Nasce um poeta

Cida Sepulveda

“Uma brisa folheia o jardim…”

Imagem inusitada e simples. Qual criança não saberia arriscar-se a uma interpretação? Trabalhando com jovens de 11 a 15 anos, tenho percebido o valor da poesia no estímulo à prática da leitura e escrita. A poesia, no sentido estrito, tem a vantagem de ser “não formal”, permite maior flexibilidade no tocante à compreensão e à própria produção textual de aprendizes da escrita. Então, quando leio um poema, meu primeiro pensamento é para o jovem leitor: ele conseguirá dialogar com estes versos? Essa prática me faz refletir sobre o sentido da escrita, ou seja, para quem é dirigida?

As respostas ficam em aberto.

Livro "Clusters",  Pedro MarquesToda essa introdução para falar do livro de poemas Clusters, de Pedro Marques, Ateliê Editorial, 2010. Livro composto por partes com subtítulos – partes temáticas. Não temas de conteúdo, mas de formas. O autor tenta montar um conjunto de diferentes vozes. O título do livro: Clusters, que significa ramalhetes, agrupamentos, grupo de ilhas, crescer em cachos, é uma escolha muito feliz. Que livro de poema não é um cluster? As ilhas são: “Olfativas”, “Tragédias”, “Alguma Canção”, “Variação Meninas”, “Títulos Estrangeiros”, “Em Cena com o Absurdo”, “Originalidades”, “Quebradeira”, “O Jogo das Definições” e “Droga Moderna”. São títulos instigantes porque incomuns, nada clichês.

Com bela apresentação de Lêdo Ivo, Clusters é praticamente o 1º livro de Pedro Marques. A inovação formal se dá através de uma linguagem que se alimenta de clássicos como Manuel Bandeira e Drummond, sem ignorar Manoel de Barros e Gonçalo Tavares.

Em Clusters, há preciosidades, tais como: “À espera real dos bárbaros” que, delicadamente, desvela ambientes de terror, desde os mesopotâmios, passando pelas guerras modernas e pelo capitalismo predatório – tudo em linguagem básica, sem pirotecnias. É como se o poeta pincelasse o que vê, acrescentando ao seu esboço uma falsa indiferença que o salva do melodrama.

No poema “Primeiro gol”, o artista segue a mesma linha de construção: esboça, com a ponta afiadíssima de um pincel imaginário, o movimento de um jogo de futebol, o barulho das comemorações de um gol e encaixa nesse cenário Soledade, uma moça que trabalha em sua velha máquina de costura manual. A narração do movimento do jogo é, na verdade, moldura para iluminar Soledade.

“Avenida da Saudade” é um poema claro, ritmado. Traduz melancolia e paisagem. Balada para Manuel Bandeira e Drummond? É o espelho em que o cotidiano do passado se reflete.

No poema “Bandolim” o poeta evoca a infância, tempo imaginário, poesia latente. Jogos de imagens, impressões e tempos, criam atmosfera idílica e envolvem o leitor em doce melancolia.

“Iniciação” retrata a relação de duas crianças. O retrato vai se compondo até a menina se tornar mocinha. A sequência linear dos acontecimentos é interrompida pela revelação da moça:

– Estou triste
– Por quê?
– Não tenho motivo, só frio!

A frase, colocada com tanta placidez, apavora. O poeta deseja é isto mesmo: apavorar, tirar-nos do limbo cotidiano que nos enterra vivos.

O poema “No way” é um texto de vanguarda que critica o intelecto enquanto valor em si mesmo. Provocativo e irônico, ataca o pedantismo que abunda nas academias e seus arredores.

Menina, de fato és bela!

Mas não te quero

Seria preciso namorar,
conhecer passado
                  família
      teu gato

Quero aventura de puta!

Contigo há trabalho filosófico

E como sou preguiçoso
pra voar com Camões:

Não te quero não

“Em cena com o absurdo”, outra parte de Clusters, temos pétalas de prata como estas:

Se Édipo aparecesse
lá nos Estados Unidos
pegava uma cana

Ou ainda:

Ela detesta a série Máquina Mortífera,
adora novela das oito,
contesta a revista Carícia
e acha o Latino muito louco

Moça de família,
inteligente e bem educada,
sem nenhuma patente anomalia

Pergunta-se à patrícia:

Você é a favor da pena de morte?
Pelo fim da violência, of course!

E a legalização do aborto?
Que absurdo! Tem culpa a criança?

Crítica social através de poesia que fala direto ao homem comum, sem perder a elegância, a profundidade, enfim, a beleza que é o objetivo maior do artista. Mas por que pétalas de prata e não de ouro? Não tem aí nenhuma alusão ao valor literário da obra. Pétala de prata soa mais delicado, menos brilhoso, mais sutil. Definitivamente, nasce um poeta em Clusters.

Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Pela Ateliê, publicou também o livro Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

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