

Alfredo Campos Matos

“Uma lufada de ar fresco; um assombro”. É assim que o pesquisador português Alfredo Campos Matos define seu encontro com a obra de Eça de Queiroz. Desde então, tornou-se um pesquisador contumaz da obra do escritor português e reuniu seu conhecimento em Eça de Queiroz. Uma Biografia, lançado recentemente pela Ateliê Editorial e pela Editora Unicamp. Foram cinco anos de pesquisas e estudos até chegar às 600 páginas do volume, que traz informações precisas, vasta iconografia e reflexões críticas de quem, por toda uma vida, acostumou-se “estar ao pé” do escritor português.

Matos tem uma ampla biblioteca sobre Eça de Queiroz. Consultá-la “comodamente em casa” – ele afirma que a ida às bibliotecas tinham como foco a consulta de periódicos – certamente ajudou para que o livro fosse muito mais que uma simples biografia, uma obra que também aproxima o leitor de um dos mais importantes escritores portugueses, como quem conhece a intimidade por meio de um livro.

De onde vem seu interesse por Eça de Queiroz?

Alfredo Campos Matos: Começou esse interesse pela juventude, com a descoberta de uma obra-prima, A Relíquia, que, como diz o crítico americano Harold Bloom é tão atual agora como o foi no ano em que foi publicada (1887). Decerto que nessa altura não tinha maturidade suficiente para uma compreensão integral da obra. Ela veio como uma lufada de ar fresco varrer-me uma série de preconceitos religiosos espantando-me a liberdade e a coragem da sua mensagem numa época eivada de fanatismos. Foi um assombro. O seu humor, ironia e crítica social e religiosa deliciaram-me. Parti daí para a leitura de toda a obra de Eça, num ano em que se deram dois acontecimentos importantes: a publicação da biografia de João Gaspar Simões (1945), que me introduziu no ambiente literário do século XIX e em Eça; e no ano em que começou a publicar-se a Obra Completa do escritor, a Edição do Centenário, no Porto. Amante de livros e de leituras, nunca mais deixei Eça como um autor de cabeceira.

Quando publiquei o meu primeiro estudo eciano, pouco depois de chegar a Lisboa, Imagens do Portugal Queiroziano, em 1976 (um estudo sobre o papel do espaço real na sua ficção), estava já suficientemente à vontade. Hoje posso dizer-lhe que vivo dentro de Eça, como costumo dizer. Repare que a sua obra completa tem cerca de 6.000 páginas. Conhecê-lo bem, lê-lo em profundidade é trabalho de uma vida.

Como surgiu a ideia de escrever essa biografia?

ACM: A ideia surgiu pelo convite que me fez em Paris o diretor da Fundação Gulbenkian para que fizesse um trabalho destinado à elucidação do público francês, que dispõe de praticamente toda a sua obra traduzida. Fiz uma 1º versão com uma bela antologia, intitulada Vie et Oeuvre d’Eça de Queiroz, em 2010Essa é uma 1º versão simplificada de uma 2ª edição publicada no Porto, muito mais desenvolvida. A edição brasileira é essencialmente esta versão revista e aumentada. Foi, portanto, um processo gradual muito pensado e trabalhado que me ocupou durante meses a fio.

Em que aspectos seu estudo se diferencia dos demais já publicados sobre Eça de Queiroz?

ACM: Os comentadores e estudiosos não cessam de publicar acerca de Eça de Queiroz. Atualmente as teses acadêmicas sucedem-se em avalanche por toda a parte. Ora o meu trabalho beneficia de todo esse trabalho gigantesco. Aproveito a melhor produção crítica para informar o leitor, resolvendo assim um defeito muito comum em biografias literárias, pois frequentemente o biógrafo não é crítico e erra facilmente lançando levianamente para o papel opiniões de todo errôneas. Eu faço uma triagem criteriosa de toda a crítica mais válida, não abdicando, já se vê, de emitir o meu próprio parecer.

No Brasil, muito se fala a respeito da crítica de Machado de Assis sobre a obra de Eça de Queiroz. Em sua opinião, sob que aspectos a crítica de Machado influenciou (ou não) o trabalho de Eça?

ACM: Como é sabido, Machado fez essencialmente uma crítica moral aos dois romances realistas de Eça, que lhe caíram em casa, subitamente, como uma bomba, numa época em que ele professava declaradamente modelos literários românticos. Mas a crítica ao realismo de escola fez bem a Eça, que deve ter aproveitado a opinião de Machado para refletir acerca dos prejuízos que a obediência a ditames literários rígidos, ditos “científicos”, pode prejudicar um escritor eminentemente fantasista e imaginativo. Isso deve ter ajudado Eça a modificar a sua singradura literária. Por sua vez, Machado refletiu conseguindo mudar o seu rumo através de um processo muito seu que fez dele o enorme escritor que é. Há que considerar ainda que ambos eram profundamente dissimulados, guardando para si o melhor e o mais essencial do seu pensamento… Desse embate fascinante, hoje muito estudado, há que tirar as conclusões acertadas, sem fanatismos nem preconceitos morais ou de escola.

