Monthly Archives: dezembro 2014

Luiz Tatit

Folha de S. Paulo | Seção: Ilustríssima | Pág. 02 | 21 de dezembro de 2014

764_01A nova edição de Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças traz seis textos que não estavam na primeira publicação, de 2007, além da autobiografia do autor, ampliada e atualizada. O músico e professor de linguística da USP narra ainda, em entrevista organizada por Arthur Nestrovski, suas experiências dos tempos de Vanguarda Paulista e do Grupo Rumo.

 

 

 

Confira esta e outras obras do autor no site da Ateliê.

As bases irracionais do poder

Welington Andrade | Tribuna do Norte – Natal | Seção: Opinião | Novembro de 2014

526_01O Alienista é uma obra-prima, construída na fase de maturidade da ficção de Machado de Assis. Precisamente: é a peça de abertura do livro Papéis Avulsos, publicado em 1882, pouco depois de surgirem para a literatura nacional as surpreendentes e monumentais Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881-82). Sobre a natureza de obra-prima, não conheço divergências. Elas existem, contudo, quando se pretende interpretar a fabulação e seus personagens. Uma dessas possíveis interpretações se concentra no foco demonstrativo de que o O Alienista é uma paródia e uma alegoria dos discursos sobre fatos da história de nosso país contemporâneos do escritor (mas paródia e alegoria, atente-se bem, dos discursos historiográficos e não dos fatos especificamente). E também uma aguda reflexão sobre os (questionáveis) nexos entre racionalidade e poder, sob a ótica da própria narrativa histórica.

À primeira vista, o nobre e médico Simão Bacamarte – “um dos maiores médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” – pretende se dedicar ao estudo da loucura. Na verdade o médico “investiga a natureza dos costumes”, pois “a sátira da novela não incide sobre a tirania da ciência, mas sobre a ilusão da vitória da razão no jogo do poder”, como revela Ivan Teixeira no ensaio “Irônica invenção do mundo – uma leitura de ‘O Alienista’” (em Machado de Assis – ensaios da crítica contemporânea, Unesp, 2008) e também na abordagem inovadora e profunda da ficção machadiana  em O Altar & o Trono (Ateliê Editorial, 2010). O médico, a partir da construção da Casa Verde, a casa de Orates, um sanatório onde deveriam ser internados os loucos da vila de Itaguaí, passou a representar o poder – acima do legislativo (a Câmara de Vereadores), do clero (o padre Lopes) e do povo, que depois se sublevaria liderado pelo barbeiro Porfírio, durante a revolta dos Canjicas. Simão Bacamarte era um sábio com muita sagacidade: grande arabista, “achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos”, uma vez que “Alá lhes tira o juízo para que não pequem”. Gravou esse pensamento no frontispício da Casa Verde mas o atribuiu ao papa Benedito VIII, para evitar problemas com a igreja.

Primeiro, foram recolhidos os que estavam privados da “razão”: “A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia.” O dr. Simão supunha que a loucura era “uma ilha perdida no oceano da razão”. Mas começou “a suspeitar que (era) um continente”. Instalou-se pouco a pouco o terror. Sobretudo porque, depois, a loucura passou a ser vista como “desrespeito aos princípios éticos consensuais” (honestidade, lealdade, coerência etc.). A Casa Verde encheu-se de loucos. Nessa leva, numa prova de isenção, foi internada a mulher do médico, D. Evarista, jovem viúva, não muito bonita, mas com olhos “lavados de uma luz úmida”. A seguir, foram considerados mentecaptos exatamente “os que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais”. O movimento dos Canjicas, sangrento e sem objetivo, parodia a narrativa historiográfica das revoltas do Período Regencial (Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Farroupilha, Praieira). O poder do médico não sucumbe aos Canjicas. É autodestruído pela racionalidade, que se mostra incompatível com o poder.

Confira esta e mais obras do autor no site da Ateliê.

Viagem ao redor do engenho teatral

Welington Andrade | Revista Cult | Colunas: Cena Contemporânea | 12 de dezembro de 2014

Inédita nos palcos, chega às livrarias uma inquieta forma teatral concebida por um grande mestre

 

Décio Pignatari (Foto: Vilma Slomp)

São inúmeras as qualidades de Viagem magnética, o segundo texto para teatro saído da pena do poeta, prosador, ensaísta, semioticista e tradutor de poesia Décio Pignatari. Se em Céu de lona, publicada em 2003 pela Travessa dos Editores, ele transformava Machado de Assis e Carolina Xavier de Novaes, mulher do escritor, em personagens de uma comédia fescenina de ritmo ágil e atmosfera delirante, nesta sua segunda incursão pela área da dramaturgia, Décio se dedica a conferir estatuto de personagem teatral a outra figura histórica de destaque do século XIX no Brasil: a escritora, educadora, feminista e tradutora Nísia Floresta Brasileira Augusta. E o resultado dessa experiência não poderia ser mais estimulante aos estudiosos da dramaturgia brasileira, em especial, mas também aos admiradores dos estudos literários, de modo mais amplo: trata-se de uma peça de teatro pautada por uma inventividade desconcertante, plena de possibilidades cênicas.

Nascida no povoado de Papari, Rio Grande do Norte, oriunda de uma família tradicional – a mãe, potiguar, era herdeira de vastas extensões de terra, enquanto o pai, português, era um advogado culto e liberal –, Nísia Floresta (1810-1885) publicou em 1832 no Recife, o livroDireitos das mulheres e a injustiça dos homens – traduzido livremente de Vindication of rights of woman, de autoria da ativista do feminismo inglês Mary Wollstonecraft (mãe da escritora Mary Shelley) –, obra que, segundo o Dicionário de mulheres do Brasil, atribuiu-lhe o “título incontestável de precursora dos ideais de igualdade e independência da mulher em nosso país”.

Não bastasse a militância feminista desbravadora, Nísia – que abriu em 1837, no Rio de Janeiro, o Colégio Augusto, onde colocou em prática suas ideias nada ortodoxas sobre educação feminina – dedicou-se também a outras causas fervorosas, defendendo, ainda na primeira metade do século XIX, o fim da escravidão, a liberdade religiosa e o regime republicano. Detentora de uma atividade literária e intelectual das mais férteis, ela viajou em 1849 para a Europa, onde entrou em contato com o positivismo de Augusto Comte, vindo a se tornar uma amiga bastante próxima do filósofo, cuja casa passou a frequentar e com quem manteve uma expressiva atividade epistolar.

É em torno não somente dessa fascinante personagem, mas também das figuras de Lívia (a filha que Nísia teve de seu segundo casamento) e de Malwida von Meysenbug (a escritora alemã que foi amiga de Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, com quem Nísia, a rigor, nunca se encontrou) que Décio Pignatari constrói sua peça de teatro, por meio da qual pôde visitar uma vez mais o efervescente século XIX brasileiro, quando o país parecia estar muito ocupado ora em se espelhar em sua ascendência pretensamente europeia, ora em especular sobre o que fazer com sua progênie realisticamente tropical. Entretanto, tal como era de se esperar, o olhar do autor sobre o século que abrigou as musas romântica e positivista não se dá em chave passadista ou anacrônica. O que mais chama a atenção na feitura da obra é o fato de o dramaturgo ter feito uma série de conteúdos comportamentais, artísticos e intelectuais doOttocento que estão na base de nossa modernidade precipitarem-se em formas propriamente modernas, em virtude da perspectiva sincrônica que Décio, como autêntico representante do movimento concretista, sempre procurou fazer incidir sobre as mais variadas manifestações culturais e artísticas de todos os tempos. Aproveitando a grande moda oitocentista do magnetismo de Mesmer e do espiritismo de Kardec, Décio então nos propõe essa viagem sobre o tempo e o espaço, fazendo ecoar ainda o nome de uma das obras centrais para a formação do romance moderno, a Viagem à roda do meu quarto, de Xavier de Maistre. (“Trata-se de uma viagem magnética, galvânica, espiritual que fiz ao Brasil, sem sair do quarto…” declara Nísia a seu tradutor italiano).

O texto está dividido em vinte e seis segmentos que, embora pautados por concisão e autonomia, restituem em linhas gerais a trajetória da protagonista – de sua saída do Nordeste (em virtude do violento clima de instabilidade política na região que antecedeu a independência do Brasil, clima este responsável, inclusive, pelo assassinato do pai de Nísia) até o traslado de seus restos mortais, em 1954, da cidade francesa de Bonsecour, onde ela estava enterrada, para o município potiguar de Papari, que alguns anos antes passara a se chamar Nísia Floresta. Entretanto, Décio não explora tais fatos em chave dramática, preferindo antes imprimir a eles – dada a organização dos segmentos sob a forma de colagem – a perspectiva crítica do teatro épico. Ou melhor, de um épico à brasileira.

