Monthly Archives: janeiro 2015

Vita da l’aspro tormento

Isabela Gaglianne  | O Benedito | Seção: Lançamentos | Janeiro de 2015

cancioneiroEm co-edição, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp acabam de lançar Cancioneiro, de Petrarca, poema que, concluído por volta de 1370, foi, desde então, o principal modelo no Ocidente para o desenvolvimento de toda a arte poética lírica vindoura. Ainda que a tradição laureie os poemas esculturais dantescos, em Petrarca a solenidade torna-se metafísica e suas marcas calam fundo na poesia até os dias de hoje.

Com tradução de José Clemente Pozenato, o volume traz os 366 poemas, sendo 317 sonetos, 29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e 4 madrigais. O tema em torno do qual desenvolvem-se os poemas é o amor, em vida e depois da morte de Laura. Entremeados a estes, há poemas que contextualizam ao leitor o cotidiano do poeta, com marcações como o rodar de um tear, por uma mulher velha, de manhã bem cedo.

O resgate da Antiguidade empreendido por Petrarca foi de importância fundamental para o início do Renascimento italiano. O poeta foi a pioneira figura do intelectual que separa-se da vida pública para enclausurar-se em seu próprio mundo literário. É de sua autoria o conceito até hoje utilizado de “Idade das Trevas” para designar a Idade Média em oposição à Antiguidade.

Nascido em Arezzo, Petrarca, diplomata, erudito e poeta, é considerado o maior dos humanistas. Não somente dedicou-se com vigor o resgate da herança da Antigüidade clássica, como escrevia ao poeta latino Cícero, morto mais de mil anos antes de seu nascimento, com a tocante intimidade de quem conversa com um amigo próximo.

Sua obra é conhecida por sua escrita elegante e clara. Petrarca foi responsável pelo aperfeiçoamento do soneto, que manteve-se como a mais utilizada forma de poesia lírica ao longo dos séculos seguintes. O seu estilo e expressão lírica são considerados por muitos estudiosos como os principais pilares constitutivos de nossa sensibilidade poética ocidental.

Cancioneiro é dedicado à sua musa Laura. Os poemas são divididos em duas partes, respectivos à vida e à morte da musa, representação de uma nobre de Avignon por quem o poeta apaixonou-se, Laura de Noves. Petrarca a viu pela primeira vez em 1327, na Igreja de Santa Clara, em Avignon, na França. A partir de então, tomou-a como fonte de inspiração para a sua poesia, mesmo depois de 1348, quando teve notícia de sua morte, provocada pela peste negra. A primeira parte do Cancioneirotem como tema a vida de Laura, ao passo que a segunda parte é formada de versos que a representam no céu. Esta segunda parte é considerada como representante de uma fase mais madura e mais dramática do poeta de Arezzo.

Trata-se da representação da mulher amada acima da condição humana. Uma mulher distante das coisas terrenas, sublime, angelical, que porém, ainda assim, é motivo de ininterrupto tormento ao poeta enamorado.

Francisco Sales de Sousa, professor adjunto do Departamento de Letras Estrangeiras da UFC, analisa em artigo alguns aspectos do poema. Referindo-se a um trecho dedicado à vida de Laura, pontua: “[…] o poeta recorda-se dela e imagina seus cabelos sacudidos pelo vento (Erano i capei d’oro a l’aura sparsi). Vale observar, a partir dessa recordação, que o soneto foi elaborado depois da morte de Laura, mas que resulta das lembranças dos tempos em que ela ainda vivia. O substantivo aura, precedido do artigo (l’), forma l’aura (o vento) e corresponde, fonemicamente, a Laura, revelando, segundo a opinião deveras convincente de estudiosos e críticos, a intenção do poeta de, pelo menos, pronunciar o nome da amada. Os cabelos e a beleza de Laura harmonizam-se com a natureza (ch’ ‘n mille dolci nodi gli avolgea), enquanto seus olhos resplandecem de tanta luz (e ‘l vago lume oltra misura ardea). Mas o poeta se dá conta de que ela não mais existe (di quei begli occhi, ch’or ne sono scarsi). O rosto sublime (e ‘l viso di pietosi color farsi) é apenas uma rica imaginação literária, que exprime o seu desejo de continuar se iludindo, enquanto a ilusão se configura em poesia”.

