Monthly Archives: julho 2013

O cancioneiro e sociedade

Heitor Ferraz Mello | Guia da Folha | 27 de julho de 2013

Melancolias, Mercadorias: Dorival Caymmi, Chico Buarque, o Pregão de Rua e a Canção Popular-Comercial no BrasilEm Melancolias, Mercadorias, Walter Garcia analisa duas canções compostas em momentos diferentes, com o objetivo de ver nelas a matéria histórica brasileira, específica depositada. Trata-se de A Preta do Acarajé, de Dorival Caymi, gravada em 1939 por Caymi e Carmen Miranda (com possível participação de Dalva de Oliveira), e Carioca, de Chico Buarque, de 1989, gravada no disco Cidades.

Como lembra Garcia, autor também de Bim-Bom, a Contradição sem Conflito de João Gilberto (Paz e Terra, 1999), seis décadas a separam, mas em ambas há a presença do pregão de rua, que será um dos pontos centrais de sua leitura. Tomando como eixo o conceito de cordialidade de Sérgio Buarque de Holanda – mas não só, evidentemente –, ele mostra a melancolia na canção de Caymi, com os hábitos coloniais inseridos num mundo em transformação violenta.

Já na canção de Chico, sua leitura recai no ponto de vista enunciador/narrador da canção, em que há uma espécie de ambivalência entre conformismo e resistência no tipo de notação, próxima a crônica urbana, que periga deslizar para o conservadorismo. É uma leitura provocadora e instigante, que dá continuidade a sua pesquisa de reavaliação do cancioneiro brasileiro, do ponto de vista da relação entre canção e sociedade.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

 

 

Quem critica editais acredita demais nas virtudes do mercado, diz José Durand

José Carlos Durand:  "empréstimos para cineastas são vício, para banqueiros, virtude"

“Empréstimos para cineastas são vício, para banqueiros, virtude”

O novo livro do sociólogo José Carlos Durand, Política Cultural e Economia da Cultura, lança luz sobre uma questão que aflige o setor há décadas: o que falta para nossa produção cultural tornar-se profissional e sustentável?

A antologia de ensaios cobre o período entre 1995 e 2010,  abordando temas como a falta de visão sistêmica na gestão pública, amadorismo na administração da cultura, formação de agentes culturais, leis de incentivo, o papel da crítica e das premiações, além de fazer um panorama comparativo da política cultural na França, Inglaterra e Estados Unidos. Leitura provocativa e essencial para qualquer pessoa envolvida no (ou curiosa pelo) tema.

Em entrevista por email, José Durand comentou alguns dos temas abordados no livro, como a nomeação de artistas para cargos no Executivo, incentivos fiscais para o cinema e a formação de público para eventos culturais de pequeno porte. Leia abaixo:

Um dos temas tratados no livro é a necessidade de profissionalizar a gestão de cultura no Brasil, um contraponto à ideia de colocar “medalhões” das artes para decidir políticas públicas, por exemplo. Você acha que o episódio recente do Ecad, em que um comitê de artistas foi ao Senado pressionar por medidas regulatórias, é um exemplo disso?
José Carlos Durand: O artista ou intelectual consagrado costuma ser impaciente com processos burocráticos e exigências legais, então precisa ser assessorado por gente capaz de lidar com essas situações. Então, prestígio pessoal não é só o que importa. Agora, no caso do Ecad, não foi a visita de “medalhões” que definiu o curso de ação, mas sim uma controvérsia social envolvendo artistas, advogados, fiscais de direitos autorais, gravadoras, promotores públicos etc. Houve até comissão de inquérito. Os “medalhões” foram apenas levantar o brinde ao que havia sido aprovado, e gerar um pouquinho de mídia que não faz mal a ninguém.

