Monthly Archives: outubro 2014

Transgressão da Linguagem


Renato Tardivo

10x12'5 - 15mm lombada

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, coletânea organizada por Marcelino Freire e publicada pela primeira vez em 2004, foi reeditada este ano. Trata-se de um livro inovador. A proposta parte de um diálogo bem-humorado com o sucesso editorial lançado anos antes, com organização de Italo Moriconi, Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Moriconi, aliás, assina o prefácio em 50 palavras.

Mas o livro – ia dizendo – é inovador, porque antecipa a febre que iriam se tornar as micronarrativas anos mais tarde. Inicialmente 100 escritores brasileiros (a partir da 2ª. edição seriam 103) foram desafiados a escrever um conto de até 50 letras, descontados os sinais de pontuação e o título. Se o “menores” do título, portanto, dialoga às avessas com o “melhores” da coletânea organizada por Italo Moriconi, a intenção aqui é potencializar o impacto que um bom conto provoca. É célebre a proposição de Cortázar segundo a qual o romance vence por pontos e o conto, por nocaute. O que dizer então desses microcontos?

Marcelino Freire reuniu um time de primeira, com presenças ilustres, como dois de nossos maiores contistas de todos os tempos – Dalton Trevisan e Sérgio Sant’anna –, jovens promessas no início dos anos 2000 que hoje são nomes importantes da literatura nacional (Daniel Galera, André Sant’anna, Andréa Del Fuego, Paloma Vidal, entre outros), além de escritores já renomados cuja obra segue crescendo (João Anzanello Carrascoza, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, o próprio Marcelino Freire e muitos outros).

De modo geral, os autores trabalham bem com o efeito da sugestão, com a comunicação pelas entrelinhas, com a expressividade contida no silêncio: o mais que brota do menos. Não é aleatória nesse sentido a recorrência da morte, da violência urbana, do discurso truncado, da falta. Invertendo a banalização com que esses temas são vivenciados no cotidiano, os microcontos desvendam a banalização a fim de devolver-lhe a complexidade.

É assim que, pela via do humor – como na brilhante solução encontrada por Millor Fernandes –, da dor – contida na linda frase de Carrascoza –, da metalinguagem – presente em muitos microcontos –, há um tema que talvez atravesse todos eles: a transgressão. Ressentidos, debochados, violados, surpreendentes, os bons microcontos deste livro fazem caso de si mesmos e são transgressores enquanto linguagem: suspendem o tempo. E bombardeiam o leitor. Com pouca munição. Pouquíssima.

Conheça mais sobre a obra os Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Obra “Melancolias, Mercadorias” vence a 56º edição do Prêmio Jabuti.

640_01A obra Melancolias, Mercadorias publicada pela Ateliê Editorialconquista o terceiro lugar da 56º edição do Prêmio Jabuti, na categoria Teoria/Crítica Literária. As contagem dos votos da premiação foram feitas em sessões abertas ao público e dividida em duas etapas. Na primeira sessão pública, foram selecionadas as 10 melhores obras em cada umas das 29 categorias. A segunda sessão definiu os três primeiros lugares de cada categoria. Na cerimônia de premiação e entrega das estatuetas, serão revelados os Livros do Ano de Ficção e Não-Ficção, momento mais aguardado por todos aqueles que concorrem ao Prêmio, pelo mercado editorial e pela mídia especializada. Os livros foram escolhidos pelo voto dos jurados e de profissionais do mercado editorial.

 

Conheça mais sobre a obra Melancolias, Mercadorias vencedora da 56º edição do Prêmio Jabuti.

 

O pioneirismo homossexual

Redação | Jornal do Commercio | Seção Geral | Pág. 12 | 12 de outubro de 2014

 

756_01 (1)Na segunda metade do século 19, a literatura romântica entrou em declínio junto com seus ideais. Os escritores e poetas realistas começaram a olhar o mundo com desencanto e a idealização romântica foi substituída pela visão racional e materialista. O escritor passou a ser um observador imparcial dos seus personagens. A pobreza na cidade do Rio de Janeiro, a prostituição, e como características desta fase, podemos citar o objetivismo, linguagem popular, trama psicológica, valorização de personagens inspirados na realidade, uso de cenas cotidianas, crítica social e visão irônica da realidade.
É o caso do livro “Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha. Aquele que foi a expressão máxima do naturalismo dentro do realismo, em edição recente da Ateliê Editorial. A primeira edição é de 1895 e foi recebida com escândalo pela crítica literária e silêncio pelo público. Foi tido como ousado pela abordagem do tema homossexualidade, ainda mais em ambiente militar (por sinal, o livro é considerado o primeiro romance homossexual da história da literatura ocidental) e não teve divulgação, pois comentava comportamentos que a sociedade, mesmo sabendo existir, teimava em ignorar. Na história, Amaro, o personagem principal, é um escravo foragido que anseia ser dono de seu próprio destino. É aceito como marinheiro, o que lhe permite realizar o seu sonho de liberdade e que, associado ao seu físico imponentemente muscular, “sem um osso à vista”, claramente mais possante que o dos outros marujos, o transforma em alguém voluntarioso e benevolente, de tal forma que recebe a alcunha “Bom Crioulo“. Os problemas começam quando Amaro se apaixona por Aleixo, um belo grumete adolescente louro, de olhos azuis. Adolfo Caminha também critica em sua obra a disciplina usada em navios da Marinha, o uso da chibata, castigo que só foi abolido com a Revolta da Chibata ocorrida em novembro de 1910.
Em sua trajetória como escritor, Caminha ainda colaborou com a imprensa em jornais como Gazeta de Notícias e Jornal do Commercio e criou o semanário Nova Revista. Morreu prematuramente de tuberculose em primeiro de janeiro de 1897.
Falar de literatura brasileira é sempre muito gratificante e nos lembra as Escolas Literárias que têm início com o Quinhentismo, as crônicas informativas e os textos catequéticos dos jesuítas, seguida do Barroco que, influenciado pela contrarreforma, viveu o antagonismo de ideias, os paradoxos e as antíteses presentes nas obras do movimento que revelam a tentativa do homem em conciliar fé e razão. O Arcadismo surgiu com as ideias libertárias do iluminismo que impulsionaram uma produção poética onde valoriza a harmonia e o resgate de elementos da antiguidade clássica. O Romantismo que nasceu com a modernização ocorrida no Brasil, com a chegada da família real portuguesa, em 1808, e a Independência do Brasil, em 1822. São os dois fatos históricos que influenciaram a literatura do período. Como características principais temos: individualismo, nacionalismo, retomada dos fatos históricos importantes, idealização da mulher, espírito criativo e sonhador, valorização da liberdade e o uso de metáforas, e que tem como seu expoente máximo o grande José de Alencar com suas obras inesquecíveis. Qual é o leitor que não lembra de “Iracema, a virgem dos lábios de mel”? ou “O Guarani”? Não é à toa que temos como o Dia da Literatura, 1º de maio, uma homenagem ao aniversário do mais famoso representante do romantismo, José de Alencar. Sucedendo o romantismo temos o realismo/naturalismo no qual se enquadra o livro de hoje. Literatura Brasileira é sempre recomendada.