Nesse sentido, é visível a filiação de Viagem magnética às experiências teatrais de vanguarda conduzidas por Oswald de Andrade, sobretudo em O rei da vela, embora haja diferenças também entre ambos os projetos dramatúrgicos. A atmosfera que se pode depreender das aventuras de Nísia é a de um humor solto, desavergonhado, anti-intelectualista até, mas quase nunca “espinafrador” em essência. Já o caráter lúbrico que paira de ponta a ponta – dos “muxoxos lambidos” que o editor Duvernoy dá em Nísia, passando pela ligação tribádica entre esta e Malwida, até chegar ao êxtase final da protagonista, flechada por um “coro de Eros” – também se assemelha à tessitura erótica que está na base de O rei da vela. Entretanto, a lascívia cênico-poética de Décio Pignatari parece apontar para outras direções. Não é propriamente a Heloisa de Lesbos que Nísia presta tributo e, sim, à própria Safo, cuja obra, luminosa, inconclusa, fragmentada, tal como chegou a nós, Décio tanto admirava. Não à toa, o dramaturgo interessou-se por uma figura histórica nascida Dionísia, remetendo ao deus que, segundo a tradição retomada por Nietzsche, está ligado a Eros “mythóplokos”, isto é, o tecelão de mitos, a divindade grega que faz e desfaz as tramas das palavras e dos discursos. Nada mais erótico, dionisíaco e sáfico, portanto, do que a urdidura temática e formal desta Viagem magnética.

Concebida pelo poder de invenção de um homem das Letras e da Comunicação que sempre primou por revisitar a tradição literária sob a ótica da ousadia e da experimentação, a peça apresenta um sem-número de ressonâncias históricas, literárias, filosóficas, estéticas, musicais e plásticas, conduzidas ao limite do paroxismo – por levar tanto ao deleite como à entropia. Não bastassem as muitas rubricas repletas de informações complexas, que merecem uma decifração cênica à altura de sua engenhosidade, e as inúmeras falas de deliberado caráter enciclopédico (no 10º segmento, por exemplo, Malwida articula os nomes de Darwin, Marx, Nietzsche, Wagner, Cosima, Liszt, Lou Salomé, Gerge Sand e Augusto Comte, com insuspeita naturalidade), Décio ainda lança mão de dois recursos discursivos bastante genuínos: o uso destreakers (apresentados em Céu de lona como “personagens-personalidades que atravessam a cena, qualquer cena, fazendo proclamações, sem serem ouvidos e vistos”) e de solos proferidos ao ritmo do rap. Vale lembrar que Nísia Floresta é citada em Céu de lona como “a musa positivista brasileira, discípula e ex-amante de Augusto Conte” por ninguém menos do que a princesa Isabel na pele de uma streaker.

Estamos diante, assim, de um espécime dramatúrgico que pode simplesmente enganar os mais afoitos, sempre dispostos a anunciar o ostracismo de um grande número de peças brasileiras feitas para serem lidas e não montadas. O fragoroso caso de O rei da vela, incompreendida por cerca de três décadas até ter encontrado um encenador à altura de sua verve, parece não ter servido para muita coisa. A despeito de sua feérica estrutura referencial enciclopédica, orgulhosa por expressar em termos teatrais o mesmo caráter de “vertiginosa montagem/colagem de arqueologia cultural” – na feliz expressão de Paulo Venancio Filho – que Ezra Pound conferiu à poesia de Os cantos (outro autor com quem Décio sempre procurou estabelecer uma vigorosa interlocução), Viagem Magnética é um texto para ser encenado, sim. Se Hugh Kenner definiu a ciclópica obra de Pound como “uma épica sem enredo”, estamos aqui diante de uma peça de teatro épica cujo tênue entrecho dramático se converte o tempo todo em puros jogos de linguagem, sem que se abra mão, entretanto, da tridimensionalidade do espaço cênico onde tais jogos precisam acontecer. Trata-se, portanto, de uma peça de linguagem poética muito particular, mas, acima de tudo, de uma peça de teatro. A agilidade dos cortes e da edição das cenas, de acentuado caráter cinematográfico, e o tom feérico de muitos dos ambientes onde as ações transcorrem (as prisões de Piranesi são um verdadeiro achado cenográfico) atestam uma teatralidade inequívoca. Oxalá o texto de Décio Pignatari encontre um diretor ou grupo de teatro disposto ao desafio de estabelecer com ele uma interlocução pra lá de inventiva.

