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O Brasil sofre de “ECITE”

Alfredo Campos Matos | Jornal Zero Hora Seção Geral | Pág. 12 | Julho de 2014

O termo “ecite” foi criado pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948), na Barca de Gleyre (1944), tendo como desígnio exprimir o ato muito comum no Brasil de imitar o estilo de Eça. Este termo disseminou-se, desde logo, pelos seus comentadores, adquirindo um sentido mais amplo. Pode ser definido como um sentimento tão completo e absorvente de fascínio e simpatia pela escrita eciana que abrange não só a obra como o seu próprio autor e tudo aquilo que, de longe ou de perto, lhe diz respeito.

O PrOA antecipa nesta página excertos de publicações no prelo ou às vésperas do lançamento. Leia a seguir o trecho inicial do sétimo capítulo de Eça de Queiroz: Uma Biografia, um dos mais recentes livros a se debruçar sobre a vida e a obra do mestre português Eça de Queiroz (1845-1900). Arquiteto de formação, A. Campos Matos foi um dos organizadores do Dicionário Eça de Queiroz, editado em 1988, organizou a publicação de vários volumes da correspondência do auto e também lançou uma bem documentada Fotobiografia de Eça. Neste capítulo da biografia, publicada originalmente em francês, depois em Portugal, em 2009 e agora revista para edição no Brasil, Matos discute o grande apego dos leitores brasileiros ao autor – em alguns casos com uma devoção maior do que a apresentada pelos portugueses. O livro está chegando no fim deste mês às livrarias.

16x23 - 35mm lombada“Reinava a ecite” – diz Djacir Menezes – “discutimos detalhes, particularidades, cacoetes: a esquina sagrada da Casa Havaneza, o Chiado, o Café Martinho, a estada em Cuba, o famoso banho do cônsul, os Vencidos da Vida, a cabaia de seda do Mandarim vestida pelo Eça (foto de Domício da Gama), o Distrito de Évora, onde fora redator-chefe, as lendas dos Santos, o bruxo São Frei Gil metido na floresta, o Consulado de Newcastle, os relatórios sobre o carvão, a amizade de Eduardo Prado, a crítica obtusa de Machado de Assis sobre O Crime do Padre Amaro, as aperturas de dinheiro, o casamento aristocrático – tudo sem ordem cronológica, mas que nos enriqueciam de conhecimentos sobre o homem e sobre a obra. Dessa maneira chegamos quase à ilusão de que privara conosco” (Menezes, 1962, p.17).

Lê-se isto também, com atribuição errada e mal transcrita, em Heitor Lyra, autor do melhor e mais completo estudo das relações de Eça com o Brasil: Eça de Queiroz e o Brasil (Lyra, 1965, p. 429). Um dos capítulos desta obra, o n.37, intitula-se precisamente Ecite. Aí se expõem as manifestações que caracterizam esta espécie de “doença”, mais frequente no Brasil, onde Eça provocou uma afeição porventura superior à que conseguiu no seu próprio país. Repare-se que o crítico brasileiro Álvaro Lins, na História Literária de Eça de Queiroz (Lins, 1959, se refere a Eça deste modo: “Quanto aos portugueses, que o estimam como escritor, como autor, como romancista somente em termos de literatura, ficam as mais das vezes surpresos, espantados e sem compreensão com a nossa perspectiva aberta para a visão da obra queiroziana e com o nosso tratamento, ainda que o mesmo que póstumo em relação à figura humana do criador de Os Maias como se fora um contemporâneo ou vivo entre nós” (p.203).

Clóvis Ramalhete testemunha em 1942: “Vive ainda em Recife, alguém que, certa tarde, viu Eça de Queiroz. Foi rapidamente e uma vez apenas na rua. Álvaro Lins, que preparava a sua História Literária de Eça de Queiroz, soube disso e foi procurar o homem precioso. Tinha pouco a contar: Foi há muitos anos, em Lisboa. No Chiado, num fim de dia, levantou-se na calçada um murmúrio baixo e curioso, Olha o Eça – Ali vai o Eça de Queiroz. E olhando, ele viu o vulto lendário, a famosa silhueta magra, recurva, alta, sempre elegante, num ar de cansaço e que passava observando lentamente as pessoas e as coisas – Álvaro Lins voltava sempre a exigir do amigo, que lhe contasse mais uma vez como fora. Queria saber mais, beber aquele minuto de Eça vivo. O homem sabia pouco e sempre repetia a mesma história: o murmúrio, o vulto magro e lento, o ar cansado… – Curiosidade desarrazoada do ensaísta? Era tudo a saudade impossível de Eça de Queiroz, que sentem os que chegaram depois para amá-lo, os que chegaram tarde e já não o encontram entre os vivos” (Ramalhete, 1994, pp. 31-32).

Álvaro Lins, que foi embaixador do Brasil em Lisboa (1956-1959), faz nessa obra alusão ao “sentido peculiar” com que os brasileiros abordam os textos queirozianos: “Sobretudo, descobrimos logo com agudeza aquelas notas a respeito de romances, intenções secretas e descobertas, em entrelinhas, de palavras, frases e diálogos, em que por vezes encontramos nós, os brasileiros, um sentido peculiar para a Interpretação e um especial para rir – que não dizem nada ou nada significam para os portugueses, sejam os leitores mais ingênuos de alma aberta, sejam os críticos mais agudos, experientes e sensíveis” (Lins, 1959, p.20).

É de Álvaro Lins, ainda, a menção daqueles que no Brasil sabem, de Eça, páginas de cor e deste crítico, também, a expressiva descrição de uma visita que fez ao Cemitério dos Prazeres em Lisboa, num dia de finados, em 1957, com o fito exclusivo de aí procurar a sepultura de Luísa: “Dirigindo as vistas de preferência para os cantos e recantos em houvesse alguma árvore, pois estava fazendo aquela procura imaginária sob a sugestão de um certo trecho com que o romancista transfigurou em emotividade o destino póstumo da rapariga desgraçada de O Primo Basílio, esta frase que de há muito conservo de cor, nem sei bem porquê: o vento frio que varria as nuvens e agitava o gás dos candeeiros de fazer ramalhar tristemente uma árvore sobre a sepultura de Luísa” (Lins, 1959, p.217).

