O Brasil sofre de “ECITE”

Alfredo Campos Matos | Jornal Zero Hora Seção Geral | Pág. 12 | Julho de 2014

O termo “ecite” foi criado pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948), na Barca de Gleyre (1944), tendo como desígnio exprimir o ato muito comum no Brasil de imitar o estilo de Eça. Este termo disseminou-se, desde logo, pelos seus comentadores, adquirindo um sentido mais amplo. Pode ser definido como um sentimento tão completo e absorvente de fascínio e simpatia pela escrita eciana que abrange não só a obra como o seu próprio autor e tudo aquilo que, de longe ou de perto, lhe diz respeito.

O PrOA antecipa nesta página excertos de publicações no prelo ou às vésperas do lançamento. Leia a seguir o trecho inicial do sétimo capítulo de Eça de Queiroz: Uma Biografia, um dos mais recentes livros a se debruçar sobre a vida e a obra do mestre português Eça de Queiroz (1845-1900). Arquiteto de formação, A. Campos Matos foi um dos organizadores do Dicionário Eça de Queiroz, editado em 1988, organizou a publicação de vários volumes da correspondência do auto e também lançou uma bem documentada Fotobiografia de Eça. Neste capítulo da biografia, publicada originalmente em francês, depois em Portugal, em 2009 e agora revista para edição no Brasil, Matos discute o grande apego dos leitores brasileiros ao autor – em alguns casos com uma devoção maior do que a apresentada pelos portugueses. O livro está chegando no fim deste mês às livrarias.

16x23 - 35mm lombada“Reinava a ecite” – diz Djacir Menezes – “discutimos detalhes, particularidades, cacoetes: a esquina sagrada da Casa Havaneza, o Chiado, o Café Martinho, a estada em Cuba, o famoso banho do cônsul, os Vencidos da Vida, a cabaia de seda do Mandarim vestida pelo Eça (foto de Domício da Gama), o Distrito de Évora, onde fora redator-chefe, as lendas dos Santos, o bruxo São Frei Gil metido na floresta, o Consulado de Newcastle, os relatórios sobre o carvão, a amizade de Eduardo Prado, a crítica obtusa de Machado de Assis sobre O Crime do Padre Amaro, as aperturas de dinheiro, o casamento aristocrático – tudo sem ordem cronológica, mas que nos enriqueciam de conhecimentos sobre o homem e sobre a obra. Dessa maneira chegamos quase à ilusão de que privara conosco” (Menezes, 1962, p.17).

Lê-se isto também, com atribuição errada e mal transcrita, em Heitor Lyra, autor do melhor e mais completo estudo das relações de Eça com o Brasil: Eça de Queiroz e o Brasil (Lyra, 1965, p. 429). Um dos capítulos desta obra, o n.37, intitula-se precisamente Ecite. Aí se expõem as manifestações que caracterizam esta espécie de “doença”, mais frequente no Brasil, onde Eça provocou uma afeição porventura superior à que conseguiu no seu próprio país. Repare-se que o crítico brasileiro Álvaro Lins, na História Literária de Eça de Queiroz (Lins, 1959, se refere a Eça deste modo: “Quanto aos portugueses, que o estimam como escritor, como autor, como romancista somente em termos de literatura, ficam as mais das vezes surpresos, espantados e sem compreensão com a nossa perspectiva aberta para a visão da obra queiroziana e com o nosso tratamento, ainda que o mesmo que póstumo em relação à figura humana do criador de Os Maias como se fora um contemporâneo ou vivo entre nós” (p.203).

Clóvis Ramalhete testemunha em 1942: “Vive ainda em Recife, alguém que, certa tarde, viu Eça de Queiroz. Foi rapidamente e uma vez apenas na rua. Álvaro Lins, que preparava a sua História Literária de Eça de Queiroz, soube disso e foi procurar o homem precioso. Tinha pouco a contar: Foi há muitos anos, em Lisboa. No Chiado, num fim de dia, levantou-se na calçada um murmúrio baixo e curioso, Olha o Eça – Ali vai o Eça de Queiroz. E olhando, ele viu o vulto lendário, a famosa silhueta magra, recurva, alta, sempre elegante, num ar de cansaço e que passava observando lentamente as pessoas e as coisas – Álvaro Lins voltava sempre a exigir do amigo, que lhe contasse mais uma vez como fora. Queria saber mais, beber aquele minuto de Eça vivo. O homem sabia pouco e sempre repetia a mesma história: o murmúrio, o vulto magro e lento, o ar cansado… – Curiosidade desarrazoada do ensaísta? Era tudo a saudade impossível de Eça de Queiroz, que sentem os que chegaram depois para amá-lo, os que chegaram tarde e já não o encontram entre os vivos” (Ramalhete, 1994, pp. 31-32).

Álvaro Lins, que foi embaixador do Brasil em Lisboa (1956-1959), faz nessa obra alusão ao “sentido peculiar” com que os brasileiros abordam os textos queirozianos: “Sobretudo, descobrimos logo com agudeza aquelas notas a respeito de romances, intenções secretas e descobertas, em entrelinhas, de palavras, frases e diálogos, em que por vezes encontramos nós, os brasileiros, um sentido peculiar para a Interpretação e um especial para rir – que não dizem nada ou nada significam para os portugueses, sejam os leitores mais ingênuos de alma aberta, sejam os críticos mais agudos, experientes e sensíveis” (Lins, 1959, p.20).

É de Álvaro Lins, ainda, a menção daqueles que no Brasil sabem, de Eça, páginas de cor e deste crítico, também, a expressiva descrição de uma visita que fez ao Cemitério dos Prazeres em Lisboa, num dia de finados, em 1957, com o fito exclusivo de aí procurar a sepultura de Luísa: “Dirigindo as vistas de preferência para os cantos e recantos em houvesse alguma árvore, pois estava fazendo aquela procura imaginária sob a sugestão de um certo trecho com que o romancista transfigurou em emotividade o destino póstumo da rapariga desgraçada de O Primo Basílio, esta frase que de há muito conservo de cor, nem sei bem porquê: o vento frio que varria as nuvens e agitava o gás dos candeeiros de fazer ramalhar tristemente uma árvore sobre a sepultura de Luísa” (Lins, 1959, p.217).

Este episódio contado pelo crítico literário Álvaro Lins demonstra a enorme capacidade de Eça para fascinar e convencer os leitores da realidade da sua ficção.

Eça de Queiroz: Uma Biografia

A. Campos Matos

Ateliê Editorial/Editora Unicamp

600 páginas.

R$ 110,00

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