Transgressão da Linguagem


Renato Tardivo

10x12'5 - 15mm lombada

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, coletânea organizada por Marcelino Freire e publicada pela primeira vez em 2004, foi reeditada este ano. Trata-se de um livro inovador. A proposta parte de um diálogo bem-humorado com o sucesso editorial lançado anos antes, com organização de Italo Moriconi, Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Moriconi, aliás, assina o prefácio em 50 palavras.

Mas o livro – ia dizendo – é inovador, porque antecipa a febre que iriam se tornar as micronarrativas anos mais tarde. Inicialmente 100 escritores brasileiros (a partir da 2ª. edição seriam 103) foram desafiados a escrever um conto de até 50 letras, descontados os sinais de pontuação e o título. Se o “menores” do título, portanto, dialoga às avessas com o “melhores” da coletânea organizada por Italo Moriconi, a intenção aqui é potencializar o impacto que um bom conto provoca. É célebre a proposição de Cortázar segundo a qual o romance vence por pontos e o conto, por nocaute. O que dizer então desses microcontos?

Marcelino Freire reuniu um time de primeira, com presenças ilustres, como dois de nossos maiores contistas de todos os tempos – Dalton Trevisan e Sérgio Sant’anna –, jovens promessas no início dos anos 2000 que hoje são nomes importantes da literatura nacional (Daniel Galera, André Sant’anna, Andréa Del Fuego, Paloma Vidal, entre outros), além de escritores já renomados cuja obra segue crescendo (João Anzanello Carrascoza, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, o próprio Marcelino Freire e muitos outros).

De modo geral, os autores trabalham bem com o efeito da sugestão, com a comunicação pelas entrelinhas, com a expressividade contida no silêncio: o mais que brota do menos. Não é aleatória nesse sentido a recorrência da morte, da violência urbana, do discurso truncado, da falta. Invertendo a banalização com que esses temas são vivenciados no cotidiano, os microcontos desvendam a banalização a fim de devolver-lhe a complexidade.

É assim que, pela via do humor – como na brilhante solução encontrada por Millor Fernandes –, da dor – contida na linda frase de Carrascoza –, da metalinguagem – presente em muitos microcontos –, há um tema que talvez atravesse todos eles: a transgressão. Ressentidos, debochados, violados, surpreendentes, os bons microcontos deste livro fazem caso de si mesmos e são transgressores enquanto linguagem: suspendem o tempo. E bombardeiam o leitor. Com pouca munição. Pouquíssima.

Conheça mais sobre a obra os Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *