Vita da l’aspro tormento

Isabela Gaglianne  | O Benedito | Seção: Lançamentos | Janeiro de 2015

cancioneiroEm co-edição, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp acabam de lançar Cancioneiro, de Petrarca, poema que, concluído por volta de 1370, foi, desde então, o principal modelo no Ocidente para o desenvolvimento de toda a arte poética lírica vindoura. Ainda que a tradição laureie os poemas esculturais dantescos, em Petrarca a solenidade torna-se metafísica e suas marcas calam fundo na poesia até os dias de hoje.

Com tradução de José Clemente Pozenato, o volume traz os 366 poemas, sendo 317 sonetos, 29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e 4 madrigais. O tema em torno do qual desenvolvem-se os poemas é o amor, em vida e depois da morte de Laura. Entremeados a estes, há poemas que contextualizam ao leitor o cotidiano do poeta, com marcações como o rodar de um tear, por uma mulher velha, de manhã bem cedo.

O resgate da Antiguidade empreendido por Petrarca foi de importância fundamental para o início do Renascimento italiano. O poeta foi a pioneira figura do intelectual que separa-se da vida pública para enclausurar-se em seu próprio mundo literário. É de sua autoria o conceito até hoje utilizado de “Idade das Trevas” para designar a Idade Média em oposição à Antiguidade.

Nascido em Arezzo, Petrarca, diplomata, erudito e poeta, é considerado o maior dos humanistas. Não somente dedicou-se com vigor o resgate da herança da Antigüidade clássica, como escrevia ao poeta latino Cícero, morto mais de mil anos antes de seu nascimento, com a tocante intimidade de quem conversa com um amigo próximo.

Sua obra é conhecida por sua escrita elegante e clara. Petrarca foi responsável pelo aperfeiçoamento do soneto, que manteve-se como a mais utilizada forma de poesia lírica ao longo dos séculos seguintes. O seu estilo e expressão lírica são considerados por muitos estudiosos como os principais pilares constitutivos de nossa sensibilidade poética ocidental.

Cancioneiro é dedicado à sua musa Laura. Os poemas são divididos em duas partes, respectivos à vida e à morte da musa, representação de uma nobre de Avignon por quem o poeta apaixonou-se, Laura de Noves. Petrarca a viu pela primeira vez em 1327, na Igreja de Santa Clara, em Avignon, na França. A partir de então, tomou-a como fonte de inspiração para a sua poesia, mesmo depois de 1348, quando teve notícia de sua morte, provocada pela peste negra. A primeira parte do Cancioneirotem como tema a vida de Laura, ao passo que a segunda parte é formada de versos que a representam no céu. Esta segunda parte é considerada como representante de uma fase mais madura e mais dramática do poeta de Arezzo.

Trata-se da representação da mulher amada acima da condição humana. Uma mulher distante das coisas terrenas, sublime, angelical, que porém, ainda assim, é motivo de ininterrupto tormento ao poeta enamorado.

Francisco Sales de Sousa, professor adjunto do Departamento de Letras Estrangeiras da UFC, analisa em artigo alguns aspectos do poema. Referindo-se a um trecho dedicado à vida de Laura, pontua: “[…] o poeta recorda-se dela e imagina seus cabelos sacudidos pelo vento (Erano i capei d’oro a l’aura sparsi). Vale observar, a partir dessa recordação, que o soneto foi elaborado depois da morte de Laura, mas que resulta das lembranças dos tempos em que ela ainda vivia. O substantivo aura, precedido do artigo (l’), forma l’aura (o vento) e corresponde, fonemicamente, a Laura, revelando, segundo a opinião deveras convincente de estudiosos e críticos, a intenção do poeta de, pelo menos, pronunciar o nome da amada. Os cabelos e a beleza de Laura harmonizam-se com a natureza (ch’ ‘n mille dolci nodi gli avolgea), enquanto seus olhos resplandecem de tanta luz (e ‘l vago lume oltra misura ardea). Mas o poeta se dá conta de que ela não mais existe (di quei begli occhi, ch’or ne sono scarsi). O rosto sublime (e ‘l viso di pietosi color farsi) é apenas uma rica imaginação literária, que exprime o seu desejo de continuar se iludindo, enquanto a ilusão se configura em poesia”.

Petrarca abriu a possibilidade para um novo ideal de realidade. Como diz Alexei Bueno, em Petrarca encontra-se a primeira ascendência moderna uma forma de melancolia individualizada. Cancioneiro é fruto de uma experiência de solidão insuperável, de impronunciável sofrimento.

Confira a obra Cancioneiro, de Francesco Petrarca no site da Ateliê.

Veja também o post original no blog O Benedito.

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