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Valéry e Nerval: o eu inesgotável

Felipe Fortuna | Valor Econômico | 04 de abril de 2014

Dois lançamentos permitem novas incursões na obra dos dois poetas franceses bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas

 

As numerosas diferenças entre Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945) não são apenas as da cronologia, mas sobretudo de concepção da obra literária. Para o escritor de Les Filles Du Feu (1854), os símbolos do hermetismo – saturados de mensagens esotéricas e de vigoroso discurso místico – se transfiguravam em literatura. Já para o escritor de Charmes (1926), disciplina e rigor deveriam ser forças simultâneas na construção da prosa e da poesia, em repulsa a qualquer aspecto que não fosse determinado pelo intelecto.

Observa-se, no entanto, um interessante ponto em comum entre os dois escritores: ainda muito jovem, Nerval publicou sua tradução do Fausto, de Goethe, com qual ganhou notoriedade. Já Valéry escreveu, na velhice, um Mon Faust (1946) que só seria publicado postumamente: livro confessadamente “sem plano”, na forma de esboços que repercutem as derradeiras meditações do poeta na Europa em guerra.

Dois lançamentos da Ateliê Editorial – os Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval, e Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul Valéry – permitem novas incursões na obra desses poetas, bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

A seleção e tradução dos poemas de Nerval por Mauro Gama inclui As Quimeras, célebre conjunto de 12 sonetos, bem como as Outras Quimeras. Trata-se de um considerável desafio tanto para o tradutor quanto para quem, com acesso ao original, procure desvendar o sentido de todo o esoterismo trazido pelo poeta. Em Ártemis, por exemplo: “É a Décima-Terceira, agora… E ainda a primeira:/ E é a única sempre, ou o único instante:/ Pois és Rainha, Tu! primeira ou derradeira?/ És Rei, Único, tu, ou o último amante?…”

Nem sempre, porém, o tradutor consegue resolver as surpreendentes imagens do poeta – que caíram no gosto dos surrealistas, décadas depois. No conhecido soneto El Desdichado, espécie de autobiografia espiritual e fatídica, o quarteto inicial tem muita importância: “Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,/ O príncipe aquitano em torre agora ruída./ Minha Estrela morreu; meu lude constelado/ Traz o sol negro e o horror da Angústia desmedida”. Lamenta-se que o tradutor não tenha conseguido manter a palavra “melancolia” no último verso, “Porte Le Soleil noir de La Mélancolie”. Essa palavra é essencial para compreensão do estado psíquico do poeta, além de estar inserida na sofrida tendência ao spleen que caracterizou tantos (senão todos) poetas românticos. A ideia de um “horror de Angústia desmedida” introduz elementos estranhos ao já singular estranhamento que provocam os poemas de Nerval.

A edição dos seus Cinquenta Poemas mereceria maior cuidado quanto à fixação do texto original, em que alguns casos foi transcrito com erros; e, nas traduções, maior atenção com o uso pessoalíssimo das maiúsculas, que conferem à mitologia e à vaga religião esboçadas pelo poeta aspectos ainda mais fascinantes.

Desafiadora, exigente, intelectualizada, a poesia de Paul Valéry manteve decisiva influência na modernidade. No Brasil, bastaria citar a concepção de um livro como Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade, que se permite formas clássicas e indagações filosóficas, sob a égide de uma citação do poeta francês: “Os acontecimentos me aborrecem”, em contraponto a uma poesia anterior de engajamento político; ou então, entre alguns outros, o poema Fabula de Anfion (1947) (“gesto puro/ de resíduos, respira/ o deserto, Anfion”), de João Cabral de Melo Neto, a estabelecer diretrizes de uma psicologia da composição; ou então, por fim, “um ódio e um desprezo pelas coisas vagas”, o plano de “enxertar a matemática na poesia, o rigor em imagens livres”, princípios que são traduzidos e divulgados pelo concretismo.

Consciente da complexa articulação entre poesia e pensamento em Valéry, o tradutor Júlio Castañon Guimarães (ele mesmo poeta de cunho meditativo) publica agora Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, reunião bilíngue de dez poemas do autor de Charmes, entre os quais se encontram, além do poema que dá titulo ao livro, Ária de Semíramis e Palma.