Este episódio contado pelo crítico literário Álvaro Lins demonstra a enorme capacidade de Eça para fascinar e convencer os leitores da realidade da sua ficção.

Eça de Queiroz: Uma Biografia

A. Campos Matos

Ateliê Editorial/Editora Unicamp

600 páginas.

R$ 110,00

DESNORTEIO E PERMANÊNCIA

Peron Rios | Jornal Rascunho | Pág. 27 | Julho de 2014

683_01A partir de 2013, o leitor brasileiro pôde saborear a publicação de Cinquenta Poemas de Gérard de Nerval. A Ateliê, no entanto, não se contentou apenas em pôr novamente em circulação a poesia obrigatória do escritor francês, como trouxe a lume uma bela edição bilíngue, em capa dura, com estudo introdutório e súmula biográfica. As notas inseridas no rodapé dos poemas também conferem uma legibilidade aos textos e os retiram de alguma eventual neblina. Tudo isso numa disposição equilibrada da página e com sóbria elegância das fontes. A tradução de Mauro Gama se mostrou igualmente primorosa, com boa fidelidade ao esquema rímico e métrico. E contemplando, com esparsas exceções, as cadências responsáveis pela manutenção de ritmo, na passagem para a língua vernácula.

Apesar das notáveis qualidades editoriais, certas restrições não devem ser ignoradas. Boas coletâneas costumam trazer os poemas enfeixados em seções cronologicamente ordenadas, e com os nomes dos livros a que pertencem distinguindo-as umas das outras. O modelo, que não foi seguido na presente antologia, é fundamental para que os escritos sejam devidamente interpretados no diálogo com seu tempo (ganhando, assim, maior poder de enunciação) e também para que o percurso do autor – seu amadurecimento estético – esteja sob a alça de mira da leitura. Outra lacuna será observada no que concerne ao rigor tipográfico da impressão: um sem-número de erros de grafia expõe certa cleptomania verbal, que poderia comprometer a credibilidade do volume, ainda mais quando os equívocos são de pontuação – para os quais a clareza do lapso praticamente desaparece, ficando o leitor efetivamente à deriva. Se deslizes semelhantes são toleráveis em tantos outros gêneros, na poesia – linguagem condensada por excelência – findam por sequestrar certo alcance de leitura e reduzem a barthesiana significância. A tradução, por sua vez, muito embora apresente a qualidade a que já nos referimos, ora adjetiva em excesso (subtraindo o caráter objetal que flagramos em O pôr do sol, por exemplo), ora potencializa o poema basilar, como é possível notar no “convenções solares” do quinto poema de Cristo no Jardim das Oliveiras.

À parte esses aspectos, pode-se dizer que a arte de Nerval foi muito bem apresentada. Ali, traços importantes de sua escritura apareceram de maneira pronunciada: a regularidade formal que traz consigo sempre uma musicalidade líquida e o descritivismo em cores fortes, a compor retratos simulando movimento. É o que o princípio do livro – o poema Abril – já permite vislumbrar: “Os belos dias já. A poeira,/ Um céu de azul e luz inteira,/ Muros em chama, tardes largas… / Nada de verde. Só, agora,/ Rubro reflexo que decora/ Negras árvores, suas cargas./ / […] Virente e rósea, a primavera,/ Qual clara ninfa, já se esmera/ E emerge da água, em seu sorriso!”. O elogio de abril (índice da primavera) chega como um quadro, que se confirma retoricamente (os motivos assomam sob as tintas: azul, verde, rubro, negras, virente e rósea) e se compara a uma ninfa saindo do mar: ut pictura poiesis. A melopeia, por seu turno, impõe sua expressão em Fantasia: uma ária gera o poema que lhe faz referência, mimetizando-a em quadras decassílabas e “encarnadas cores”. Essa variedade de matizes vai percorrer a obra inteira, o que o poema As borboletas nos deixa evidente. Do mesmo modo, a sonoridade jamais se verá ausente em Nerval. E isto até o final da coletânea, como a Melodia irlandesa ratifica: cesuras imitam a ondulação da barcarola e a alma, em movimento, imobiliza-se ao fim da vida – como a embarcação vê perderem-se as ondas ao declínio da tarde. A tópica da lamentação da juventude perdida se compõe, então, por todo esse jogo sensorial intenso.

É com esse rigor que os temas românticos vão ganhando forma simbolista, em cada um dos poemas que se descortinam: o canto da natureza e das estações qual refrigério do espírito; as desilusões amorosas, já prefiguradas na evanescência da pessoa amada (Romança, Deixa-me!); o mito da Idade de Ouro (como em Nobres e criados); a vida como valor negativo, cujo licor é veneno (não por acaso um dos poemas que guardam tal percepção chama-se Pensamento de Byron) e cuja consequência mais provável é o suicídio (Coro subterrâneo). Mas o ápice do dilaceramento repousa sobre um de seus sonetos mais conhecidos, composto em alexandrinos perfeitos (a tradução. deixou escapar a simetria da cadência): El desdichado. Com um núcleo vocabular sombrio (tenebroso, viúvo, sol negro, noite tumular) que serve de balsa à dupla travessia do Aqueronte, o escrito antecipa as aventuras melancólicas e spleenianas de seu admirador Charles Baudelaire. Ramo igualmente aderente à estética romântica, mas transfigurado em Nerval pelas formas emergentes e herméticas que a escola de Verlaine e Mallarmé desenvolveria, as narrativas mitológicas circulam pelo livro: a egípcia em Hórus ou a helênica, no soneto Ânteros.

É preciso ter sempre em mente, porém, que a densidade verbal do autor, como um vidro espesso, menos reflete romanticamente as impressões do mundo que as refrata numa mitologia pessoal, como nos observa Mauro Gama, em seu prefácio. Inaugurando, em certa medida, a poesia de menor transparência da modernidade, Nerval prefere, a dizer o que sente, sentir o que diz: “O que se anuncia, neste caso, […] é a morte do indivíduo escritor, a anulação de sua identidade na vivificação da linguagem”, sublinhará Gama uma vez mais.

Como aperitivo da revolução literária do autor de Chimères, deixamos um pouco de seu teor paródico e desnorteante (similar à lama no paletó, da “Nova Poética” bandeiriana), presente em Cristo no Jardim das Oliveiras. Aqui, testemunha-se uma inversão bíblica e o Messias – em dia de Nietzsche, rendido à pouca fé – suspende a derradeira âncora e deixa o mundo, num desespero ignorado e sonolento, vazio de transcendência: “ ‘O deus deixou o altar, de que sou o imolado… / Já não existe Deus!’ E eles sempre dormindo! […]/ / ‘Buscando o olho de Deus, só a órbita vi, estrita,/ Vasta, negra, sem cerne, assim a noite que a habita/ No mundo se irradiam arcabouços dispersos’ ”. A letargia dos fieis, sugerindo um credo que se apoia e se justifica sobre a negligência ou a distração, é um pouco da porção de ironia moderna que o poeta nos entrega. Sem a menor pretensão de fazer carreira literária, o poeta obstinado por suas mitologias pessoais (dentre as quais sobressai a imago materna, transfigurada nas amantes impossíveis) escapa à littérature protocolar que Verlaine censurou, em Art poétique. Com a força de suas imagens singulares, revoltas e escatológicas (o olho de Deus: vácuo e abismo), disfarçadas em octossílabos impecáveis ou em alexandrinos insuspeitos, Nerval reinaugura a literatura com sua calmaria aparente e vulcânica. E é através dela que, tal como lemos em Nossa Senhora de Paris, acredita numa permanência da sensibilidade – suplantando o assédio do tempo e a permanência da pedra.

 

CINQUENTA POEMAS

Gérard de Nerval

Trad.: Mauro Gama

Ateliê

144 págs.

R$ 60,00

 

 

Vida de Eça de Queiroz é esmiuçada em caprichada biografia

Elemara Duarte | Hoje em Dia | Domingo | Página 05 | 20 de Julho de 2014

16x23 - 35mm lombada

 

Outro lançamento sobre um escritor da terra do descobridores do Brasil chega às livrarias: “Eça de Queiroz: Uma Biografia ” (coedição Ateliê Editorial e Unicamp, 600 páginas, R$ 110). Trata-se de mais um livro do especialista em estudos queirozianos, o português Alfredo Campos Matos.

A biografia de Eça de Queiroz (1845-1900) foi originalmente publicada na França e em seguida, com edição ampliada, em Portugal, em 2009. A edição brasileira também recebeu acréscimos. Nela, o autor introduziu informações aos retratos psicológicos de Eça e de Emília de Castro, a mulher dele.

Outras pitadas biográficas novas se referem aos anos do escritor como estudante, no Porto. Completam o megalivro (de capa dura), vários textos de críticos da obra de Eça, dinamizando a pesquisa do biógrafo, um arquiteto por formação.

O autor de romances como “O Primo Basílio ” (1878) e “Os Maias ” (1888), ambos inspiradores de dramaturgias televisivas nacionais, nunca veio ao Brasil mas com poucos meses passou a ser criado por sua ama e madrinha brasileira, a costureira pernambucana Ana Joaquina Leal de Barros, e junto aos avós paternos. Eça viveu sob os cuidados de Ana até os cinco anos, quando ela morreu.

Outra relação com o Brasil vem da parte do avô dele, José Joaquim de Queiroz e Almeida, que refugiara-se no Rio de Janeiro, na época das lutas liberais. Em terras cariocas, em 1820, nasceu José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai do romancista. Anos depois, a família retornou para Portugal.

Eça foi rejeitado pela mãe, Carolina Augusta Pereira d’Eça, uma jovem de 19 anos que se envolveu com o pai do romancista, mais velho do que ela. Anos depois, eles acabaram se casando e o reconheceram. A biografia é ricamente detalhada sobre este processo, trazendo, por exemplo, a carta do pai à mãe de Eça, explicando-a sobre o porquê de estar ignorando o nome dela no registro da criança, seguindo conselhos do avô.

“Isto é essencial para o futuro de meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo – o que talvez haja de acontecer brevemente –, não seja ‘precisa’ sem tempo algum justificação de filiação”, cita a biografia.

Conheça mais sobre a obra Eça de Queiroz: Uma Biografia

As pastorinhas de Pirenópolis – GO

Diário do Nordeste | Caderno 3 | Página 04 | 22 de Julho de 2014

pastorinhas

Resultado de um extenso trabalho de pesquisa, recuperação e análise de textos antigos, nesta obra faz um precioso registro de “As Pastorinhas”, auto natalino tradicionalmente representado na cidade de Pirenópolis, interior de Goiás. Além de registrarem o texto original do auto, no livro estão transcritas as partituras das canções. O auto, que traz uma singeleza quase primitiva, é dividido em três atos, alternando falas e cantigas e como manda a tradição, narra a história do grupo de pastores que partiu de Jerusalém para saudar o nascimento do menino Jesus, em Belém.

 

As pastorinhas de Pirenópolis-GO (2014)

Lênia Márcia Mongelli e Neide Rodrigues Gomes (org.)

Ateliê Editorial

248 páginas

R$ 66,00

MEMÓRIAS COM MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

João Luiz Marques | Revista ANL | O escritor e sua obra | Julho de 2014

Outro dia vi uma lista curiosa na internet (www.revista- bula.com): “30 livros de autores brasileiros para morrer antes de ler”. Notem que essa lista é de livros que não devem ser lidos! Estranhei… Meu saudoso Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, que tanta alegria me deu no colegial, fazia parte dessa lista. Que injustiça! Nos tempos do meu ensino médio só líamos os clássicos, literatura contemporânea não fazia parte do currículo. Era difícil para um jovem romper a barreira do tempo e gostar dos livros que os professores mandavam a gente ler. Manuel Antônio de Almeida me abriu essas portas, com ele descobri que havia alegria na literatura e passei a ter prazer com a leitura literária.

Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) formou-se em Medicina em 1855, mas nunca exerceu a profissão, e durante a faculdade, com dificuldades financeiras, foi trabalhar como jornalista. Escreveu para o teatro, fez poesia, além de publicar sua tese de doutoramento em Medicina e um libretto de ópera, mas sua única e mais famosa obra, que ficou para história da literatura brasileira, é o romance Memórias de um sargento de milícias. Foi publicado, inicialmente, como folhetim, na seção “Pacotilha” do jornal Correio Mercantil, entre 27 de julho de 1852 e 31 de julho de 1853, começou num período de campanha eleitoral. Havia dois partidos, o dos conservadores, que estavam no poder, e dos liberais, na oposição; o Correio Mercantil apoiava os liberais. Apesar de não haver nenhum conteúdo diretamente partidário, havia críticas disfarçadas ao governo conservador. Manuel Antônio de Almeida dizia que “nossa literatura é filha da política”. Além dessa característica, a obra também ajudou a fixar uma imagem descontraída e insinuante da sociedade brasileira.

Depois desses folhetins do jornal, Memórias de um sargento de milícias saiu em livro, dois pequenos volumes, um no final de 1854 e o outro no começo de 1855. No jornal, não era apresentada nenhuma autoria, nesses dois volumes a autoria era de “Um brasileiro”, e o livro somente foi atribuído a Manuel Antônio de Almeida numa edição de 1863, publicada após sua morte, por iniciativa de Quintino Bocaiúva. Para não ficar só com a lembrança da minha leitura dos tempos de escola, fui reler o livro. Peguei uma edição da Ateliê Editorial, com apresentação e notas de Mamede Mustafa Jarouche, que tratou dessa obra em sua tese de doutoramento. Como todos devem saber, a história se passa no Rio de Janeiro e enfoca o tempo em que D. João VI permaneceu no Brasil (1808 a 1821). Narradas em terceira pessoa, as memórias são de Leonardo, o personagem central, que ainda criança já tinha “maus bofes”, e não haveria de “ter bom fim”. Contrariando as tendências em reescrever e atualizar os clássicos da literatura, essa edição da Ateliê foi baseada na primeira, de 1854-1855, e traz notas, explicando os termos pouco usuais hoje em dia, que aparecem nessa narrativa de Manuel Antônio de Almeida.

A carreira de sucesso dessa obra não ficou só naquele tempo, entrou para a história, e no século XX foi parar em outras linguagens: em composição de Paulinho da Viola Memórias de um sargento de milícias virou samba-enredo da Portela do Carnaval de 1966, depois, em 1971, essa música foi gravada em disco por Martinho da Vila. Esse
 LP do cantor recebeu o nome do
 livro: Memórias de um sargento 
de milícias.

Conheça mais sobre a obra Memórias de um Sargento de Milícias  reeditado pela Ateliê

João Luiz Marques, jornalista,
 trabalha em assessoria de imprensa com editoras de livros, escreve e administra um blog 
de incentivo à leitura, o blog do Le-Heitor, e neste ano vai lançar o seu primeiro livro, um romance juvenil, pela Editora Biruta.

 

Cinco Tumblrs de arquitetura que farão você repensar sua cidade e como você vive!

A arquitetura é uma daquelas profissões que você pode passar horas imerso em diferentes sensações, mesmo não sendo um arquiteto ou um estudante. Cores, desenhos, paisagens e as próprias pessoas se misturam criando um complexo conjunto de uma obra só.

Em nossa busca por blogs de arquitetura que farão você aumentar suas fontes de referências ou te fazer pensar seriamente em deixar tudo para trás e comprar uma van para conhecer o mundo, encontramos cinco Tumblrs onde a palavra arquitetura e tudo que ela representa pode ser encontrada em diferentes formatos e contextos.

 

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Fabricio Moura

Indicado na revista Q9 e no site Architizer como um dos melhores blogs de arquitetura. O Tumblr do Fabricio Moura agrega tudo o que um estudante de arquitetura precisa: desenhos, diagramas, interiores e modelos.

Conheça o Tumblr de Fabricio Moura

 

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Ombua Architecture

Editado por duas arquitetas, uma argentina e outra espanhola, o Tumblr Ombua Architecture apresenta uma série de fotos de diferentes projetos passando pelo edifício até seu enterno.

Conheça o Tumblr Ombua Architecture

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Van-life

Acordar em uma praia, em uma montanha ou poder escolher a sua vista pela manhã, se torna bem mais simples quando você descobre que aquilo que chama de casa, pode ser qualquer lugar onde você conseguir estacionar.

Conheça o Tumblr  Van-life

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Cabin Porn

Quem nunca pensou em largar tudo e construir um lugar como este com as próprias mãos.

Conheça o Tumblr Cabin Porn

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Drawing Architecture

Uma coleção de desenhos arquitetônicos que podem ser enxergados quase como um conjunto de obras surrealistas.

Conheça o Tumblr Drawing Architecture

 

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Conheça também a obra Prelúdio da Metrópole – Arquitetura e Urbanismo em São Paulo na Passagem do Século XIX ao XX

 

 

O vocabulário de Stradelli

Evaldo Ferreira | Jornal do Commercio | Estilo de Vida | Caderno C | Julho de 2014

Livro escrito no século 19 é reeditado e apresenta dicionário, em Nheengatu

Vocabulario-Portugues-Nheengatu de Ermano StradelliOs amazonenses não sabem, mas temos uma língua falada no vale do rio Negro que um dia foi praticamente a língua da Amazônia, o nheengatu, ou língua geral.

