Monthly Archives: fevereiro 2015

1ª Jornada de Editores Brasileiros – PUBLISHER? EDITOR?

Livraria João Alexandre Barbosa recebe Jornada PUBLISHER? EDITOR?

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No dia três de março a partir das 9h, a Livraria João Alexandre Barbosa (Av Prof. Luciano Gualberto, 78; Complexo Brasiliana USP), recebe a 1ª Jornada de Editores Brasileiros – PUBLISHER? EDITOR?. Com o apoio do corpo docente do curso de Editoração da USP, Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) e da Edusp, o evento irá abordar e problematizar o papel dos editores no atual cenário de mudanças pelas quais passa o mercado editorial. Participarão do encontro nomes como: Plínio Martins Filho (Edusp), Alexandre Martins Fontes (WMF Martins Fontes), Cide Piquet (Editora 34) e Livia Deorsola (Cosac e Naify).

Clique aqui e marque presença no evento!

A Questão Filosófica do Erótico

Raphaelle Batista/Henrique Araújo O Povo | Seção: Vida & Arte | Pág. 5 25 de fevereiro de 2015

Na entrevista a seguir, a professora Eliane Moraes analisa a produção erótica brasileira e sua relação com a filosofia.

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Pesquisadora Eliane Robert Moraes

Uma das mais importantes estudiosas brasileiras do chamado erótico literário, conceito elaborado a partir da pesquisa de autores como Marquês de Sade, Georges Bataille e Hilda Hilst, Eliane Robert Moraes é professora da Universidade de São Paulo (USP) e o primeiro grande nome a ministrar curso este ano no Espaço O POVO de Cultura e Arte. Nesta sexta, 27, e sábado, 28, ela discutirá “Erotismo, ficção e filosofia”. Na entrevista a seguir, concedida por email, Eliane discute temas de seu curso, como o fenômeno Cinquenta Tons de Cinza, analisa a produção erótica brasileira e discute a relação entre o erótico, a literatura e a filosofia.

O POVO – Cinquenta Tons de Cinza virou best-seller e foi mote para outros livros na mesma linha, com qualidade literária igualmente duvidosa. Agora, inspira um filme. Como a senhora vê a pasteurização do erotismo em obras desse tipo?

Eliane Robert Moraes – O sucesso de Cinquenta Tons de Cinza e de seus congêneres coloca questões de fundo que demandam reflexão. Não se trata de discutir se o livro tem ou não algum valor literário. Para se confirmar a baixa qualidade do texto, basta ler um ou dois parágrafos do romance e pronto. O curioso, porém, é que tal evidência não reduz o título a um mero problema sociológico, como acontece com a maior parte dos best-sellers. O fato de se concentrar na encenação de fantasias sexuais e, mais ainda, de explorar o delicado limiar entre o prazer e a dor, faz desse livro um caso especial, acrescido da novidade de que seu público é formado quase que exclusivamente por mulheres. Os números não surpreendem quando se leva em conta tal gênero de leitura. Lançado em 2011, o “mummy porn”, como foi logo batizado, se tornou um fenômeno editorial, ostentando cifras de tirar o fôlego. A esse balanço seguem-se as hipérboles de praxe: os inabaláveis lugares de honra nas listas dos best-sellers, uma enormidade de seguidores no Facebook, dezenas de imitadores, um quadro fixo num dos programas mais populares da TV americana, os direitos de filmagem comprados por 5 milhões de dólares e, obviamente, a exploração da “marca” em uma infinidade de produtos que enchem tanto as prateleiras das sex-shops quanto as dos supermercados. Efetivamente, o domínio aqui é o do excesso. Engana-se, porém, quem associar o excesso das cifras mercadológicas ao excesso sexual que se reconhece como a pedra de toque dos grandes títulos do erotismo literário. Nada a ver um com o outro. Nada a ver, portanto, a criação de E L James com aquela literatura erótica perturbadora, que produz em nós um imperioso deslocamento sensível e mental. Aliás, é bem outra a visada do best-seller da hora que, recorrendo a todo tipo de clichês, não tira nada, nem ninguém, do lugar.

OP – A que anseios esse tipo de livro responde, então?

Eliane – O sucesso dos “soft porns” responde aos anseios de uma época em que certa ideia de marginalidade perdeu seu poder de fogo e igualmente seu glamour. Cultivado por muitos escritores que se dedicaram à erótica literária – de Jean Genet a Henry Miller, de Bukowski a Roberto Piva –, o desejo de estar à margem da sociedade, de ficar fora do “sistema”, parece reunir cada vez menos adeptos. O marginal, vestido de bom moço, vem cedendo lugar ao excluído e, ao invés da transgressão, o que ele reivindica agora é sua inclusão. Desnecessário dizer que, uma vez “incluído”, o sexo fica esvaziado da sua capacidade de perturbação e do seu poder de desvio. O que sobra é uma sexualidade conformada às exigências da ordem social; um erotismo reduzido às demandas da utilidade. Eis a promessa do casal Christian e Anastasia (protagonistas de Cinquenta Tons de Cinza): perfeitamente adaptados ao jogo dos papéis sociais, eles reiteram os apelos sexuais que não cessam de nos assediar, oferecendo um repertório fechado e pronto de fantasias, que funciona como um fast food do sexo.