O último dos poemas citados, Palma, dedicado à mulher, encerra aquele livro do poeta de maneira exemplar: trata do amadurecimento da poesia (e das obras de arte) por meio do trabalho que se dá com tempo e com a perseverança. Seus versos de sete sílabas sugerem leveza e contenção: é o comentário final, o acabamento de um conjunto elaborado. O tradutor brasileiro é competente ao transmitir o resultado: “Por mais que se dobre afeita/ A tais bem sem contenção,/ Sua figura é perfeita,/ E os frutos seus laços são./ Admira como vibra,/ E como uma lenta fibra/ Que divide este momento,/ Decide e, clara, descerra/ Toda a atração da terra/ E o peso do firmamento”.

Relembre-se como o símbolo implacável da poesia de Valéry, em Palma, pode ter induzido o citado João Cabral a singularizar objetos da paisagem (pedra, cana-de-açúcar, bananeira) como pretextos para tratar da arte poética praticada.

Fragmentos do Narciso, ao longo dos seus 315 versos alexandrinos, concentra parte vital das obsessões de Paul Valéry em sua poética. A imagem do narciso, se característica de muitos escritores do simbolismo europeu, tornou-se seminal para o poeta francês. O embate consigo mesmo, o diálogo permanente e tenso entre o eu e a sua imagem refletida (um falso outro a quem era necessário questionar e dirigir perguntas), o contraste entre o Único e Universal – eis alguns dos problemas trazidos por Valéry em seu poema. O narcisismo se posiciona no centro da obra do poeta, presente em diversas fases, tanto na prosa quanto na poesia (e o tradutor brasileiro também insere no livro o poema Narciso Fala: “Ah! A imagem é vã e os prantos eternos!/ (…) Ó forma obediente a meus olhos oposta!”).

A noção de fragmento expressa uma forma inacabada, um caráter ainda não definitivo do que o poeta pensa – e, também, o transito do mito de Narciso pela obra de Valéry, que o confrontava com o “inesgotável Eu”.

A tradução de Castañon Guimarães é meticulosa e seguramente atenta aos desafios apresentados pelo poeta francês, não apenas com relação ao metro, mas em especial às aliterações e às assonâncias, tão comuns em sua poesia. O tradutor, no prefácio, já demonstra sensível preocupação com o seu ofício, trazendo à discussão algumas ideias do próprio Paul Valéry sobre tradução poética. Mas, sempre preocupado, escreveu como posfácio ao livro uma “Nota sobre a tradução”, atraente exposição sobre a operação de traduzir Paul Valéry, na qual são elencados o gosto musical do poeta e o registro da sua voz ao declamar, entre outros aspectos que poderiam ser considerados na passagem para o português.

Do conjunto de problemas que toda tradução de poesia pode suscitar, o tradutor opta por um “microtrabalho das aproximações sonora” e por um genérico “mecanismo de compensação” a fim de mostrar, no outro idioma, que os versos franceses encontraram semelhança…

Como já se afirmou, a tradução de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas mostra zelo e consciência. Por isso mesmo, teria sido importante dar maior atenção a um conjunto de palavras que se encontra no fulcro de um poema que trata do Narciso e do narcisismo. Trata-se do grupo formado por “eau/ eaux/ onde” (água/ águas/ água). Paul Valéry traz uma combinação aparentemente aleatória com as três palavras ao longo do poema.

Na primeira aparição, “Je ne troublerai pas I’onde mystérieuse” (“Não turvarei a água em jogo misterioso”), o verbo turvar não transmite a necessária ideia de que a água estagnada não pode ser agitada ou tocada, caso contrário a imagem de Narciso desapareceria da superfície (como acontece no último verso, “Passa, e num tremor quebra Narciso, e foge…”). Nos versos 59 a 61, a palavra francesa “onde” aparece três vezes, formando um núcleo por si só: mas, tangido pelas exigências de rima, o tradutor prefere “remanso” para o verso “À cette onde jamais ne burrent les tropeaux!” (Nenhum tropel jamais bebeu desse remanso!).

Duas vezes o tradutor prefere traduzir “onde” por “vaga”, quando “das águas” e “às aguas” seriam plenamente aceitáveis. Afinal, em dois versos, Júlio Castañon Guimarães se resigna a traduzir “onde” por “onda”, cujo sentido em português é notavelmente distinto do francês literário mais arcaico.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas”, com seus dez poemas, constitui atualmente a reunião mais generosa de poemas de Paul Valéry em língua portuguesa, uma vez que outras edições se limitavam a apenas um longo poema. Torna-se uma referência, pois, a partir de um trabalho lento e gradual que permite mirar com atenção tanto o eu do poeta quanto a imagem do seu tradutor.

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Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente publicou o livro A Mesma Coisa (Topbooks)

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de Ermanno Stradelli

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-PortuguêsO livro preenche lacuna no conhecimento da língua que falamos hoje no Brasil, palavras como pipoca, paçoca, cuia, carioca, caipira, entre outras; e pronúncias como oreia, cuié, muié, e outras tantas, tem origem no nheengatu, a língua geral das populações da bacia amazônica e, ainda, oficial em região do Alto Rio Negro

Quando morreu em 1926, Ermanno Stradelli deixou sua obra, o Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, inédita, e só foi publicada postumamente, em formato de revista, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1929. Para o leitor de hoje esta edição da Ateliê Editorial ajuda a desmascarar um dos mais persistentes mitos da história brasileira: o do monolinguismo. Quem quer que tenha estudado em escola brasileira sabe que o atual caráter hegemônico e oficial da língua portuguesa é comumente projetado para trás, como se, a partir da catequização de Anchieta todos os habitantes das mais variadas regiões do país não falassem senão uma língua, o português. Tais versões da história se esquecem não apenas das várias línguas nativas usadas, ainda hoje, por grupos indígenas em várias partes do país, mas sobretudo que, durante três séculos de colonização, o português teve que disputar o lugar de língua mais falada com o nheengatu, que era utilizado não só por jesuítas e indígenas, mas também por mulheres, crianças, escravos, e muitos daqueles que não pertenciam às classes dominantes. Na verdade, em certas áreas da Amazônia, o nheengatu ainda hoje é falado como língua franca, embora em menor escala do que há um século.

Longe de sermos um país monolíngue, no que respeita a fala cotidiana generalizada em todo o território nacional, somos um país bilíngue. No português que herdamos de Portugal, os brasileiros infiltraram uma segunda língua, popular, o nheengatu, que se falava aqui, duas vezes proibida por Portugal aos brasileiros, em 1727 e em 1757. Não obstante, impregnou com sons e palavras a língua oficial e dominante, até então língua de repartição pública. O nheengatu (língua boa) ainda é falado em várias regiões e é, até mesmo, língua oficial em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro (José de Souza Martins).

Ermanno Stradelli nasceu em 1852, herdeiro de uma antiga família nobre da cidade de Borgotaro – atualmente na província de Parma, Itália –, seu pai recebeu o título de conde pouco antes de seu nascimento e Ermanno, como filho primogênito, herdou o título. Deixou sua confortável e abastada vida na Itália, interrompeu seus estudos em Direito e veio para o Brasil. Depois de uma temporada por aqui, voltou à terra natal para concluir seus estudos e, em 1888, estabeleceu-se definitivamente no Estado do Amazonas. Inicialmente, trabalhou como fotógrafo, virou comerciante em Manaus e passou a conviver com os missionários franciscanos italianos, percorrendo com eles o rio Purus e seus afluentes, foi quando conheceu o nheengatu cujo estudo e pesquisa o acompanhou pelo resto de vida. Naturalizou-se brasileiro em 1893 e tornou-se promotor público em Lábrea e Tefé, no Amazonas. Na elaboração desta obra, valeu-se do auxílio de um qualificado informante indígena, nheengatu falante, mas ele próprio era fluente nessa língua, cujas culturas regional e indígena de referência conhecia extensamente. Viveu por 43 anos no Brasil e faleceu em 1926, solitário, confinado num rancho do leprosário de Umirizal, em Manaus.