Em plena era de percepções controladoras e de excitações controladas, sem que se dê muito conta disso, porque a histeria é atualmente a prova dos nove, Viagem magnética há de soar mesmo um tanto quanto racionalista e cerebral. Poucos talvez se deem conta de que os domínios do Logos também se prestam a uma materialidade sensível das mais fecundas. A imaginação teatral concretista de um poeta que já se dispôs a traduzir os lances verbais eróticos de Shakespeare e os ruídos semânticos de Sheridan pode constituir uma surpresa para quem quer estar com Baco sem perder a companhia de Apolo.

Ao coquetel grego-europeu-americano-tropical servido por Décio Pignatari e sua musa brasílica, o leitor-espectador somente poderá responder com uma única saudação:

Evoé Dionísia!

Obs.: O presente artigo está publicado como texto de apresentação da peça, editada pela Ateliê.

Conheça essa e mais outras obras de Décio Pignatari no site da Ateliê.

 

 

O Mercado Independente

Um mercado paralelo e independente de publicações está crescendo vertiginosamente, em diversas partes do país feiras e mais feiras, surgem com uma infinidade de produtos, que vão dos já conhecidos zines a sofisticados livros de artistas. Esse movimento que ocorre como uma alternativa ao já saturado modelo do mercado editorial nacional e os grandes varejistas de livros, está se consolidando não só como mais uma forma de gerar receita mas sim como um movimento artístico e cultural. Para entender um pouco mais sobre esse movimento o canal Arte 1 fez um vídeo apresentando um pouco essas editoras e seus artistas. Clique aqui e confira!

 

Foto por Arte 1

 

 

A Acústica Musical em Palavras e Sons

 Revista Concerto | Seção: Geral | Pág. 65 | 01 de dezembro de 2014

Acustica MusicalO que é o som? Quais são seus atributos essenciais? Como se da o fenômeno da escuta do ponto de vista acústico? Quais são os aspectos acústicos envolvidos no processo de criação da composição em geral e, mais especificamente, da música especulativa, contemporânea (eletroacústica e instrumental)? É com o objetivo de responder a essas e a outras perguntas que surge este livro do compositor Flo Menezes, em edição revista da publicação de 2004. Uma das principais vozes da atual composição brasileira, fundador do Studio PANorama e professor da Unesp, ele é pesquisador e divulgador da música eletroacústica, presente desde o início de seu trabalho como autor. E é a partir dessa experiência que ele constrói sua análise, recapitulando, sim, alguns dos elementos principais da ciência acústica, mas tratando do tema essencialmente do ponto de vista estético. Por conta disso, o livro é uma introdução a um capítulo importante da música de vanguarda, que é apresentada não apenas no texto mas também como nas dezenas de exemplos músicais que integram o disco que acompanha o livro. Como cita a apresentação da obra, “ainda que aborde de modo científico todas as definições essenciais do universo sonoro, o recorte do som se dá, aqui, pelo viés da escuta especulativa do compositor”.

Confira mais sobre a obra A Acústica Musical em Palavras e Sons, além de outros livros do autor no site da Ateliê

Luiz Tatit: uma dupla relação com a música brasileira

| Jornal Hoje em Dia | Seção: Geral | Pág. 34 | 07 de dezembro de 2014

O respeitado compositor e pesquisador reúne apontamentos e reflexões no recém-lançado livro “Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças”

image

Luiz Tatit – (Gal Oppido/Divulgação)

Figurinha carimbada para quem se interessa pela música popular brasileira, Luiz Tatit escreve sobre seu ofício com a mesma dedicação que compõe. Como músico, fundou o icônico Grupo Rumo, que entre 1974 e 1992 foi um dos principais expoentes do chamado movimento “Vanguarda Paulistana”, que também revelou nomes como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.

Como teórico, professor do Departamento de Linguística na USP, Tatit se tornou um dos principais nomes no estudo da semiótica da canção brasileira, com sete livros lançados sobre o assunto. Essa dupla relação de Tatit com a MPB pode ser conferida na nova edição do livro Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças, lançado pela Ateliê Editorial.