Petrarca abriu a possibilidade para um novo ideal de realidade. Como diz Alexei Bueno, em Petrarca encontra-se a primeira ascendência moderna uma forma de melancolia individualizada. Cancioneiro é fruto de uma experiência de solidão insuperável, de impronunciável sofrimento.

Confira a obra Cancioneiro, de Francesco Petrarca no site da Ateliê.

Veja também o post original no blog O Benedito.

Chico Buarque e sua Casa de Papel

Marisa Midori Deaecto  | Revista Brasileiros | Seção: Geral | Pág. 112 | Janeiro de 2015

Os livros que recheiam a narrativa de O Irmão Alemão, novo romance do compositor

As paredes forradas de livros não abafam o toque toque da máquina de escrever. No escritório o silêncio é rompido de quando em vez por uma voz masculina. Mas não há diálogo, apenas alguns pedidos de títulos que a mãe não se demora a atender, como bibliotecária prestimosa e boa conhecedora – talvez a única? – daquele labirinto de corredores e de fileiras de livros que conformam as vigas mestras da casa.
Quem ziguezagueia pela casa de papel imaginada por Chico, desvenda pouco a pouco uma cartografia algo imodesta da literatura universal. No quarto do irmão mais velho, os livros de linguística, de arqueologia, além da mapoteca, dos espanhóis e dos chineses. Para o mais novo, descansam nos umbrais do cômodo os escandinavos, a Bíblia, a Torá, o Corão e “metros e metros de dicionários e enciclopédias”. O homem feito que vagueia pela casa ainda sente roçar as espinhas contra o dorso dos volumes e as bochechas a se esfregar, pele contra pele, no couro do Vieira. Uma ligação sensual que se construiu, enfim, desde as primeiras descobertas do olfato, do tato, do gosto e do olhar. Pequenos prazeres que se consumam, inesperadamente, no gosto “erótico em separar dois livros apertados, com o anular e o indicador, para forçar a entrada de O Ramo de Ouro na fresta que lhe cabe”.
Na casa de papel são resguardados os vestígios de vários tempos. Do tempo dos livros, como aqueles volumes renascentistas que o pai ostentava na estante principal, da sala de estar. Do tempo do menino consumido pela ira, que reduziu um Staden original a tiras de papel. Dos tempos de formação, que levaram aquele mesmo antigo menino e exibir na escola e, mais tarde, pelos corredores do Maria Antônia edições raras, com autógrafos e dedicatórias que remetiam ao pai onipresente.
Também na casa de papel são revelados os primeiros vestígios de um tempo circular, no qual pai e filho se veem dolorosamente ligados a um segredo do passado. Assim os primeiros traços de um irmão perdido no tempo se anunciam nas maus traçadas linhas de uma carta esquecida no volume empoeirado do Ramo de Ouro, este clássico de James George Frazer, que o pai certamente trouxera de Berlim. Assim o irmão alemão de Chico Buarque vai se revelando em meio a um sistema literário sofisticado, que sobrevive às intempéries da História, daqui e de além-mar. Como contraste às relações movediças que demarcam as experiências na cidade e, por certo, como contraponto à violência assistida nas próprias cidades, sobrevive na casa de papel a ordem dos livros. A ordem da memória. Da memória da casa do pai, este personagem invisível e onisciente. Um dos “Sérgios” a quem Chico Buarque dedica O Irmão Alemão, seu mais novo romance.

Conheça também a obra Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na Françaescrita por Marisa Midori Deaecto.

 

Paulistanos Ilustres Ilustrados

São Paulo faz 465 anos e ganha exposição com ilustrações do cartunista e paulistano Paulo Caruso.

Vilanova Artigas por Paulo Caruso

“Ele (Vilanova Artigas) é um dos meus paulistanos ilustres ilustrados na exposição que abre neste domingo” (Paulo Caruso).

Neste domingo, dia 25, a cidade de São Paulo faz 461 anos. Além da extensa programação cultural oferecida pela prefeitura para comemorar a data, e a qual você pode conferir aqui, acontece até o dia 1ª de março na CAIXA Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo), a exposição Paulistanos Ilustrados, por Paulo Caruso.

Com cerca de 200 ilustrações, caricaturas e gravuras, além do traço e texto irreverentes do artista, o visitante poderá conhecer a história da cidade e dos personagens por trás de avenidas e monumentos famosos que identificam São Paulo.