Qual a importância, para o senhor, em ter tido sua obra publicada no Brasil?

ACM: Eu nunca estarei suficientemente grato à Ateliê Editorial e à Editora Unicamp por se terem abalançado a publicar uma obra de cerca de 600 páginas e aproveito a ocasião para salientar o fato de ela não ter gralhas, o que é prodigioso. É uma belíssima edição, excelentemente editada, fiquei satisfeitíssimo. Ela enriquece e honra sobremaneira o conjunto dos meus trabalhos.

De que forma isso contribuiu para sua obra?

ACM: Devo concluir que a publicação da minha biografia no Brasil é o coroamento de uma vida inteiramente dedicada a Eça de Queiroz, tal como será aqui a publicação, ainda este ano, do meu Dicionário de Eça de Queiroz, em 3ª edição, revista e aumentada, com novos colaboradores. Posso informar que está tudo tratado para que ela seja também editada no Brasil. Tem vários colaboradores brasileiros e é uma obra colossal que, num só volume, atingirá cerca de 1500 páginas. Aqui lhe deixo uma grande novidade queiroziana que revelo pela primeira vez numa entrevista. Vou entregar para a semana a última revisão deste enorme texto, que não se destina apenas a intelectuais e especialistas, mas também a simples leitores que nela encontrarão uma informação completíssima acerca de Eça.

Conheça aqui, um pouco mais sobre a obra Eça de Queiroz. Uma Biografia, de Alfredo Campos Matos.

Perspectiva da micro-história permeia conteúdo do quarto número da Revista Livro

Em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê, a professora Ana Luiza Martins, que faz parte do conselho editorial da publicação,  fala sobre o número recém-lançado.

Renata de Albuquerque

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançada no início de março, a Livro – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, editado pelo NELE e publicada pela Ateliê Editorial traz, mais uma vez, farto material para a discussão do livro como objeto. A publicação, que é anual, tem como objetivo promover a pesquisa, agregar profissionais, provocar o espírito crítico.

A seguir, Ana Luiza Martins, Doutora em História Social pela FFLCH – USP, conselheira do Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – e membro do Conselho Editorial da publicação fala sobre o recente lançamento em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê:

Em sua opinião, qual a importância deste lançamento para o mercado editorial?

Ana Luiza Martins: Ele veio preencher uma grande lacuna do mercado editorial. Trata-se de uma iniciativa e publicação únicas no periodismo brasileiro. Os estudiosos do impresso e da história cultural do país se ressentiam de uma revista voltada especialmente para a temática do impresso no Brasil. Os assuntos que Livro trabalha –  estudos de livros, leitores, bibliofilia, arte gráfica, parque gráfico,editoração e outros afins – foram tardiamente cultivados entre nós e têm agora o acerto de contas com essa imensa defasagem da área. Seus textos permitem a recuperação de fontes inovadoras e imprescindíveis para a reconstrução da História, em suas várias dimensões. Sobretudo num país que nasceu Colônia, figurou como rara Monarquia nas Américas e conheceu formação heterogênea de seu público leitor, com trajetórias peculiares no campo da leitura, do consumo livreiro, da editoração. Além disso, a revista Livro, por seu caráter diversificado e abrangente em relação à temática, tem mobilizado estudiosos de campos de conhecimentos diversos que, inspirados na publicação, enveredam por trilhas jamais cogitadas da busca de fontes do impresso no Brasil, que subsidiam as mais diferentes disciplinas, até mesmo aquelas das ciências exatas.

Qual o conceito por trás deste número da revista?

ALM: Ressaltou para mim que, particularmente nesse número, a maioria dos artigos foram trabalhados, de certa forma, na perspectiva da micro-história, de Carlo Ginzburg. Ou seja: revelando o quanto o objeto livro, aparentemente circunscrito tão só a seu conteúdo e forma, permite a ampliação incomensurável da apreensão de sua história e da História, desde que inserido na ampla pesquisa suscitada por todos os seus componenentes, no tempo e no espaço de sua produção. Ou, conforme vem em seu prefácio: “a questão primordial que move Livro n. 4 reside no fato de um objeto por vezes minúculo, quase imperceptível – ou com proporções monumentais, pouco importa – concentrar temáticas, abordagens, perspectivas, leituras, arquivos, debates e uma produção ficcional que se renova ad infinitum”.

Que assuntos balizaram a elaboração desta edição?