Segundo o autor, o destaque da obra é reunir o lado teórico e compositor em uma linguagem simples para quem se interessa pela tema. “É muito diferente produzir e analisar. Geralmente quem sabe compor não se sai muito bem para analisar, porque a composição vem a partir da criatividade, mas existe uma linguagem que precisa ser compreendida e este é meu único livro que une os dois temas”.

[HED - 34]  DIARIOS/CULTURA/1_MATERIAL ... 07/12/14

COM O GRUPO RUMO – Momento emblemático da música feita em São Paulo

Dividido em três partes (autobiografia, entrevista e ensaios), “Todos Entoam” se revela como um registro essencial para compreender a dimensão da música brasileira, desde os clássicos festivais da TV Record nos anos 1960 até 2013, na contemporaneidade da música urbana. Escrito em primeira pessoa, a primeira parte mostra a vida de Tatit rumo a canção e semiótica. Na parte de entrevistas, Tatit expõe a músicos e pensadores da MPB como Zélia Duncan, Ná Ozzetti e o mineiro Kristoff Silva, seu ponto de vista sobre a linguagem da canção, suas criações e publicações nessa área, o projeto Rumo e as influências de São Paulo em sua trajetória cultural. Na terceira e última parte, 22 ensaios focalizam a relação entre melodia e letra, amparada sobre o impacto cultural que obras artísticas tiveram na sociedade brasileira.

A escolha do nome do livro (“Todos Entoam”), segundo Tatit, vem da capacidade de toda pessoa compor uma canção a partir da entonação da voz. “A canção para mim é a forma básica da composição, a maneira de falar é sempre o ponto de partida, a parte musical é para estabilizar aquilo que se compõe”. Ao final da leitura, vem a conclusão de que, sim, vale a pena um lugar na estante para “Todos Entoam”. Além da leitura prazerosa, é do tipo do livro para volta e meia ser consultado.

Confira esta e outras obras de Luiz Tatit , no site da Ateliê.

Anatomia da estupidez

Marcos Guterman | O Estado de S.Paulo| Aliás | Pág. E3 | 07 de dezembro de 2014

Livro destrincha mitos mais duradouros que explicam a perseverança do ódio aos judeus

10-MitosTucciMitos são simplificações destinadas a dar, por meio da lógica, conforto moral àqueles que se sentem miseravelmente perdidos em meio ao caos da História. Não são verdades nem pretendem sê-lo; servem somente para conferir sentido à vida do homem-massa, essa criação contemporânea que ocupa a sociologia e serve aos propósitos do poder totalitário. E não se prestam necessariamente à narrativa religiosa – seu uso tem sido basicamente político desde o século 19. Ao longo de todo esse tempo, observa-se que os mitos mais resistentes, renovados com notável energia, têm sido aqueles relacionados aos judeus. Tamanha é a força da narrativa fantasiosa a respeito desse povo ao longo dos séculos que é possível identificar até mesmo a consolidação de uma mitologia sobre os mitos – isto é, também as explicações para a perseverança do ódio aos judeus estão, boa parte delas, contaminadas por mistificações. Assim, é bem-vinda toda tentativa de compreender o antissemitismo à luz não do senso comum, mas da ciência histórica – como faz o mais recente livro da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, Dez Mitos sobre os Judeus, que procura identificar as razões da permanência desse misto de hostilidade aberta e admiração latente que resulta na singularização dos judeus.

Mitos não são criações aleatórias. Para que adquiram perenidade, característica primária da mitologia, tais narrativas devem ser vistas, sem reservas ou contestações, como a exata tradução do real. Mais do que isso: o mito, para sê-lo em toda a sua extensão e força, deve até mesmo substituir o real, isto é, deve ser a referência natural, mecânica, para que se faça a leitura dos conflitos e paixões da sociedade. Como mostra o livro de Tucci Carneiro, o que importa é a verossimilhança da narrativa, ainda que esta tenha escassa correspondência com a realidade. No caso dos mitos antissemitas que serviram aos nazistas, por exemplo, trata-se, no dizer de Hannah Arendt, de uma “ofensa ao bom senso”, pois os judeus passaram a ser perseguidos implacavelmente na Europa do século 20 justamente no momento em que seu alegado poder – aquele que serviu de pretexto para as perseguições – declinava junto com o Estado-Nação e quando os valores religiosos do judaísmo, cuja leitura deturpada alimentava a imaginação dos antissemitas, estavam perdendo força em meio ao acelerado processo de assimilação.

