Monthly Archives: março 2013

Ilustrações de Sandro Botticelli na edição de luxo da Divina Comédia, de Dante Alighieri

Divina Comédia, de Dante Alighieri

Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), é uma das obras-primas da literatura mundial. Além de trazer de volta a primorosa tradução do erudito italiano João Trentino Ziller – publicada originalmente em 1953, em Minas Gerais – a presente edição do poema, coeditada pela Ateliê Editorial e pela Editora da Unicamp, oferece algo inédito ao leitor brasileiro: as ilustrações de Sandro Botticelli, perdidas durante séculos e identificadas somente na década de 1980. Acesse o livro na loja virtual

Tradução e notas João Trentino Ziller
Apresentação João Adolfo Hansen
Notas à Comédia de Botticelli Henrique Xavier
Coedição Editora Unicamp

Ilustrações Sandro Botticelli

Veja abaixo algumas ilustrações de Sandro Botticelli presentes no livro

Inferno – Ilustração de Botticelli

Inferno

Inferno – Ilustração de Sandro Botticelli

Inferno

Purgatório – Ilustração de Sandro Botticelli

Purgatório

Paraíso – Ilustração de Sandro Botticelli

Paraíso

Paraíso – Ilustração de Sandro Botticelli

Paraíso

Nuances do real

O Fotógrafo Boris Kossoy aborda os absurdos do cotidiano na Galeria Berenice Arvani

Foto de Boris Kossoy

Fonte: Revista Veja

Figura indispensável para a compreensão da trajetória da nossa fotografia, Boriss Kossoy exibe quarenta imagens na Galeria Berenice Arvani até dia 19 de abril. Feitas sobretudo nos últimos três anos, embora a seleção tenha um ou outro exemplar clicado nas décadas de 70 e 90, as obras foram reunidas pelo curador Diógenes Moura sob o título Busca-me. “ Não existe trabalho artístico sem algo de autobiografia”, defende o paulistano Kossoy, professor da USP e um dos grandes historiadores do gênero no país. Assim, ele leva a câmera a tiracolo em viagens por Europa, Estados Unidos e Brasil e flagra cenas que possam remeter ao próprio passado. “Um ou outro elemento me traz lembranças até da infância. Essas pequenas peças formam um mosaico de recordações, a memória em si”, diz.

A série Viagem pelo Fantástico, do fim dos anos 60, tornou o artista conhecido por abordar elementos absurdos inseridos no cotidiano ― um maestro regendo em um cemitério vazio, por exemplo. Agora, ele deixa de lado as cenas previamente pensadas, próximas da ficção, e aposta no acaso para alcançar o mesmo resultado. O gosto pelos personagens lúgubres e misteriosos, contudo, persiste. Manequins em uma loja de Madri, um vulto escuro num metrô de Washington (idêntico a outro diante de um teatro nova-iorquino) ou uma escultura à sombra de uma janela do palácio Belvedere, de Viena ― tudo remete à impossibilidade de estabelecer um realismo estático e sem nuances na vida humana.

Galeria Berenice Arvani

Rua Oscar Freire, 540, Jardim Paulista.

Tel: 3088-2843. Segunda a sexta, 10h às 19h30.

Até 19 de abril

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Conheça os livros de Boris Kossoy publicados pela Ateliê

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Nossos tesouros barrocos

Livro de renomado arquiteto faz viagem pelo patrimônio do barroco do Brasil do período colonial, incluindo as riquezas da cidade de Goiás, Pirenópolis, Pilar de Goiás e Jaraguá

Rogério Borges | O Popular | 20.02.2013

Esplendor do Barroco Luso-brasileiroJanelas feitas com malacacheta, um tipo de mineral transparente que substitui, com eficiência, os vidros. Adornos de madeira ricamente esculpidos que embelezam e dão uma marca muito particular a portais, altares, oratórios, móveis. Casas e edifícios feitos de taipa e adobe que resistem ao tempo e testemunham a história. O livro O Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, lançado recentemente pelo arquiteto e professor da USP Benedito Lima de Toledo, é uma viagem por soluções e características de um período em que a riqueza do ouro levou influências europeias na arte e na arquitetura para o interior mais profundo do Brasil.

As jazidas de Minas Gerais e Goiás, descobertas e exploradas pelos bandeirantes paulistas, fundaram povoamentos, núcleos urbanos que, na atualidade, transformaram-se em sítios e monumentos de inestimável valor.

A obra fala de joias da arquitetura e da arte colonial e barroca do País, como Ouro Preto e suas suntuosas igrejas, o legado de Aleijadinho, as construções de Olinda, o rococó mineiro, a contribuição das ordens religiosas, como os beneditinos e os franciscanos, os tesouros artísticos de Salvador e os diálogos com Portugal. Entre os locais abordados pelo trabalho, há um capítulo que disserta sobre a arquitetura e a arte da mineração em Goiás, com destaque par a as igrejas e os casarios da cidade de Goiás, Pilar de Goiás, Pirenópolis e Jaraguá.

Em entrevista ao POPUL AR, o autor do livro exalta o patrimônio goiano que ficou daquela época, sobretudo os templos da antiga Vila Boa e o arraial preservado que existe nos prédios antigos de Pilar. Para Benedito Lima, as cidades goianas têm um tesouro antropológico único em sua arquitetura que merece atenção.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

“PILAR DE GOIÁS É UM FATO DE PRIMEIRA IMPORTÂNCIA”

Em seu mais recente livro, o senhor aborda algumas cidades e construções do barroco, incluindo localidades goianas. De onde vem esse interesse pelo barroco, qual é o legado por ele deixado na época das bandeiras, do ciclo do ouro?

O barroco, em Portugal, foi um movimento de muito relevo e vieram para o Brasil naquela época profissionais de muita qualidade. O barroco tornou-se quase uma arte nacional, uma expressão do Brasil que surgiu no pós-Renascimento. Ele teve grande aceitação porque é uma arte emotiva, que tem grande poder de comunicação. Esses locais de Goiás, que têm uma paisagem belíssima, não podem ficar de fora. Minas Gerais também teve um surto muito importante do barroco e essa comunidade luso-brasileira produziu com muita força, muita vivacidade, uma arte de expressão muito emocional. Portugal era pequeno em extensão territorial, mas tinha um grande império colonial. Afluíram, então, para Portugal, influências do mundo inteiro. Eles passaram essas influências, principalmente para sua principal colônia, o Brasil.

O que há em Minas, Goiás é a expressão desse elemento que Portugal atingiu naquele momento.

Nas descrições que o senhor faz de cidades com construções do barroco em Goiás, há o uso recorrente do adjetivo “singelo”. O patrimônio barroco de Minas Gerais, por exemplo, é mais complexo. Quais são as explicações para essa diferença?

Em Minas Gerais, o descobrimento de ouro levou muita gente de São Paulo e de todo o mundo colonial para a região. Acontece que a arquitetura paulista, de todas, era a mais despojada, com suas casas de pilão. Nós tínhamos cidades inteiras em São Paulo feitas de casas de pilão. Um viajante chegou a dizer que várias cidades paulistas eram feitas de barro. Nós temos aqui o Museu de Arte Sacra que é um remanescente dessa realidade. Essa austeridade, São Paulo levou para outras regiões. Acontece que na região de Ouro Preto, antiga Vila Rica, veio gente diretamente de Portugal a começar pelo pai de Aleijadinho. Essa concentração de riqueza em Minas fez com que houvesse a riqueza correspondente no barroco local.

O senhor chama a atenção para o que encontrou em Pilar de Goiás. O senhor escreve em seu livro que a cidade histórica goiana é um “arraial preservado” em pleno século 21. Qual é a importância de termos um sítio conservado neste nível?

