Vida e obra singulares

Sementes Aladas, de Percy Bysshe Shelley

Henrique Marques-Samyn | Rascunho | 1.1.2013

Se marcas do espírito romântico individualmente encarnado são a independência e o egocentrismo auto-suficiente, Percy Bysshe Shelley é um típico representante dessa condição espiritual, em seus aspectos mais positivos e negativos. Shelley é mais um daqueles casos – não exclusivamente, mas caracteristicamente românticos – em que a vida e a obra se relacionam de tal modo que numa encontramos claves fundamentais para a compreensão da outra; mais que isso, em que ambas parecem estar todo o tempo determinando-se mutuamente, para o que sem dúvida contribuiu a maneira como o próprio poeta logrou fazer da obra uma expressão da vida, e da vida uma obra em si mesma.

A origem aristocrática e os tempos revolucionários marcariam definitivamente a personalidade daquele jovem nascido em Sussex, em 1792, que não tardaria a ser considerado um prodígio. Cedo exercitando os talentos que tinha, ou julgava ter, nos mais diversos misteres – desde a dramaturgia aos experimentos químicos, diversidade em que aliás já se podem perceber indícios daquele romântico”afã de totalidade e de unidade”, no dizer de Benedito Nunes -, Bysshe continuaria a afirmar sua individualidade ao longo da adolescência nos internatos britânicos; “Mad Shelley” seria alcunhado pelos colegas, que o ridicularizavam pela resistência que apresentava às convenções da vida estudantil. A aproximação da vida adulta faria com que esse desajuste adquirisse tons mais graves, levando-o a desafiar abertamente a ordem estabelecida. Em 1811, Shelley publicava The Necessity of Atheism [A Necessidade do Ateísmo], panfleto escrito a quatro mãos com seu amigo e futuro biógrafo Thomas Jefferson Hogg, e que ensejaria sua expulsão da Universidade de Oxford.

Por essa época, Shelley já adotara um estilo de vida em aberta tensão com os valores vigentes, aproximando-se do radicalismo político que levaria a um rompimento com seu pai e provedor. Tomando de vez as rédeas do destino, o poeta, começava a percorrer os périplos que constituiriam sua singular jornada existencial, o que incluiria o envolvimento com lutas políticas que abrangeriam desde projetos socialistas até a defesa da independência da Irlanda e dos direitos dos animais. Paralelamente, estabelecia contatos intelectuais – entre os quais se pode destacar o turbulento encontro com Robert Southey, a profícua relação com Lord Byron e a decisiva aproximação do pensador político William Godwin. Com Mary, filha nascida da relação entre Godwin e a pioneira feminista Mary Wollstonecraft, o poeta viveria a mais significativa entre suas várias (e nada convencionais) relações amorosas: Mary conseguiria mitigar as barreiras impostas pelo egocentrismo de Shelley, graças à sua inteligência e à sua personalidade igualmente independente – conquanto a posteridade, principalmente devido à interferência de interesses familiares, fizesse da autora de Frankenstein uma figura muito mais convencional.

No caso de Shelley, por outro lado, as narrativas biográficas continuariam a insistir na singularidade de sua trajetória – para o que contribuiria a mistificação de episódios associados à sua morte, como as obscuras circunstâncias de seu falecimento, em julho de 1822, por ocasião de um naufrágio na Itália; o suposto recolhimento de seu coração da pira em que o corpo era cremado; e o posterior aparecimento das cinzas num envelope preservado entre as páginas de um exemplar de seu Adonais. A figura de Shelley se consagraria, portanto, como um produto privilegiado da imaginação romântica, para além de tudo o que sua obra materializa dos princípios estéticos a ela associados.

Sementes Aladas, antologia poética publicada em edição bilíngue pela Ateliê, com traduções
de Alberto Marsicano e John Milton, é uma obra que se insere num contexto recente, no qual a poesia
de Shelley vem sendo, finalmente, devidamente apresentada ao público brasileiro. Havia, é certo, algumas traduções de José Lino Grünewald, incorporadas à sua antologia Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século 21 (Nova fronteira, 1988); contudo, além de compilar peças menores, o trabalho de Grünewald apresentava qualidade bastante discutível. Não obstante, no início do século 21 o poeta foi finalmente trazido ao público brasileiro de modo mais satisfatório, traduzido por Leonardo Fróes (O Triunfo da Vida, Rocco, 2001), Paulo Henriques Britto (À Noite, tradução publicada na resta digital Eutomia em julho de 2008) e PéricIes Eugênio da Silva Ramos (Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, Rema, 2009).Vale mencionar, também, a obra do Shelley ensaísta, traduzida por Enid Abreu Dobránzsky (Defesas da Poesia, Iluminuras, 2002).

Sementes Aladas tem o mérito de apresentar um bom apanhado para apresentação da obra poética de Shelley – que, no texto introdutório Sobre a tradução, os tradutores qualificam como “o primeiro livro de traduções dos poemas de Shelley em língua portuguesa”, ignorando a anterior publicação de Ode ao vento oeste, embora isso talvez possa dever-se a um atraso editorial; para além disso, trata-se de uma antologia a ser louvada pela consistência de sua proposta estética. Marsicano e Milton explicitam a intenção de revelar “o profundo sentido filosófico que emanta os versos de Shelley”, o que é efetivamente logrado pela seleção poética constante do volume.

Assim, dele emerge um autor não redutível ao personagem gerado pelo imaginário romântico que anteriormente, mencionamos – mas alguém que, conquanto em diálogo com os valores vigentes em sua época, afirma sua singularidade afastando-se do temário superficial e produzindo uma obra que efetivamente expressa uma particular visão de mundo. Mencione-se, a propósito, a inclusão de peças como a importante Adonais, elegia composta quando da morte de John Keats; e Soneto: Inglaterra 1819, expressão poética do ideário político do jovem Shelley que, diante de “Um velho rei, louco, cego, desprezado e moribundo”, “Governantes que não vêem, sentem ou sabem/ Mas qual sanguessugas apegam-se ao país a fundo”, “Um povo faminto e ferido num campo não lavrado”, não divisa senão “tumbas, das quais um fantasma glorioso/ Pode saltar a iluminar nosso dia tempestuoso”. O reparo que se pode fazer é que Sementes Aladas não reproduz toda a riqueza formal da poesia de Shelley, adotando liberdades métricas, rímicas e rítmicas que fogem à rigorosa construção das peças originais; contudo, logra-se em geral a preservação do sentido dos poemas, que é afinal a que se propõem os tradutores.

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