O nheengatu surgiu em tempos que se perderam, derivado do tronco tupi como uma evolução natural da língua geral setentrional. Os colonizadores portugueses até tentaram proibi-lo mas, em não conseguindo, acabaram por achar melhor utilizá-lo como veículo de comunicação para suas catequeses, ações sociais e políticas junto aos indígenas, e mesmo a população, que aprendera a falar a língua então utilizada mais que o próprio português.

Atualmente, cerca de oito mil pessoas continuam a falar do nheengatu no vale do rio Negro, mas quem quiser se aprofundar no conhecimento dessa riqueza que um dia poderá ser extinta uma boa oportunidade é ler o “Vocabulário Português –Nheengatu/ Nheengatu- Português”, escrito por Ermano Stradelli no final do século 19, em suas andanças pelo vale do Purus para o Vale do Negro. O vocabulário foi reeditado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, este ano.

O conde italiano Ermano Stradelli, então com 27 anos, aventurava-se pela Amazônia desde 1879 até resolver estabelecer-se definitivamente no Amazonas em 1888. Ficou conhecido pela dedicação que teve pelo estudo nheengatu e de outras línguas indígenas .

Inicialmente trabalhou como fotógrafo (a Sociedade Geogradica Italiana possui 62 dessas fotos expostas em Manaus entre julho e agosto do ano passado), virou comerciante na capital amazonense e passou a conviver com missionários franciscanos italianos, percorrendo com eles o rio Purus e seus afluentes, quando conheceu o nheengatu, pelo qual se apaixonou e estudou pelo resto da vida.

Para elaborar o vocabulário, Stradelli  contou com o auxílio de um indígena que, lógico, dominava o nheengatu, mas o próprio conde se tornou afluente na língua, cujas culturas regional e de referência conhecia extensamente.

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Proibida por duas vezes

Quando Stradelli morreu, em 1926, aos 74 anos, pobre, num casebre improvisado no leprosário do Umirisal, em Manaus, o vocabulário continuava com ele, inédito, e só foi publicado três anos depois, em formato de revista, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

“Longe de sermos um país monolíngue, no que respeita a fala cotidiana generalizada em todo o território nacional, somos um país bilíngue. No português que herdamos de Portugal, os brasileiros infiltraram uma segunda língua, popular, o nheengatu, que se falava aqui, duas vezes proibida por Portugal aos brasileiros , em 1727 e em 1757.  Não obstante, impregnou com sons e palavras a língua oficial e dominante, até então língua de repartição pública. O nheengatu (língua boa) ainda é falada em várias regiões e é, até mesmo, língua oficial em São Gabriel da Cachoeira,  no alto rio Negro”, explicou José de Souza Martins, na nota preliminar do “Vocabulário…”, da Ateliê.

Ainda de acordo com José de Souza Martins, “Stradelli não se limitou a arrolar vocábulos e as respectivas traduções, mas agregou-lhes uma gramática e preciosas considerações etnográficas de quem conhecia a língua vivencialmente. Esse cuidado é enriquecido pela incorporação de palavras nheengatu que já expressam a realidade social pós-tribal, resultante, sobretudo, da influência missionária invasiva, como é o caso de tupaocamiri (pequena casa de Deus), para designar capela, que não existe nas nossas sociedades indígenas: uma ideia portuguesa pronunciada em inventada palavra brasileira”, revelou

Imensa Dificuldade

Em Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português, o nheengatu foi mantido tal e qual o da primeira edição, de 1929. A ideia da editora é que os leitores possam apreciar mais a lógica do texto e a imensa dificuldade – explicitada na “Nota Preliminar” – enfrentada pelo conde ao tentar compor o vocabulário de uma língua cuja versão escrita ainda não havia sido (como de fato não o foi até hoje) normatizada.

 

Conheça mais sobre o Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

 

CAIXA PRETA DOS BLACK BLOCKS

Questão 3 – Como você articula os levantes de Junho/2013 e os movimentos Black Blocks com as tensões sócio-políticas estabelecidas entre interesses privados (ou particulares) e necessidades coletivas? Justifique sua resposta. (5 linhas)

Naldinho levanta a mão: Num intendi, psô. Não entendeu o que? Essa pergunta aqui. Num intendi nada. Que levante de Junho? Que isso aqui? Aponta pro termo estrangeiro. São os protestos que acompanharam e ainda acompanham as greves do transporte público, lembra? Já viu no jornal, os Black Blocks? Isso aí é purque é de preto, né? Já querem falá que a culpa é dos preto? (o professor se constrange): Não. O movimento é diversificado, tem todo tipo de gente. A questão é o procedimento de confronto. Falam muito em vandalismo, depredação. Ah, mas tem que ir pro arregaço mêmo, tio. Tá loko? Essas loja de playboy, carrão de madame e esses puliça ducarái têm mais é que sifudê. Beleza. Tenta articular essas ideias no papel, agora. Lembra daquilo que a gente conversou sobre esferas pública e privada. Diferenças entre interesses e necessidades. Podexá, psô. Tá firmão.

O professor de sociologia, marxista com antigo caso tórrido de paixão juvenil por Bakunin e Dead Kennedys não foi poupado de sentir-se idiota ao corrigir suas provas nos dias seguintes. Sentir-se, sim, mas sobretudo reconhecer-se: tolo. E nesse estado de graça foi que aprendeu com seus rudes estudantes. Percebeu sua tolice em imaginar que a razão e coerência filosófica da ontopositividade da política imperam num ambiente saturado de gás lacrimogêneo. Sentia-se sobretudo um engodo. Um charlatão enganador, porque mesmo aprendendo tanto com esses maloqueiros iluminados, ainda era ele quem aplicava a prova. Enfim, a lição que ele tomou, não teve lousa nem boletim pra registrar, então virou desabafo em mesa de bar. Entre uma cerveja e outra, mastigando um churrasquinho de espeto, ele contava aos amigos o que aprendera. Elaborando a experiência como quem descreve um trauma. Ora com sarcasmo, era ridicularizado pelos colegas, ora armado de uma estranha dignidade em extinção vinda de não se sabe onde e absolutamente injustificada, esse professor anônimo narrou na mesa ao lado o que eu, me “fingindo” de velho estranho calhei de testemunhar, então meti minha cara de poeta decadente solitário com quem ninguém quer falar e tratei de prestar muita atenção. Invisível como operário de subemprego. Em guardanapos, fui registrando notas aqui e acolá, que somadas a minha própria experiência temperada com balas de borracha e spray de pimenta, resultaram no ensaio que se segue.