Com a exposição, expresso meu amor pela cidade demonstrando que São Paulo é a síntese dos sonhos e ação de pessoas que ousam e realizam, não do árido concreto que ergue e destrói coisas belas, diz o cartunista.

Homenagens

Simultaneamente a exposição da CAIXA, o trabalho de Paulo Caruso também poderá ser visto em uma mostra ao ar livre na Av. Paulista. Com o tema Paulistanos Ilustres, serão apresentados personagens que batizam ruas que cruzam a avenida-símbolo da capital. A proposta é, além da caricatura, apresentar um breve resumo de quem é o personagem e qual é a sua importância para a história de São Paulo. As imagens serão afixadas nos totens que já existem na Avenida Paulista. Nos casos onde não houver, serão produzidos totens exclusivos.

Ao todo, serão contempladas 22 vias, na Rua Bela Cintra, Peixoto Gomide, Osvaldo Cruz, Maria Figueiredo, Ministro Rocha Azevedo, Frei Caneca, Padre João Manoel, Joaquim Eugênio de Lima, Bernardino de Campos, entre outras. O objetivo é criar uma crônica da cidade, homenageando personalidades que dão nome a ruas que fazem parte do cotidiano dos cidadãos.

Vale ainda lembra que na mesma data, a medalha “25 de janeiro” vai homenagear três arquitetos, entre eles João Batista Vilanova Artigas, arquiteto homenageado no ano de 2015 pelo seu centenário e um dos paulistanos ilustres, ilustrados por Paulo Caruso.

Confira também a matéria sobre o centenário de João Batista Vilanova Artigas no blog da Ateliê.

 

Da Sibéria ao Sertão

Marcos Alvito  | Jornal Rascunho | Pág. 28 | Janeiro de 2015

Ensaios discutem a oralidade e a escrita nas histórias que viajam da Rússia ao nordeste brasileiro.

15'5x22'5 - 15mm lombadaEra uma vez um camponês siberiano que conta uma história a um professor que a transforma em um poema sobre um czar mau e um homem bom que consegue se casar com a princesa depois de cumprir tarefas aparentemente impossíveis com a ajuda de um cavalinho corcunda. Censurada, a história continua a circular e acaba se tornando um clássico já em período soviético, pelo seu conteúdo de justiça social. Vira filme, recebe várias adaptações em prosa e é traduzida em outras línguas europeias. A tradução da tradução aparece em uma coletânea brasileira, é utilizada por um poeta popular pernambucano e transformada em um folheto de cordel intitulado A Princesa Maricruz e o Cavaleiro do Ar, na década de 1960, mais de cem anos depois da publicação do poema russo. Aí passou a ser cantada em feiras para sertanejos que também experimentavam um contexto de desigualdade e injustiça e, na caatinga, puderam se emocionar com uma história nascida nas neves da Sibéria. Como resume bem a autora:

O que é do povo volta a ele, o que era prosa se faz verso, o que era verso se faz prosa, assim sucessivamente, um fenômeno muito forte e emocionante de acompanhar. 

Esta trajetória tão mirabolante e fantástica quanto o Conto de Encantamento que vai sendo transmitido e reapropriado até chegar no Nordeste, é objeto do primeiro dos quatro ensaios que compõem Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão. Jerusa Pires Ferreira estuda a literatura de cordel há mais de três décadas e já publicou vários livros sobre este tema e sobre as relações entre a memória, a oralidade e a escrita. Nos três ensaios restantes, a autora continua um tour de force em que dialogam psicanálise, filosofia, teoria literária, linguística, sociologia e antropologia (a lista não é exaustiva). Este arsenal teórico é utilizado em prol de uma boa causa, um avanço conceitual que permite:

Ultrapassar dicotomias empedradas como a famosa popular versus erudito, passando a entender tudo isto como um processo contínuo de transmissão e uma espécie de tradução cultural permanente. 

