Monthly Archives: agosto 2013

Faleceu este mês Paulo Penido, sobrinho de Pedro Nava

Lamentamos informar a morte de Paulo Menezes Nogueira Penido (1936 – 2013) ocorrida no dia primeiro de agosto, no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu.

Paulo Penido era médico radiologista e reumatologista. Sobrinho da esposa de Pedro Nava, ficou com a incumbência de cuidar do acervo das obras de Nava. Pela Ateliê, publicou dois livros como organizador: Bicho Urucutum e Anfiteatro, nos quais conta sua convivência com o casal Nava, pois quando jovem morou com os tios. São casos curiosos e muito interessantes para conhecermos Pedro Nava como pessoa e médico. Seu irmão poeta Egberto Penido publicou o livro Sombras e Distâncias, também pela Ateliê.

Entrando nos Clusters de Pedro Marques

Marcelo Veronese

Clusters, de Pedro MarquesO título vem como que forjado na capa grossa, Clusters incrustado fundo com letras que parecem ter sido datilografadas numa máquina de escrever para não deixar as palavras lineares, para que no extremo início os caracteres já se vissem livres de qualquer objetivo, isentos de fazerem de sua união qualquer significado final, sem alvos, e ainda assim pesados, chumbo no papel duro, sulco no olho (que o dedo pode revelar plano, talvez) enquanto o nome do poeta desce pela margem direita, de lado, paralelo à esquerda cor de vinho (uma lombada caudalosa), nome como numa escrita vertical que antes cruzou o título – como acontecerá dentro do livro, na relação entre os títulos dos poemas e os próprios versos: Clusters aperta o gatilho da mente, o autor escapa da cena – e o leitor entra…

Eu leio e releio a dedicatória, como quem se cumprimenta demoradamente, eu pulo o prefácio porém me deparo com uma introdução em prosa, eu a leio sem atenção, eu quero os versos – poemas! – e, assim que leio “I” de Olfativas, tudo o que li na prosa volta à minha mente, mesmo sem eu querer “voltar”, quero ir adiante, releio o poema porque “massa”, “conjunto”, “música”? Sim, é isso; não, não só isso: ali em “I” há poucos versos e muito mais coisa, bem ali leio tanto e tantas vezes que me rendo, sim, tudo o que veio antes é verdade, toda a prosa falava da poesia, que então se mostra muito mais livre e forte e alta que eu não tenho coragem de escrever uma palavra sobre este poema.

A tentação é voltar mais atrás e ler o que Lêdo Ivo disse sobre os livro, mas não: eu não me rendi ao que não entendo. Eu me rendo a uma novidade que, confesso, não esperava que coubesse logo ali, de início, naqueles poucos versos, e isso me perturba agudamente, é estranho, percebo que reli o “mesmo” poema várias vezes, como se a releitura não me desse outros modos e as várias maneiras de senti-lo. De modo que, no fundo, penso já se encontrar concentrada ali tudo, ou muito já exposto de antemão numa composição feita para uma única leitura, e em verdade, isso é fazer um poema (digo, um único e imortal poema), isso é estilo em poesia, essência e plural, conjunto e isolação, Pedro abre seu livro com um alcance inimaginável pra mim, esse que tem medo de não conseguir contar o que viu e o que ainda sente, que até então achava que não sabia quem era ele, o poeta, nem quem era Clusters, mas pensava saber o que era poesia.

Ok, uma palavra (que vale por duas): maravilhado – espanto e admiração…

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Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Organizou a Antologia da Poesia Parnasiana Brasileira e co-organizou a Antologia da Poe­sia Romântica Brasileira, ambas em 2007. Pela Ateliê publicou Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

Uma caixinha de surpresas

Revista Superpedido | Agosto/setembro 2013

Em Clichês Brasileiros, o designer e escritor Gustavo Piqueira segue desafiando as possibilidades do livro impresso – desta vez, em uma edição que não tem capa tradicional nem lombada 

Gustavo Piqueira, autor de "Clichês Brasileiros"Com um trabalho notável à frente da Casa Rex, seu estúdio com sedes em São Paulo e em Londres que conquistou centenas de prêmios de design gráfico em todo o mundo, Gustavo Piqueira é nome obrigatório em qualquer seleção de artistas visuais que se escale no país. Mas que ninguém tente restringir seu jogo para apenas uma fatia do gramado: ele é daquele tipo de atleta que gosta de atuar em todas. Apaixonado por livros, Piqueira encontrou no mercado editorial um campo ideal para dar vazão à sua fecunda criatividade. Seja como escritor, tradutor, ilustrador ou até mesmo organizador de coleções, este craque tem produzido um elenco de obras que, por mais heterogêneas que pareçam, tem como fio condutor uma sólida e marcante característica: o inesperado.