ALM: As onze seções que compõem a revista Livro e que vêm se ampliando gradativamente em número de colaborações – contemplam nesse 4º número a pluralidade de abordagens sugeridas pelo objeto livro, envolvendo: o cotidiano de antigas livrarias revisitadas; os caminhos percorridos pelo livro da Europa ao Brasil; a recuperação de autores e personagens emblemáticos da literatura e da ilustração gráfica;  a história de bibliotecas históricas; a epistolografia de escritores afamados; as coleções particulares de livros; bibliofilia; novos títulos bibliográficos da área, as relações entre texto e imagem na produção do impresso; e até a recepção da literatura infantil.

De que maneira, em sua opinião, a Revista Livro nº4 contribui para a discussão da questão do livro no Brasil, hoje?

ALM: Particularmente este nº 4 abre um leque de questões que revelam a abrangência cultural da temática, ampliando as possibilidades de discussão. Torna-se mais instigante, contudo, por enriquecer tempos culturais diversos, balizando a importância do livro impresso, com seus lugares de memória na cidade, com suas marginalias e marcas pessoais de colecionadores, assim como pelas tantas histórias que estão por trás do livro. Mais que isso, este nº 4 potencializa a importância do livro impresso neste momento crucial, em que o livro digital conhece penetração expressiva. Da leitura do nº 4 – que não trata dessa questão e neste número nem caberia – fica clara a necessidade de se debruçar sobre esse objeto, que muito longe de viver sua extinção, se renova e se faz cada vez mais necessário no universo do conhecimento, das artes gráficas, da editoração e de processos históricos múltiplos.

Quais são, na sua opinião, os maiores destaques desta edição?

ALM: É uma pergunta difícil. Destaco, por ora, aqueles que incidem sobre temáticas com as quais trabalho no momento, pois senão teria que elencar praticamente todos. E me limito apenas a nomeá-los, pois comentar os respectivos conteúdos levaria longe essa apreciação de Livro nº 4. Todos os artigos, balizados nos propósitos de suas seções, são reveladores, deliciosos, instigantes. Seleciono por partes:

Já de início me encantei com os relatos informais da seção Conversas de Livraria. Revisitar a Livraria Kosmos, a Livraria Francesa, sentir o aprendizado do mundo no espaço de sebos, de Ubiratan Machado (com saudade, até porque hoje em dia estão se transformando em estantes virtuais…) e o relato inédito de Rubens Borba de Morais sobre nossas bibliotecas, livrarias e brasilianas foi um belo começo para iniciar a viagem pelas páginas de Livro nº 4.

A seção Leituras está bastante ampliada, com dez artigos. Três particularmente me interessaram por virem ao encontro de estudos de pesquisas que realizo sobre livros do século XIX: Sandra G. T. Vasconcelos, Da Mancha ao Rio de Janeiro; Rosângela M. Oliveira Guimarães, Alexandre Dumas no Brasil; Ubiratan Machado, Balzac e o Brasil.

Em Dossiê, que revisita bibliotecas, destaco o artigo de Frédéric Barbier – A Cidade, o Príncipe e a Biblioteca, enriquecido com ilustrações preciosas de tradicionais bibliotecas dos séculos XV e XVI.

Na seção Arquivo, a descoberta da correspondência entre Euclides da Cunha e Vicente de Carvalho foi uma surpresa! Nunca imaginei que se relacionassem…

No Acervo, dois textos lúdicos – até em razão de registrarem as ilustrações dos impressos analisados – são de autoria de Cristina Antunes – Uma Coleção Particular de Literatura de Cordel – e de Ésio Macedo Ribeiro: Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade.

Almanaque é uma festa, mas me detive no Jean Pierre Chauvin, Um Ensaio do Jovem Machado de Assis (Machado de Assis, O jornal e o Livro).

Bibliomania traz o sensível texto de Marisa Midori Deaecto, que homenageia a figura especial de Cláudio Giordano, em Um Livro, um Sonho.

Em Debate, o tema é sedutor ao relacionar O Poder do Livro e sua Relação com o Cinema.

Todos os textos de Letra & Arte, selecionados por José de Paula Ramos Junior foram aperitivos estimulantes para se ir atrás de outros títulos de Luiz Rufatto, Aguinaldo J. Gonçalves, Zepa Ferrer e tantos novos nomes…

Sem falar na estante editorial, com títulos sobre a temática, alguns inéditos entre nós, outros já em novas edições reelaboradas, um convite para se ampliar de imediato a biblioteca! E envolvendo tudo isso, dando a Livro nº 4 uma ambiência plástica, a atmosfera de biblioteca, própria do universo do livro, as fotografias inusitadas de Patricia Osses.

Confira aqui essa e todas as revistas já publicadas pela Ateliê.