O processo que vai do poema de Ierchóv ao cordel de Severino Borges, todavia, seria ainda mais complexo. A recriação se faria em dois níveis. Em um, chamado de “sistema secundário”, “vão se inserindo detalhes das práticas sociais”, isto é, o poema vai ganhar uma cor local, vai articular-se a um outro espaço/tempo. Desnudando esta articulação, Jerusa Pires Ferreira relativiza o peso da tradição oral nordestina, à qual se costuma atribuir “um poder de originalidade e de criação que não é somente a sua”, já que além do “sistema de oralidades” há que levar em conta também a “matriz impressa” que se relaciona diretamente com o “universo da tradição popular”, inspirando-a, como no caso já mencionado. Isto é reafirmado no segundo ensaio, em que a autora demonstra como Czar Saltan, um conto de Puschkin, escrito em 1831, também a partir de uma história que lhe fora contada de viva voz, irá transformar-se no folheto O Romance do Príncipe Guidon e o Cisne Branco, publicado em 1974 por Severino Milanês da Silva. Aqui o leitor pode contar com um verdadeiro presente: uma tradução inédita do conto russo feita por Boris Schnaiderman e o fac-símile do cordel que recriou a história, permitindo confrontar as duas “versões” de uma deliciosa história de três irmãos, dois invejosos e maus e outro, ao mesmo tempo ingênuo e engenhoso, que acaba também por se casar com uma princesa que, como entrega o título, havia sido transformada em um cisne.

Significados centrais

Para além da recriação da história em outro contexto, o que sem dúvida leva a mudanças e adaptações, a autora afirma ainda que há a manutenção de “significados centrais”, que se apoiariam “na força semântica e estruturada da matriz universal dos contos de encantamento”. Esta expressão, “matriz universal”, reaparece sob várias formas ao longo do livro: “texto universal”, “arquimatriz”, “grande matriz oral” e em termos semelhantes, como “grande lastro de memória ancestral” e “megatexto”, que apontariam para a existência de um “pensamento mitológico enraizado e em permanente recriação”. A história do Cavalinho Corcunda, por exemplo, teria sua origem, para além de um antigo conto popular siberiano, em um “possível repertório indo-europeu”, isto é, o nascimento da história se perderia na bruma dos tempos, ou, como diz Jerusa Pires Ferreira, remeteria “a um tempo que não nos permite acompanhar concretamente quando tudo começa”.

Onde estaria a explicação para a existência do que ela chama de “bases míticas imemoriais”? Seria uma manifestação do chamado “inconsciente coletivo”? Esta hipótese é rechaçada:

Aí não se está pensando em inconsciente coletivo, mas em coletividades concretas que vão interpretando e realizando linguagens imemoriais e já prototipadas através da transformação pela voz de seus poetas. É o ancestral em novos corpos. 

A autora esboça uma explicação histórico-sociológica ao salientar que “nas sociedades tradicionais o elenco de situações é relativamente pouco numeroso”, mas não parece atribuir a isso um peso suficiente para explicar as recorrências e a permanência dessas “bases míticas”. Ela tampouco chega a dar uma resposta clara a esta questão. Aqui o leitor tem que navegar em um mar de erudição ao mesmo tempo encantador e perigoso, em que a todo tempo esbarra com conceitos especializados que são citados mas não totalmente esclarecidos, como “circulação intersemiótica”, “significante icônico”, “poder figural”, “presentidade do corpo e do olho”, “interimagicidade” e outros.

A este respeito, o que fica patente é a relação muito forte entre o ouvir e o ver, em que a fala e o gesto (pensemos em um cordelista apresentando sua história ao público) suscitam uma verdadeira visualização imaginada. Inversamente, o conto é contado a partir de uma espécie de matriz visual, como a autora chega a afirmar:

Tem-se a impressão de que o figural preexiste e que é ele que permite toda uma reconstituição de visualidade que se materializa nas várias linguagens da narrativa oral

De fato, este aspecto quase “cinematográfico” da narrativa oral está claramente presente desde os primórdios da literatura ocidental. Pode-se ler a Ilíada, originária de canções entoadas durante séculos pelos aedos, como se fosse o roteiro de um filme de ação.

Os quatro artigos de Matrizes Impressas do Oral:Conto Russo no Sertão fazem a cabeça dar voltas, no bom sentido. A escrita é ao mesmo tempo elegante e caleidoscópica, apontando na direção de várias possibilidades. Creio que uma das vias de leitura mais proveitosas reside no entrelaçamento do oral e do escrito em um processo contínuo e sem fim. No caso da literatura brasileira, o exemplo de Guimarães Rosa demonstra esse vínculo, que o próprio autor fez questão de “documentar” em vários contos como em Corpo Fechado, presente em Sagarana. O produto mais bem acabado desta dinâmica é a obra-prima Grande Sertão: Veredas, exemplo maior das possibilidades infinitas desta dialética entre a oralidade e a escrita.

