Exercício de observação

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Escrito aos 21 anos

O domingo está vivo e aguarda. O que aguarda? Não se sabe. O que se sabe é que existe uma espera, uma saudade, e uma saudade que vem de uma despedida, e quem traz à superfície do dia todos estes sentimentos é o vento. O dia está mergulhado em sua própria condição de espera. Se não ventasse, talvez seria dia de velório, o enterro do que ainda não se conhece. Mas é tão vivo, tão cheio de brisa e fresco, como um convite honesto para entrar no carrossel que é esta tarde com pouco mais de duas horas. Um cachorro anda pelo caminho onde a grama foi proibida de crescer. O caminho está tão seco que foi rachado por sua inútil insistência em continuar inteiro. Este cachorro balança ao andar, tropeça, leva a parte traseira do corpo para um lado, a dianteira para o outro, não sabe que lado pretende vencer o equilíbrio de manter-se em pé. Outro larga-se no cimento, afundado e demasiadamente satisfeito do domingo, fecha seus olhos pequenos de redondas escuridões e dobra as patas com suas cores de poeira e gelo procurando a melhor posição. Respira sem vontade, mas rapidamente; correu de um lado para o outro esperando que assim a tarde se alargasse em qualquer aventura não premeditada. Há uma vaca na encosta, perto da estrada, e sua hora é de fome, quando a cabeça balança mais do que as orelhas e tudo o que importa são os pedaços mais verdes, os brilhantes, que rutilam neste sol que não só aquece, mas assopra seu cansaço sobre a secura. Não chove. Já não chove há alguns dias e o ar pesa, cheio de um aroma esfumaçado de chá, anis-estrelado e chocolate cozido. Há também uma paineira que se agita, e não parece tão contente, uma vez que suas folhas estão voltadas todas para o chão, onde sua sombra repousa quase trêmula. Essas folhas, verdes até o talo dos galhos, até o corpo coberto de espinhos cheios de soberba, formam grupos, e seus grupos são seguidos por grupos menores que, como o domingo, aguardam. Um mosquito voa, perdido, faz círculos e imagina estar num lago, do tipo abandonado, onde viscosidade e insegurança parecem comportar a água parada. Um pássaro marrom corre pelos montes onde a grama ainda não cresceu, e de repente uma borboleta foge, estica-se no ar, tem dúvida entre as direções, e por fim desaparece no alto, assustada com a decisão (ou indecisão) do pássaro. O cachorro ainda deitado respira fundo, e seu ronco abre uma brecha de som no silêncio. A água que cai num filete na caixa de cimento é a única canção permitida, intocável, imutável, gorgolejante, cheia de bolhas na alma estreita e passageira. Outra borboleta, negra com cortinas brancas nas asas, tão grande que receia passar pela abertura da grade, deixa-se cair no ar, pensa em pousar na grama filtrada pela paineira e, mudando de ideia, também desaparece. Agora a grama pode dormir, é o que ela pensa, mas com o sol estilhaçado entre tantas silhuetas de folhas, ninguém deseja o sono; o que se deseja (e o que se tem) é esta vontade de vigiar o próximo suspiro do próximo minuto, e o que o vento poderá fazer com ele e com tudo o que ousa interferi-lo. Outra vez as folhas da paineira acenam, e acenam para todos os lados, sem vontade alguma de ir embora. O aceno não é de partida, é da chegada eterna. É aqui que se tem aquela sensação indescritível de que se está verdadeiramente bem, ainda que não completamente bem. Um dos braços da amoreira também acena, ou chama, ou apenas deseja dançar, diferente das outras que só querem o movimento contínuo como prova de existência, prova de fluência, certeza de que a tarde ainda não morreu com a hora escura da noite. O verde é tão verde que chega a ser leitoso, às vezes elétrico, cítrico em todos os seus milhares de tons impossíveis e improváveis. Na sombra, os verdes se recolhem numa prece dolorida e tão quieta que é possível ouvir o peso de sua concentração. E ao mesmo tempo que se recolhem, estes mesmos tons de verde tentam escapar de seu retiro dominical nas frestas de luz por onde o sol avança quando o vento se deixa esparramar. Um pássaro pousa num vaso comprido de gesso, um vaso inútil incrustado na terra, nas sombras (de verdes também concentrados) de meia dúzia de pinheiros. O vaso toma a forma de uma cova onde cabe uma dezena de pássaros como aquele, mas ele nunca pensaria (ele nunca desejaria) em inventar um cemitério tão obsoleto e tão medieval e tão frio para sua espécie. O vaso é mais um sinal de que alguma coisa aguarda por alguma coisa, e ele só parece tão triste, com suas ramificações de outras plantas, manchas de umidade, cantos lascados onde a cor do osso foi rompida, um manto azeitonado que se apresenta sem botões ou capuz, porque este é seu papel de vaso abandonado, que não serviu para segurar uma pequena vida como serviram outros tantos vasos. Ele fica recolhido naquela segura escuridão para dar vida ao que ninguém sonhou. Ele pari o que seu próprio silêncio contemplativo germinou. Dez segundos embaixo do sol, e todo o calor se abre como num abraço sobre o que toca. Um inseto gira tantas vezes no ar, pedindo uma música, mas que seja de vitrola, que o disco gire tanto quanto ele, e que se inspire pelo próprio giro que dá. Que fique tonto, o coitado do inseto que de nada de vitrola entende, apenas a música do próprio voo. E quando o vento vem com pressa, arrastando-se saboroso (e tão jovem), todas as árvores fazem sua dança típica, e não se sabe que tipo de dança, é apenas uma dança, porque ninguém, nem mesmo as toras que servem de bancos, nem mesmo o cachorro ou a borboleta, nem mesmo o inseto que gira, nem mesmo os tons de verde, nem mesmo a corruíra com sua voz que se torce e se dobra em muitas vezes, ninguém quer saber o motivo do domingo para estar tão bem. Tudo o que se deseja saber, já se sabe. E se espera com o cuidado de cerzir roupas para joaninhas no inverno, se espera com o cuidado de cochichar um curto segredo para o vento que passa diante do rosto.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

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