Monthly Archives: janeiro 2013

O Cotidiano São os Outros

O Som ao Redor
Renato Tardivo

O Som ao Redor (2012), estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho em longas-metragens, talvez já seja o filme brasileiro mais aclamado dos últimos anos, tendo recebido, entre outros, os importantes prêmios em Roterdã e Copenhague, além de ser incluído na lista dos 10 melhores filmes do ano do New York Times.

O filme aborda a banalização da violência – como fizeram outras produções brasileiras (Cidade de Deus, O Invasor, Tropa de Elite 1 e 2, entre outros) –, traz para o cerne a questão da invisibilidade social – temática trabalhada em documentários recentes e ficções documentais (Estamira, Linha de Passe e os filmes de Sergio Bianchi são alguns exemplos) – e, sobretudo, é um trabalho de linguagem cinematográfica (imagem e som) muito bem realizado. Os superlativos endereçados ao filme são merecidos.

A história se passa em uma única rua de um bairro de classe média de Recife – exceção feita a algumas cenas em Bonito (município próximo à capital pernambucana), no qual um dos personagens, Francisco (W. J. Solha em excelente performance), mantém uma propriedade rural.

Francisco, que possui muitos imóveis em Recife, onde reside, é praticamente o “dono” da rua em que se passa a trama, e é avô de personagens importantes. Seu enigmático sorriso, um rasgo no rosto, revela  um patriarca autoritário e bondoso, seguro e carente, tranquilo e tenso.

Há diversos núcleos na trama; às vezes eles se encontram, às vezes não. E, se Francisco é o “dono” da rua, no polo oposto, os personagens que se relacionam de fato com os demais são os três guardas, liderados pelo personagem de Irandhir Santos, os quais, um tanto “fora de lugar”, chegam para oferecer serviços de segurança particular aos moradores.

A câmera transita entre o interior (das residências e personagens) e o exterior. Dentro, ouve-se a imagem de fora; fora, ouve-se a imagem de dentro. O foco narrativo são os ruídos. A temática do filme, universal, é abordada pelo mergulho no particular e, nessa medida, ela se universaliza ainda mais.

O filme mostra que, no âmbito sociológico, continuamos a nos organizar sob a égide do Senhor/escravo, o que também ocorre no âmbito psicológico: a televisão do vizinho é maior, o casal perfeito é impossível, o corpo intenso só se relaciona com a máquina. E a máquina, que traz o gozo imediato, leva a vida para sempre.

Os corpos são fronteiras em que se alojam “cão de guarda”, “guarda-noturno”, “guarda-costas”. O estampido que leva o sorriso a uma família é o mesmo que traz a desgraça. Ninguém escapa. O cotidiano são os outros. Que gritam – em nós – silêncio.
Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Um mestre da palavra poética

Segismundo SpinaMorto no final de 2012, Segismundo Spina deixa estudos pioneiros sobre filologia, crítica textual e literatura

Jornal da USP | 14-20 de janeiro de 2013

“Ao longo de sua longa e fecunda carreira de professor dos cursos de Letras da Universidade de São Paulo, Segismundo Spina soube fundir harmoniosamente as suas duas paixões dominantes: a Língua Portuguesa, de que foi e é mestre insigne, e a palavra poética.” Com essas palavras, o professor e crítico literário Alfredo Bosi homenageia o companheiro de travessia no infinito das Letras e mostra uma face inusitada do Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) na apresentação do livro Poesias, publicado em 2008 pela Ateliê Editorial.

Bosi resgata o Spina poeta, que ficou em segundo plano para que o Spina professor se dedicasse aos estudos e ao ensino – por exemplo, da obra de Camões. “O seu numeroso alunado teve o privilégio de assistir às suas aulas sobre poesia trovadoresca, Os Lusiadas, poética renascentista, poesia barroca e poesia romântica, mas só alguns poucos leitores conheciam o poeta que se ocultava por trás do intérprete das letras portuguesas”, observa.

A introdução de Poesias é escrita em versos datados de 1938:

Para o mundo esperar do brilho de uma pena

A página mais bela, o canto mais sublime,

Foi preciso que fosse Isócrates, num crime,

Deslumbrar-se da glória estética de Helena.

Quem nos pode tecer, tão mágica e serena,

Uma ideia genial, flexível como vime,
Se não sente consigo a força que lhe imprime

O amor e a exaltação d’alguma Polixena?!…

O poeta, crítico severo de si mesmo,
orienta:

Vá lendo os cantos meus, porém, digo em verdade,

Não hesito em dizer que o meu leitor não há de

Nos meus versos buscar alguma coisa rica.

Vocação – Spina foi abdicando dos próprios versos para se dedicar aos poetas de sua predileção, como Gregório de Matos, ao estudo da filologia e da literatura e à crítica textual. Publicou diversos livros – A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária foram lançados pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp).

“O professor Spina pertence às primeiras gerações de intelectuais brasileiros que se formaram em universidades nacionais e nelas permaneceram, contribuindo com o seu trabalho de docência, orientação e pesquisa para a construção e transmissão de um saber institucionalizado, sim, mas não limitado, no seu âmbito e alcance, às paredes da escola”, assinala a professora de Literatura Yara Frateschi Vieira, da Unicamp. Yara apresentou um ensaio sobre a vida e obra de Spina no 22º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa.