OP – A recente antologia Pornô Chic (Biblioteca Azul), na qual a senhora assina uma crítica, reúne os principais textos eróticos de Hilda Hilst; Reinaldo Moraes lançou agora O Cheirinho do Amor, em que também explora o erotismo. O erotismo tem sido revigorado como tema literário ou tem sido mais ‘bem visto’ pelo mercado editorial?

Eliane – Mais que um fenômeno do mercado editorial, talvez estejamos diante de um fenômeno “de mercado”, no sentido mais amplo. Creio que a proliferação de imagens sexuais que a indústria cultural vem colocando em circulação no Brasil nas últimas décadas, condenando o erotismo à plena visibilidade, trabalha no sentido de neutralizar a vocação subversiva que sempre caracterizou a literatura erótica. Banalizada ao extremo pela cultura de massa, a temática sexual tornou-se objeto de suspeita por parte dos circuitos literários mais cultos, atraindo apenas alguns escritores pouco assimilados pelo sistema cultural do país. Essa talvez seja uma via produtiva para se repensar as intrincadas relações entre estética, moral e erotismo que, no Brasil contemporâneo, parecem oscilar entre o viés repressivo da liberação sexual promovida pelo mercado e o moralismo dissimulado de boa parcela da elite bem pensante. Entre esses polos da cultura nacional existem, por certo, relações mais tensas e complexas do que normalmente se costuma admitir – o que mereceria uma exploração atenta, sobretudo agora que autores mais institucionalizados e escritores da cultura de massa começaram a explorar o veio do erotismo, indicando uma virada nesse cenário. Virada razoavelmente recente, inaugurada em 1999 por João Ubaldo Ribeiro que estreou no gênero com A Casa dos Budas Ditosos, seguido de Rubem Fonseca, cujo Diário de um Descenino foi publicado em 2003, ano que também marcou a primeira incursão de Paulo Coelho no tema, com Onze Minutos. Soma-se a esses títulos o surpreendente número de obras tangenciando o sexo que vem sendo editadas atualmente no País, incluindo traduções, quadrinhos e outros quetais. Para ficar apenas em alguns exemplos da produção nacional, vale citar títulos como Tesão e Prazer (Luiz Alberto Mendes) ou Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias (Xico Sá), sem esquecer o livro de Bruna Surfistinha que se tornou um fenômeno comercial. Mas, em meio a isso, há também lançamentos importantes de autores de alta qualidade literária como os citados Hilda Hilst e Reinaldo Moraes… A lista não se limita a esses poucos exemplos e, dada sua diversidade, é prudente tratá-la como um fenômeno sensível e mercadológico que ainda carece de avaliação mais rigorosa.

OP – Como o erotismo, a filosofia e a ficção, palavras que resumem seu curso no Espaço O POVO de Cultura e Arte, se encontram, dialogam e reverberam na contemporaneidade?

Eliane – Gosto de citar a escritora e ensaísta americana Susan Sontag, que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma particular de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas. A ficção erótica, diz ela, aciona estados extremos do sentimento e da consciência humana, visando desorientar o sujeito, deslocá-lo mental e fisicamente. Por isso os textos obscenos, incluindo os contemporâneos, seriam portadores de um certo princípio de conversão do leitor, semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. Se concordarmos com ela, fica impossível falar de ficção erótica simplesmente como gênero literário, pois o projeto de conversão suposto na sua leitura se imporia a qualquer convenção ou norma literária. Então, só se pode definir o erotismo como campo que coloca um problema estético particular, na medida em que privilegia as formas do excesso e, assim, viabiliza a passagem de uma consciência “social” para outra, perturbadora. Diríamos ainda mais: um campo do conhecimento que coloca uma questão filosófica maior, posto que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. O repertório de subtemas que o erotismo literário aciona – bestialização, violência, perda de si no outro, etc., seja de forma trágica ou cômica, aponta para essa constante problematização da noção de homem e de humanidade. Não é pouco, pois, o que a fantasia erótica tem a oferecer para a filosofia: sob o ardiloso disfarce da ficção, ela guarda uma memória antiga, a nos lembrar que os excessos do cogito têm relações intensas com as pulsões do corpo.

A autora Eliane Robert Moraes está organizando a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que será publicada pela Ateliê Editorial nesse ano.

Confira aqui o texto original.