Do ponto de vista antropológico, Pilar de Goiás é um fato de primeira importância. Assim como uma área envoltória aqui em São Paulo, com uma capela muito singela, que é a de São Miguel Paulista, de 1622, esse aldeamento tem, do ponto de vista antropológico, um valor insubstituível. Foi a forma com que a urbanização começou a se desenvolver. Pelos jesuítas, que eram muito metódicos, como nós sabemos, e também por outras ordens religiosas, como os franciscanos, por exemplo. Isso tem, portanto, uma importância muito grande.

O senhor se surpreendeu com o que encontrou aqui em Goiás em suas pesquisas?

Nós tivemos alunos de Goiás aqui na Faculdade de Arquitetura da USP e eles sempre trouxeram dados novos, surpreendentes. Eu viajei aí para Goiás e gosto muito. Independente disso, os alunos que viajam para Goiás sempre trazem informações novas. E é isso o que a gente deseja. Aliás, em todos esses conventos de cidades antigas, há arquivos e esses arquivos contêm informações preciosas sobre os artistas daquela época. Hoje o artista é muito badalado, sai nas colunas de jornais. Na época colonial, não. Nós sabemos de muitos artistas apenas pelos registros das irmandades. Goiás fica devendo essa pesquisa em todos os acervos dessas irmandades.

E essas informações são recuperáveis?

Ah, sim. O acervo é composto, geralmente, por atas que as irmandades são obrigadas a fazer, contratos que firmam com os artistas e que têm de justificar perante os irmãos. Tudo fica lá registrado, às vezes de forma muito singela, mas o nome está lá. E quando se recupera o nome de um desses artistas, isso é para a arquitetura uma festa.

O nível de conservação das construções coloniais que o senhor encontrou aqui em Goiás deixou-o satisfeito ou preocupado?

Na verdade, nós temos um problema nacional. O patrimônio histórico não é prioridade de muitos governos. A conscientização da população é fundamental. A luta é da cultura brasileira, de todos nós. Nunca o pessoal entende que dá prestígio conservar um monumento. Geralmente, e aqui em São Paulo acontece muito, é mais importante fazer um viaduto, um túnel em sua gestão do que preservar o patrimônio. O viaduto dá espaço e o político gosta disso.

Nessa pesquisa pelas cidades coloniais brasileiras, o senhor também estudou o urbanismo desses centros. Há lições ou exemplos que podemos tirar desses núcleos que serviriam para as cidades atuais?

A primeira característica, importantíssima, é a afeição que a população tem pelas cidades. Quando os edifícios de referência — geralmente os das irmandades, da Câmara e Cadeia – ganham a afeição da população, isso é mais importante do que qualquer valor outro. Porque é a própria cultura da população. Isso, em Goiás, eu senti em diversos lugares. Neles, a população gosta desse patrimônio e temos que fazer uma frente única para fazer com que os governos entendam esses anseios do povo.

Perfil

Benedito Lima de Toledo é um dos nomes de maior prestígio da arquitetura brasileira. Livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sempre ampliou sua área de atuação para a arte e o patrimônio histórico em produções acadêmcias. Autor de 12 livros – em vários deles recupera histórias que pareciam perdidas, sobretudo de recantos menos conhecidos de São Paulo –, Benedito é membro da Academia Paulista de Letras e já ganhou a medalha Rodrigo de Melo Franco de Andrade, nas comemorações dos 50 anos do Iphan, e o Prêmio Vaz de Caminha, do governo de Portugal.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Literatura ou Psicanálise?

Renato Tardivo

Contos do Divã, de Sylvia LoebContos do Divã, da psicanalista e escritora Sylvia Loeb, coloca (já a partir do título) a seguinte pergunta: psicanálise ou literatura? Com efeito, a questão é antiga e, mais de uma vez, foi discutida pelo próprio Freud. Em Estudos sobre a Histeria (1893-95), o pai da psicanálise afirma que seus casos clínicos guardavam mais semelhanças com as novelas do que com os relatos científicos. De modo ainda mais contundente, em uma carta de 1922 endereçada ao escritor Arthur Schnitzler e que não veio à luz enquanto o psicanalista era vivo, Freud confessa: “Penso que o evitei a partir de uma espécie de temor de encontrar meu duplo”.

Entre nós, alguns são os estudiosos do tema: Noemi Moritz Kon (que, aliás, trabalhou em uma de suas pesquisas justamente a carta de Freud a Schnitzler e, em outra, construiu uma novela acerca do período de criação da psicanálise), Yudith Rosenbaum, Fabio Herrmann, Fernanda Sofio, entre outros.

Sylvia Loeb, em Contos do Divã, mergulha na questão sem precisar falar diretamente a respeito (a não ser no breve pós-escrito). O livro é uma coletânea de contos, e dos bons. Sua especificidade? São frutos da escuta clínica da autora, em sua vasta experiência enquanto psicanalista.

Na primeira parte, intitulada “pulsão de morte…”, a ambiência ficcional das narrativas é o consultório; na segunda, “… e outras histórias”, os relatos são ainda mais breves e, conquanto se refiram aos mistérios da alma humana, não são recortes de sessões de análise. Há, ainda, a seção “Um texto, quatro olhares”, com comentários sobre o livro, por Cristina Perdomo, Luís Carlos Menezes, Silvia Leonor Alonso e Sérgio Telles.

Nos contos da primeira parte, em vez de casos “bem sucedidos”, as narrativas dizem respeito a análises que não foram adiante – como se tivessem terminado antes do fim. E é nessa medida que os contos funcionam bem, porque exploram, a partir da relação entre analista e analisando, a dimensão trágica da existência.

Na segunda parte, quem conta é o narrador onisciente – em uma primeira interpretação, a própria analista, que amalgamaria vestígios de sua escuta nesses instantâneos. Mas podemos também sugerir que as outras histórias foram narradas pelos pacientes que, após a análise, mesmo “interrompida”, enfim puderam olhar para a própria destrutividade e transformá-la em poesia. Por que não?

Literatura ou psicanálise? – voltamos à questão. Diferentemente de registros que pretendem imitar a dinâmica de uma terapia por meio de roteiros técnicos, como ocorre na série televisa “Sessão de Terapia”, sobre a qual já escrevi neste espaço, Contos do divã é um relato visceral. Não se trata de vestir a literatura com os traços da psicanálise, e tampouco se pode afirmar que se está diante de uma psicanálise literária.

Psicanálise e literatura, aqui, comparecem com igual intensidade. Se a autora obtém êxito em escrever a clínica, é também justo dizer que os contos têm vida própria e não se subordinam à psicanálise. Ainda, se o trágico encontra nas artes um campo fértil, também a psicanálise lida com o seu atravessamento.

A opção “inconsciente” da autora pelos casos clínicos em que a “interrupção do tratamento era o mais evidente”, mesmo que a fim de “mostrar com todas as letras as dificuldades e os sofrimentos de todos os atores envolvidos”, como afirma Sylvia no pós-escrito, traz para e pela palavra a repetição do trauma com vistas à experiência de solidão – o que visa toda análise e o que nos provoca toda história. Elas sempre têm um fim.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci

Leonardo da Vinci

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 4.3.2013

O físico vienense Fritjof Capra, conhecido pelo best-seller Ponto de Mutação, admite que não poderia ter avaliado os trabalhos científicos do gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452- 1519) sem a ajuda de colegas especializados em outras disciplinas. Ele faz a revelação logo no começo de seu livro A Alma de Leonardo Da Vinci, que a editora Cultrix colocou no mercado quase que simultaneamente ao lançamento de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, coedição luxuosa da Ateliê Editorial e a Editora Unicamp que reproduz 215 gravuras anatômicas do pintor. Capra fala também desses desenhos em seu livro. É possível, portanto, entender a razão de ter recorrido a colegas para empreender uma análise do pensamento científico de Da Vinci, definido por ele em entrevista exclusiva ao Estado, como a “síntese perfeita entre arte, ciência e tecnologia”.

A herança cultural deixada por Da Vinci é especialmente valiosa para nosso tempo, diz Capra, por ter sido o pintor um pesquisador sistêmico, “um observador da natureza que não teve influência direta sobre os cientistas que vieram logo depois dele – por não ter publicado suas descobertas -, mas que é fundamental para o século 21, quando problemas globais tendem a ser analisados segundo uma perspectiva interdisciplinar”.

A essência de sua “alma”, segundo Capra, é justamente “a conjunção de sua curiosidade intelectual com engenho experimental”. E coragem, faltou acrescentar. O livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, por exemplo, traz 1200 desenhos que não seriam possíveis sem que desafiasse a bula papal, partindo para a dissecção de cadáveres, punida em sua época com a excomunhão. Se Da Vinci vivesse hoje, arrisca Capra, ele seria um cientista holístico, lutando pela sustentabilidade. “É difícil afirmar categoricamente que Leonardo teria seguido esse caminho quando se trata de um gênio de personalidade complexa, mas tudo indica que sim.” Só um artista que definiu a pintura como fruto da observação da natureza e estudou a correlação dos padrões botânicos e animais, de acordo com Capra, podia dizer que “entender um fenômeno é associá-lo a outros fenômenos”. Séculos antes das especulações futuristas do filme Matrix, Da Vinci já levava em conta a similaridade de padrões nos mundos animal e vegetal.

Curiosamente, para um homem tão sábio, segundo Capra, não se encontra nos cadernos de anotações de Da Vinci uma só linha sobre suas emoções. Ele analisou esses caóticos cadernos de notas, tentando seguir o método empírico do artista – basicamente apoiado na observação dos fenômenos naturais -, mas não descobriu em nenhuma das 6 mil páginas, dispersas entre bibliotecas e museus, uma mísera referência à vida privada de Da Vinci. “Há só uma nota em que ele registra a morte do pai, ainda assim de passagem.”

Os estudos sistêmicos de Da Vinci são fundamentalmente diferentes da ciência mecanicista de Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727). Nem tudo se explica pelas leis da mecânica. Essas são ideias do século 17 que Leonardo não aprovaria se tivesse nascido nele. Capra apresenta a ciência das formas orgânicas de Da Vinci como “radicalmente diversa” de seus seguidores. “Como cientista, ele coloca a vida no centro de tudo, mostrando que os fenômenos naturais são interdependentes e interligados.” Esta, observa Capra, é com certeza uma boa lição para a ciência atual. “Ele foi o primeiro anatomista moderno, um ecofilósofo e ecocientista que não viu o corpo humano apenas como uma máquina.”

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

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O CORPO SEGUNDO O GÊNIO

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciInéditos no Brasil, Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, organizados por Charles D. O’Malley e John Bertrand de C.M. Saunders, reúnem 1200 desenhos anatômicos realizados por Da Vinci entre 1498 e 1513, dispostos em ordem cronológica e organizados em nove áreas de estudos, da anatomia comparada à embriologia. Traduzidos pela dupla Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale, esses cadernos, aparentemente destinados a estudantes de Medicina, constituem mais que esboços dos sistemas anatomofuncionais. São obras artísticas de um gênio renascentista que viu no corpo mais que um instrumento para servir de modelo a pintores e escultores.

No tempo de Leonardo, os estudos anatômicos não tinham avançado muito em relação às pesquisas medievais baseadas na dissecação de animais, que, aliás, eram proibidas nos séculos 13 e 14 — primeiro por causa da influência da interdição árabe e, posteriormente, proibida pela bula papal. Por ter sido aluno de pintura de Verrocchio (1435-1488), Da Vinci dividia com o mestre o mesmo interesse científico – embora o instrutor não pintasse muitos nus e tivesse menos conhecimento de anatomia do que seria desejável para orientar um gênio.

Leonardo começou por observar e desenhar corpos de enforcados ainda em Florença. Ao se fixar em Milão, num esforço de esculpir uma estátua equestre de Francesco Sforza, dissecou um cavalo e fez belos desenhos.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

O desenho anatômico mais antigo que se conhece de Leonardo é de 1487. O crânio visto acima é de 1489. Ele fornece ao observador informações sobre a oclusão dentária e anotações que remetem aos estudos de Avicena e Galeno. Os exemplares mais impressionantes dessa bela coleção de gravuras pertencem à série anatômica do “homem centenário” que ele dissecou em Florença, em que mostra a degeneração dos vasos sanguíneos dos idosos. Em outras palavras: a arteriosclerose.