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ISBN: 978-85-7480-638-9
Medidas: 16 x 23 cm
Páginas: 536
Edição: 1ª
Ano: 2014
Assunto: Linguística, Dicionário
Encadernação: Brochura
Preço: R$ 72,00

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Chuva de dúvidas

Bruno Molinero | Folha de São Paulo | 29 de março de 2014

"Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura", de Liev TolstóiUm rato vivia embaixo de um celeiro e se alimentava de restos de comida que caíam por um buraquinho no chão. Certo dia, ele decidiu aumentar o tamanho do furo. Um camponês, porém, percebeu o grande buraco e decidiu tapá-lo.

Essa é uma das histórias que o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) contava para crianças que estudavam na escola que ele mantinha em sua propriedade. Os textos agora estão reunidos em Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, que tem também um outro volume a ser lançado.

Mas o que a história do rato quer dizer? Que é ruim ter o olho maior que a barriga? Ou que é melhor não chamar a atenção? As histórias não trazem uma conclusão. Ao contrário: inundam a cabeça de dúvidas. É da troca de ideias que o escritor acreditava nascer a educação.

E tudo isso sem ser cansativo. Tolstói para crianças é bem diferente do que adultos estão acostumados: suas fábulas são curtinhas, ao contrário de seus romances famosos, que podem ter mais de mil páginas.

Os alunos de uma escola da Rússia que o digam. Após lerem os contos, mais de cem anos depois de escritos, eles os ilustraram. São esses desenhos que dão cor às páginas do novo livro.

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Leia a resenha de Renato Tardivo sobre o livro

Veja mais ilustrações do livro

Ilustração de Mikhail Morósov, 14 anos

Ilustração de Ksiucha Melnitchenko, 14 anos

 

 

 

Casa da Escrita: encontro com Beatriz Helena Ramos Amaral (Coimbra)

Beatriz HelenaCaros amigos do “Clube dos Amigos da Casa da Escrita”, na próxima segunda-feira, 14 de Abril às 18h00, decorrerá um encontro com a escritora brasileira Beatriz Helena Ramos Amaral, sob o lema: “A Música na Raiz do Poema: Interconexões e Ressonâncias”.

Nele percorreremos “A música na raiz: a poesia de Beatriz Helena Ramos Amaral” e “A trajectória poética de Edgard Braga”. A entrada é livre.

 

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard BragaNa primeira parte, a poeta e ensaísta apresenta: poemas de sua autoria, do CD RESSONÂNCIAS (por ela gravado em 2010 em parceria com o músico Alberto Marsicano – voz/poesia e sitar indiano/MCK). São poemas pertencentes aos livros Alquimia dos Círculos (Escrituras Editora, 2003, São Paulo) e Luas de Júpiter (Anome, Belo Horizonte, 2007), poemas de Haroldo de Campos (do livro Crisantempo, Ed. Perspectiva, 1998) e um poema especialmente dedicado ao extraordinário poeta, tradutor, ensaísta, crítico e professor brasileiro. Leitura de poemas conjuntamente com o áudio do disco (em cânone).

Na segunda parte, discorre sobre sua pesquisa e seu recentíssimo livro A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga (Ateliê Editorial, 2013), que traz prefácios de Augusto de Campos, Olga de Sá e Maria José Palo. Indicada pela PUC-SP como finalista do Prêmio ANPOLL 2008, a pesquisa de Beatriz aborda as várias fases da poesia de Edgard Braga (1897-1985), enfatizando o eixo metalinguístico que a percorre.

Casa da Escrita
Rua Dr. João Jacinto nº8,
Sé Nova – Coimbra
Tel. +351 239 85 35 90
http://casadaescrita.cm-coimbra.pt/

Edgard Braga

O longo percurso de sua produção literária (1933-1984) e seus treze livros publicados revelam uma intensa transmutação e a rica, polifônica e bem sucedida experimentação realizada a partir dos anos sessenta, em especial a poesia visual, os tatoemas, a poesia caligráfica, que, até hoje, influencia nomes como Arnaldo Antunes, Tadeu Jungle e Walter Silveira. Participou da Revista Invenção, conjuntamente com os criadores da Poesia Concreta Brasileira, Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, chegando a coeditar a página literária Invenção, no início dos anos sessenta.