 

Busca por Solidariedade

Renato Tardivo

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Dois Dias, Uma Noite (2014), filme dirigido pelos irmãos Dardenne e protagonizado por Marion Cotillard, é uma daquelas obras que comprovam que o cinema de ficção ainda detém um papel social importante. Os irmãos Dardenne têm se notabilizado, na última década, ao filmar os dilemas da classe média baixa francesa sem maniqueísmos ou afetações, e estão em sua melhor forma nesse último filme.

Sandra, a personagem de Cotillard, é demitida da fábrica onde trabalha após um período afastada por causa de uma depressão. Quando ela retornaria ao trabalho, o patrão delegou aos colegas de Sandra, por meio de votação, a seguinte decisão: ou eles recebem um abono de mil euros ou Sandra é reintegrada à equipe. Dentre os 16 votos, ela recebe apenas 2. Ocorre que, com o apoio de uma das colegas, Sandra consegue que uma nova votação seja realizada. E começa, então, sua odisseia: bater de porta em porta, durante todo o fim de semana, para convencer os colegas a abrir mão do abono e votarem por ela.

Valendo-se de uma linguagem documental, o filme abusa dos planos-sequência e da câmera na mão de modo a transportar o espectador à busca angustiante de Sandra, sobretudo porque ela não está apenas preocupada com o sustento de sua família, mas compreende que o abono de mil euros seja importante para os colegas e suas famílias: Sandra vê o outro. E a forma que os irmãos Dardenne encontraram para filmar isso é fazer com que o espectador veja Sandra. Seu suor, seu cansaço, sua tristeza, sua esperança – a câmera desvela as virtudes e fraquezas dessa mulher, e Marion Cottilard, quase sempre em cena ao longo dos 90 minutos, está impecável.

O filme funciona, também, como uma crítica atual aos mecanismos de opressão no trabalho. Com efeito, ao delegar aos subordinados a decisão pelo emprego de Sandra ou pelo abono, o capitalista deixa que a bomba exploda do lado mais fraco. Mas, diante disso, Sandra não propõe um motim ou coisa que o valha. Em outra direção, o filme empreende um mergulho na complexidade do sistema e propõe que reflitamos sobre ele.

É assim que, mais que apontar culpados ou inocentes, Dois Dias, Uma Noite, do título ao último plano, é o retrato de uma busca – a busca por solidariedade. Talvez por isso a luz do filme seja predominantemente branda: uma fotografia clara, com tons de rosa e verde, marca o triunfo do que realmente importa. E não é necessariamente o capital.

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Feira Livre – Edição Desenho

SESC – Vila Mariana recebe Feira de Publicações Independentes.

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Nos dias 21 e 22 de fevereiro, acontece a Feira Livre – Edição Desenho (Feira de Publicações Independentes), no SESC – Vila Mariana. A feira que acontece anualmente nas instalações do SESC- SP, irá reunir projetos editoriais, coletivos e independentes, a fim de promover o encontro entre artistas visuais, editores e público, além de movimentar o cenário da arte impressa brasileira.

A primeira edição realizada na unidade Vila Mariana apresentará um recorte de publicações que exploram a linguagem do desenho. Entre as editoras participantes estão A Bolha (RJ), Editora Andante (MG), Guia Fantástico de São Paulo (SP) e Editora Aplicação (PE).

Para saber mais sobre o evento e a lista completa das editoras e coletivos participantes clique aqui.

Poemas para serem lidos como partituras

Sérgio Medeiros Estado de São Paulo | Seção: Caderno 2 | Pág. C5 17 de fevereiro de 2015

Nas obras e criações visuais de Mallarmé e de Carl Andre, o diálogo entre a palavra com o branco da página

lance de dadosDois lançamentos recentes dedicados à poesia, Um Lance de Dados (bilíngue), de Stéphane Mallarmé, e Poems, de Carl Andre, trazem à tona a dimensão assumidamente experimental desse gênero de expressão, pois ambos os poetas apostam no diálogo da palavra com o branco da página, em exuberantes criações visuais.

Traduzido por Álvaro Faleiros, o poema de Mallarmé, de 1897, assume no prefácio que é “uma encenação espiritual exata” a que “faltam precedentes”, dando origem talvez à “quase uma arte”, em que o tema é o naufrágio. Essa obra-prima já havia sido traduzida nos anos 1970 por Haroldo de Campos, com quem o tradutor atual dialoga, concluindo que “a tradução haroldiana produz um texto ainda mais erudito e rebuscado do que o próprio texto mallarmeano”. O exemplo mais eloquente desse “preciosismo” talvez seja “chantar”, tradução de Campos para “imposer” (impor), termo corrente em francês.

Na tradução do prefácio que o próprio poeta escreveu já se percebem as diferenças entre as duas versões em língua portuguesa. A expressão “mise en scène”, por exemplo, se transforma em “cenografia”, na primeira versão brasileira, e em “encenação”, na segunda, e por isso merece um comentário de Faleiros, que conclui: “Não se trata mais de fazer da tradução uma arma de batalha contra um pretenso conservadorismo ou parnasianismo reinante, mas, sobretudo, fazer da tradução um instrumento de reflexão sobre o que está em jogo no ato de traduzir e no texto traduzido”.

Num ponto, porém, o trabalho de Faleiros poderá frustrar o leitor. Numa das páginas culminantes do poema lemos o verso: “Rien n’aura eu lieu que le lieu”, que alude, entre outras coisas, ao fracasso das palavras em preencher de sentido o vazio existencial. A tradução de Faleiros diz: “Nada terá tido o lugar senão o lugar”. A expressão vernácula é “ter lugar”, sem o artigo “o”, e significa “ter cabimento”, “caber”, “ser oportuno”. Ela também pode significar, embora isso seja considerado pelos puristas francesismo, ou galicismo, “acontecer”, e é nessa acepção, parece-me, que deveria ser usada na tradução do poema de Mallarmé. A tradução de Haroldo de Campos emprega “ter lugar” e não o inusitado “ter o lugar”. A versão portuguesa de Armando Silva Carvalho, de 2001, confirma a de Campos.

A presença do artigo “o” nessa frase vernácula não foi um casual erro de impressão, pois o tradutor, ao longo do ensaio que precede a sua versão, repete várias vezes a expressão “nada terá tido o lugar”, que esperamos possa ser devidamente explicada na próxima edição de Um Lance de Dados. Deve-se destacar, porém, que essa nova edição, conforme se lê na primeira orelha, “leva em conta as indicações de formato deixadas por Mallarmé”, cuidado que a tradução anterior não teria tomado.

Entre maio e agosto de 2014, no Museum zu Allerheiligen, de Schaffhausen, na Suíça, o escultor e poeta norte-americano Carl Andre expôs seus poemas visuais, que flertam com a tradição modernista iniciada por Mallarmé. Na ocasião, foi lançado o livro Poems, com uma expressiva amostra da produção textual desse mestre do minimalismo, ainda ativo. Durante muitos anos, os poemas de Andre ficaram à sombra das suas esculturas revolucionárias, mas, depois da publicação, em 2011, de Carl Andre: Things in Their Elements (Phaidon), de Alistairf Rider, ela começou a receber maior atenção dos leitores. Agora, com esse lançamento, seu universo verbal se expande e ganha vida própria, embora não se separe das esculturas.

Alguns poemas de Carl Andre são, de fato, esculturas verbais e aludem, por exemplo, à famosa obra A Coluna Infinita, de Constantin Brancusi, ao reproduzir na página, com o uso de letras apenas, uma sequência de formas romboidais que recria o perfil em zigue-zague da escultura do mestre romeno que ergueu, em Târgu Jiu, na Romênia, em 1937, uma coluna de quase 30 metros de altura, feita de módulos idênticos que se repetem. A noção de “sequência ininterrupta”, que é a repetição de uma forma básica, também aparece na série One Hundred Sonnets, de Andre: um quadrado (representando os versos de um soneto) repete-se em várias páginas, alterando-se apenas as letras que o compõem no primeiro soneto, apenas a letra “I”, que significa o pronome pessoal “eu” em inglês.

Há poemas sem letras, feitos de traços, e algumas colagens que recorrem à fotografia. Mas o que predomina é o uso de letras batidas à máquina (os poemas datam dos anos 1960) que criam formas geométricas na página – o que revelaria influência da poesia concreta, embora Andre só assuma explicitamente como mestres Gertrude Stein, Ezra Pound e William Carlos Williams. Talvez o poema mais mallarmeano do autor seja Flags, descrito por ele como “uma ópera para três vozes”, a qual pode ser lida, de fato, como uma partitura, exatamente como também Mallarmé desejava que o seu Um Lance de Dados fosse lido.

Conheça aqui a obra Um Lance de Dados, de Stéphane Mallarmé.

Petrarca, o modelo da poesia lírica

Jaime Cimenti Jornal do Comércio | Seção: Livros | Pág.10 08 de fevereiro de 2015

cancioneiroEste ano já começa com um desses lançamentos de peso: Cancioneiro, do gênio renascentista italiano Francesco Petrarca, com primorosa tradução do professor e escritor José Clemente Pozenato, autor do clássico romance O Quatrilho. Pozenato também assina uma introdução em que relata a vida e a obra do poeta. A bela edição em capa dura (Ateliê Editorial e Editora da Unicamp, 534 páginas) conta com prefácio do professor, tradutor e poeta Armindo Trevisan, ilustrações de Ênio Squeff e centenas de utilíssimas notas de rodapé. A cuidadosa edição nasce já clássica e referencial e permite aos leitores brasileiros entrar em contato direto com uma das obras seminais da poesia universal.