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Queixa-se o poeta de sua cidade no seu aniversário e recebe ajuda dos seus poetas mortos

Frederico Barbosa

O Estado de S. Paulo | 25.01.2013

Somos todos vítimas

da última chacina.

Somos todos cúmplices

do próximo disparo.

Anchieta, do alto do

pátio:

“Ah terrível bombardada

Da morte espantosa!

Como vem guerreira

E temerosa!”

Uns, acordam para a

notícia:

a noite em dados

urgentes.

Números frios, outrora

vida,

agora, nus, indiferentes

Maneco grita do largo:

Cavaleiro das armas

escuras,

Onde vais pelas trevas

impuras

Com a espada sanguenta

na mão?

E a noite segue calma

Para quem se esconde,

segue jorrando sangue

para quem não há onde.

Mário prevê noite e dia:

dentro de muros sem

pulos

Mais uma volta

na fechadura

blinda a vida

contra revoltas

ou idas.

Oswald anuncia a

solidão:

Anoitece sobre os jardins

Jardim da Luz

Jardim da Praça da

República

Jardins das

platibandas

Noite

Noite de hotel

Chove chuva

choverando

Nada é mais noite (e

chuva)

do que noias sob o teto

do absurdo viaduto

triste projeto infecto.

Nada é mais chuva (e

noite)

do que choro de viúva

sobre o corpo rígido

podridão indiferente.

Haroldo entrevê nas

ruas:

enquanto

de lugares absolutos

debaixo dos viadutos

transeuntes exsurtos das

cor de urina

vesperais latrinas

das sentinas dissolutas

caminham

Hoje nada não

nem se comemora,

nem poesia,

nem memória.

Hoje a cidade

(seus mortos)

chora.

Décio cria a palavra

chave:

cadaverdade

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Frederico Barbosa é poeta, autor de Rarefato (Iluminuras, 1990), Louco no Oco Sem Beiras – Anatomia da Depressão (Ateliê Editorial, 2001) e A Consciência do Zero (Lamparina, 2004), entre outros.

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Entrevista com Antônio Suárez Abreu, professor de linguística e língua portuguesa na UNESP

Antônio Suárez AbreuPortal IG

1- Consegui ler a introdução do seu livro e vi que o senhor defende a tese que argumentar não é vencer o outro. Poderia me explicar melhor?

Geralmente, as pessoas leigas têm a falsa ideia de que argumentar é vencer o outro, pondo por terra suas ideias e opiniões.  Em termos retóricos, argumentar é fazer com que o outro tenha condições de ver o objeto da disputa de um ponto de vista diferente daquele a que está acostumado a ver e, ao final, tenha o desejo mudá-lo, concordando com quem argumenta.  Isso envolve, muitas vezes, mudanças de modelos mentais.

2- Quais os principais erros na hora de argumentar?

O principal erro é considerar o outro como um inimigo a ser vencido.  Um outro, muito comum, é abusar da técnica argumentativa chamada retorsão.   (com s mesmo, pois vem de torso).  Na retorsão, quem argumenta tenta mostrar que a pessoa com quem se argumenta pratica ações contrárias às que defende.  É o caso de alguém que, acusado de chegar atrasado, diz algo como: — Mas, você, no mês passado, também chegou três vezes atrasado.  Esse argumento é o mais usado nas chamadas DR (discussões de relação) e é por isso que um casal raramente chega a um consenso.  Geralmente, o homem foge dessas discussões como o diabo da cruz.

3- Teria algumas dicas práticas para dar para quem quer melhorar a argumentação? Quais?

