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RIVELINO E O DRAGÃO*

Revista Brasileiros | Seção Literatura | Pg. 131| 19 de Junho de 2014

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O futebol sobrevive e vive de renovação – mas, principalmente, de revelação. Não há clube, não há agremiação, não há dirigente nem preparador que não esteja sempre de olho aceso para adivinhar, distinguir, perceber, descobrir e catar, na sua chocadeira, algum garoto com pinta de craque.

Muitos pintam de craque, muitos piam de craque. Muitos são tratados a aveia, vitamina e pão de ló, são protegidos e resguardados das intempéries do tempo – até o momento azado, a hora da verdade, o teste final diante das plateias. E muita plateia estronda e uiva em vão, à toa e dolorosamente: a estreia não nasce na testa do moço, que vai encolhendo e desaparecendo, até confundir-se – quando e mais feliz – com a maioria normal e medíocre dos jogadores normais e medíocres. Não se revelou – ou melhor: revelou-se negativamente.

É o caso do Nei, no Corinthians. Mas não é o caso de Rivelino, que ontem deu um esplendoroso e monstruoso show de bola no Pacaembu, para o qual as excelentes jornadas de Dias e Bellini melhor serviram de palco-pedestal.

Rivelino joga duro, joga maldoso, joga o fino – magistralmente: lição de bola do menino entre doutores. Revelou-se craque, craquíssimo em todas as dimensões da alma e do corpo, só os quatro lançamentos que fez (três a Flávio e um a Bazzani) bastam para elevá-lo à altura dos maiores.

Sua genialidade de tal maneira brilhou em campo, que acabou por iluminar até o cérebro de Flávio: o admirável, majestoso troglodita gaúcho, depois de deixar de marcar em duas rivelínicas oportunidades, simplesmente seguiu a direção do braço do mestre (que lhe apontou, em plena corrida, o local do lançamento), viu-se – milagre – sozinho diante de Suli, driblou-o e assinalou um gol de paralisar pássaro no ar, encobrindo Bellini, que se postara no centro do arco!

“Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas”

Rivelino revelou-se. Não vai encolher nunca mais. Sua estrela sobe, grandiosa e solitária, dentro da equipe alvinegra de Parque São Jorge, dentro do futebol paulista, no céu do futebol bicampeão mundial. O Corinthians não ganhou (Dias estava lá… e Cabeção não estava), mas não importa: a fiel torcida, ontem, no Pacaembu, pôde soltar o seu generoso e portentoso bafo e desabafo de grandeza – que constitui o único, autêntico e verdadeiro reconhecimento de gênio.

Rivelino: estrela com nome. Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e a sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas – são de jeito a provocar a agressão física por parte do adversário (reconhecimento de sua grandeza), à qual aliás, ele revida com prazer maligno.

Rivelino é mais do que a esperança, é a vingança dos “sofredores” corintianos. Depois de onze anos de fel e são-jorge, a fiel torcida acabou por desejar, ardentemente, a vitória do dragão com a qual se identifica e confunde.

A torcida corintiana é o dragão – e Rivelino é a labareda que sai da sua goela.

(Folha de S. Paulo, 8/3/1965)

*Uma das crônicas sobre futebol do poeta, ensaísta, tradutor e professor de semiótica Décio Pignatari (1927-2012) reunidas no livro Terceiro Tempo, com previsão de lançamento para agosto pela Ateliê Editorial. 

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Eça de Queiroz: Uma Biografia


Publicada em Portugal em 2009, obra recebeu dois importantes prêmios literários, o Grande Prêmio da Literatura Biográfica, da Associação Portuguesa de Escritores e o Prêmio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Críticos

16x23 - 35mm lombadaA Ateliê Editorial e a Editora Unicamp lançam Eça de Queiroz. Uma Biografia. Escrito por A. Campos Matos, arquiteto de formação e especialista nos estudos queirozianos, este livro se destaca como a mais completa biografia de Eça de Queiroz já publicada. Editada em Portugal, revista e ampliada pelo autor para essa edição brasileira, a obra, além das informações sobre a vida de Eça, traz também vasta e preciosa iconografia; e apresenta reflexões críticas que permitem uma visão aprofundada do percurso ideológico do escritor português, da repercussão da sua obra e da sua figura pública entre os contemporâneos. Nessa biografia há ainda uma lista das principais obras do autor de A Cidade e as Serras, acompanhada de resumo do enredo e opiniões críticas.

Escrito inicialmente para o público francês, a obra foi publicada em Paris, de forma simplificada e com o título Vie et Oeuvre d’Eça. Para a edição portuguesa, publicada em 2009, na cidade do Porto, o texto foi ampliado, mantendo, todavia a sua estrutura.  Para essa edição brasileira, publicada pela Ateliê e a Editora Unicamp, a obra foi revista e aumentada, o autor introduziu alguns complementos aos retratos psicológicos de Eça e de Emília de Castro, sua mulher; trouxe novos elementos a cerca do período obscuro do Colégio da Lapa, no Porto; fez uma revisão da cronologia, a mais completa até agora; entre outras atualizações.

Essa biografia apresenta no gênero uma concepção nova que diz respeito à ordenação de temas essenciais tratados independentemente e uma segunda novidade, a de transcrever sistematicamente a crítica dos melhores comentadores nacionais e estrangeiros. Como se pode ler na edição portuguesa “a metodologia adotada nesta biografia baseia-se numa seleção ampla e criteriosa de documentos e de comentários e de uma cautelosa interpretação dos mesmos, que são, em suma, exigências fundamentais do historiador”. Seu autor supõe que “sendo Eça de Queiroz um importante elo cultural entre Portugal e Brasil, esta obra concorrerá para o reforço desse elo”.

Alfredo Campos Matos é arquiteto de formação e se destaca nos estudos sobre Eça de Queiroz. Em 1976 publicou Imagens do Portugal Queiroziano, em que retrata os locais reais onde se passam as narrativas ficcionais de Eça.  Em 1988 lançou o Dicionário de Eça de Queiroz, volume que contou com a colaboração de muitos especialistas. Transcreveu, anotou e organizou em 1994 a edição da correspondência inédita de Emília de Castro para o marido, trabalho que, junto a Cartas de Amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, de 1999, vieram abrir novas perspectivas quanto à vida do escritor, desvendando facetas de Eça que as biografias tradicionais não tinham ainda mostrado. A pedido do Instituto Camões, por ocasião do centenário da morte do escritor de A Cidade e as Serras, produziu uma exposição itinerante intitulada “Eça de Queirós – Marcos Biográficos e Literários (1845-1900)” com o respectivo catálogo, e escreveu o guia do vídeo-filme “Eça de Queiroz, Realidade e Ficção”. Ainda publicou Eça de Queiroz – Fotobiografia, que recebeu, em 2008, Menção Honrosa do Grêmio Literário de Lisboa.

Acesse o livro na loja virtual da AteliêEça de Queiroz: Uma Biografia