Mês passado, o professor e palestrante americano Dov Simens veio ao Brasil e declarou que nossos cineastas estariam “viciados em dinheiro público”. Você concorda com essa visão?
JCD: De um modo geral, críticas como essa partem de pessoas crédulas demais nas virtudes do mercado e nas possibilidades de obter recursos privados a projetos culturais sem antes perguntar se o país em questão tem tradição de real mecenato privado, se tem ou não um parque exibidor aberto a comprar produção independente, se os filmes que o governo financia tem teor cultural, se os cineastas tem uma origem social privilegiada etc. A propósito, por essa lógica, o campo acadêmico cientifico brasileiro seria uma negação total, pois seus projetos de pesquisa são financiados com recursos praticamente só do setor público. É preciso considerar que, em geral, quem acusa cineastas de “viciados em dinheiro público” acredita que, no caso de empresários e banqueiros, tal conduta deixa de ser vício para ser a maior virtude. Ou seja, reclamar e abiscoitar empréstimos subsidiados, a juros negativos, sem nenhuma preocupação com qualquer término ou “porta de saída”, que tanto se cobra de programas de distribuição de renda a quem realmente precisa.

O livro aborda uma questão sensível a todos os campos culturais no Brasil: a dificuldade de formação de público. Seja na música, no cinema ou nas artes plásticas, a sensação é que temos “blockbusters” sazonais que atraem muito público, mas não parecem beneficiar a audiência dos eventos menores, que têm muita dificuldade em chamar atenção. Como se pode diminuir essa diferença?
JDC: A formação de público depende antes de tudo da formação de repertório, que deriva, ao longo do tempo, da educação do gosto e da correlata capacidade de se enfastiar com uma oferta estereotipada e sempre a mesma de bens culturais. Mas é preciso lembrar que a situação é hoje melhor do que antes para os “eventos menores”, devido às novas tecnologias de produção e circulação de bens culturais, e correlato barateamento, o que permite às pessoas navegar mais agilmente em um universo de escolhas muito maior do que algumas décadas atrás. E aos jovens escritores de imprimir seus textos inaugurais e aos jovens compositores e gravadores de registrar sua criatividade e difundi-la em seus círculos.

Quais, na sua opinião, são as medidas mais urgentes a serem tomadas para profissionalizar e fortalecer a política e economia culturais no Brasil?
JCD: O mais urgente é fortalecer a qualidade do ensino sobretudo para aquelas faixas etárias mais importantes para a formação de um gosto mais qualificado em matéria cultural. Coincidentemente, é aquela faixa etária (15-20 anos) que está mais exposta às situações de risco nas periferias das grandes cidades e nas regiões economicamente mais atrasadas. E falo de risco meeesmo, inclusive de vida, e não apenas de universo simbólico empobrecido. Do ponto de vista de gestão cultural propriamente dita, orçamento maior para ministério e secretarias estaduais e municipais, com criação de cargos mediante admissão por concurso e plano de carreira. O MinC no período Lula realizou essa ampliação. Lamentavelmente, há um pensamento conservador para o qual toda e qualquer expansão dos quadros do Estado significa sempre e tão somente “inchamento”, “nepotismo” e “ociosidade”. Levar em conta também que estruturação de carreira e funcionários estáveis significa evitar melhor não interromper tudo o que se faz quando mudam os dirigentes, a cada eleição.

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Estrelas Errantes – Memória do Teatro Ídiche no Brasil, de Nachman Falbel

Estrelas Errantes – Memória do Teatro Ídiche no Brasil

Exposição Estrelas Errantes | Memória do Teatro Ídiche no Brasil

18 de julho a 15 de setembro de 2013
MIS – Museu da Imagem e do Som
Av. Europa, 158 – Jardim Europa, São Paulo

Programação dos Eventos Paralelos
03/08 – 15h – Apresentação de textos em Ídiche
17h – Apresentação de Música Klezmer – grupo ADZI
04/08 – 16h – Leitura Dramática do DIBUK, direção Bruno Guida

Resultado de uma longa pesquisa sobre a cultura ídiche em nosso país, a mostra apresenta momentos históricos e pontuais através de materiais gráficos, além de uma programação paralela composta por filmes e folclore musical em ídiche, leitura de poesias, palestra, coral e peça teatral.

Trazida às Américas pelos imigrantes da Europa Oriental, essa cultura sedimentada durante séculos foi dizimada em seus países de origem pela ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, pelo regime stalinista. Assim como a literatura e a imprensa, o teatro ídiche teve seu momento áureo como parte da cultura do imigrante. No Brasil, a presença do teatro ídiche pode ser notada nos círculos de teatro amador no Rio de Janeiro e em São Paulo, por vezes também em outras capitais.

Conheça o livro Estrelas Errantes – Memória do Teatro Ídiche no Brasil (Ateliê, 2013)

 

Origens da dramaturgia Ídiche

Ana Ferraz | Carta Capital | 17 de julho de 2013

Teatro Ídiche

Cerca de 500 anos antes de Cristo, festejos em celebração à salvação dos judeus persas exilados na Babilônia originaram uma das mais importantes festas do calendário judaico, Purim-Schpiel. As manifestações em torno da data se davam por meio de encenações e sátiras que remetem à rainha Esther. Este foi o embrião da arte de representar que toma a forma hoje conhecida a partir da figura do intelectual Abraham Goldfaden (1840-1908), pai do teatro ídiche moderno.

A trajetória dessa rica manifestação artística será mostrada a partir de quarta 17 no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, por meio de cerca de 200 itens, entre fotografias, cartazes, documentos, prospectos e livros pela primeira vez reunidos. “Boa parte do material é inédita”, ressalta o historiador Nachman Falbel, que ao lado de Anat Falbel, é responsável pela curadoria.

Estudioso da imigração judaica no Brasil, criador do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, desde 1976, Falbel dedica-se à pesquisa da cultura do imigrante da Europa Oriental. Na abertura da mostra o professor aposentado da USP lança o livro que dá nome à exposição. Entre os destaques, registros das atividades “do grande ator, diretor e pensador Zigmunt Turkow, que no Rio trabalhou com Ziembinski, Graça Melo e Santa Rosa, e do dramaturgo Mark Arenstein”.

A exposição joga luz sobre os poloneses Jacob Rotbaum e Jacob Kurlenter, “que fizeram um trabalho notável nos anos 1940.” Lasar Segall se evidencia por meio de cenários e figurinos criados para A Sorte Grande, de Sholem Aleichem, encenada em 1945 por Turkow.

 

Gustavo Piqueira lança Clichês Brasileiros no Bar Balcão

Gustavo Piqueira cria narrativa visual combinando antigos clichês tipográficos e conta a história do Brasil em seu novo livro.

Participe do lançamento de Clichês Brasileiros no Bar Balcão, dia 29 de julho

 Clichês Brasileiros, de Gustavo PiqueiraUtilizando-se apenas de imagens de um catálogo brasileiro de clichês tipográficos do início do século XX (Catálogo de clichés D. Salles Monteiro, publicado em edição fac-similar pela Ateliê Editorial, em 2003), Gustavo Piqueira compõe uma inusitada narrativa visual contemporânea em seu novo livro, Clichês Brasileiros.

Os clichês tipográficos eram matrizes, gravadas em madeira ou metal, utilizadas como complemento figurativo ao conteúdo textual no processo tipográfico de impressão, método dominante na produção de impressos durante quase cinco séculos.

Mas o título do livro não se deve exclusivamente às matrizes usadas para a confecção das ilustrações. A cada virada de página, topamos com outro tipo de clichês brasileiros: dos históricos, como a chegada dos portugueses, a catequização dos índios, a escravidão ou os ciclos do café e do ouro, até clichês do Brasil de hoje, cheio de engarrafamentos, dívidas, condomínios fechados e alienação. Todos retratados com sutil irreverência e grande riqueza gráfica.

O livro possui capa em lâmina de madeira impressa em serigrafia, fixada com fita adesiva, e tem tiragem única de mil exemplares numerados.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Sobre o autor

À frente da Casa Rex, casa de design com sedes em São Paulo e Londres, Gustavo Piqueira é um dos mais premiados designers gráficos do Brasil, com mais de duzentos prêmios internacionais. Também ilustrou livros infantis e desenhou alfabetos. Como autor, publicou doze livros de ficção. Seus mais recentes projetos são a concepção e organização da coleção de filosofia clássica Ideias Vivas (WMF Martins Fontes, 2011), a tradução do irreverente A História Verdadeira (Ateliê Editorial, 2012), escrito no século II por Luciano de Samósata e o misto de imagens reais e ensaios fictícios Iconografia Paulistana (WMF Martins Fontes, 2012). Pela Ateliê também publicou o livro de crônicas sobre design Morte aos Papagaios.

 

Livre Captura

Renato Tardivo

Ilustração do livro "Perseu, Medusa & Camille Claudel"

Vida Trágica e Intensa

A vida trágica e intensa de Camille Claudel (1864-1943), as esculturas que deixou (e as que destruiu), os  “valores” que enfrentou, o relacionamento amoroso com Rodin, também escultor, são facetas que fazem da artista um nome cultuado, admirado, respeitado. Não por acaso, não são raros os registros sobre sua vida e sua obra.

Em 1988, Bruno Nuyteen levou às telas o filme Camille Claudel, no qual retrata os conflitos da escultora francesa com a família, a passagem de aprendiz à amante de Rodin, a relação intensa com o irmão, Paul Claudel, e os delírios paranoides que disparam seu confinamento em um manicômio, onde permaneceria até sua morte, aos 79 anos, cerca de 30 anos depois.

Recentemente outro cineasta, Bruno Dumont, dirigiu Camille Claudel 1915, cuja estreia no Brasil está prevista para agosto, com Julliete Binoche no papel de Camille, filme que retrata os anos de internação da escultura – e, nessa medida, é uma espécie de continuação do filme de 1988, que termina quando a escultora é internada.

 

 

Perseu, Medusa & Camille Claudel – Sobre a Experiência de Captura Estética

 

Capturas

O ensaio Perseu, Medusa & Camille Claudel – sobre a experiência de captura estética, da psicanalista e artista plástica Ada Morgenstern, apresentado inicialmente como dissertação de mestrado em Psicologia Social à Universidade de São Paulo, é um estudo de fôlego acerca da captura que se instalou entre Ada e a escultura Perseu e Medusa, de Claudel, quando aquela deparou com esta, em exposição na Pinacoteca SP, em 1997: “captura que a escultura Perseu e Medusa de Camille Claudel produziu em mim e na qual me vejo mergulhada, intrigada, fascinada, numa busca incessante de sentidos. Busco sentidos que possam operar não tanto para me libertar dessa captura, mas, quem sabe, para me manter dentro dela, dentro e fora ao mesmo tempo. Uma livre captura”.

Conquanto a autora seja psicanalista – e a psicanálise, com efeito, compareça como um dos (não o único) referenciais teóricos do ensaio –, que não se espere um exercício de psicanálise aplicada às artes, como tantos trabalhos que se debruçam sobre essa problemática. Isto é, a autora definitivamente não parte de conceitos da psicanálise para explicar ou decifrar a inquietante escultura, como tampouco parte da vida da autora a fim de buscar chaves interpretativas para a obra.

Em outra direção, conforme se explicita no prefácio esclarecedor de João A. Frayze-Pereira, que orientou a dissertação de mestrado de Morgenstern, trata-se de um exercício de psicanálise implicada. No esteio de Paul Ricoeur e de Frayze-Pereira, Morgenstern adota o ensaio de Freud sobre o Moisés de Michelangelo como paradigmático da psicanálise implicada, uma vez que, diferentemente do que faz no também célebre trabalho sobre Leonardo da Vinci, Freud, no artigo sobre o Moisés, “utiliza o trabalho psicanalítico como um olhar crítico e racionalista frente à fascinação exercida pela obra de arte”.

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Implicações: o espaço do entre

Assim, recorrendo a filósofos e estetas como Merleau-Ponty, Pareyson, Gombrich; a psicanalistas implicados à arte – além de Frayze-Pereira, entre os autores contemporâneos destacam-se Renato Mezan, André Green e, sobretudo, Noemi Moritz Kon, que também assina o belo texto da orelha do livro –; a historiadores, como o helenista Jean-Pierre Vernant, entre muitos outros autores, Ada Morgenstern compartilha generosamente com o leitor, implicada do início ao fim, as marcas que o seu encontro com a escultura de Camille Claudel provocou – e ainda provoca.