Em primeiro lugar, é importante tratar o outro com educação e gentileza.  Sem isso, nada funciona.  Há um provérbio espanhol que diz: “Por bién, me llevas hasta el infierno; por mal, ni al cielo”.  Em segundo lugar, é importante aprender a ouvir mais e falar menos.  Isso permite saber quais são os valores do outro, principalmente, quais são seus modelos mentais.  Ninguém consegue convencer o outro batendo de frente com seus valores ou modelos mentais.  É sempre importante, antes de propor um argumento, conseguir abrir uma brecha nesses modelos.  No meu livro, trabalho essa ideia quando falo da re-hierquização de valores.  Você não destrói um valor do outro; apenas põe um outro acima, em termos de hierarquia.   É uma espécie de drible.  Um exemplo disso é o que fez Monteiro Lobato em seus livros infantis.  Em sua época, por volta de 1920, o “Modelo do pai rigoroso” imperava e era impossível fugir da sua força.  As crianças deviam estudar, competir, vencer e, se falhassem, deviam ser punidas.  O que fez Lobato para introduzir seu modelo de “escolanovismo” baseado em Anísio Teixeira e John Dewey?  Pôs as crianças em férias, no Sítio do Picapau Amarelo, em um lugar em que a figura do pai ficava ausente e era substituída por uma avó carinhosa, Dona Benta, que podia ensinar sem punir, contando histórias saborosas a Pedrinho e Narizinho.

4- É possível que mesmo uma pessoa extremamente tímida consiga ter uma boa argumentação? Como vencer esta barreira?

Claro que sim!  Ela deve começar fazendo com que o outro fale primeiro e exponha seus pensamentos.  Durante essa fala, ela deve prestar atenção aos valores dessa pessoa.  Se se tratar de uma negociação, ela deve pôr foco, antes de tudo, naquilo que o outro tem a ganhar e não naquilo que é o objeto imediato do seu desejo.  Isso permite uma progressão amigável da fala e é, nesse momento, que cresce a confiança, derrubando a timidez.

5- Existem palavras/técnicas que podem ajudar na argumentação? Quais?

Sim: “por favor”, “por gentileza”, “obrigado por expor tão claramente aquilo que pensa”, “como posso ajudá-lo?”. É preciso trabalhar o tempo todo de maneira cortês e sinceramente comprometida com a imagem do outro.

6- Breve currículo

Sou, atualmente, professor titular de linguística e língua portuguesa na UNESP, campus de Araraquara.  Trabalho na área de Gramática e Retórica.

Sou formado em Letras Neolatinas pela PUC – Campinas.  Tenho especialização em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Clássica de Lisboa; mestrado, doutorado e livre-docência em Linguística pela USP, onde lecionei por quase 15 anos.  Fiz pós-doutorado em Linguística na UNICAMP, em 2008.

Livros publicados:

  1. Curso de Redação (Editora Ática).  Atualmente em 13ª edição, 10ª reimpressão.
  2. A Arte de Argumentar Gerenciando Razão e Emoção (Ed. Ateliê) Atualmente, em 13ª edição, 7ª reimpressão.
  3. Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ed. Ateliê).  Atualmente, em 3ª edição revista.
  4. O Design da Escrita: redigindo com criatividade e beleza (Ed. Ateliê) Atualmente, em 2ª edição.
  5. Linguística Cognitiva (Ed. Ateliê).
  6. Texto e gramática: uma visão funcional para a leitura e a escrita (Ed. Melhoramentos).  Atualmente, em 2ª edição.
  7. Gramática Integral da Língua Portuguesa: uma visão prática e funcional (Ed. Ateliê, no prelo)

Tenho, também, mais de 50 trabalhos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras.  Um dos meus últimos artigos, publicado nos Estados Unidos em 2008, está, desde então, entre os 10 mais lidos em toda a comunidade acadêmica internacional.

Meus trabalhos científicos têm 345 citações, de acordo com a Web Science.  Já orientei e levei à defesa, entre PUC – Campinas, USP e UNESP, 40 mestrados e 40 doutorados.

Conheça os livros do Prof. Antônio Suárez Abreu publicados pela Ateliê

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