Esta obra-prima da literatura universal foi concluída por volta de 1370 e logo se colocou como o principal modelo de poesia lírico-amorosa no Ocidente. Sua primeira edição impressa data de 1470. Nos 30 anos seguintes, houve dez edições da obra, com diferentes títulos. Nela, o poeta nascido em Arezzo em 1304 abriu caminho para uma poesia do sentimento num jogo emocionante com a razão, com uma nova linguagem no que há de mais solene, de quase escultural em Dante torna-se variado, por vezes esvoaçante, em Petrarca. A sorte favoreceu mais Dante, mas o fato é que Petrarca deixou marcas mais fundas na poesia do Ocidente, que perduram até hoje.

O tema central dos 366 poemas – são 117 sonetos, 29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e 4 madrigais -, é o amor em vida e depois da morte de Laura. Mas há também poemas que nos situam no cotidiano do poeta, como o da velhinha, de manhã bem cedo, rodando seu tear. No grande poema não há personagens ou enredo. O que avulta é a grande aventura sentimental e poética de Petrarca.

Logo no início da apresentação, Armindo Trevisan cita a monumental História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, que referiu que Petrarca era o primeiro lírico moderno e o mais original de todos os poetas líricos da literatura universal.
Para Trevisan, Petrarca é o poeta que nunca morreu e que merece uma revisitação, e que a gente o reencontre na poesia contemporânea. Trevisan ressalta que Petrarca deve ser lido com novos olhos e, sobretudo, com novos ouvidos.

Enfim, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp colocam nas mãos dos leitores brasileiros esse patrimônio da poesia universal. A nova e criativa tradução, que buscou a coloquialidade perseguida por Petrarca e que utiliza rimas “modernas”, torna Petrarca contemporâneo e vem acompanhada, adequadamente, das ilustrações que reconstroem uma visão do ambiente da poesia petrarquiana.

Confira no site da Ateliê a obra Cancioneiro de Fransceco Petrarca.

As 50 Bibliotecas Mais Deslumbrantes do Mundo

Através do site Architecture and Design e com curadoria do arquiteto Khyber Alikhail, foi apresentada uma lista com as 50 Bibliotecas Mais Deslumbrantes do Mundo,  e entre elas, mais especificamente em terceiro lugar, estava o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, fundada em 1837 por um grupo de 43 refugiados políticos portuguese que tinham como objetivo construir e promover a cultura naquela que era a capital do império.

Umas das mais célebres bibliotecas do mundo e talvez a mais importante da América Latina, todo o seu prédio foi construído nos moldes da arquitetura neomanuelina (caraterizada pela exuberância plástica, o naturalismo, a robustez, a dinâmica de curvas e o recurso a motivos inspirados na flora marítima e na náutica da época dos descobrimentos). Além de possuir forte referência ao Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa, a fachada foi trabalhada em pedra de lioz em Lisboa, trazida de navio para o Rio, pelo artesão Germano José Salle. As quatro estátuas que a adornam retratam Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Infante D. Henrique e Vasco da Gama.

O Real Gabinete Português de Leitura além de ser a maior e mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal, ainda recebe um exemplar de cada obra publicada em Portugal.

Com mais de 350.000 volumes a biblioteca já celebrou as cinco primeiras sessões da Academia Brasileira de Letras tendo Machado de Assis como seu presidente.

Confira a baixo as 10 primeiras Bibliotecas Mais Deslumbrantes do Mundo segundo o arquiteto Khyber Alikhail e o site Architecture e Design.

1. Biblioteca de Trinity College

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2. Biblioteca Nacional de Praga

2. Biblioteca Nacional de Praga (Praga, República Checa)

3. Real Gabinete Português de Leitura

3. Real Gabinete Português de Leitura

4. Monastério de San Florian

4 Monastério de San Florian

5. Biblioteca de Admond

5. Biblioteca de Admond

6. Biblioteca George Peabody

6. Biblioteca George Peabody

7. Segunda Sala de Haia

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8. Biblioteca Nacional da Áustria

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9. Biblioteca Joanina

9. Biblioteca Joanina

10. Biblioteca Nacional da França

10. Biblioteca Nacional da França

Confira aqui a lista completa com as 50 Bibliotecas Mais Deslumbrantes do Mundo.

Um tradutor para Eneias: Um Vírgilio de um grande maranhense

Jorge Henrique Bastos  | Folha de S.Paulo | Seção: Ilustríssima | Pág.08 08 de fevereiro de 2015

RESUMO: Carlos Alberto Nunes (1897-1990) dedicou a vida à tradução de clássicos latinos e helênicos, como Homero e Platão, embora seu trabalho seja pouco reconhecido. Sua versão para o português da Eneida, de Virgílio, que até então passara despercebida, é reeditada, ensejando reflexão sobre importância do tradutor.

Virgílio criou um poema que narrava o mito fundador do império milenar romano. Sua presença estendeu-se para além dos séculos e permanece evidente na obra e na vida dos mais diversos autores.