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A Autora

JERUSA PIRES FERREIRA nasceu em Feira de Santana (BA), em 1938. É doutora em sociologia da literatura pela USP, onde coordena o Centro de Estudos de Oralidade e o Núcleo de Estudos do Livro e da Edição. É ensaísta, tradutora e professora de literatura e de comunicação social da USP e da PUC-SP. É autora de inúmeros artigos e mais de vinte livros, dentre os quais Armadilhas da Memória (2004), Cavalaria em Cordel (1979) e O Livro de São Cipriano, obra com a qual ganhou o prêmio Jabuti para Estudos Literários em 1993.

 

 

 

Trecho da obra Matrizes Impressas do Oral:Conto Russo no Sertão

Quando nos encontramos diante de contos populares e dos folhetos de cordel, temos a tendência de atribuir à tradição oral um peso excessivo, um poder de originalidade e de criação que não é somente a sua. Para entender o que se passa, temos de levar em conta categorias de expressão, situações narrativas que se mantêm, sempre prontas a aparecer e que formam uma espécie de virtualidade que chamamos “a grande matriz oral”.

Confira essa e mais obras de Jerusa Pires Ferreira no site da Ateliê.

A paz com o Islã não será feita sem os muçulmanos moderados

Edson Passetti | Zero Hora | 10 de Janeiro de 2015

Para encontrar um caminho que permita a convivência entre as democracias ocidentais e os islamitas, será imprescindível contar com a participação dos pacifistas já integrados às sociedades europeias

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Foto: JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP / AFP

Edson Passetti

O islamismo assombra o ocidente do Estado laico e da sua respectiva tolerância com as várias religiões. A reviravolta produzida em 1979 pela chamada revolução iraniana contra o despotismo ocidental firmou o Estado em uma república islâmica teocrática. Este islamismo político precisa tanto de Estado quanto de terror transterritorial. Não está disponível a uma negociação possível. Não insinua uma guerra entre deuses, mas a uma guerra de homens para impor um deus exclusivo em qualquer lugar. Pode se erguer em um espaço tradicional, como no Irã, encontrar refúgios em outros Estados, como faz a Al-Qaeda, ou ser uma variante no interior de outro Estado, como no Iraque e na Síria.

Entre os islâmicos europeus pacifistas e integrados repousam as expectativas de condutas democráticas moderadas. Seus direitos são observados segundo as leis do Estado laico e a eles devem se ajustar com tolerância. Mesmo assim, por vezes ocorrem tensões com os pacifistas quando estes pretendem obter reconhecimento de suas condutas ajustadas aos preceitos religiosos. Estado e religião, mesmo depois do Iluminismo, permanecem intrinsecamente relacionados.

A Europa vive sob o crescimento do islamismo pacífico e do violento. Na Alemanha, no final de 2014, o movimento Pegida (sigla para “europeus patrióticos contra a islamização do ocidente”) comandou a mobilização fascista contra o islamismo e o direito de asilo político – já restrito pelo Parlamento conservador desde 1993. Incomoda na Alemanha a presença crescente de sírios fugidos do Estado Islâmico. Incomoda na França que os descendentes franceses do islamismo estejam combatendo ao lado do Estado Islâmico e que em breve poderão regressar e inaugurar práticas de ocupação territorial por atos terroristas. Há um temor acentuado do islamismo violento e ao mesmo tempo uma movimentação democrática em função de “apagar a luz do Pegida”. Este movimento de marcantes traços fascistas utiliza o lema “Somos o povo”, capturado do movimento dos alemães da antiga RDA do leste quando da unificação das Alemanhas, e objetiva “conservar a identidade alemã”.