Essa incoerência é apenas aparente. O “Judeu”, entendido aqui como a imagem estereotipada dos judeus, era o inimigo ideal, pois, enquanto representava todo o Mal sobre a Terra, na realidade não tinha como se defender, nem pela força nem com argumentos racionais. Eis a potência do mito que encantou gerações até hoje.

Não é possível estabelecer uma cronologia da construção do mito do “Judeu”, mas não se pode negar que o elemento fundador desse empreendimento fabuloso seja a acusação de que os judeus mataram Jesus Cristo, provável razão pela qual Tucci Carneiro a tenha escolhido para abrir seu livro. A gravíssima condenação serviu para dar força ao cristianismo em seus primeiros tempos e ainda ofereceu ao mundo a imagem mais bem acabada do traidor – Judas. Queimar esse Judas, como se faz simbolicamente ainda hoje, como brincadeira de criança, serve para expurgar o Mal, que ameaça a ordem celestial.

O deicídio está na base do antissemitismo, mas desde o século 19 foi largamente superado como seu elemento central. Este agora reside na certeza de que os judeus, reunidos em entidades secretas, fazem parte de uma conspiração internacional. Tucci Carneiro observa que essa ideia ganhou sua melhor interpretação por meio dos Protocolos dos Sábios de Sião, que reproduzem as atas de uma fictícia assembleia de judeus dispostos a enganar e dominar o mundo. A historiadora também nota que de nada adiantou alguns importantes jornais europeus contemporâneos dos Protocolos (1905) informarem que se tratava de um embuste, pois o texto dava “sentido” às convulsões revolucionárias do mundo, atribuindo-as ao plano de dominação judaica. Mesmo Hitler, no seu livro Minha Luta, deixa claro que, para ele, não importava se os Protocolos eram autênticos ou não; o que interessava, em suas palavras, era que a “realidade” tornavam “patentes” as maquinações dos judeus relatadas no livro.

Como demonstra Tucci Carneiro, os Protocolos, portanto, não são a fonte, mas sim resultado do sucesso do antissemitismo político, fenômeno que se espraiou pelo mundo – razão pela qual o texto foi traduzido para dezenas de idiomas e até hoje é publicado em diversos países, onde sempre há expressiva ralé em busca de argumentos lógicos para justificar seus fracassos e para seguir líderes com vocação autoritária.

Tucci Carneiro se ocupa ainda de explicar diversos outros mitos, como aquele que há tempos atribui aos judeus o domínio da mídia global e das grandes finanças internacionais, e também o mais recente deles, que diz que a política externa americana se dobra aos caprichos dos judeus – como se as relações dos judeus com os Estados Unidos não estivessem baseadas numa identidade comum construída desde o século 17. Ao procurar refazer a trajetória histórica dessas imputações, com seus efeitos inclusive no Brasil, a pesquisadora disseca a lógica desse monumento à estupidez que é o antissemitismo e presta um bom serviço à razão.

Confira abaixo as fotos do lançamento da obra Dez mitos sobre os judeus, ocorrido no dia 04 de dezembro na Livraria da Vila – Pátio Higienópolis, (Fotos por Douglas Mansur):

10365896_722970601133394_5368704362297022188_n 10175955_722973704466417_7627885864677541756_n 10383103_722971431133311_5704839493041450762_n 10846209_722971134466674_4433151059315456080_n 1526814_722971184466669_963415793615507882_n 10696345_722969467800174_4428887992551987497_n 10848060_722969837800137_1138567834583708530_n 10407062_722969804466807_4842262845232889872_n 10420217_722969551133499_8484613130614534706_n 10417785_722969171133537_6436254647258248063_n 10704090_722969224466865_2674612949502256546_n

 

Historiadora Tucci Carneiro aborda em livro os mitos mais arraigados sobre os judeus

B’nai B’rith Brasil | Posts Recentes | 01 de dezembro de 2014

10-MitosTucciNo livro “Os Dez Mitos sobre os Judeus”, Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora da USP, analisa dez entre os mitos mais arraigados sobre os judeus, que têm contribuído para a persistência do antissemitismo. A obra será lançada no dia 4 de dezembro, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila – Shopping Higienópolis, em São Paulo, com a presença da autora.