No texto de abertura do livro Kritische Essays Zur Europäischen Literatur (Ensaios Críticos Sobre Literatura Europeia, 1950), a respeito do poeta, o ensaísta alemão Ernst Robert Curtius chama a atenção para o fascínio que a Eneida despertara em Agostinho a ponto de levá-lo às lágrimas ao ler o relato que Eneias faz a Dido de suas aventuras e deriva, até o fim trágico da rainha de Cartago, que se suicida ao vê-lo partir, recusando seu amor.

É sintomático que Dante tenha escolhido como guia não Homero, mas precisamente Virgílio. Camões abre Os Lusíadas com uma paráfrase explícita: “As armas e os barões assinalados”, fazendo ressoar o verso inicial virgiliano: “As armas canto e o varão que, fugindo das plagas de Troia”.

Sua presença superou o tempo e as línguas. Virgílio domina a apreensão de Ludovico Ariosto de Orlando Furioso e comanda as hostes de Milton no Paraíso Perdido. Em pleno século 20, naquele que é um dos maiores romances alemães, A Morte de Virgílio, Hermann Broch ficcionou as 18 derradeiras horas do poeta que, imerso em dúvida, queria destruir a Eneida.

São apenas alguns exemplos do magnetismo despertado ao longo dos séculos por esse poema máximo, que, na visão de Curtius, é condicionado por um percurso definitivo: “Como fenômeno histórico, Virgílio é romano e suprarromano. Domina os milênios como gênio espiritual do Ocidente”. A assertiva continua atual, sem perder sua legitimidade crítica.

Na tradição literária de língua portuguesa, tal fascínio dominou gerações desde Camões, até surgirem as primeiras traduções feitas em Portugal e no Brasil.

No século 19 foram publicadas duas: a do maranhense Odorico Mendes, em 1854, (hoje disponível pelas editoras Unicamp e Ateliê), em decassílabo heroico, e a dos portugueses José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva, de 1845 (Martins Fontes). Silva traduziu os quatro cantos finais, já que seu amigo morrera antes de concluir a empreitada. No século 20 surgem outras no Brasil, a de Tassilo Orpheu Spalding (Cultrix, esgotado) e, em Portugal, a de Agostinho da Silva (Temas e Debates).

Por fim, em 1981, vem à luz aquela que era porventura a mais desconhecida de todas as edições do poema de Virgílio em português, traduzida por Carlos Alberto Nunes, tendo em conta a circulação restrita que marcou o lançamento, pela editora A Montanha. Permaneceu esquecida desde então, raramente aparecendo nos sebos, ao contrário de outras traduções de sua autoria disponíveis e reimpressas até hoje, como a Odisseia e a Ilíada (Ediouro, 2001). A editora 34 encerrou essa lacuna republicando a tradução no ano passado.

MARANHÃO

Uma coincidência esclarecedora aponta para um pormenor curioso. Dois dos nossos maiores tradutores nasceram no Maranhão, e ambos legaram um rol de traduções cuja relevância aumenta com o passar dos anos. De certa maneira, Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes acabam corroborando o apodo que o Estado numa época ganhou, o de “Atenas brasileira”, o que pelo menos daria mais orgulho a seus habitantes, pensando nas manchetes em que surge na mídia do país com chacinas regulares em seus presídios ou escândalos ardilosos de cunho político.

Pertenciam, de fato, a uma tradição literária norteada por figuras como Gonçalves Dias seu poema Timbiras assombra o poema Os Brasileidas de Nunes ou Sousândrade, que fora professor de grego em São Luís, daí a helenização de seu verdadeiro nome, Joaquim de Sousa Andrade.

Estavam distantes no tempo, mas próximos no que toca à dedicação ao exercício tradutório. Dir-se-ia que estabeleceram como meta trazer à luz em nossa língua textos centrais da cultura clássica. Além do distanciamento temporal, convém ressaltar o modo de encarar a tradução. Basta fazer um paralelo entre as traduções homéricas realizadas por ambos, ou entre as do poema de Virgílio.

A versão de Odorico Mendes, como era típico do seu estilo, utiliza um léxico rebuscado, a sintaxe peculiar e a profusão de neologismos que interrompe a compreensão do leitor a todo instante. Assinale-se que tais pressupostos foram já analisados por diversos autores.

Carlos Alberto Nunes, por seu turno, explorou o verso de 16 sílabas poéticas, aproximando-se da tendência narrativa dos hexâmetros do original. Essa maneira de traduzir, que os mais precipitados taxariam de conservadora e excessivamente prosaica, investia-se de um aspecto narrativo cujo fim era exprimir com absoluta objetividade o sentido do poema, sem se socorrer de malabarismos vocabulares ou fogos de artifícios estilísticos que vedam, na maior parte das vezes, a expressividade genuína. Desde que suas traduções apareceram, revelaram essa convergência, procurando aproximar-se do original.

VIDA

Carlos Alberto Nunes nasceu em 1897, formou-se na faculdade de medicina da Bahia, exerceu funções no Acre e mudou-se para São Paulo, onde estreou, em 1938, com a tentativa malograda de criar um épico nacional, o já citado Os Brasileidas. Como poeta, Nunes não teve grande importância, mas o seu trabalho como tradutor lhe garantiu a projeção que ansiara.

