Um mestre da palavra poética

Segismundo SpinaMorto no final de 2012, Segismundo Spina deixa estudos pioneiros sobre filologia, crítica textual e literatura

Jornal da USP | 14-20 de janeiro de 2013

“Ao longo de sua longa e fecunda carreira de professor dos cursos de Letras da Universidade de São Paulo, Segismundo Spina soube fundir harmoniosamente as suas duas paixões dominantes: a Língua Portuguesa, de que foi e é mestre insigne, e a palavra poética.” Com essas palavras, o professor e crítico literário Alfredo Bosi homenageia o companheiro de travessia no infinito das Letras e mostra uma face inusitada do Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) na apresentação do livro Poesias, publicado em 2008 pela Ateliê Editorial.

Bosi resgata o Spina poeta, que ficou em segundo plano para que o Spina professor se dedicasse aos estudos e ao ensino – por exemplo, da obra de Camões. “O seu numeroso alunado teve o privilégio de assistir às suas aulas sobre poesia trovadoresca, Os Lusiadas, poética renascentista, poesia barroca e poesia romântica, mas só alguns poucos leitores conheciam o poeta que se ocultava por trás do intérprete das letras portuguesas”, observa.

A introdução de Poesias é escrita em versos datados de 1938:

Para o mundo esperar do brilho de uma pena

A página mais bela, o canto mais sublime,

Foi preciso que fosse Isócrates, num crime,

Deslumbrar-se da glória estética de Helena.

Quem nos pode tecer, tão mágica e serena,

Uma ideia genial, flexível como vime,
Se não sente consigo a força que lhe imprime

O amor e a exaltação d’alguma Polixena?!…

O poeta, crítico severo de si mesmo,
orienta:

Vá lendo os cantos meus, porém, digo em verdade,

Não hesito em dizer que o meu leitor não há de

Nos meus versos buscar alguma coisa rica.

Vocação – Spina foi abdicando dos próprios versos para se dedicar aos poetas de sua predileção, como Gregório de Matos, ao estudo da filologia e da literatura e à crítica textual. Publicou diversos livros – A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária foram lançados pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp).

“O professor Spina pertence às primeiras gerações de intelectuais brasileiros que se formaram em universidades nacionais e nelas permaneceram, contribuindo com o seu trabalho de docência, orientação e pesquisa para a construção e transmissão de um saber institucionalizado, sim, mas não limitado, no seu âmbito e alcance, às paredes da escola”, assinala a professora de Literatura Yara Frateschi Vieira, da Unicamp. Yara apresentou um ensaio sobre a vida e obra de Spina no 22º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa.

Para a escritora e professora de Língua Portuguesa da USP Edith Pimentel Pinto, a história intelectual do professor Spina está associada à história institucional da Universidade de São Paulo. “A linha que une o aluno de Letras Clássicas dos anos de 1940 ao titular de Filologia de 1973 passa por todos os degraus da vida acadêmica”, observa. “Nesse percurso, cada patamar ficou assinalado por testemunhos de uma vocação firme e uma pertinácia exemplar.”

Segismundo Spina nasceu em Itajobi, interior de São Paulo, em maio de1921. Fez graduação e pós-graduação em Letras Clássicas na USP. Começou a sua carreira docente em 1944 como auxiliar técnico da cadeira de Literatura Portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH em 1987. Dois anos depois recebeu o titulo de Professor Emérito. O professor morreu no dia 22 de dezembro do ano passado, aos 91 anos, deixando, como destaca Alfredo Bosi, um legado que é referência para o estudo da língua portuguesa e da palavra poética.

Do poeta “de estofo vernáculo”, como define Bosi, ficam os poemas a serem admirados. Nos versos de Nos Bastidores da Democracia, escrito em 1944, o mestre observou:

Uns indigentes, outros plutocratas;
Ricos, plebeus, escravos, autocratas,
Todos são de uma única matéria.

Como é triste, meu Deus, esses
contrários,

Tanto dinheiro e tantos argentários
E famílias morrendo na miséria.

Entre o poeta e o professor e o filólogo e escritor, quem ganha, como bem lembra o amigo Alfredo Bosi, são os leitores e admiradores de Segismundo Spina.

Acesse os livros de Segismundo Spina publicados pela Ateliê

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