CAIXA PRETA DOS BLACK BLOCKS

Na real é bem simples.

Uma onda de manifestações autônomas tomou as ruas e desde então tem sido usadas como argila, moldadas em personagens exóticos, os tão desejados pelo inconsciente coletivo particularizado “monstros da vida real” (ELES EXISTEM! THEY LIVE!).  Perigosíssimos, esses amigos imaginários do Estado tomam vida a partir do barro – imagens – de Junho & então, somado a evocações antigas tais como “vândalos!”, “baderneiros!”, “delinquentes!” vão eletrocutando-se num monstro vivo real à medida que mais e mais pessoas engrossam o coro anti-vândalos-baderneiros-delinquentes.

E a justa besta fera travestida de cidadão deixa escorrer da sua boca a saliva do desejo pelo inimigo, pois a cidadania, tal qual o nacionalismo, se não necessita de um inimigo – o outro – estrangeiro – preto – bárbaro – pra existir, no mínimo admite que sua presença e subsequente ameaça vai bem pra alimentar os plenos vapores do projeto ao qual sustenta sua “defesa”. O defensor, então, tão logo percebe-se ileso de ameaças, tornar-se-á agressor afim de não perder seu propósito. Esse fenômeno foi debatido por círculos de estudo e interpretação neomitosófica aplicada, como o paradoxo de Zod & Jor-El.

É precisamente esse o motivo tão importante de atentar para o que efetivamente é uma manifestação Black Block. Em primeiro lugar, a configuração dos blackblocks é tática; ou seja, ela só se efetiva em confronto direto com a autoridade. Black Blocks não possuem bandeira comum, nem lemas fundamentais, nem ideias diretoras, são indivíduos autonomistas que em comum possuem algum anarquismo antipartidário, uma ardente indignação com o proto-fascismo comportamental somados a um grande apetite para a ação. Estarão dispostos ao combate direto e manifestam-se necessariamente em sociedades repressoras, predisposição à violência no trato com levantes sociais – perfil no qual o Brasil – lamentavelmente – enquadra-se com veemência.

Em muitas situações de conflito popular com tropas de choque e contenção violenta, é provável que a maior parte dos civis esteja vivendo aquela experiência pela primeira vez na vida. Os mais experientes destacam-se e ocultam-se muito rápido. Se para essas pessoas a experiência será relevante, engrandecedora, valorosa enquanto ensinamento ou mesmo segura, isso só dependerá de quem estiver junto na hora. Lado a lado. Jogando de volta as bombas de fumaça, puxando um irmão pego das garras mecânicas do autômato fardado. Resistindo ou atacando, deixando sua marca ou batendo em retirada. Muito dessa tática é intuitiva e empática e isso certamente contribui para que seja uma experiência atraente e excitante do ponto de vista humano.

Então, quando militantes de esquerda começam a papagaiar sobre os BBs nos sites e jornais como se BB fosse sempre majoritariamente o mesmo grupo, só atesta sua ignorância, incapaz de realmente visualizar a possibilidade de grandes interações humanas desprovidas de qualquer tipo de hierarquia, mesmo nas esferas micro-psicológicas de querer enxergar no outro ou em si um líder ideal; e pior, o faz reproduzindo o discurso da mídia burguesa que tanto critica.

É certo também, vale a pena ressaltar, que um manifestante blackblock está lá para a ação: O confronto com a polícia ou segurança particular, o ataque à estrutura material de agências corporativistas, a defesa e organização de uma massa manifesta de pessoas a fim de protestar, pessoas fartas, descontentes e ultrajadas. Esse tipo de ação não opera no campo das palavras. Nenhuma manifestação BB jamais estará acompanhada de palanque e carro de som. Ficar gritando num micro ou megafone não é considerado ação política para os Black Blocks. Talvez por isso a esquerda partidária tradicionalista se ressinta tanto do movimento. O choque estético entre essas esquerdas é essencial, mas cada qual pode balizar sua essência segundo a colaboração e em parceria dialógica, convergindo essências diferentes em uma mesma estrutura. Isso se houver empatia, sensibilidade e fraternidade entre os insurrectos.

Não vou avaliar a velha rotina de bradar convicções ideológicas no megafone, terminando suas sentenças com “companheiros” em tom cada vez mais agressivo até que estoure o quebra pau com a tropa de choque. Todos que escolheram o caminho da luta e da resistência sabem o quanto é preciso criatividade e beleza pra sobreviver nessa vereda. Agora atribuir aos Black Blocks uma personalidade, uma intenção ou um projeto é muita ingenuidade – ou – do absoluto contrário – faz assumidamente parte do coro que cria o algoz do povo. O terrorista; o subversivo; o homo saccer; criminosos.

Black Blocks são apenas uma das muitas manifestações violentas que insurgirão perante um estado violento. Quase como um sistema imunológico social, representa uma consciência viva de que SE SABE quem é o inimigo. Empresas multibilionárias, corporações arquibilhardárias, a mídia e sobretudo o Estado serão hostilizados enquanto persistirem segundo seu plano hostil de planificação das vidas, rotinas e topografias. Há de se distinguir violência política de violência criminal. A ampliação de direitos já não é negociável quando direitos já conquistados sofrem plena subtração. Black Blocks são glóbulos brancos sociais. E a todo tempo, tudo o que é produzido, feito, dito, está passível de apropriação pelo inimigo, tornado matéria prima do monstro da vida real – o blackblock Frankenstein, o vilão que todos (coxinha) amam odiar. Desprezam o pus, por achar nojento e mal cheiroso, ignorando que aquilo cura as suas feridas.

