MEMÓRIAS COM MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

João Luiz Marques | Revista ANL | O escritor e sua obra | Julho de 2014

Outro dia vi uma lista curiosa na internet (www.revista- bula.com): “30 livros de autores brasileiros para morrer antes de ler”. Notem que essa lista é de livros que não devem ser lidos! Estranhei… Meu saudoso Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, que tanta alegria me deu no colegial, fazia parte dessa lista. Que injustiça! Nos tempos do meu ensino médio só líamos os clássicos, literatura contemporânea não fazia parte do currículo. Era difícil para um jovem romper a barreira do tempo e gostar dos livros que os professores mandavam a gente ler. Manuel Antônio de Almeida me abriu essas portas, com ele descobri que havia alegria na literatura e passei a ter prazer com a leitura literária.

Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) formou-se em Medicina em 1855, mas nunca exerceu a profissão, e durante a faculdade, com dificuldades financeiras, foi trabalhar como jornalista. Escreveu para o teatro, fez poesia, além de publicar sua tese de doutoramento em Medicina e um libretto de ópera, mas sua única e mais famosa obra, que ficou para história da literatura brasileira, é o romance Memórias de um sargento de milícias. Foi publicado, inicialmente, como folhetim, na seção “Pacotilha” do jornal Correio Mercantil, entre 27 de julho de 1852 e 31 de julho de 1853, começou num período de campanha eleitoral. Havia dois partidos, o dos conservadores, que estavam no poder, e dos liberais, na oposição; o Correio Mercantil apoiava os liberais. Apesar de não haver nenhum conteúdo diretamente partidário, havia críticas disfarçadas ao governo conservador. Manuel Antônio de Almeida dizia que “nossa literatura é filha da política”. Além dessa característica, a obra também ajudou a fixar uma imagem descontraída e insinuante da sociedade brasileira.

Depois desses folhetins do jornal, Memórias de um sargento de milícias saiu em livro, dois pequenos volumes, um no final de 1854 e o outro no começo de 1855. No jornal, não era apresentada nenhuma autoria, nesses dois volumes a autoria era de “Um brasileiro”, e o livro somente foi atribuído a Manuel Antônio de Almeida numa edição de 1863, publicada após sua morte, por iniciativa de Quintino Bocaiúva. Para não ficar só com a lembrança da minha leitura dos tempos de escola, fui reler o livro. Peguei uma edição da Ateliê Editorial, com apresentação e notas de Mamede Mustafa Jarouche, que tratou dessa obra em sua tese de doutoramento. Como todos devem saber, a história se passa no Rio de Janeiro e enfoca o tempo em que D. João VI permaneceu no Brasil (1808 a 1821). Narradas em terceira pessoa, as memórias são de Leonardo, o personagem central, que ainda criança já tinha “maus bofes”, e não haveria de “ter bom fim”. Contrariando as tendências em reescrever e atualizar os clássicos da literatura, essa edição da Ateliê foi baseada na primeira, de 1854-1855, e traz notas, explicando os termos pouco usuais hoje em dia, que aparecem nessa narrativa de Manuel Antônio de Almeida.

A carreira de sucesso dessa obra não ficou só naquele tempo, entrou para a história, e no século XX foi parar em outras linguagens: em composição de Paulinho da Viola Memórias de um sargento de milícias virou samba-enredo da Portela do Carnaval de 1966, depois, em 1971, essa música foi gravada em disco por Martinho da Vila. Esse
 LP do cantor recebeu o nome do
 livro: Memórias de um sargento 
de milícias.

Conheça mais sobre a obra Memórias de um Sargento de Milícias  reeditado pela Ateliê

João Luiz Marques, jornalista,
 trabalha em assessoria de imprensa com editoras de livros, escreve e administra um blog 
de incentivo à leitura, o blog do Le-Heitor, e neste ano vai lançar o seu primeiro livro, um romance juvenil, pela Editora Biruta.

 

  1 comment for “MEMÓRIAS COM MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

  1. Susana Ventura
    23/07/2014 at 04:47

    João,
    Também gosto muito do ‘Memórias’, que achei engraçado e diferente quando era adolescente. Depois reli para dar aulas e visito sempre o delicioso folhetim.
    Que coisa, não? Uma lista com livros para não ler! Parece tão ruim que nem sei como classificar uma iniciativa dessas.
    Muito bonita sua reflexão – gostei!
    Abraço da Susana

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