Monthly Archives: novembro 2013

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

50 letras, sem tirar nem pôr

Marcelino Freire | Folha de São Paulo | 17.11.2013

Os Cem Menores Contos Brasileiros do SéculoDALTON TREVISAN NÃO poderia faltar. Pus no juízo: vou atrás, insisto, me rastejo, ínfimo. Uma antologia de microcontos não ficaria completa sem ele. Mestre da concisão. Alto Dalton. Máximo, grande. Mas ele vive recluso, não dá as caras. Eu não desisto. O ano era de 2004. Muito antes do Twitter. Resolvi criar a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial). Uma referência à organizada pelo Italo Moriconi, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“. Ao Italo, pedi a assinatura de um microprefácio. Que ele generosamente fez. Em 50 palavras. Os contos, esses não, teriam de ter até 50 letras. Sem contar o título. Isso, inspirado que fui pelo microconto mais famoso do mundo, o do guatemalteco Augusto Monterroso. Uma história de 37 letrinhas, a saber: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Toparam participar Sérgio Sant’Anna, Adriana Falcão, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Modesto Carone, Andréa DeI Fuego, Glauco Mattoso…

Lygia Fagundes Telles escreveu um, genial, só em diálogos: “- Fui me confessar ao mar. / – E o que ele disse? / – Nada.”.

Maravilha!

Mas faltava o Dalton.

Até o Millôr Femandes topou – esse, antigo seguidor dos microformatos. Com Millôr foi relativamente fácil. Eu já tinha estado com ele no Rio para um papo raro. Cheio de humor e irreverência. Ligou-me para se certificar: “Até 50 letras, sem contar o título, é isto?”. É isto, Millôr. E não é que ele me mandou um conto em contadinhas 50 letras? No entanto, o título era imenso. “Fiz o que você me pediu, não fiz?”

Fez, sim, fez.

Mas repito: faltava a presença do Vampiro de Curitiba. Eu havia mandado uma carta para ele. Havia mais de um mês.

Esperei, esperei. Noventa e nove escritores já reunidos. O livro todo diagramado. Organizado por ordem alfabética. Na letra “D”, antes de Daniel Galera, deixei o espaço vago.

Qualquer coisa, se o Dalton não me responder, eu invento um autor:

Dalvan Trigueiro. Faço uma homenagem, sei lá, à revelia. E mando o livro para a gráfica, entristecido.

O tempo ficando miúdo. A esperança é a última que chega. Em cima da hora. Eis que recebo um envelope. E, dentro, o conto, também em diálogos: “- Lá no caixão…/ – Sim, paizinho./ -… não deixe essa aí me beijar”.

E eu quase morro.

Dalton Trevisan é desses escritores que me deixam sem fôlego. É ele em que me espelho quando coloco minhas neuroses na página. Gosto de suas obsessões. Inquietações. A cada livro seu, uma surpresa. Dalton escreve na velocidade da luz.

Não se engane. Ele não é só o “dono” de um estilo rápido. Vupt, vapt. Dalton escreve à velocidade da sombra. Vai sempre longe.

E foi assim.

A antologia finalmente saiu. Até hoje é referência para quem quer estudar as narrativas curtas. Foi trabalho, fiquei sabendo, inédito no mundo, à época: esse de reunir tantos autores, de uma vez só, escrevendo “enormemente menor”.

A todos, até hoje agradeço. Sobretudo aos que já se foram: Moacyr Scliar, Manoel Carlos Karam, Alberto Guzik, Wilson Bueno. E idem ao sempiterno Millôr.

E essa antologia também me deu, ave, a amizade do Dalton. De quando em quando, assim, a gente se fala. Via correios.

O contato mais surpreendente foi pouco antes de ele ganhar o Prêmio Camões, em maio de 2012. Enviei a ele o meu livro de contos “Amar É Crime” (Edith).

Recebi, em troca, “O Anão e a Ninfeta“, com a seguinte dedicatória:

“Ao Marcelino Freire, com a muita admiração do seu leitor fiel”.

Dedicatória Dalton Trevisan

E eu quase morro. De novo. Em saber que ele se diz o meu “leitor”. Eu que aprendi a ler com ele. Nas entrelinhas. E continuo a apreender.

E a me surpreender.

A dedicatória do Dalton, por exemplo, tem exatas 50 letras. Sem tirar nem pôr. Pode crer.

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Nerval, o tenebroso

Gérard de Nerval: Cinquenta PoemasMarcelo Coelho  | Folha de São Paulo | 13.11.2013

Cidalisas, Melusinas. Mirto e Cibele. Santa Gudula e Lusignan: belos nomes, que pouquíssima gente conhece, enfeitam os versos de Gérard de Nerval (1808-1855), que aparecem agora no Brasil em bonita tradução de Mauro Gama para a Ateliê Editorial.

Existem poetas difíceis, poetas obscuros, poetas “modernos”. Nerval cabe em categoria ligeiramente diversa. Ele é um mestre do “oculto”, do “esotérico”. Entre seus livros de cabeceira estava o “Dicionário Mito-Hermético”, de um certo Dom Pernety, e ele abusava de referências cifradas à alquimia e ao tarô.

Natural que os surrealistas, quase um século depois, tomassem Nerval como um precursor. Natural também que os editores e eruditos se esfalfem, até hoje, para entender os seus poemas mais famosos.

A edição brasileira não se perde muito em detalhes, e deixa apenas que o leitor comece a se familiarizar com a beleza cintilante e visionária de alguns versos, que mesmo em português se impõem à memória do leitor.

“Eu sou o Tenebroso —o Viúvo— o Inconsolado” começa o mais célebre soneto de Nerval. Até aí, tudo bem; escritores brasileiros, como Carlos Drummond, não deixaram de prestar homenagem às dores eróticas e psíquicas do poeta, que se enforcou numa noite de inverno, na rua da Velha Lanterna, em Paris.

Mas o verso seguinte do poema já nos deixa sem referências: Nerval se compara “ao Príncipe da Aquitânia na torre derruída”. A torre em ruínas, diz a nota de uma edição francesa, é uma das cartas do tarô, e o príncipe da Aquitânia é o próprio poeta, que se julgava descendente de alguma nobreza imaginária. Essas explicações que nem sempre ajudam.

O mais importante é sentir que tudo se passa em outra esfera de realidade. Nerval fala de personagens obscuríssimos como se todos nós os conhecêssemos. A magia sonora do poema vai crescendo, e quando chegamos às estrofes finais é como se as próprias palavras comuns, já sem necessidade de notas explicativas, ganhassem um sentido que só o poeta pode desvendar.

“Tenho o rosto ainda rubro ao beijo de uma Rainha…/Sonhei dentro da grota onde a Sereia nada…” e na lira de Orfeu modulei “os suspiros da Santa e os gritos da Fada”.

Que Santa? Que Fada? Talvez não dê para saber exatamente a quem o poeta se refere. Como essas palavras encerram o soneto, algo de definitivo se pronuncia, e seu impacto cresce na mente do leitor.

Que uma fada grite, eis a principal surpresa; que a seus gritos se alternem os suspiros de uma santa, é algo que se pode tentar interpretar.

Tradutor do “Fausto” de Goethe, Nerval parece estar falando daqui de um “eterno feminino” que é feito de carne e de espiritualidade. O grito de uma fada só pode ser um grito de prazer; o suspiro da santa é um enlevo de pureza.

Ao mesmo tempo, essa dualidade possui um significado histórico, dentro de preocupações que Nerval compartilhava com seu contemporâneo Heine (1797-1856), cujos escritos também traduziu.

A saber, o contraste entre o mundo pagão e o mundo do catolicismo medieval. A fada, a sacerdotisa, a druida, a deusa grega ou egípcia, sobrevive nas florestas, nos templos e nos cultos secretos dos iniciados. “Os Deuses no Exílio”, lindo livro em prosa de Heine, trata dessa sobrevivência também —e também tem tradução brasileira, pela editora Iluminuras.

Mas o mundo das santas medievais, das torres e dos castelos de província também está em ruínas nos bosques europeus. O “viúvo”, o “desconsolado”, é alguém que tenta, como Orfeu depois da morte de Eurídice, trazer a amada de volta. Não mais da profundeza infernal, mas de um paraíso que a indústria e a ciência do século 19 sepultaram.

Os poemas de Nerval parecem, assim, registrar numa língua quase desconhecida a expectativa de que um mundo encantado, rapidamente entrevisto em sonho, pudesse renascer.

Uma coisa é certa, diz Nerval num ciclo de sonetos igualmente famoso: “Deus não existe”, morreu, e o céu está vazio. Tais palavras, num lance surpreendente, saem dos lábios de Jesus.

Em “Cristo no Jardim das Oliveiras”, o filho de Deus tenta avisar os apóstolos da “novidade”; todos dormem, menos Judas —que se afasta, “amargo e pensativo”, achando que lhe pagaram pouco pela traição. Jesus é capturado pelos guardas, como um novo Ícaro; tragam-me esse louco, diz Pilatos.

Enquanto isso, o Olimpo desaba; nenhum oráculo pagão irá decifrar o enigma de Jesus —aquele que deu alma aos filhos do barro. Criaturas que, na mitologia de Nerval, procurarão unir-se às filhas do fogo pagão.

Os enigmas de Nerval, o tenebroso, continuam brilhando na escuridão.