Suas traduções abrangem um leque variado de clássicos literários, demonstrando o autodidatismo versátil de quem conhecia os meandros de línguas como o alemão, o inglês, o grego e o latim. Traduziu o teatro completo de Shakespeare, que circulou durante muito tempo, esgotando sucessivas edições; verteu Clavigo e Ifigênia em Táuride, de Goethe; e tragédias como Judith, de Friedrich Hebbel.

Resultou dessa atenção descomunal o intento em consagrar-se às obras nucleares da “paideia” helênica: os poemas homéricos e a obra filosófica platônica. Carlos Alberto Nunes resolve então aplicar-se durante uma década só a traduzir Platão. Seguia um plano sistemático de trabalho que consistia primeiro numa versão manuscrita; depois datilografava e encadernava o volume.

Após a recusa de uma editora, decidiu doar os direitos à Universidade Federal do Pará, mediante a respectiva publicação da obra. A negociação efetuou-se por meio de seu sobrinho, o crítico e filósofo paraense Benedito Nunes, que morreu em 2011. Tudo se concretizou em julho de 1973, quando Carlos Alberto Nunes se deslocou a Belém para receber uma homenagem e efetivar a doação do manuscrito da tradução. O trabalho era composto por 2.425 folhas e 70 volumes de uma platônica particular. O espólio está à guarda da biblioteca central da UFPA.

Reveste-se este trabalho 14 volumes e uma Marginália Platônica que o tradutor escreveu para servir de roteiro de uma importância indiscutível, reeditada em versão bilíngue grego/português de maneira exemplar e editorialmente criteriosa pela Editora da Universidade do Pará, tendo como editor convidado Plínio Martins Filho.

CASAL

Após essa genuína pletora da tradução, Carlos Alberto Nunes começou a se preparar para enfrentar a Eneida. Sua mulher, Filomena Turelli, filha de um paciente seu, latinista respeitada na capital paulista, era a principal incentivadora e colaboradora do tradutor. Dedicavam-se à leitura e pesquisa de literatura clássica. É lícito supor que ela tenha contribuído nessa tradução, ajudando-o a superar as dificuldades inerentes do texto. Contudo, os hexâmetros que cunhou para reproduzir os dramas, aventuras e errância de Eneias expõem o estilo característico de Carlos Alberto Nunes, sem nenhuma dúvida.

Finalmente, em 1981, volvidos dez homéricos anos, publica a tradução do poeta mantuano. Carlos Alberto Nunes completara 86 anos e pusera um ponto final no seu trabalho como tradutor. Morreu em 1990, e foi enterrado no cemitério de Angatuba, interior de São Paulo, relativamente esquecido, sem lhe ter sido dada a devida consagração como um dos tradutores mais produtivos do Brasil.

Leitor das suas traduções, colecionei quase todas, comparando-as com outras que descobri em livrarias e sebos de Lisboa, Madri e Paris. Ao regressar ao Brasil, comecei a conceber a estratégia para reeditar a Eneida, por acreditar que o trabalho merecia ser conhecido pelas novas gerações. O passo a seguir era inquirir e pesquisar na APL (Academia Paulista de Letras) o que ele havia deixado lá, sabendo de antemão que pertencera à instituição.

Depois de procurar alguns meses na biblioteca da APL, consultando os arquivos volumosos que vários acadêmicos costumam oferecer à casa, consegui detectar o original datilografado, que se encontrava num envelope pardo, sob outros tantos que o ocultavam. O volume apresenta apenas anotações e alterações do punho do tradutor. Nada mais. Nenhum texto sobre a tradução, nenhuma referência bibliográfica. Consultei ainda a homeriana que legou à Academia e observei várias vezes o busto de Homero, também por ele doado, disposto num dos corredores. O que restou do seu trabalho resume-se às traduções que conhecemos e agora a esta que regressa ao leitor num trabalho admirável de João Ângelo Oliva Neto e da Editora 34.

MEMÓRIA

Existem inúmeros textos acessíveis sobre Odorico Mendes, grupos de pesquisa que estudam e divulgam suas traduções; suas obras são reeditadas e há referências contínuas sobre seu prestígio como tradutor. Mas sobre Carlos Alberto Nunes paira o desconhecimento ou a omissão tácita que só esta recente edição pode alterar.

Torna-se imperativo reavaliar o seu projeto tradutório, submetê-lo a uma análise lúcida e descomprometida, a fim de acolher a sua elegância expressiva, a narratividade equilibrada e objetiva, o apuro formal do verso que forjou, para receber, sem condicionamentos extemporâneos, o impacto das traduções deste senhor franzino, de olhar vivaz, que nos deixou uma das maiores heranças literárias que se pode cobiçar.