Há, evidentemente, questões sobre a vida de Camille, mas, honrando Merleau-Ponty, o foco da captura vivenciada por Ada reside no encontro estabelecido entre ela e a obra, nos “interperfis”, para usar terminologia da autora, espaço invisível e que, justamente por isso, potencializou a construção de uma trama tanto intelectual quanto sensível.

De acordo com Merleau-Ponty, no ensaio “A Dúvida de Cézanne”, de que Ada tão bem se vale, não é a vida do artista que explica sua obra, mas é a obra que pode iluminar a vida. O espectador – crítico de arte, psicanalista, esteta, filósofo – que mergulhar nesse desafio terá, inevitavelmente, de lidar com seus próprios fantasmas, já que, dessa perspectiva, ler a obra implica acessá-la em si mesmo. E existe caminho mais frutífero para dar continuidade a uma obra? Não tenho dúvidas de que a leitura do ensaio de Ada Morgenstern responderá – e com muitos elementos novos – essa pergunta retórica.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Nasce um poeta

Cida Sepulveda

“Uma brisa folheia o jardim…”

Imagem inusitada e simples. Qual criança não saberia arriscar-se a uma interpretação? Trabalhando com jovens de 11 a 15 anos, tenho percebido o valor da poesia no estímulo à prática da leitura e escrita. A poesia, no sentido estrito, tem a vantagem de ser “não formal”, permite maior flexibilidade no tocante à compreensão e à própria produção textual de aprendizes da escrita. Então, quando leio um poema, meu primeiro pensamento é para o jovem leitor: ele conseguirá dialogar com estes versos? Essa prática me faz refletir sobre o sentido da escrita, ou seja, para quem é dirigida?

As respostas ficam em aberto.

Livro "Clusters",  Pedro MarquesToda essa introdução para falar do livro de poemas Clusters, de Pedro Marques, Ateliê Editorial, 2010. Livro composto por partes com subtítulos – partes temáticas. Não temas de conteúdo, mas de formas. O autor tenta montar um conjunto de diferentes vozes. O título do livro: Clusters, que significa ramalhetes, agrupamentos, grupo de ilhas, crescer em cachos, é uma escolha muito feliz. Que livro de poema não é um cluster? As ilhas são: “Olfativas”, “Tragédias”, “Alguma Canção”, “Variação Meninas”, “Títulos Estrangeiros”, “Em Cena com o Absurdo”, “Originalidades”, “Quebradeira”, “O Jogo das Definições” e “Droga Moderna”. São títulos instigantes porque incomuns, nada clichês.

Com bela apresentação de Lêdo Ivo, Clusters é praticamente o 1º livro de Pedro Marques. A inovação formal se dá através de uma linguagem que se alimenta de clássicos como Manuel Bandeira e Drummond, sem ignorar Manoel de Barros e Gonçalo Tavares.

Em Clusters, há preciosidades, tais como: “À espera real dos bárbaros” que, delicadamente, desvela ambientes de terror, desde os mesopotâmios, passando pelas guerras modernas e pelo capitalismo predatório – tudo em linguagem básica, sem pirotecnias. É como se o poeta pincelasse o que vê, acrescentando ao seu esboço uma falsa indiferença que o salva do melodrama.

No poema “Primeiro gol”, o artista segue a mesma linha de construção: esboça, com a ponta afiadíssima de um pincel imaginário, o movimento de um jogo de futebol, o barulho das comemorações de um gol e encaixa nesse cenário Soledade, uma moça que trabalha em sua velha máquina de costura manual. A narração do movimento do jogo é, na verdade, moldura para iluminar Soledade.

“Avenida da Saudade” é um poema claro, ritmado. Traduz melancolia e paisagem. Balada para Manuel Bandeira e Drummond? É o espelho em que o cotidiano do passado se reflete.

No poema “Bandolim” o poeta evoca a infância, tempo imaginário, poesia latente. Jogos de imagens, impressões e tempos, criam atmosfera idílica e envolvem o leitor em doce melancolia.

“Iniciação” retrata a relação de duas crianças. O retrato vai se compondo até a menina se tornar mocinha. A sequência linear dos acontecimentos é interrompida pela revelação da moça:

– Estou triste
– Por quê?
– Não tenho motivo, só frio!

A frase, colocada com tanta placidez, apavora. O poeta deseja é isto mesmo: apavorar, tirar-nos do limbo cotidiano que nos enterra vivos.

O poema “No way” é um texto de vanguarda que critica o intelecto enquanto valor em si mesmo. Provocativo e irônico, ataca o pedantismo que abunda nas academias e seus arredores.

Menina, de fato és bela!

Mas não te quero

Seria preciso namorar,
conhecer passado
                  família
      teu gato

Quero aventura de puta!

Contigo há trabalho filosófico

E como sou preguiçoso
pra voar com Camões:

Não te quero não

“Em cena com o absurdo”, outra parte de Clusters, temos pétalas de prata como estas:

Se Édipo aparecesse
lá nos Estados Unidos
pegava uma cana

Ou ainda:

Ela detesta a série Máquina Mortífera,
adora novela das oito,
contesta a revista Carícia
e acha o Latino muito louco

Moça de família,
inteligente e bem educada,
sem nenhuma patente anomalia

Pergunta-se à patrícia:

Você é a favor da pena de morte?
Pelo fim da violência, of course!

E a legalização do aborto?
Que absurdo! Tem culpa a criança?

Crítica social através de poesia que fala direto ao homem comum, sem perder a elegância, a profundidade, enfim, a beleza que é o objetivo maior do artista. Mas por que pétalas de prata e não de ouro? Não tem aí nenhuma alusão ao valor literário da obra. Pétala de prata soa mais delicado, menos brilhoso, mais sutil. Definitivamente, nasce um poeta em Clusters.

Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Pela Ateliê, publicou também o livro Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

Eromar Bomfim lança Coisas do Diabo Contra em Paraty

Cenas de crime e violência foram presenciadas no último sábado (6), durante a 11ª Feira Literária Internacional de Paraty. Não houve vítimas, apenas espectadores: era o lançamento do romance Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim, que teve trechos lidos pelos atores José de Abreu e Domingos Montagner. O evento lotou a Casa do Autor Roteirista, espaço que levou uma programação paralela de debates sobre literatura e audiovisual à Flip.

Nas palavras do autor, “o livro é a história de um assassinato e de um parricídio. Os personagens são revoltados por condição de fraqueza da humanidade, e conseguem resolver esta fraqueza por meio de gestos radicais e violentos”. A trama é contada por um ex-funcionário de Matias Tavares de Aragão, megaempresário cuja perda da mulher lhe causa uma epifania: só o crime justifica a existência. A partir de uma sombria proposta de negócios, ele envolve sua família em uma cadeia de episódios sangrentos. Sem entregar detalhes, o Bomfim completa: “Os personagens elaboram a ideia de que, pela posse do outro, há uma superação da morte”.

O livro tem projeto gráfico elaborado pela Casa Rex, do artista plástico Gustavo Piqueira.

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Antes do lançamento, Eromar Bomfim participou da mesa “Sentidos do Crime: Formas Literárias de Tratar o Crime na Literatura e TV”, com Paulo Lins (Cidade de DeusSuburbia) e Luiz Eduardo Soares (Elite da Tropa), mediada pelo cientista político Carlos Novaes. Os autores falaram sobre suas linhas particulares de exploração do crime como objeto literário: Paulo Lins pelo viés social (“o crime como reação”), Luiz Eduardo Soares pela antropologia e Eromar pela investigação dos limites da crueldade — ou como acabou-se definindo no debate, “o crime como escolha”.

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Após o debate e a leitura de dois trechos de Coisas do Diabo Contra — que deram ao público uma ideia das situações extremas a que Bomfim expõe seus personagens –, o autor iniciou a sessão de autógrafos. O livro também terá lançamento em São Paulo, que será anunciado em breve.