Se em dezembro de 2014 o crescimento da mobilização xenófoba foi visível, em janeiro na França o ataque ao Charlie Hebdo introduziu outra reação de rua contra o terror islâmico. Em poucos dias a Europa deixou claro que as lutas de direita e esquerda em torno da questão islâmica se tornam cada vez mais intensas e difíceis. De um lado, a reação xenófoba, de outro lado, os atos de terror organizado islâmico. De um lado, a democracia a ser preservada e, de outro lado, a democracia que mais uma vez alimenta as forças reativas fascistas em nome da defesa da identidade nacional e/ou europeia.
Há uma violência intrínseca ao governo do Estado, à sua segurança e aos modos como trata o islamismo pacífico ou violento como perigo à segurança de cada europeu. Mais uma vez, democracia e teocracia se batem, desde os anos 1990, alastrando os chamados estados de violência cada vez mais comuns. Com isso, a tolerância e a moderação apregoadas tendem a escorrer pela vala da retórica. Cresce a olhos vistos o medo do islamismo como difusor de uma guerra santa, o que fortalece a direita. A esquerda, por sua vez, recorre aos preceitos legais e de direitos, mas se torna inofensiva diante do islamismo político e violento refratário à democracia. Ela precisa dos islamitas pacíficos e ajustados. Ela precisa recuperar a importância para seu próprio saber das inovações trazidas pelas invasões islâmicas desde o século 8 e se afastar do regime de segregações, expulsões e massacres cujo apogeu se deu no século 15. Mas a Europa, hoje unificada, pensa a si mesma a partir de si própria. E teme o islamismo.

O episódio de 7 de janeiro contra a sede do Charlie Hebdo atentou contra a liberdade de pensamento, mas também contra o anticlericalismo sempre inaceitável no mundo burguês e democrático. Jornais como o New York Daily News, o The Independent, a rede CNN e a Associated Press noticiaram o atentado, mas borraram as imagens iconoclastas do semanário francês com medo de represálias. Comentaristas se pronunciaram contra os excessos de Charlie Hebdo. Enfim, livre pensar supõe nesta democracia a moderação na crítica às religiões. Moderação esta que se ajusta aos preceitos da tolerância, mas cujo reverso é também o medo, e como tal entrega vitórias aos inimigos.

O semanário francês, coincidentemente, publicou antes do episódio o lançamento do livro de Michel HouellebecqSoumission, sobre um futuro governo islâmico na França (leia aqui a resenha do livro por Luis Augusto Fischer). Pelo sim ou pelo não, o atentado ocorreu no dia do lançamento do livro. Metralharam a polícia que fazia a segurança da sede do semanário, seus criadores e desapareceram diante do arsenal de homens armados e seus equipamentos de segurança. Foram saudados pelo Estado Islâmico. Diante do “Je suis Charlie” estampado pelos cidadãos livres pelas ruas francesas ou da hashtag #notinmyname, formada por religiosos islâmicos pacifistas contra o Estado Islâmico, ficam a rapidez e a agilidade do terror político em atentar contra o livre pensamento. O Charlie Hebdo também é perigoso para quem se veste de democrático tolerante.

Confira aqui todas as obras publicadas por Edson Passetti pela Ateliê.

 

Os 100 Melhores Livros Infantis de Todos os Tempos!

Muito mais importante que o incentivo e o caminho para o hábito da leitura, a literatura infantil carrega todas as ferramentas para o desenvolvimento das mais marcantes fases na vida de uma criança: a imaginação, os sentimentos, as emoções e principalmente o início da construção da identidade. Obras de autores como os irmãos Grhins, Monteiro Lobato, Edmondo de Amicis e etc, são até hoje recordadas por aqueles que já chegaram a vida adulta e transmitidas para as gerações seguintes, não só como uma ferramenta educacional, mas também um guia de como encarar a os primeiros desafios da vida.

Já não se pode contar a variedade de títulos infantis publicados ao longo do tempo. Indicar os melhores também não parece uma tarefa fácil. Porém a revista americana TIME resolveu encarar essse desafio e com a ajuda de autores e instituições como: Centro Nacional dos Ilustradores de livros Infantis, os pequenos leitores da Biblioteca do Congresso Americano, cada leitor mirim da Literacy Foundation, 10 livrarias independentes, Kenn Nesbitt e o historiador de literatura infantil Leonard S. Marcus, criaram a lista com os 100 Melhores Livros Infantis de Todos os Tempos.

Confira algumas das obras escolhidas!