Debate sobre a produção cultural durante a Ditadura

O Memorial da América Latina promove neste mês de abril um ciclo de eventos que atualizam a reflexão sobre a Ditadura Militar brasileira. Na próxima quinta-feira, dia 17, o professor da USP Celso Favaretto, autor de TropicáliaAlegoria Alegria, irá debater sobre a produção cultural de resistência ao regime militar.

Biblioteca do Memorial da América Latina
quinta, 17/04, às 18h30 | tel. (11) 3823-4732
Entrada gratuita
Veja a programação completa

 

Tropicália: Alegoria Alegria, de Celso FavarettoTropicália: Alegoria Alegria

Celso Favaretto

Lançado em 1979, este estudo de Celso Favaretto tornou-se um clássico sobre o movimento da Tropicália, leitura imprescindível aos interessados pelo tema. O autor reconstitui os nexos entre as composições, os arranjos e as cenas que caracterizam os gestos particulares dos tropicalistas. Explica também as tendências gerais do movimento e mostra como ele desenhou uma nova estética para a música brasileira. Esta reedição, revisada e ampliada, conta com prefácio do músico e linguista Luiz Tatit. Mais detalhes

Escritores, Gatos e Teologia – Waldecy Tenório

Escritores, Gatos e Teologia – Waldecy TenórioLivro reúne ensaios de Waldecy Tenório, que “estavam espalhados por aí” e investiga a literatura, “testemunha da raiz teológica dos problemas humanos”

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

A Ateliê Editorial lança Escritores, Gatos e Teologia. Livro traz ensaios escritos por Waldecy Tenório, quase todos nascidos no ambiente universitário, frutos de cursos ministrados na pós-graduação em Ciências da Religião da PUC-SP, na pós-graduação em Letras, na USP, ou na forma de artigos publicados em livros coletivos e em revistas acadêmicas de diferentes universidades. Esses ensaios misturam ficção e não ficção, são variações de um mesmo tema – a literatura –, trazem uma “certa versão dos fatos”, e apresentam um viés interrogativo, próprio de uma investigação que não termina, como se cada ensaio fosse o mesmo ensaio que recomeça ad infinitum. Os ensaios recomeçam, porque, segundo o autor, a escrita é uma das formas de resistir ao sentimento de abandono que nos atormenta.

“Quem passar pelas páginas (deste livro) poderá aprofundar suas perguntas e ampliar suas dúvidas na companhia de autores e personagens como Virgilio e Dante, Dostoiévski e o Grande Inquisidor, Madame Bovary e Thérèse de Lisieux, Proust e Manuel Bandeira, Joyce e Santo Agostinho, Adélia Prado e Hilda Hilst, Riobaldo e o interlocutor cruel que o atormenta, Teilhard de Chardin e Saint-Exupéry, Drummond e Guimarães Rosa, os vagabundos de Beckett e aquela mulher de Sevilha dos poemas de João Cabral. Cada um ao seu modo, todos nos lembrarão o fragmento de Heráclito: “Se não se espera não se encontra o inesperado” e esta frase, vinda da noite dos tempos, é uma chave de leitura deste livro. Isto posto e uma vez que a crítica literária nasce de uma dívida de amor, eu o deposito primeiro em suas mãos, cara leitora, e depois nas suas, hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão…” (Waldecy Tenório)

Waldecy Tenório nasceu em Palmares (PE), estudou Humanidades no Seminário de Olinda, graduou-se em Letras Clássicas e fez o doutorado em Filosofia na Universidade de São Paulo. Professor do Colégio Equipe e do Colégio Santa Cruz, professor na graduação e na pós-graduação da PUC-SP (respectivamente Introdução ao Pensamento Teológico e Literatura e Teologia), assessor de Paulo Freire na Secretaria de Educação de São Paulo, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. É autor de A Bailadora Andaluza: a Explosão do Sagrado na Poesia de João Cabral (Ateliê Editorial / Fapesp), e de O Amor do Herege: Resposta às Confissões de Santo Agostinho (Edições Paulinas), entre outros. Com Plinio Martins Filho organizou O Leitor Insone, uma homenagem ao crítico João Alexandre Barbosa publicado pela Edusp em 2007. Como jornalista, foi editor do caderno Cultura do jornal O Estado de S. Paulo. Apesar de aposentado, continua pesquisando, publicando artigos e resenhas em revistas acadêmicas e na grande imprensa, participando de seminários e ministrando cursos. 