Por isso é urgente mergulhar na onda emergente. Estar atento é no compa, no truta lado a lado, e não no discurso que se faz sobre no jornaleco/blog ou o que quer que seja… pelo menos não no que diz respeito aos Black Blocks. Talvez você esteja afim de dizer que esses moleques inconsequentes podem também ser joguete de uma direita ardilosa, ou colocar negociações sindicais em risco. Podem mesmo. E a probabilidade que sejam é maior se você não estiver junto dele, atento, lado a lado… Se aprende muito nessas manifestações, de política e de empatia. E como em todo aprendizado, o maior risco é achar que já sabe tudo o que tá pegando. Serviços públicos dignos, segurança desmilitarizada, economia sustentável… essas são premissas tão básicas quanto alienígenas em nosso contexto. Utopias pelas quais lutar. Mas nosso contexto é o da ignorância desejada, do protofascismo a flor da pele, da servidão voluntária e da miséria multidimensional. Considerando esse panorama, um moleque inconsequente de molotov na mão ainda me parece algo que me toca mais esperanças do que frustrações.

Frustrações são o campo e a recompensa de quem planeja a ordem prum mundo feito de caos. Há quem flerte com as tensões desse mundo. Os tais jogos de poder: Seu acúmulo e preservação sempre estarão sob o jugo da administração dessas tensões e subsequente gerenciamento das inevitáveis frustrações. Agora há também quem só queira saber de gozar do poder. Usufruí-lo na hora, feito caldo de cana. Do desejo de voz o grito. Da vontade de expressão o pixo. Da necessidade de ação a disposição, a rua, o conflito. Bem simples.

Que defendam o patrimônio do burguês a burguesia e seus cães. Que reproduzam as ideias da classe média resmungante seus falantes, perdidos, desintonizados só satisfazendo-se, que vivem a toa pra se ver por aí. Toda vida, do nascimento ao epitáfio, sendo pouco mais que uma sucessão de selfies quase sem fim.

Pros que querem gozar a pouca liberdade que lhes é constantemente subtraída, a dança caótica com o asfalto, a correria na 24 de Maio, a gargalhada no outro lado do escudo transparente erguido pelo soldado. E absolutamente nenhuma promessa de dignidade ou redenção, na certeza equivocada de que estará errado. Estará mesmo. Presses, toda força.

A vida está cheia de gente querendo um monte de coisas diferentes. Uns querem controlar tudo e todos. Outros querem a anarquia, simplesmente. É certo que toda manifestação de rebeldia indica no mínimo uma intenção de autonomia. Todavia a moda dessa temporada é a força bruta e num ambiente de fardas e armaduras pretas, cassetetes, armas e botinas pretas, não é de admirar-se que capuzes pretos também surjam. Se esse impulso será emancipador, se resistirá em seu caráter insurrecto ou engrossará as filas dos fascistas, depende do tino de cada um e do que cada qual espera da vida. E pra saber, só pessoalmente, sacumé? Tem que estudar um pouquinho antes de falar. “Empatia, empatia como você se sentiria”. Simples assim.

Como em Seattle, os Black Blocks trouxeram às ações a energia estratégica, da criatividade e da coragem, mas têm além disso manifestado uma grande vontade de respeitar as aspirações de outros participantes e não cessam de defender ativamente as pessoas menos preparadas” (Michael Albert, no Znet Commentary, acessado em 16 de Abril de 2000).

É fácil reduzir o “fenômeno” Black Block a algumas práticas que parecem tanto mais ridículas e limitadas quanto a frequência em que são caricaturadas. As ações Black Blocks não se limitam a uma destruição sistemática e sem objetivo. Olhando mais de perto ele parecerá, ao contrário, como um modo de organização e de ação política que encontra seus fundamentos numa análise crítica de militância de extrema-esquerda, e que pode lhe acrescentar bastante.” – Darkveggy

Alguém nos perguntou: “você acha que assim você passa sua mensagem?” Eu gostaria de saber que mensagem teria sido esta. Só podemos falar por nós mesmos enquanto quatro indivíduos participantes no Black Block (muitos do Black Block achavam que estavam enviando uma mensagem), mas para nós, nós não éramos uma mensagem. Apenas estávamos lá.” – Antibody, Spazz, Sketch & Entropy do Black Block D2KLA em BLACK BLOCK DE LOS ANGELES: UMA CARTA DE QUATRO PESSOAS QUE ESTIVERAM NO BLACK BLOCK.

Todas as citações retiradas do DOSSIÊ ANTIGLOBALIZAÇÃO/EUA – BLACK BLOCK: NO SINGULAR OU NO PLURAL… MAS DO QUE SE TRATA ENTÃO?; publicado no Brasil em 2002, pela Editora Conrad na compilação URGÊNCIA DAS RUAS, Black Block, reclaim the streets e os dias de ação global. Ned Ludd (org.).

 

revolução

 

Conheça também a obra Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na França

 

 

Tiago Abreu é historiador  formado pela PUC-SP e trabalha como educador de todas as áreas das ciências humanas. Desde 2004 coordena e participa do coletivo de arte e grupo de estudos NeoMitoSofia , que tem por objetivo interelacionar histórias em quadrinhos e diversos desdobramentos da arte contemporânea com a filosofia. Atualmente também tem atuado como colaborador da Revista Córrego, como escritor de crônicas, artigos e poesias.

A viagem que une tradições do povo

Dellano Rios | Diário do Nordeste | Caderno-3 | Pg. 04 | 19 de Junho de 2014

15'5x22'5 - 15mm lombadaA fantasia atravessa terras e um oceano, traz encantamentos da fria Rússia e se assenta bem no sertão brasileiro

O novo livro de Jerusa Pires Ferreira ajuda a entender o papel da fantasia na tradição da literatura de folhetos. Professora e pesquisadora USP e da PUC-SP, ela acaba de lançar “Matrizes Impressas do Oral: conto russo no sertão”, reunião de estudos sobre um fenômeno que, por si mesmo, já parece fantástico: a presença de histórias, em obras de poetas populares, que vêm da tradição popular oral russa. E essa ponte improvável, ligando dois mundos tão distintos, chega justamente por meio das narrativas de encantamento.