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos

 

João Luiz Marques entrevista o poeta Felipe Lion

Felipe Lion em show do Merlim

Felipe Lion (ao centro) em show do Merlim com participação de Kiko Zambianchi – Na Mata Café (SP) – Foto de Rogério de Lucca

Felipe Lion acabou de lançar pela Ateliê Editorial seu livro de poemas A Arte da Automutilação. Carioca, apaixonado por São Paulo, Lion é poeta, escritor, vocalista, além de autor das letras da banda Merlim, e ex-bailarino clássico. Nesta entrevista, o artista multidisciplinar fala de arte, de seu trabalho, dos livros de poesia e prosa que está preparando, do novo CD da banda e de um disco solo, e explica como consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo: “Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte.”

Ateliê Editorial – Heitor Ferraz Mello na apresentação que faz de A Arte da Automutilação diz que em sua poesia há sempre o “jogo entre a dissolução e a reunião”. Transportando essa característica para as suas diversas atividades criativas, como você lida com essa sua pluralidade artística?

Felipe Lion – Primeiramente, devo dizer que o Heitor foi muito generoso comigo. Generoso ao fazer um prefácio pessoal, mas, ao mesmo tempo, muito analítico. Ele percebeu uma ligação entre os vários poemas do livro que é o tema da desagregação paulatina de tudo, inclusive do poeta. Hoje parece óbvio que isso é algo recorrente nesses poemas, mas eu juro não havia notado…  Sobre o meu trabalho e a maneira como uso diversas técnicas… Bom, eu não colocaria isso como uma “pluralidade”. Para mim, tudo está ligado, tudo está conectado. Desde o Renascimento tudo pode e deve se misturar, pois na essência é uma coisa só: arte.

Ateliê – Em outra parte dessa mesma apresentação, Heitor Ferraz Mello conta lembranças da adolescência que vocês viveram no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, e diz que, elas poderiam fazer parte de outro livro seu. Você já pensou nessa “provocação” do seu amigo?

Lion – Penso sim.  Na verdade já faço isso. Em pequenas doses. Dentro de um poema, de um trecho de romance ou conto. Essas lembranças para mim são coisas muito distantes, meio mágicas. Mas eu tento dialogar com esse moleque de vez em quando. Saber o que ele espera de mim. Ele é citado diretamente em pelo menos um dos poemas do livro, Kung Fu Ballantines.

Ateliê – A Arte da Automutilação reúne poemas finalizados entre 2008 e 2012. Você tem mais trabalhos na gaveta para outro livro de poesia? Pretende publicar?

Lion – Engraçado me perguntar isso. Acabo de ser convidado para uma coletânea de poemas e, a grande questão, é se terei material para colaborar. Explico melhor: tenho muitos poemas antigos que não sinto vontade de publicar – ao menos agora – e tenho outro material, mais recente, que faz parte de um próximo livro de poemas (erótico) e ainda está sendo trabalhado. Trabalho como um pintor de paredes que passa várias mãos de tinta numa parede, até ficar satisfeito com o resultado… Isso demora.

Ateliê – E em prosa, você tem projeto novo? Está preparando algum livro?

Lion – Sim, preparo dois livros. O primeiro é um ensaio filosófico, O Estado e a Morte – reflexões sobre o direito de matar e morrer. E há, ainda, um outro livro que conta os últimos dias do nosso Segundo Império, num misto de romance histórico com realismo mágico. Pretendo lançar o ensaio no começo do próximo ano. O romance, leva algum tempinho mais, pois está em fase de pesquisa. Apesar de já ter escrito alguns trechos e de possuir toda a estrutura ficcional montada preciso de mais tempo para a pesquisa de campo. Os detalhes são muito importantes nesse tipo de obra.

Ateliê – Você tem alguma novidade pra contar da banda Merlim? CD novo, Show? Pode adiantar algum detalhe sobre novos trabalhos?