Conheça aqui as obras traduzidas por Odorico Mendes e publicas pela Ateliê.

Veja o post original aqui.

Escritor Marcelino Freire viaja pelo Brasil mapeando iniciativas culturais e conta tudo em blog

Mariana Filgueiras  | O Globo | Seção: Livros | 06 de fevereiro de 2015

Projeto Quebras passa por 15 capitais até junho; ao final, o autor publicará um livro com os relatos do percurso

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Foto: Jorge Filholini

RIO — Desde setembro do ano passado, o escritor Marcelino Freire está vivendo aquele que é, no fundo, o sonho de muito artista brasileiro. Ganhador do prêmio Jabuti em 2006 pelo livro de contos Angu de Sangue e finalista na categoria romance em 2014 com Nossos Ossos, o pernambucano Freire está percorrendo 15 capitais do país, aquelas mais fora do eixo cultural sudestino, para registrar as manifestações culturais que encontra pelo caminho. Anota tudo num blog, que ao final da viagem será transformado em livro. Com a ajuda do fotógrafo Jorge Filholini, que viaja com ele, também produz vídeos e fotos, grava podcasts e ministra oficinas literárias por onde passa.

Batizado de Quebras, o projeto remete à viagem feita pelo modernista Mário de Andrade, em 1927 (que deu origem ao livro O Turista Aprendiz, publicado em 1976), mas na verdade foi inspirado pelo livro Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, e pela possibilidade de garimpar bons escritores escondidos pelo Brasil, conta Freire. Aprovado no edital Rumos Itaú Cultural no ano passado, tem custo total de R$ 200 mil. Os dois já passaram por cinco capitais: Teresina, Belém, São Luís, Campo Grande e Vitória. Todo o roteiro é decidido no calor da hora.

— A viagem é muito aberta nesse sentido. É o que a gente vai colhendo pelo caminho. Recebemos sugestões de amigos também. Ao irmos para Belém, o querido Milton Hatoum nos deu desde indicações de poetas até de sorvete. É um projeto para encontrar pessoas. A gente tem a ideia burra e preguiçosa de que nada está acontecendo no Brasil fora do grande eixo — conta Freire, de São Paulo, enquanto se prepara para ir para João Pessoa, na Paraíba, a próxima parada do projeto, que finda em junho.

Filholini completa:

— O inusitado sempre resulta em uma ótima conversa. Aconteceu um momento muito bacana em São Luís, quando o poeta Salgado Maranhão, que vive em Teresina, estava em seu estado natal para a Feira do Livro. Foi uma das entrevistas mais impactantes que fizemos, assim, já de volta para casa, com pouca luz, embaixo de um poste, à noitinha. Foi uma aula de paixão e de literatura.

Quem acompanha o blog vai descobrindo o país com os autores. Em Teresina, onde pousaram primeiro, chegaram sob sol forte, “derrubaram” dois pratos de comida e na mesma noite já foram conhecer o Galpão do Dirceu, que chamou a atenção dos autores pela semelhança com o Clariô de Teatro, de Taboão da Serra, em São Paulo. “Todos os artistas ocupam o centro desse misto de galpão e circo. Chegamos e ele estava tomado por 13 drag queens que ensaiavam uma invasão a São Paulo, num espetáculo chamado Racha Show”, escreveu Freire na mesma noite no blog. Também escreveriam sobre as revistas culturais Acrobata e Revestrés, esta apelidada pelo escritor de “a verdadeira Piauí”, referindo-se à revista carioca.

— Gostamos de encontrar pessoas que estão sempre ligadas no movimento cultural, espalhando arte para todo lado. Em Vitória, foi sensacional conhecer a militância de Fabricio Noronha, que produz de tudo: poesia, rock, festival. É muita gente produzindo e se virando. Lá também encontramos muitas editoras independentes e uma cena de fanzines e HQs muito forte — comenta Filholini.

Depois da passagem da dupla pelas cidades — que é sempre monitorada por outra dupla, a dos programadores Bruno e Mozart Brum, que alimentam o site do projeto de São Paulo —, eles fazem o possível para que as turmas das oficinas literárias continuem a se frequentar e produzir. Em Campo Grande, por exemplo, onde estiveram há duas semanas, já soubemos que os alunos marcaram um sarau para o final de março num espaço chamado Casa de Ensaio.

— É um lugar sensacional. A casa existe há 19 anos, e eles trabalham com crianças e adolescentes, dando aulas de teatro, de literatura, de pintura e cinema. É gratificante juntar os artistas que estão a poucos metros de distância, mas que nunca se conheceram, e que graças às oficinas do “Quebras” puderam ter esse contato — detalha Filholini.

Freire conclui:

— O Brasil é imenso, e eu sempre quis estreitar esses contatos, essas pulsações. É muita gente produzindo e se virando.

Conheça aqui as obras de Marcelino Freire publicadas pela Ateliê.

Veja o post original aqui.