A autora trata deste fenômeno não por meio da história ou da história literária, mas pela semiótica da cultura. A teoria parece a mais apropriada ao que está em questão. Jerusa é representante de um pensamento que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. É baseado na obra de autores – russos em sua maioria – como Iúri Lótman (1922 – 1993). Há uma ideia de Lótman, a de semiosfera, que ajuda a entender a abordagem de “Matrizes Impressas do Oral”. Trata-se do espaço cultural habitado pelos signos, portanto, o lugar propício para o encontro de diversas culturas.

Jerusa Pires Ferreira não se interessa apenas pela história, do ponto de vista do enredo ou mesmo da escrita. Interessa a ela a natureza desta história, o meio pelo qual ela é contada, as especificidades do suporte, a postura de seus contadores (estejam eles nos domínios da oralidade ou no terreno da escrita e da impressão).

Pássaro de Fogo

“O cavalinho corcunda” é um conto escrito por Pietr P. Ierchóv (1815 – 1869), escritor russo que se notabilizou por essa pequena obra, que conta a história de Ivan, jovem humilde que trabalha na cavalariça de um Czar despótico, que termina por ganhar o amor da princesa e com ela se casar. A história integra o universo cultural do Pássaro de Fogo, ícone dos contos populares de origem eslávica.

O conto ganhou adaptações, como balé e filmes e, como mostra Jerusa Pires Ferreira em “Relatos e Imagens do Pássaro de Fogo no Sertão”, o primeiro dos três estudos do livro, acabou por ser “traduzido” pelos poetas populares. O folheto “A princesa Maricruz e o Cavaleiro do Ar”, de Severino Borges da Silva, traz uma história de enredo de semelhança explícita. Contudo, não são apenas as estrofes, a métrica dos versos e a xilogravura na capa do folheto que operam este processo de transcriação. O contexto é outro, é sertanejo ainda que fale de princesas e seres fantásticos, de um lugar distante.

A obra apresenta casos em que contos fantásticos, presentes na cultura popular russa há séculos, reaparecem nos folhetos da literatura de cordel, no começo do século XX. A viagem de um ponto ao outro acaba por transformar o viajante, que ganha novas vestes. A transformação é drástica, ainda que a raiz, o essencial que faz a história ser reconhecida, seja mantida.

Assim, a narrativa oral, colhida pelo escritor russo reaparece distante dali, no tempo e no espaço, em forma de verso, numa escrita marcada pela voz, que torna à oralidade.

“Esse livro expressa bem o que tem sido a minha pesquisa constante: a comparação entre matrizes universais e nossa cultura regional”, explica Jerusa. Casada com o tradutor Boris Schnaiderman, uma referência da língua russa no País, a pesquisadora já vivenciava esta improvável proximidade entre as duas culturas. Ela conhecia o “lubok”, a literatura de folhetos da cultura popular russa, quando se deparou com lendas do Pássaro de Fogo em nossos cordéis.

A viagem da narrativa é acidentada e passa pelo conto oral (a base, até onde se sabe), que serviu de inspiração para Ierchóv; a escrita do autor; a tradução e publicação, em Portugal, em livros populares, com histórias folclóricas voltadas para crianças; a circulação deste material no Nordeste no Brasil; e adaptação e recriação para o cordel e, quando lido, deste para a oralidade, mais uma vez.

Reconhecimento

A universalidade da história, o prazer de ouvi-la, não bastam para explicar sua viagem de um ponto ao outro. Fica claro que houve um reconhecimento do conto, por onde passou, no sentido de que os leitores, ouvintes e narradores viam nele elementos não de todo distantes de seu próprio universo. Acaso o czar que atormentava Ivan não era uma versão estrangeira daquele senhor que, com mão de ferro, mandava em uma região já castigada pelo tempo?

A identificação é tanta que, nota a autora, mesmo as imagéticas se repetem, sem a necessidade de uma contaminação. A imagem do jovem herói alçado ao alto, em voo, no lombo de seu cavalo, aparece tantos nas edições russas, que até onde se sabe jamais chegaram às mãos do cordelista, como no folheto que ele editou. Mais uma mágica que a palavra poética operou.

LIVRO

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão

Jerusa Pires Ferreira
Ateliê Editorial
224 páginas
R$ 57,00

 

 

Morre o professor e historiador José Sebastião Witter

Autor do livro Túnel do Tempo morre aos 87 anos 

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Faleceu na tarde de ontem (07), em sua casa, o professor e historiador José Sebastião Witter. Aos 87 anos, José Witter sofreu um infarto agudo do miocárdio enquanto assistia televisão. Seu corpo será velado hoje no Velório Cristo Redentor em Mogi das Cruzes de onde será levado para o cemitério da Vila Alpina, na Capital.

José Witter possui uma história expressiva na educação do estado, possui relevantes passagens por instituições como a Universidade de São Paulo (USP), onde recebeu o título de professor emérito, e coordenou setores como o Centro de Apoio de Pesquisa em História e o curso de Comunicação Social da USP, além de diversos livros publicados. Na USP atuou como instrutor voluntário e assistente do professor Sérgio Buarque de Hollanda, a quem assegurava dever “tudo o que foi na área acadêmica e na vida”.

Fez mestrado, doutorado e livre-docência sendo professor adjunto e titular de História do Brasil. Em 1973, após uma viagem aos Estados Unidos e México, atuou no Departamento de História, onde posteriormente se tornaria supervisor do Arquivo Público do Estado, permanecendo  durante uma década. Logo depois viria assumir direção do Museu do Ipiranga onde ficou durante sete anos.

Conheça mais sobre as obras de José Sebastião Witter

Memorial de Mogi das Cruzes

Túnel do Tempo

Entrevistas de Domingo (Org.)