Os Dois Lados da Escuta

Renato Tardivo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca (volumes I e II), de Lars Von Trier, é uma obra prima necessária e, ao mesmo tempo, sintomática dos dias atuais. Poucos conseguem, como ele, contar bem uma história ao cutucar com força nossas feridas, deixando estrias de sangue na pele – do corpo e da tela.

No primeiro filme, uma mulher, Joe, é encontrada na rua com sinais de espancamento por um homem mais velho, Seligman. Ele a leva para a sua casa e, mais que abrigo e calor, lhe oferece a escuta. Joe trata de reconstruir sua história, tendo Seligman (e o espectador) como testemunha.

O filme alterna o presente, em que Joe conta a história para Seligman em um dos quartos da casa dele, e o passado rememorado em flashbacks. Joe retoma a infância, a descoberta da sexualidade, as primeiras relações, a compulsão sexual na juventude, o reencontro com o primeiro homem.

O volume I termina em aberto, revelando cenas do II nos créditos. A busca incessante por prazer de Joe encontra, ao fim da primeira parte, o esgotamento. E tudo indica que a busca, no limite impossível, se voltará, no volume II, para o seu corpo e potencializará sua degradação.

O equilíbrio entre o tempo da ação e os flasbacks, no volume I, tende à perfeição. Mas, sendo um filme inacabado, há menos riscos. No entanto, as chances de a história se perder, sobretudo por uma possível banalização das cenas chocantes (como talvez tenha ocorrido em Anticristo, do mesmo diretor), não seriam pequenas no volume II.

Não é o que ocorre: a continuação é simplesmente sublime.

Aspectos que ficam em aberto na parte anterior são explorados: a relação (transferencial) entre Joe e Seligman, também ele um ser faltante, o mergulho radical de Joe nas perversões, sexuais e do capital (nesse sentido, o filme lembra O Cheiro do Ralo, produção nacional de 2005 dirigida por Heitor Dhália), sua inadequação às instituições e normas vigentes, as (outras) regras dentro das quais ela pode (incestuosamente) ser mãe.

Ninfomaníaca não é um tratado sobre perversões, nem um raio x da subjetividade de Joe. O filme, na figura da protagonista, é uma metáfora perfeita – e toda metáfora perfeita é, também, um paradoxo – das modalidades de vínculos que, mediados pelo chicote, estabelecemos na contemporaneidade: da cegueira de si e do outro, da destrutividade de todos.

Lars Von Trier, munido de sua conhecida câmera na mão, dos cortes dentro do plano, aspectos finamente trabalhados mas que conferem um caráter documental e despojado à narrativa fílmica, retoma eventos do volume I e os resolve de modo surpreendente. Mais ainda: o volume II, por projeto uma continuação, traz a temática da continuidade – e seus limites – no próprio enredo. Assim, se o filme não se perde na banalização da violência, tampouco se perde na redenção das personagens: a arma não disparar uma vez (desejo inconsciente?) não significa que ela não possa disparar depois.

De um lado da escuta – e do outro.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

Ilustrações do livro Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1

Neste Dia Internacional do Livro Infantil selecionamos do livro algumas das belas ilustrações feitas por crianças russas a partir das narrativas escritas por Liev Tolstói

Escrito por Liev Tolstói e ilustrado pelas crianças da Escola Infantil de Artes n. 9, da cidade de Ijevsk, na Rússia, este livro traz 38 narrativas baseadas em fábulas, histórias reais, contos folclóricos e outros textos que eram usados em sala de aula na escola rural criada pelo escritor russo. Preocupado com a educação das crianças e dos pequenos camponeses, Tolstói produziu muitos livros de histórias para crianças e cartilhas. Leia o release

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Leia a resenha sobre o livro escrita por Renato Tardivo

Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1"