Publicado pela Ateliê Editorial, com o apoio da CONIB, o livro é composto por textos breves, independentes, sem ordem obrigatória de leitura.  Estes são os mitos abordados:

Mito 1: Os judeus mataram Cristo

Mito 2: Os judeus são uma entidade secreta

Mito 3: Os judeus dominam a economia mundial

Mito 4: Não existem judeus pobres

Mito 5: Os judeus são avarentos

Mito 6: Os judeus não têm pátria

Mito 7: Os judeus são racistas

Mito 8: Os judeus são parasitas

Mito 9: Os judeus controlam a mídia

Mito 10: Os judeus manipulam os Estados Unidos

O antropólogo Kabengele Munanga escreve no prefácio “São mitos construídos para reificar e atualizar os sentimentos de discriminação, hostilidade e ódio que remontam à noite dos tempos. Eles nos transportam ao coração da função política e ideológica dos mesmos”.

Estudiosa de diversas minorias sob o viés da intolerância e dos direitos humanos, a autora pretende escrever outras obras para análise dos mitos sobre grupos como ciganos, negros, indígenas, homossexuais.

Tucci Carneiro é diretora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) e do Arquivo Virtual sobre o Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) da Universidade de São Paulo. Entre seus temas de estudo estão o racismo e o antissemitismo, a repressão às minorias, a censura no Brasil, os refugiados do nazi fascismo. Seu livro ”Cidadão do Mundo: O Brasil diante do Holocausto e dos Refugiados do Nazismo” foi recentemente lançado na Alemanha

Conheça também outras obras publicas pela autora no site da Ateliê.

Ação e Retaliação

vvvvvRenato Tardivo

Relatos Selvagensfilme argentino dirigido por Damián Szifrón, lembra um livro de contos. O longa resulta de seis histórias independentes que abordam a mesma temática. A sequência de abertura sinaliza ao espectador o que virá: vingança, catarse, humor, tragédia. Talvez a obra não funcione tão bem enquanto unidade, justamente pela falta de articulação no roteiro. Mas, apesar disso, o filme é relevante pelos questionamentos que traz.

O foco incide sobre a classe média e elite argentinas, emaranhadas em circuitos fechados e transbordantes de tensão. Toda ação implica uma retaliação. Não há saída que não seja explosiva: sobra para todos. O tema, aliás, é atualíssimo também no Brasil. O cinema nacional tem realizado bons filmes de temática análoga, com a seguinte diferença: aqui, o foco normalmente recai sobre a periferia, lançando luz (em ficções documentais) aos que estão à margem.

Relatos Selvagens – que lembra o trabalho dos cineastas Quentin Tarantino e Robert Rodriguez – não propõe uma ficcionalização da realidade. Em sentido inverso, o filme empreende o resgate do cotidiano em histórias aparentemente inverossímeis – mas assustadoramente reais. Quer dizer, nos damos conta do quanto de ficção está presente em nossa realidade.

A última história talvez destoe das demais por causa do desfecho. Durante a festa de um casamento, a noiva descobre a traição do marido e, nessa atmosfera, concretiza sua vingança, de modo que a celebração da união se transforma em campo de guerra. Mas, nesse enredo, o final é (surpreendentemente) “feliz”.

Que não se engane o espectador, entretanto. Houvesse uma explosão derradeira, provavelmente nos assentaríamos em outras bases. Nesse sentido, a “felicidade” do casal é emblema de que continuamos. Exatamente como estamos.

Ateliê na 16ª Festa do Livro da USP!

FESTA DO LIVRO 2014 - INFORME VI - Convite Eletrônico

Durante os dias 10, 11 e 12 de Dezembro, a Ateliê Editorial participará da 16ª Festa do Livro da USP (Escola Politécnica | USP – Prédios da Civil Mecânica e Elétrica). O evento contará com mais de 140 editoras comercializando seus títulos com descontos mínimos de 50%. O estande da Ateliê estará localizado no prédio da Engenharia e será o de número 3, bem próximo a entrada do edifício. Não deixe de nos visitar, estaremos com praticamente todo nosso catálogo.

FESTA-DO-LIVRO-2014---INFORME-VII---Localização

Em amarelo, localização do estande da Ateliê Editorial no prédio da Engenharia Civíl – POLI – USP, na 16ª Festa do Livro da USP – 2014

Acesse o site oficial da 16ª Festa do Livro da USP e conheças as editoras participantes e seus catálogos.