Daily Archives: 27/08/2013

Faleceu este mês Paulo Penido, sobrinho de Pedro Nava

Lamentamos informar a morte de Paulo Menezes Nogueira Penido (1936 – 2013) ocorrida no dia primeiro de agosto, no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu.

Paulo Penido era médico radiologista e reumatologista. Sobrinho da esposa de Pedro Nava, ficou com a incumbência de cuidar do acervo das obras de Nava. Pela Ateliê, publicou dois livros como organizador: Bicho Urucutum e Anfiteatro, nos quais conta sua convivência com o casal Nava, pois quando jovem morou com os tios. São casos curiosos e muito interessantes para conhecermos Pedro Nava como pessoa e médico. Seu irmão poeta Egberto Penido publicou o livro Sombras e Distâncias, também pela Ateliê.

Entrando nos Clusters de Pedro Marques

Marcelo Veronese

Clusters, de Pedro MarquesO título vem como que forjado na capa grossa, Clusters incrustado fundo com letras que parecem ter sido datilografadas numa máquina de escrever para não deixar as palavras lineares, para que no extremo início os caracteres já se vissem livres de qualquer objetivo, isentos de fazerem de sua união qualquer significado final, sem alvos, e ainda assim pesados, chumbo no papel duro, sulco no olho (que o dedo pode revelar plano, talvez) enquanto o nome do poeta desce pela margem direita, de lado, paralelo à esquerda cor de vinho (uma lombada caudalosa), nome como numa escrita vertical que antes cruzou o título – como acontecerá dentro do livro, na relação entre os títulos dos poemas e os próprios versos: Clusters aperta o gatilho da mente, o autor escapa da cena – e o leitor entra…

Eu leio e releio a dedicatória, como quem se cumprimenta demoradamente, eu pulo o prefácio porém me deparo com uma introdução em prosa, eu a leio sem atenção, eu quero os versos – poemas! – e, assim que leio “I” de Olfativas, tudo o que li na prosa volta à minha mente, mesmo sem eu querer “voltar”, quero ir adiante, releio o poema porque “massa”, “conjunto”, “música”? Sim, é isso; não, não só isso: ali em “I” há poucos versos e muito mais coisa, bem ali leio tanto e tantas vezes que me rendo, sim, tudo o que veio antes é verdade, toda a prosa falava da poesia, que então se mostra muito mais livre e forte e alta que eu não tenho coragem de escrever uma palavra sobre este poema.

A tentação é voltar mais atrás e ler o que Lêdo Ivo disse sobre os livro, mas não: eu não me rendi ao que não entendo. Eu me rendo a uma novidade que, confesso, não esperava que coubesse logo ali, de início, naqueles poucos versos, e isso me perturba agudamente, é estranho, percebo que reli o “mesmo” poema várias vezes, como se a releitura não me desse outros modos e as várias maneiras de senti-lo. De modo que, no fundo, penso já se encontrar concentrada ali tudo, ou muito já exposto de antemão numa composição feita para uma única leitura, e em verdade, isso é fazer um poema (digo, um único e imortal poema), isso é estilo em poesia, essência e plural, conjunto e isolação, Pedro abre seu livro com um alcance inimaginável pra mim, esse que tem medo de não conseguir contar o que viu e o que ainda sente, que até então achava que não sabia quem era ele, o poeta, nem quem era Clusters, mas pensava saber o que era poesia.

Ok, uma palavra (que vale por duas): maravilhado – espanto e admiração…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Organizou a Antologia da Poesia Parnasiana Brasileira e co-organizou a Antologia da Poe­sia Romântica Brasileira, ambas em 2007. Pela Ateliê publicou Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

Uma caixinha de surpresas

Revista Superpedido | Agosto/setembro 2013

Em Clichês Brasileiros, o designer e escritor Gustavo Piqueira segue desafiando as possibilidades do livro impresso – desta vez, em uma edição que não tem capa tradicional nem lombada 

Gustavo Piqueira, autor de "Clichês Brasileiros"Com um trabalho notável à frente da Casa Rex, seu estúdio com sedes em São Paulo e em Londres que conquistou centenas de prêmios de design gráfico em todo o mundo, Gustavo Piqueira é nome obrigatório em qualquer seleção de artistas visuais que se escale no país. Mas que ninguém tente restringir seu jogo para apenas uma fatia do gramado: ele é daquele tipo de atleta que gosta de atuar em todas. Apaixonado por livros, Piqueira encontrou no mercado editorial um campo ideal para dar vazão à sua fecunda criatividade. Seja como escritor, tradutor, ilustrador ou até mesmo organizador de coleções, este craque tem produzido um elenco de obras que, por mais heterogêneas que pareçam, tem como fio condutor uma sólida e marcante característica: o inesperado.

Responsável por títulos tão díspares como o fictício Marlon Brando Vida e Obra, o irônico Manual do Paulistano Moderno e Descolado e o juvenil A Vida sem Graça de Charllynho Peruca, entre outros, ele volta a inovar com Clichês Brasileiros, lançamento da Ateliê Editorial. Desta vez, utilizando-se somente de imagens de um antigo catálogo de clichês tipográficos – matrizes outrora usadas para impressão –, o autor criou uma narrativa visual única. Aproveitando o duplo sentido do termo, conta a história do Brasil por meio de nossos clichês – desde os mais antigos, como os estereótipos da chegada dos portugueses e da catequização dos índios, até os da atualidade, caso dos engarrafamentos nas cidades e os condomínios fechados (confira na página seguinte algumas dessas imagens).

Porém, não é apenas aí que o livro surpreende. Depois de fixar um espelho na capa de sua obra anterior, Iconografia Paulistana, Gustavo Piqueira concebeu um livro sem capa nos moldes tradicionais – há apenas uma lâmina de madeira impressa em serigrafia, afixada na guarda com uma fita adesiva personalizada. Além disso, a lombada tem a costura exposta. Delírio de designer? Nada disso. “A ideia é expandir as possibilidades de um livro impresso em sua dimensão de objeto, mas mantendo um conteúdo que se sobrepõe à forma”, explica o paulistano, revelando sua preocupação em não se deixar levar apenas pelo lado visual. “Muitas vezes esses ‘livros-objetos’ não primam pela riqueza do assunto abordado, de tão preocupados que estão com a exuberância visual em si.”

Para essas obras, Piqueira também busca soluções que possibilitem tiragens industriais, a fim de colocar o livro na prateleira das livrarias. Afinal, em sua opinião, ao contrário do que muitos vaticinam, a edição impressa ainda tem um longo papel a cumprir. “Não acho que o livro digital seja ‘o’ futuro do livro. É ‘um dos’ futuros, não dá para cair nesse fatalismo de que o impresso irá morrer. Meus trabalhos recentes, como Clichês brasileiros e lconografia Paulistana, por exemplo, não funcionariam em versão digital.” Independente de qualquer prognóstico, Gustavo Piqueira está fazendo sua parte: já finalizou mais uma obra, que deve ser impressa ainda neste ano, e se prepara para começar novos projetos. Os assuntos? Melhor aguardar. Afinal, ao menos quando se trata de livros, este palmeirense é uma verdadeira caixinha de surpresas.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Assista a entrevista com o autor durante o lançamento do livro

Ilustração do livro: "Clichês Brasileiros"

Ilustração do livro "Clichês Brasileiros"