STORY OF BABAR, THE LITTLE ELEPHANT

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WHERE THE WILD THINGS ARE

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THE TALE OF PETER RABBIT

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LITTLE BEAR

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WINNIE-THE POOH

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WHERE THE SIDEWALK ENDS

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100 Anos de Vilanova Artigas!

Diversos eventos são programados em homenagem ao centenário do arquiteto Vilanova Artigas. 

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Vilanova Artigas. Foto por Cristiano Mascaro

João Batista Vilanova Artigas foi e continua sendo um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, além de professor e fundador da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), ele também projetou o prédio da universidade. Famoso por sua atuação política de esquerda e sua ligação com o Partido Comunista, Artigas previu a necessidade da arquitetura e do urbanismo como uma questão básica para o desenvolvimento social e urbano do país.

Salão Caramelo – FAUUSP. Foto por Nelson Kon

Sua visão como arquiteto, urbanista, professor e intelectual transforma até hoje a vida de milhares de pessoas espalhadas pelo Brasil. São diversos edifícios de sua autoria que ganharam um simbolismo muito mais humano do que a própria função para o qual foi projetado. Tais aspectos ficam claros ao visitar o próprio prédio da FAU ou a Rodoviária de Jaú, só para ter um exemplo, e observar como as pessoas se apropriaram do espaço, do ir e vir e a relação criada entre elas e o edifício.

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Rodoviária de Jaú. Foto por Gabriel Sepe

Em junho de 2015 Vilanova Artigas completaria 100 anos e para comemorar seu centenário diversas ações serão feitas ao longo do ano. Ao começar por um inédito documentário sobre a vida e a obra do arquiteto, o lançamento de um livro com seus principais projetos, seu site oficial e uma exposição promovida pelo Itaú Cultura em sua homenagem!

O blog da Ateliê também não vai ficar de fora das comemorações, ao longo dos meses traremos diversos textos, artigos, matérias e curiosidades sobre a vida e obra de João Batista Vilanova Artigas. Não deixe de acompanhar o blog e confira também as obras Artigas e Cascaldi – Arquitetura em Londrina Wright & Artigas – Duas.

Concreto flexível

Rogério Borges | O Popular | Seção: Magazine | Pág. 01 | 28 de dezembro de 2014

Poeta da experimentação, Décio Pignatari também era contista, cronista de futebol e dramaturgo. Essas outras facetas podem ser conferidas em coleção que acaba de ser lançada

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FOTO: JONAS OLIVEIRA

Brincar com as letras, fazê-las cair e subir nas frases, incitá-las a formar novos vocábulos, outros sentidos, despertar os segredos que o idioma pode guardar usando para isso a criatividade e a experimentação. Assim agiam os concretistas, poetas que emprestavam aos versos a ousadia das artes plásticas, unindo linguagens, reinventando métodos, retirando as teias de aranha do cérebro de seus leitores que precisavam se esforçar para traduzir obras literárias que também eram arquiteturas gráficas cheias de símbolos, traquinagens e ludicidade. Um dos expoentes desse movimento da literatura nacional dos anos 1950 foi Décio Pignatari, que morreu em 2012. O autor, irreverente e polêmico, está sendo resgatado em uma coleção, que revela outras de suas habilidades.

As obras Viagem Magnética, Terceiro Tempo O Rosto da Memória trazem três facetas que nem todo mundo conhece da produção do escritor. O primeiro é uma peça de teatro, a segunda que escreveu em sua carreira e que foi composta em sua última década de vida. Terceiro Tempo revela um Pignatari que, com verve ferina, encaminha-se para um humor saboroso ao escrever crônicas de futebol. São 26 textos publicados em 1965 no jornal Folha de S. Paulo. Por fim, O Rosto da Memória é um volume de contos em que se vê (e não só se lê) com maior nitidez as marcas registradas desse concretista, em que a linguagem e a diagramação do texto nas páginas sugerem outras concepções do enredo, a começar com inversões nos títulos e subversões na forma narrativa.

Os três títulos, lançados em conjunto pela Ateliê Editorial, dão uma nova roupagem a obras de Décio Pignatari que ficaram eclipsadas por sua intensa participação, junto com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, em uma das principais vanguardas culturais que o Brasil produziu no século 20 nos campos da literatura e das artes. Além disso, ele tornou-se uma referência na publicação de obras teóricas e de crítica, além de destacar-se como tradutor. Foi ainda uma autoridade internacional nos estudos de Semiótica, sendo membro e até fundador de diversas associações de semiologia no Brasil e no exterior. Outra habilidade que o autor chegou a exercer com alguma frequência foi o de publicitário, contribuindo até com reflexões sobre Teoria da Comunicação.

