A viagem que une tradições do povo

Dellano Rios | Diário do Nordeste | Caderno-3 | Pg. 04 | 19 de Junho de 2014

15'5x22'5 - 15mm lombadaA fantasia atravessa terras e um oceano, traz encantamentos da fria Rússia e se assenta bem no sertão brasileiro

O novo livro de Jerusa Pires Ferreira ajuda a entender o papel da fantasia na tradição da literatura de folhetos. Professora e pesquisadora USP e da PUC-SP, ela acaba de lançar “Matrizes Impressas do Oral: conto russo no sertão”, reunião de estudos sobre um fenômeno que, por si mesmo, já parece fantástico: a presença de histórias, em obras de poetas populares, que vêm da tradição popular oral russa. E essa ponte improvável, ligando dois mundos tão distintos, chega justamente por meio das narrativas de encantamento.

A autora trata deste fenômeno não por meio da história ou da história literária, mas pela semiótica da cultura. A teoria parece a mais apropriada ao que está em questão. Jerusa é representante de um pensamento que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. É baseado na obra de autores – russos em sua maioria – como Iúri Lótman (1922 – 1993). Há uma ideia de Lótman, a de semiosfera, que ajuda a entender a abordagem de “Matrizes Impressas do Oral”. Trata-se do espaço cultural habitado pelos signos, portanto, o lugar propício para o encontro de diversas culturas.

Jerusa Pires Ferreira não se interessa apenas pela história, do ponto de vista do enredo ou mesmo da escrita. Interessa a ela a natureza desta história, o meio pelo qual ela é contada, as especificidades do suporte, a postura de seus contadores (estejam eles nos domínios da oralidade ou no terreno da escrita e da impressão).

Pássaro de Fogo

“O cavalinho corcunda” é um conto escrito por Pietr P. Ierchóv (1815 – 1869), escritor russo que se notabilizou por essa pequena obra, que conta a história de Ivan, jovem humilde que trabalha na cavalariça de um Czar despótico, que termina por ganhar o amor da princesa e com ela se casar. A história integra o universo cultural do Pássaro de Fogo, ícone dos contos populares de origem eslávica.

O conto ganhou adaptações, como balé e filmes e, como mostra Jerusa Pires Ferreira em “Relatos e Imagens do Pássaro de Fogo no Sertão”, o primeiro dos três estudos do livro, acabou por ser “traduzido” pelos poetas populares. O folheto “A princesa Maricruz e o Cavaleiro do Ar”, de Severino Borges da Silva, traz uma história de enredo de semelhança explícita. Contudo, não são apenas as estrofes, a métrica dos versos e a xilogravura na capa do folheto que operam este processo de transcriação. O contexto é outro, é sertanejo ainda que fale de princesas e seres fantásticos, de um lugar distante.

A obra apresenta casos em que contos fantásticos, presentes na cultura popular russa há séculos, reaparecem nos folhetos da literatura de cordel, no começo do século XX. A viagem de um ponto ao outro acaba por transformar o viajante, que ganha novas vestes. A transformação é drástica, ainda que a raiz, o essencial que faz a história ser reconhecida, seja mantida.

Assim, a narrativa oral, colhida pelo escritor russo reaparece distante dali, no tempo e no espaço, em forma de verso, numa escrita marcada pela voz, que torna à oralidade.

“Esse livro expressa bem o que tem sido a minha pesquisa constante: a comparação entre matrizes universais e nossa cultura regional”, explica Jerusa. Casada com o tradutor Boris Schnaiderman, uma referência da língua russa no País, a pesquisadora já vivenciava esta improvável proximidade entre as duas culturas. Ela conhecia o “lubok”, a literatura de folhetos da cultura popular russa, quando se deparou com lendas do Pássaro de Fogo em nossos cordéis.

A viagem da narrativa é acidentada e passa pelo conto oral (a base, até onde se sabe), que serviu de inspiração para Ierchóv; a escrita do autor; a tradução e publicação, em Portugal, em livros populares, com histórias folclóricas voltadas para crianças; a circulação deste material no Nordeste no Brasil; e adaptação e recriação para o cordel e, quando lido, deste para a oralidade, mais uma vez.

Reconhecimento

A universalidade da história, o prazer de ouvi-la, não bastam para explicar sua viagem de um ponto ao outro. Fica claro que houve um reconhecimento do conto, por onde passou, no sentido de que os leitores, ouvintes e narradores viam nele elementos não de todo distantes de seu próprio universo. Acaso o czar que atormentava Ivan não era uma versão estrangeira daquele senhor que, com mão de ferro, mandava em uma região já castigada pelo tempo?

A identificação é tanta que, nota a autora, mesmo as imagéticas se repetem, sem a necessidade de uma contaminação. A imagem do jovem herói alçado ao alto, em voo, no lombo de seu cavalo, aparece tantos nas edições russas, que até onde se sabe jamais chegaram às mãos do cordelista, como no folheto que ele editou. Mais uma mágica que a palavra poética operou.

LIVRO

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão

Jerusa Pires Ferreira
Ateliê Editorial
224 páginas
R$ 57,00

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *