Achik-Kerib: História turca

Folha de S. Paulo | 9 de Fevereiro de 2014

O “Achik Kerib” é uma das narrativas estudadas por Jerusa Pires Ferreira em Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão, livro que trata da “tradição oral, das mitopoéticas e do conto popular universal, passando à recriação desses textos por grandes escritores”, conforme descreve sua autora. 

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão

 

MUITOS ANOS ATRÁS, na cidade de Tíflis¹, vivia um turco rico; Alá lhe deu muito ouro, porém mais valioso que o ouro era sua filha única Magul-Meguéri. São belos os astros do céu, mas atrás dos astros vivem anjos que são ainda mais belos e assim Magul-Meguéri era a mais bela das jovens de Tíflis. Vivia também em Tíflis o pobre Achik Kerib; o profeta não lhe dera nada além de um grande coração e o dom das canções. Tocando saaz e celebrando os antigos cavaleiros do Turquestão ele ia de um casamento a outro, para alegrar os ricos e felizes; num desses casamentos ele viu Magul-Meguéri e eles se apaixonaram. O pobre Achik tinha pouca esperança de obter a sua mão, e se tomou tão triste como um céu de inverno.

Um dia ele estava deitado num vinhedo e finalmente adormeceu; nessa hora passaram por ele Magul-Meguéri e suas amigas; uma delas, ao ver Achik adormecido, ficou para trás e aproximou-se dele. “Por que ficas dormindo embaixo de uma videira” – cantou ela – “levanta-te, insano, a tua gazela está passando”; ele acordou e a moça fugiu como um passarinho; Magul-Meguéri tinha ouvido a sua canção e começou a censurá-la: “Se tu soubesses” – respondeu a outra – “a quem cantei esta canção, me agradecerias: é o teu Achik-Kerib”; “Leva-me até ele” – disse Magul-Meguéri: e elas foram.

Vendo seu rosto tristonho, Magul-Meguéri começou a interrogá-lo e a consolar: “Como não vou me entristecer” – respondeu Achik-Kerib – “eu te amo e tu nunca serás minha.” “Pede a minha mão a meu pai e meu pai vai celebrar nosso casamento com o dinheiro dele e me dará tanto que será o suficiente para nós dois”. “Está bem” – respondeu ele” – admitamos que Aian-Agá não poupe nada para sua filha; mas quem sabe se depois tu não vais me censurar porque eu não tinha nada e fiquei te devendo tudo. Não, minha doce Magul-Meguéri; eu coloquei um penhor sobre a minha alma; comprometo-me a peregrinar sete anos pelo mundo, conseguir riquezas ou morrer nos desertos distantes; se concordas com isso, decorrido esse prazo serás minha”. Ela concordou, mas acrescentou que, se no dia marcado ele não voltasse, ela se tomaria esposa de Kurchud-Bek, que há muito pedia sua mão.

Achik-Kerib foi ter com sua mãe; tomou a bênção, beijou a irmãzinha, pendurou no ombro a bolsa, apoiou-se num cajado e peregrinou, saiu da cidade de Tíflis. E eis que um cavaleiro o alcança e ele vê que é Kurchud-Bek. “Boa viagem” – grita-lhe Bek – “aonde quer que vás, peregrino, sou teu amigo”; Achik não ficou contente de ver o amigo, mas não havia nada a fazer, caminharam juntos por muito tempo até que encontraram um rio. Nem ponte nem vau; “Nada na frente” – disse Kurchud – “eu vou te seguir”. Achik tirou a roupa e nadou; chegando à outra margem, olhou para trás e – Oh, desgraça! Oh, Alá onipotente! – Kurchud-Bek tinha apanhado a sua roupa, galopando de volta a Tíflis, e somente a poeira turbilhonava atrás dele, feito cobra em campo liso.

Kurchud-Bek leva a roupa de Achik a sua velha mãe: “Teu filho se afogou no rio profundo, aqui está a sua roupa”; numa angústia indescritível, a mãe caiu sobre a roupa do filho amado e passou a molhá-la com lágrimas ardentes; depois apanhou-a e levou à sua noiva prometida Magul-Meguéri. “Meu filho se afogou,” – disse ela – “Kurchud-Bek trouxe a roupa dele, estás livre”. Magul-Meguéri sorriu e repondeu: “Não acredites; tudo são invenções de Kurchud-Bek; antes que passem sete anos ninguém será meu esposo”. Ela tirou da parede o saaz e começou a cantar tranquilamente a canção predileta de Achik-Kerib.

Neste ínterim, o peregrino chegou descalço e nu a uma aldeia; gente boa vestiu-o e alimentou-o; ele, para recompensá-los, cantou umas canções maravilhosas; assim foi passando de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, e sua fama se espalhou por toda parte.

Chegou finalmente a Khalaf; como de costume, entrou num café, pediu um saaz e pôs-se a cantar. Nessa época vivia em Khalaf um paxá, grande apreciador de cantores; muitos foram levados a sua presença, mas ele não gostou de nenhum; os seus servos se esfalfaram, correndo pela cidade: de repente, passando por um café, ouviram uma voz surpreendente; eles então: “Vem conosco à presença do grande paxá” – gritaram – “ou vais responder com a tua cabeça”. “Eu sou um homem livre, peregrino da cidade de Tíflis – se quiser irei, se não quiser, não. Canto quando me dá na veneta e o vosso paxá não é meu chefe.”

Apesar disso, eles o agarraram e o levaram à presença do paxá. “Cante” – disse o paxá, e ele cantou e nessa canção ele celebrava a sua querida Magul-Meguéri; e essa canção agradou tanto ao orgulhoso paxá que ele deixou em seu palácio o pobre Achik-Kerib. Ouro e prata choveram sobre ele, brilharam nele ricos trajes; Achik-Kerib passou a viver em felicidade e alegria e tornou-se muito rico.

Se ele esqueceu ou não a sua Magul-Meguéri, não sei, mas o tempo ia correndo, o último ano estava próximo do fim, e ele nem se preparava para a partida. A formosa Magul-Meguéri começou a desesperar: nesse tempo, um mercador estava saindo com uma caravana de Tíflís, com quarenta camelos e oitenta escravos: ela chama o mercador à sua casa, e lhe dá uma bandeja de ouro: “Toma esta bandeja” – diz ela – “e em qualquer cidade que chegues expõe a bandeja em tua venda e declara em toda parte que aquele que se declarar dono da bandeja há de recebê-la, e de sobra o seu peso em ouro”.

Partiu o mercador e em toda parte cumpria o encargo de Magul-Meguéri, mas ninguém se declarava dono da bandeja de ouro. Ele já tinha vendido quase toda a mercadoria e chegou com as restantes a Khalaf e proclamou em toda a parte a incumbência de Magul-Meguéri. Ouvindo isso Achik-Kerib chega correndo ao caravançará e vê a bandeja de ouro na venda do mercador de Tíflis. “É minha” – disse ele, agarrando-a com a mão. “Está certo, é tua” – disse o mercador. “Eu te reconheci, Achik-Kerib: vai quanto antes a Tíflis, a tua Magul-Meguéri mandou te dizer que o prazo está terminando e que, se não chegares no dia marcado, ela se casará com outro”. Desesperado, Achik-Kerib agarrou a cabeça: faltavam apenas três dias para a hora fatal.

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