Conheça mais sobre a obra Bom Crioulo

A Acústica Musical em Palavras e Sons e Viva Vaia ganham novas edições.

 A Ateliê Editorial apresenta duas novas edições das obras A Acústica Musical em Palavras e Sons e Viva Vaia.

 

Acustica MusicalO livro A Acústica Musical em Palavras e Sons, de Flo Menezes, trata de questões da física acústica, mas não foi escrito por um físico, matemático ou acústico, ao contrário, seu autor é compositor.

Numa época de especificidades, de dedicação e concentração máximas em objetos bem circunscritos do saber, é de se estranhar que numa mesma pessoa reúnam-se conhecimentos e atividades tão distintos. Além de compositor, Flo Menezes é pesquisador e divulgador da música eletroacústica, que desde cedo o seduziu e no qual se especializou. Gênero musical que surgiu na Europa no final dos anos 1940 e que tem como base as influências da música concreta e da música eletrônica,

Criada ou modificada por meio de instrumentos e equipamentos eletrônicos, a música eletroacústica, no seu processo de composição, recorre a computadores, softwares, sintetizadores e gravadores digitais. Flo Menezes alerta que nada tem a ver com a música eletrônica como a conhecemos hoje, a música eletroacústica está bem assentada sobre o campo da música erudita.

Nesse gênero, em termos de composição, o objeto principal que o músico se defronta, é objeto também de uma ciência específica, a acústica propriamente dita, mas esse livro não tem a pretensão de ser um tratado de acústica. Apesar de levar em consideração todas as questões mais fundamentais abordadas pelos principais livros sobre a matéria, A Acústica Musical em Palavras e Sons trata “apenas” da escuta e da forma como ouvimos ou podemos ouvir os sons. Acompanha CD com exemplos musicais.

***

Viva VaiaLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por Olho, ss, O Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

CiDADE SOLLITARIA

Tiago Abreu

10721423_10204218828887401_2057018556_n

Meu simulacro do instante é a pomba bêbada

Que atravessa terras e encruzilhadas

Bico de guerra, corpo ferido de chagas abertas

Devorando ávida bitucas e migalhas

Rói estrada como entulho, trata lixo como prata.

Seu voo não tem glamour

É lento e preguiçoso

Não alça nada, sem ares nem arcos, nem mesmo nuvens

E volta depressa ao solo viscoso

Vida encardida essa emplumada cria urbana

Suas penas cinzentas não aspiram nada

Nem liberdade, nem os céus, nem migrar para o sul como os patos. Nada.

Fica plena e contente no meio da sujeira.

Mas seu canto contínuo e monótono gorgoleja sem parar

Toda a verdade metropolitana da cidade:

Cada fraco tem o governo que merece

Cada forte, se pobre e ousado, de morte matada eventualmente padece.

Então totem, por favor atenda o pedido desse humilde filho do mesmo ninho e ovo

Despeja tua benção quente e branca nos ternos mais caros e no carrão mais novo.

Lembra que todo esse lixo é minha oferenda pra você.

Se a ruína da minha espécie é o banquete da sua

Se ao gordo nada importa, compete ou compele à rua

Aceita esse planeta em seu sacrifício, espalhe suas penas sobre a usura

Voe na ganância apática – esse novo vício – e cague sem dó em seus guardas e chuvas.

E não me venha com “nuncas mais” feito teu primo de cor

Porque já não caímos nessa, nos acostumamos com o pior.

Tiago Abreu é historiador  formado pela PUC-SP e trabalha como educador de todas as áreas das ciências humanas. Desde 2004 coordena e participa do coletivo de arte e grupo de estudos NeoMitoSofia , que tem por objetivo interelacionar histórias em quadrinhos e diversos desdobramentos da arte contemporânea com a filosofia. Atualmente também tem atuado como colaborador da Revista Córrego, como escritor de crônicas, artigos e poesias.