Responsável por títulos tão díspares como o fictício Marlon Brando Vida e Obra, o irônico Manual do Paulistano Moderno e Descolado e o juvenil A Vida sem Graça de Charllynho Peruca, entre outros, ele volta a inovar com Clichês Brasileiros, lançamento da Ateliê Editorial. Desta vez, utilizando-se somente de imagens de um antigo catálogo de clichês tipográficos – matrizes outrora usadas para impressão –, o autor criou uma narrativa visual única. Aproveitando o duplo sentido do termo, conta a história do Brasil por meio de nossos clichês – desde os mais antigos, como os estereótipos da chegada dos portugueses e da catequização dos índios, até os da atualidade, caso dos engarrafamentos nas cidades e os condomínios fechados (confira na página seguinte algumas dessas imagens).

Porém, não é apenas aí que o livro surpreende. Depois de fixar um espelho na capa de sua obra anterior, Iconografia Paulistana, Gustavo Piqueira concebeu um livro sem capa nos moldes tradicionais – há apenas uma lâmina de madeira impressa em serigrafia, afixada na guarda com uma fita adesiva personalizada. Além disso, a lombada tem a costura exposta. Delírio de designer? Nada disso. “A ideia é expandir as possibilidades de um livro impresso em sua dimensão de objeto, mas mantendo um conteúdo que se sobrepõe à forma”, explica o paulistano, revelando sua preocupação em não se deixar levar apenas pelo lado visual. “Muitas vezes esses ‘livros-objetos’ não primam pela riqueza do assunto abordado, de tão preocupados que estão com a exuberância visual em si.”

Para essas obras, Piqueira também busca soluções que possibilitem tiragens industriais, a fim de colocar o livro na prateleira das livrarias. Afinal, em sua opinião, ao contrário do que muitos vaticinam, a edição impressa ainda tem um longo papel a cumprir. “Não acho que o livro digital seja ‘o’ futuro do livro. É ‘um dos’ futuros, não dá para cair nesse fatalismo de que o impresso irá morrer. Meus trabalhos recentes, como Clichês brasileiros e lconografia Paulistana, por exemplo, não funcionariam em versão digital.” Independente de qualquer prognóstico, Gustavo Piqueira está fazendo sua parte: já finalizou mais uma obra, que deve ser impressa ainda neste ano, e se prepara para começar novos projetos. Os assuntos? Melhor aguardar. Afinal, ao menos quando se trata de livros, este palmeirense é uma verdadeira caixinha de surpresas.

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Assista a entrevista com o autor durante o lançamento do livro

Ilustração do livro: "Clichês Brasileiros"

Ilustração do livro "Clichês Brasileiros"

Morre o músico Alberto Marsicano, introdutor da cítara no Brasil

Folha de S. Paulo | 18 de agosto de 2013

Morreu na manhã deste domingo (18) o músico paulistano Alberto Marsicano, na unidade Morumbi do Hospital São Luiz, em São Paulo. Ele tinha 61 anos.

Amigo próximo de Haroldo de Campos (1929-2003), autor do livro “Galáxias”, que ele musicou, Marsicano se apresentaria hoje na Casa das Rosas, onde o evento Hora H presta homenagem ao poeta concreto, morto há dez anos.

Leia a matéria completa

Pela Ateliê Editorial Alberto Marsicano participou das traduções dos poetas ingleses William Wordsworth (O Olho Imóvel Pela Força da Harmonia, 2008) e Percy Bysshe Shelley (Sementes Aladas, 2010).

Dia da Fotografia. A imagem do agora para sempre.

Fotografia do livro "Os Tempos da Fotografia"

Fotografia do livro “Os Tempos da Fotografia”, de Boris Kossoy

Neste dia 19 de agosto em que celebramos o Dia Mundial da Fotografia, a Ateliê selecionou 15 livros de seu catálogo, relacionados a fotografia e outros assuntos, para quem se interessar poder aproveitar um desconto especial, até o final do mês de agosto. Conheça os livros

Desde as primeiras descobertas acerca do desenho com luz, quando pintores como Leonardo da Vinci utilizavam a câmara escura para seus esboços, os avanços tecnológicos têm possibilitado maior rapidez, qualidade e menor custo na produção da fotografia. A portabilidade dos modelos de câmeras fotográficas também ampliou grandemente o número de fotógrafos profissionais e amadores, que “eternizam” e documentam momentos capturados pelo mundo afora.

Segundo Boris Kossoy, um dos principais teóricos brasileiros da área, ao mesmo tempo que a fotografia é um testemunho documental, a imagem é inevitavelmente fruto de um processo de criação, pois a pessoa por trás da câmera é quem escolhe o enquadramento e o momento da captura dos objetos que irão compô-la.

A fotografia é cheia de significados e nos permite reviver momentos, por isso, nos tocam tanto!

Leia a resenha sobre a trilogia de Boris Kossoy

Teatro Ídiche é tema de exposição no MIS

Revista: Arquivo Histórico Judaico Brasileiro

Estrelas Errantes – Memória do Teatro Ídiche no BrasilNachman Falbel lançou livro no evento que estará aberto ao público até 15 de setembro

O Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura, Museu da Imagem e do Som e Arquivo Histórico Judaico Brasileiro promoveram a abertura da exposição “Estrelas errantes: Memória do Teatro Ídiche no Brasil” no dia 17 de julho de 2013, que contou com a presença de diversas autoridades e o lançamento do livro de Nachman Falbel.

Segundo o autor do livro, a exposição resulta de uma longa pesquisa sobre a cultura ídiche em nosso país. Trazida às Américas pelos imigrantes da Europa Oriental, essa cultura sedimentada durante séculos foi dizimada em seus países de origem pela ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, pelo regime stalinista. Depois, sofreu em todo o mundo o acelerado processo de aculturação que tomou conta das comunidades judias.

O moderno teatro ídiche, assim como o conhecemos, surgiu no século XIX e teve seu momento de afirmação com Abraham Goldfaden (1840-1908), que encenou suas peças na Romênia a partir de 1876. Inicialmente o teatro apresentou-se como expressão artística voltada ao entretenimento das camadas populares, mas aos poucos passou a atrair a intelectual idade judaica e, assim, elevou seu nível literário e dramatúrgico. Graças a talentos escritores, o teatro ídiche se revelou importante veículo de reflexão sobre questões sociais, políticas e culturais do mundo judaico, daí o grande número de companhias que deram uma notável contribuição à arte da representação teatral.

A presença do teatro ídiche no Brasil pode ser notada nos círculos de teatro amador no Rio de Janeiro e em São Paulo, por vezes também em outras capitais. Atores-diretores europeus convidados para atuar em instituições culturais locais conjugaram seus conhecimentos e experiência com dedicados homens de teatro que haviam imigrado anteriormente. Assim como a literatura e a imprensa, o teatro ídiche teve seu momento áureo como parte da cultura do imigrante.

As trupes que por aqui passaram, assim como os grupos ou círculos dramáticos locais, deixaram às gerações posteriores um lastro cultural precioso. Cabe a nós a tarefa de resgatá-lo do esquecimento.

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Leonardo da Vinci, o desbravador do corpo humano

Alessandro Silva  | Jornal da Unicamp | 29 de julho a 4 de agosto de 2013

Artista italiano usou a matemática e o desenho para entender o funcionamento da “máquina” humana

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciViaje cinco séculos no tempo. Esqueça a internet, a televisão, o cinema e a fotografia. Houve uma época em que o homem teve que recorrer ao desenho para retratar sua viagem de descoberta rumo ao interior do corpo humano. Os portugueses nem haviam chegado ao Brasil quando Leonardo Da Vinci (1452-1519) começou um dos mais impressionantes levantamentos de anatomia para entender o funcionamento de órgãos, do esqueleto, dos músculos e tendões. Esta é a história pouco conhecida do artista-anatomista italiano – sim, além de pintor, escultor, músico, cientista, arquiteto, engenheiro e inventor, ele também atuou na medicina.

Ao longo de 15 anos (de 1498 a 1513), Leonardo desenhou órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano em um estudo que começou pela leitura das obras de autores da medicina pré-renascentista, como Galeno de Pérgamo (129-200), Mondino dei Luzzi (1270-1326) e Avicena (980-1037). Ele também participou de dissecações do corpo humano e de diversos animais. Porém, jamais terminou e publicou a obra que, segundo pesquisadores, poderia ter revolucionado a medicina mais de 20 anos antes que o belga Andreas Vesalius, considerado o “Pai da Anatomia”, publicasse seu livro “De Humani Corporis Fabrica”, em 1543, obra que marca a fase inicial dos estudos modernos sobre anatomia.