Com múltiplas atividades, não seria de se espantar que Décio tivesse outro tipo de produção literária que não se concentrasse apenas na poesia. A reedição desses livros, assim, não surpreendem por trazer o que trazem e sim por esses textos terem ficado recolhidos a um esquecimento que, em certos casos, durou décadas. A reunião de crônicas nunca havia sido publicada em livro, e olha que lá se vão 50 anos que chegaram pela primeira vez aos leitores. O volume de contos estava fora de catálogo há quase 30 anos. Talvez por sua trajetória singular, Décio Pignatari tenha criado em torno de si uma imagem de vanguarda que chegava a assustar, prejudicando, dessa forma, sua produção literária mais aberta a grandes públicos, em que não há códigos intrincados de interpretação.

Os livros

viagem magneticaVIAGEM IMAGNÉTICA

Essa obra teatral de Décio Pignatari era inédita até agora. Ela foi escrita entre 2004 e 2007 e é baseada na vida de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo da potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, uma mulher de vanguarda no século 19. Radicada no Rio de Janeiro, foi educadora e dona de um dos principais colégios da então capital do Império, além de poetisa e uma das pioneiras na divulgação das ideias positivistas de Auguste Comte entre a intelectualidade nacional. Para dar a dimensão dessa personagem, Pignatari coloca em cena diversas personalidades do Brasil daquela época, como os escritores Fagundes Varela, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães, que testemunham como a protagonista sofre em impor a sua aguçada inteligência a convivência com afetações e convenções sociais pueris e vazias. É como se o autor tivesse se identificado com a inquietude de Nísia, demonstrando isso em cenas curtas, picotadas e enervantes. A grande cultura que essa mulher possuía choca-se com a fragilidade intelectual de muitos que a cercam.

(120 páginas, R$ 27)

terceiro tempoTERCEIRO TEMPO

Não é qualquer um que teve o privilégio de ver alguns dos maiores craques do futebol brasileiro jogando na era de ouro de nossa paixão nacional. Décio Pignatari foi um desses premiados e escreveu a respeito em uma série de 26 crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo em 1965. Naquele tempo em que o Brasil era bicampeão mundial e preparava a maior de suas seleções, a do tricampeonato de 1970, o escritor percebeu que assistia verdadeiros gênios em ação, como a locomotiva santista duas vezes campeã do mundo, capitaneada pela tabelinha Pelé e Coutinho. Outros clubes também mereciam atenção do escritor, como o antológico Botafogo, que tinha de um lado do campo Garrincha e do outro Nilton Santos, simplesmente o maior ponta-direita e o melhor lateral esquerdo da história do futebol. Despejando admiração e fazendo isso de formas menos óbvias, Pignatari imortalizou em suas crônicas o talento de Rivellino e a elegância de Ademir da Guia, sem deixar de perceber, já naqueles tempos, a influência da política no esporte.

(128 páginas, R$ 29)

rosto da memóriaO ROSTO DA MEMÓRIA

Não esperem encontrar uma obra convencional nesse volume de contos, publicado pela primeira vez em 1986 e só agora reeditado. O tema central do livro já dá uma pista de que Décio Pignatari deu vazão a sua veia de vanguarda ao escrever as narrativas curtas que compõem o volume. Ele trata de como as imagens são fundamentais para inscrever nas recordações nossas vivências e visões de mundo. Para isso, o escritor promove uma série de provocações, em que abundam sinais gráficos, em fontes diferenciadas e até em fotos e mapas para incitar a imaginação do leitor. Enquanto um conto tem uma única e solitária frase, outro despeja uma torrente de palavras (várias delas rabiscadas ou encadeadas um tanto confusamente), causando certo choque em quem segue os enredos que podem estar cheios de ternura e inocência ou recobertos de vitupérios e palavrões. Retirando o título das Confissões, de Santo Agostinho, Décio Pignatari convida a uma viagem literária imprevisível.

(168 páginas, R$ 38)