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Tempo solto, de Amálio Pinheiro

Amálio PinheiroAmálio Pinheiro  | Diário do Nordeste | 12.11.2013

De acordo com a ensaísta e professora Jerusa Pires Ferreira que assina o prefácio da obra, “impressiona em Amálio Pinheiro o saber lidar com o verso, a medida, ritmo e sonoridade. Dá-se a condução perfeita do insuspeitado metro, que regula o discurso, mesmo para depois soltar-se. É aí que se complementam em exercício poético ‘a textura de uma folha e a trama de uma palha’. O aparecimento deste livro nos redime, fazendo crer que se trata de uma conquista do poeta, que nos vem libertar da repetições cansativas ou da pressa de dizer”. O trabalho tem acabamento impecável em capa grossa. Saiba mais

Obra-prima brasileira, em pleno século XXI

Renato Pompeu | Diário do Comércio

Coisas do Diabo Contra

Este belíssimo romance, Coisas do Diabo Contra, do escritor baiano radicado em São Paulo, Eromar Bomfim, lançado pela Ateliê Editorial, se insere na tradição da grande arte, nacional e internacional. Essa obra vai surpreender os críticos que alardeiam “o fim da literatura como obra de arte”. Eles se valem da argumentação de que, hoje em dia, estamos na era dos best-sellers programados. Os escritores não estariam mais preocupados com a estética, na forma, ou com as precariedades da condição humana, no conteúdo. Não estariam mais interessados em iluminar, por meio da beleza, os desvãos da alma de seus semelhantes. Pelo contrário, os escritores estariam interessados exclusivamente em publicar obras que o público quer ler, ou melhor, quer comprar. Essa atitude, inclusive, seria mais democrática do que a grande arte, muitas vezes difícil de entender. A literatura seria basicamente um exercício de entretenimento, não um exercício de atingir o que há de mais profundo entre nós, o senso de beleza, o horror tingido de fascínio pelo mal, e a sede eterna de justiça, felicidade e paz.

Pois é justamente a grande arte que Eromar Bonfim aspira. A trama, aparentemente é simples: um rico empresário quatrocentão se convence de que a única experiência que pode realmente engrandecer o ser humano é assassinar outro ser humano. Por meio de matar um semelhante, se chegaria à graça da plena realização de uma vida. Bomfim parece exaltar aqui o fascínio pelo mal, tão presente no interior de cada um de nós, cuja maioria procura exorcizar esse fascínio deleitando-se na fruição de histórias fictícias de crimes e de histórias reais de torturas e de genocídios.

Mas o que parecia, nas mãos de Bomfim, ser uma exaltação do mal, vai paulatinamente se transformando em seu contrário, o ataque contundente à banalidade do mal. O filho do empresário assassino, testemunha do crime de seu pai (este queria “educar” o filho para que assimilasse o gozo pelo sacrifício da vida de outrem), corre desesperadamente pelas ruas da cidade de São Paulo, fugindo ao horror do crime.

A cidade é um dos principais personagens do livro. E aqui Bomfim revela todo o seu talento de escritor. O autor novato, que se baseia mais na sua experiência de vida do que na sua criatividade, costuma inserir as ações de seus personagens em locais que o autor conhece, mas a maioria de seus leitores não. O autor novato sente, ele próprio, a “aura” que cada rua, bar ou prédio que descreve faz evocar. Mas o leitor, por não conhecer o lugar, não sente a “aura” do local, nem a evocação que dele emana. Um autor mais experiente pode, no entanto, criar lugares fictícios do qual emanam evocações universais. Monteiro Lobato, por exemplo, ao descrever um sítio, mencionava a casa, o paiol, o pomar, a horta, o curral, o estábulo, sem nunca esclarecer como esses pontos se relacionavam no espaço uns aos outros. A ideia de Lobato era que todo mundo tem a noção do que seja um paiol ou pomar, mas não se identificaria com a descrição de um sítio concreto, em que o paiol ficaria numa determinada posição em relação ao paiol.

Bomfim dá um passo adiante. Ele descreve ruas, galpões, prédios, casas e avenidas realmente existentes na cidade de São Paulo, mas o leitor que não conhece esses lugares sente o que significam, o que se vivencia em cada espaço, tal a profusão de sensações que o autor descreve como emanando de cada lugar. Um galpão na Mooca, rigorosamente descrito, ou o Jardim da Aclimação, cuidadosamente mapeado, evocam sensações universais e a vivência das emoções que cada lugar provoca será sentida por qualquer leitor em qualquer local do mundo.

Isso quanto à forma. Quanto ao conteúdo, Bomfim não só transforma em repulsa o fascínio inicial pelo ato de matar outra pessoa como vai muito mais além na condenação do mal. Ele demonstra que a orgulhosa cidade de São Paulo é um produto da sistemática perseguição e exploração dos índios pelos bandeirantes e da cruel exploração secular do ser humano pelo ser humano; o conforto de uns poucos foi sustentado pelo sofrimento e pela exaustão de muitos outros.

O ponto principal, entretanto, é que, dentro da tradição da grande arte, Bomfim cria uma linguagem nova, em que cada palavra e cada frase é cuidadosamente lapidada, de modo que o conjunto se frui como se fosse uma colorida escultura de sons.

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