Para entender as implicações e a importância dos estudos anatômicos realizados durante o Renascimento, basta imaginar que, por quase mil anos, questões religiosas e culturais impediram o homem de explorar o próprio corpo e de entender o funcionamento da máquina humana – as dissecações para a observação direta do corpo humano não eram permitidas nem adotadas pelas escolas de medicina medievais. É a história desse período e o contato com as imagens de mais de 1200 desenhos anatômicos produzidos pelo próprio Leonardo da Vinci que tornam interessante o livro “Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci” (Leonardo on the Human Body), publicado pelas editoras Unicamp/Ateliê.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci“Com seus estudos anatômicos, Leonardo da Vinci ultrapassou os conhecimentos dos artistas de sua época, pois, ao observar o interior do corpo humano, viu de perto as características dos seus músculos e dos seus órgãos vitais, e mais ainda, tentou e conseguiu entender e dar explicações lógicas sobre os seus movimentos, sobre as suas ações e sobre as suas funções”, explica o cirurgião do coração Pedro Carlos Piantino Lemos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que traduziu o livro do inglês para o português, em parceria com a tradutora Maria Cristina Vilhena Carnevale.

Leonardo é tido como uma exceção entre os artistas que se propuseram a explorar a anatomia humana. Partiu dele, como destaca o professor da USP, a primeira descrição, observada em uma dissecação, de uma aterosclerose – o entupimento de uma artéria em decorrência do acúmulo de gordura.

A publicação em português dos Cadernos Anatômicos de Leonardo é resultado de dez anos de trabalho dos tradutores brasileiros. São 520 páginas e informações que explicam detalhadamente o lado anatomista do gênio italiano. Como acréscimos, Lemos criou marcações que ajudam o leitor a identificar o desenho ao comentário a ele referente. Os tradutores também inseriram termos médicos atuais que ajudam na localização das coisas descritas por Leonardo – na época em que ele aventurou-se pelo corpo humano, boa parte do organismo humano ainda não tinha nome. Inovador

Inovador

No Renascimento, artistas como Leonardo aproximaram-se de médicos-anatomistas para retratar melhor a forma humana em pinturas e esculturas. Eles foram chamados de “artistas-anatomistas”, segundo Charles O’Malley (Universidade de Stanford) e J.B. Saunders (Universidade da Califórnia), que organizaram e traduziram, do italiano para o inglês, os textos de anatomia de Leonardo da Vinci. “Embora fosse fundamentalmente um artista, [Leonardo] considerava a anatomia como sendo algo mais que simples coadjuvante da arte. Essa atitude o levou a prosseguir com seus estudos, de tal maneira que seus conhecimentos anatômicos ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, afirmam no livro.

De fato, os desenhos desse estudo de Leornardo são anotações, um roteiro de pontos que seriam ainda detalhados e esclarecidos para a publicação de um tratado de anatomia. Os detalhes, os cortes e os ângulos das figuras impressionam pelo realismo e respeito pela proporcionalidade que existe no corpo humano. A influência da engenharia e da matemática é visível: roldanas, formas geométricas e engrenagens estão presentes nas gravuras, ao lado de estruturas ósseas, de conjuntos de tendões e músculos, indícios de que ele recorreu a cálculos para interpretar os movimentos e a funcionalidade dos elementos anatômicos que observou.

De sua experiência em outras áreas, Leonardo trouxe diversas inovações para o estudo da anatomia, dentre elas a utilização da injeção de cera derretida nos ventrículos do cérebro de um cadáver para facilitar a sua dissecação.

Para a época, o desenho de Leonardo era um avanço surpreendente diante das caricatas e simples ilustrações encontradas, por exemplo, na obra de Mondino dei Luzzi, denominada “Anothomia”. Havia um menosprezo do valor pedagógico da imagem nos estudos medievais de anatomia. Uma imagem do Mondino mostra, ao fundo, um professor lendo um texto de anatomia, escrito em latim e sem figuras, enquanto seus alunos, à sua frente, auxiliados por um tutor, dissecam um corpo humano. No Renascimento, essa dinâmica de aprendizado foi rompida e os estudos de anatomia nunca mais foram os mesmos, pois o próprio professor passou a mostrar diretamente no cadáver os aspectos dos elementos anatômicos.

“O livro [de Leonardo] é uma contribuição fundamental para a compreensão do desenho como meio de conhecimento, uma ferramenta de construção do pensamento visual”, avalia a professora Lygia Arcuri Eluf, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. “Leonardo da Vinci é um grande precursor de um período bastante interessante da história do mundo ocidental, conhecido no campo das artes como ‘maneirismo’, no qual parece que todas as possibilidades de um mundo novo se abrem para os artistas.”

Com a morte do artista, discípulo herda desenhos

Apesar do brilhantismo da obra de anatomia de Leonardo da Vinci, o trabalho dele desapareceu durante vários séculos até ser encontrado e publicado. Após a morte do artista-anatomista, em 1519, todos os desenhos e textos que ele produziu foram herdados por seu discípulo Francesco Melzi, que os guardou até 1570. A partir daí, os caminhos percorridos pelas folhas dos diversos cadernos de Leonardo, particularmente as folhas dos seus estudos de anatomia, são pouco conhecidos. Em 1690, conforme pesquisas dos tradutores americanos, há evidências de que elas já estavam na Biblioteca Real de Windsor, na Inglaterra, como parte da coleção real.

O primeiro esforço para levar os desenhos e os textos anatômicos para o conhecimento público ocorreu em 1898, com a publicação de alguns deles por Theodore Sabachnikoff, voltada mais para a curiosidade dos leitores e para o fato de ser uma novidade e menos para a importância do estudo realizado. Apenas no século passado, houve um trabalho adequado para organizar os desenhos e traduzir os textos, o que resultou na edição do livro de O’Malley e Saunders – o original da tradução portuguesa publicada pela Editora da Unicamp e pela Ateliê Editora.

No Renascimento, desenho mudou e ajudou a ciência

Até o final da Idade Média, o desenho apresentava figuras que deveriam ser adoradas, a exemplo de outras culturas do passado, mas o Renascimento alterou esse caráter e permitiu que os artistas representassem o mundo, segundo a professora Lygia Arcuri Eluf, do IA.

Além disso, da era medieval para o Renascimento, os artistas tiveram à sua disposição a descoberta de materiais que ajudaram a modernizar o desenho até então realizado, tais como pedras para litogravuras de diferentes gradações, além da criação de ferramentas de escrita, como penas de metais. “Sem esses materiais, o desenho não aconteceria”, explica a professora, especialista em desenhos e gravuras.

Para ela, o papel do desenho nesse período era o de registrar como os artistas entendiam e viam o mundo por meio de investigação de toda a natureza. Era como se o homem, após um período de estagnação durante a Idade Média, iniciasse um processo de redescoberta do mundo, a exemplo das múltiplas áreas de interesse de Leonardo da Vinci, que se envolveu com pintura, escultura, música, ciência, arquitetura, engenharia e anatomia.

Nesse período, o valor pedagógico do desenho ganhou prestígio, principalmente com o surgimento da imprensa e do livro, segundo o médico Pedro Carlos Piantino Lemos, tradutor da obra de Leonardo da Vinci para o português. Até então, os médicos recusavam o uso de qualquer coisa que pudesse distrair a atenção durante a leitura dos textos. “Na Idade Média, não se levava em conta a figura, apenas o texto puro”, afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP).

Insólita Metrópole – São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim

Caio Liudvik  | Guia da Folha | 29.06.2013

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim

“Ah, São Paulo de 1932, um só corpo e uma só alma!”. “Trinta e dois não foi uma Revolução, foi uma Paixão! Vida, Paixão e Glória de São Paulo”. Assim vibra Paulo Bomfim, recordando a euforia do movimento popular que lançou os paulistanos contra o governo de Getúlio Vargas e por uma nova constituição – um dos episódios mais marcantes da história da “insólita metrópole” que é tema dos itinerários de memória e de afeto do “Príncipe dos Poetas Brasileiros”.

Da rua Augusta ao mosteiro de São Bento, passando pelo relógio da Sé, passeamos com ele por esta “capital de todos os absurdos”, palimpsesto em que diferentes eras e valores se entrechocam. As crônicas falam também do convívio de Bomfim com Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Anita Malfatti. A excelente edição, pela historiadora Ana Luiza Martins, é enriquecida por fotografias de famílias históricas, que deixam ainda mais evidente – ao estilo de imaginação sociológica tão bem ensinada por José de Souza Martins, que assina o prefácio – a representatividade geral do singular, o histórico que vige no biográfico. Perpassando ambos, está aquilo que resiste a cotidianidade repetitiva e alienada que convive com a grandeza e o vigor de São Paulo, provinciana e cosmopolita, um “inconsciente urbano” que se dá a ver em seu metrô, em suas ruas que conglomeram todos os vícios e virtudes.

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