Lion – O Merlim começa a gravar um novo álbum ainda este mês. Será um processo longo e doloroso… Esperava conseguir viabilizar a assinatura do Luiz Carlos Maluly para esse projeto. Já há algum tempo ele é o melhor produtor de discos do Brasil. Todo mundo na indústria fonográfica sabe disso. Mas não conseguimos fechar com um investidor. Pensei em esperar um pouco mais para tentar acertar isso, mas meus colegas de banda me convenceram que já não podemos mais esperar… É como num parto: talvez dê para esperar pelo 10º mês, mas pedir para esperar mais do que isso pode causar mais danos que benefícios.

O Merlim é uma banda que trabalha exclusivamente porque acredita na qualidade de sua música. Não importa que tenham destruído o mercado do rock no Brasil. Não somos mais crianças. Não fazemos mais música pensando em dinheiro, mulheres e fama. Não me entenda mal… Adoramos tudo isso! Mas fazemos música porque nos divertimos muito compondo, convivendo, fazendo shows.

Já vi critico musical nos colocando no pedestal dos injustiçados! Dizendo que somos melhores do que “99% do que se ouve por ai”. Admito que até concorde com isso, mas não tenho ânimo pra vestir esse manto. Posso dizer que “apertamos o botão f…-se”!

Quanto a shows, creio que agora só no segundo semestre. Só quando acabarmos o disco. De toda a forma, quem tiver vontade pode conhecer um pouco do Merlim em seu site: www.merlim.com. O site permite cadastramento para receber a agenda de shows da banda e outras promoções, como descontos, CDs promocionais, etc.

Temos um álbum, “A Tempestade”, à venda, por download, em diversas lojas virtuais: iTunes, Amazon, etc. É só fazer a busca pelo nome da banda que você achará a página da banda e poderá baixar todo o álbum ou suas músicas preferidas.

Ateliê – Você vai lançar um disco solo, sem o Merlim? Vai partir para carreira solo? Como será esse seu novo trabalho?

Lion – Novamente, não vejo nenhuma distinção nisso… solo… Merlim… outra banda… Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte. No Merlim não temos nenhum problema com isso. Até gostamos de ver os outros no palco sem a gente ao lado, só pra variar um pouco! Outro dia fui ver os dois guitarristas do Merlim – Kike Damaceno e Guto Domingues – tocando num pub. Pois bem, de repente percebi que eles também estavam cantando! E bem! Mas cantando mesmo! Músicas inteiras! No Merlim eles nunca cantam. Nunca querem cantar… no máximo fazer backing vocal. Mas eles estavam mandando ver, cheios de estilo… Foi muito divertido! Já fui ver o batera da banda, Júnior Gaspari, em outros projetos também.

Então vou lançar, sim, um disco solo que, aliás, também começa a ser gravado este mês. A produção está a cargo de um outro grande produtor, o Alexandre Fontanetti. Disco de Ouro com o álbum Bossa’n’Roll da Rita Lee. Ele é um cara que trabalha muito bem com cantores e foi atrás disso que eu fui quando bati em sua porta.

Esse vai ser um trabalho mais intimista, meio jazz, meio bossa. Não esperem, porém, uma emulação de João Gilberto. Quero levar a minha forma de falar as coisas para esse estilo. O álbum deve ficar pronto só no segundo semestre, mas em breve devo lançar o primeiro single, uma música chamada Bossa dos Jardins que é uma declaração de amor por São Paulo, feita por um carioca que, realmente, adora essa cidade.

Acesse o livro A Arte da Automutilação na loja virtual da Ateliê

Veja as fotos de Bruna Goldberger do lançamento de A Arte da Automutilação, em São Paulo:

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide. Ao fundo uma de suas telas.

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de  Parresh, com a apresentadora de TV  Laura Wie e os  fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de Parresh, com a apresentadora de TV Laura Wie e os fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

 

Lançamento de A Arte da Automutilação

O artista plástico Thiago Cóstackz – autor da body art que se vê na capa do livro – com a apresentadora de TV Laura Wie e o autor Felipe Lion

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

Lançamento de A Arte da Automutilação

O publicitário baiano Joca Guanaes, entre a apresentadora de TV Laura Wie e a atriz e locutora Jackie Dalabona