O Fantasma e o Autor

Renato Tardivo

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1992. 7 amigos recém-saídos da adolescência se encontram em uma casa de campo. A literatura atravessa seus ideais. Dois deles, Felipe (Caio Blat) e Rafa (Lee Taylor), escrevem seus livros e aconselham-se um com o outro. Em meio a drogas e sexo, cada um dos 7 amigos escreve uma carta para si mesmo e juntam todas em uma caixa que enterram. O pacto é desenterrá-las e lê-las uns para os outros 10 anos depois.

Um evento traumático marca a transição para os 10 anos seguintes. Em 2002, lá estão os amigos na mesma casa de campo dos pais de uma delas, Silvana (Maria Ribeiro), em seu primeiro reencontro após o passado trágico. É nesse fim de semana que se passa Entre Nós, filme dirigido por Paulo Morelli e que esteve em cartaz no circuito nacional no primeiro semestre deste ano.

Completam o elenco Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena, Martha Nowill e Julio Andrade. Em que se pesem a boa direção de fotografia e as frequentes intervenções da trilha sonora com ares de suspense, a aposta da trama gira em torno dos conflitos vividos entre as personagens.

O roteiro trabalha com uma informação fundamental que, embora não seja explicitada no início, fica evidente para o espectador – mas não para as personagens. E o espectador (em 2014) é privilegiado também ao saber, por exemplo, que a seleção brasileira foi a campeã do mundial de 2002 e que a corrupção no país não acabou com a eleição de Lula – questões que ficam em aberto em uma das conversas dos amigos.

E esta é a chave para interpretar o filme: o suspense não se concentra no que vai ser, mas no que já foi. “Não sei o que é pior: não realizar nenhum sonho ou realizar todos”, diz Cazé (Julio Andrade), sintetizando o dilema que os assombra. Ganhar é perder, falar é calar.

O passado, morto e enterrado – mas também à iminência de vir à tona –, é o que pode promover fissuras, causar novos traumas, atualizar a culpa. A palavra – soterrada – é “memória do futuro”, para utilizar uma expressão do psicanalista inglês W. R. Bion. Entre nós, habita um fantasma – o autor da história. De todas elas.

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

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