Para a escritora e professora de Língua Portuguesa da USP Edith Pimentel Pinto, a história intelectual do professor Spina está associada à história institucional da Universidade de São Paulo. “A linha que une o aluno de Letras Clássicas dos anos de 1940 ao titular de Filologia de 1973 passa por todos os degraus da vida acadêmica”, observa. “Nesse percurso, cada patamar ficou assinalado por testemunhos de uma vocação firme e uma pertinácia exemplar.”

Segismundo Spina nasceu em Itajobi, interior de São Paulo, em maio de1921. Fez graduação e pós-graduação em Letras Clássicas na USP. Começou a sua carreira docente em 1944 como auxiliar técnico da cadeira de Literatura Portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH em 1987. Dois anos depois recebeu o titulo de Professor Emérito. O professor morreu no dia 22 de dezembro do ano passado, aos 91 anos, deixando, como destaca Alfredo Bosi, um legado que é referência para o estudo da língua portuguesa e da palavra poética.

Do poeta “de estofo vernáculo”, como define Bosi, ficam os poemas a serem admirados. Nos versos de Nos Bastidores da Democracia, escrito em 1944, o mestre observou:

Uns indigentes, outros plutocratas;
Ricos, plebeus, escravos, autocratas,
Todos são de uma única matéria.

Como é triste, meu Deus, esses
contrários,

Tanto dinheiro e tantos argentários
E famílias morrendo na miséria.

Entre o poeta e o professor e o filólogo e escritor, quem ganha, como bem lembra o amigo Alfredo Bosi, são os leitores e admiradores de Segismundo Spina.

Acesse os livros de Segismundo Spina publicados pela Ateliê

.

Uma mente brilhante

Além de pianista, Charles Rosen, que morreu dia 9 de dezembro, foi notável crítico de artes

border: 0px; margin-top: 5px; margint-bottom: 5px

João Marcos Coelho | O Estado de S. Paulo | 17.12.2012

“Quando conversam entre si, na maior parte do tempo, os músicos falam de prazer. Mostram uns aos outros passagens em que as qualidades harmônicas ou melódicas têm um interesse particular e onde há vozes interiores imperceptíveis à audição. Quando toca uma de suas obras queridas, o músico tende a valorizar as passagens preferidas. Mas acontece que essas passagens ganham mais em serem interpretadas sem ostentação, com discrição. A música é uma maneira de instruir a alma e torná-la mais sensível, mas só é útil quando também proporciona prazer, que se manifesta em todos os que abordam a música como uma necessidade imperiosa, tanto do corpo quanto do espírito. A música sempre foi escrita antes de tudo para agradar aos executantes do que ao público.”

Pincei estas frases escritas por Charles Rosen, que morreu no dia 9, aos 85 anos, porque elas revelam algumas das razões que fizeram da música e dos livros produzidos por esta mente brilhante um patrimônio da humanidade. Costuma-se atribuir tal status a obras arquitetônicas, maravilhas naturais. Mas, neste caso, vale o exagero. Certamente o mundo dos que gostam e vivem, subjetiva e/ou profissionalmente, de música empobrecerá muito daqui para a frente.

Se não acredita que isso é verdade, então leia qualquer um dos 28 ensaios de seu derradeiro livro, de 438 páginas, lançado em maio pela Harvard University Press: Freedom and the Arts. Pode começar com Western Music: A View from California, uma resenha feita em duas edições do New York Review of Books, em 2006, da monumental história da música de Richard Taruskin (6 volumes, 4.000 páginas, Oxford U. Press).

Rosen começa macio, dizendo que todo mundo razoavelmente interessado no assunto tem uma história da música em casa. As informações estão à nossa disposição, mediante uma simples consulta. Ledo engano, as histórias da música são apenas uma ficção conveniente, construída de vários modos e com os mais diferentes enfoques, a cada geração. Em seguida, desconstrói, em 40 páginas, a ideologia política e musicalmente conservadora de Taruskin, que envenena o seu projeto (Taruskin também escreve notavelmente bem e é polemista convicto).

O ensaio, como praticamente todos os 28 artigos, foi originalmente publicado na New York Review of Books (a revista Diapason, edição brasileira, n.° 2, de maio/ junho de 2006, publicou o ensaio em português. disponível em www.estantevirtual.com.br). No ano passado, após tomar conhecimento de um artigo resposta de Taruskin à sua resenha, Rosen contra-atacou com Modernism and Cold War. E desmonta o argumento de Taruskin de que o modernismo musical norte-americano foi promovido pelo governo dos EUA como propaganda da guerra fria. Taruskin acusa Rosen de ter se beneficiado deste programa ideológico, porque tocou patrocinado pelo governo dos EUA no início dos anos 1950 na Europa.

Se preferir ler algo de Rosen em português, então curta dois ensaios do livro Poetas Românticos, Críticos e Outros Loucos (Ateliê Editorial, 2004): Códigos Secretos, sobre o pintor Caspar Davi Friedrich e o compositor Robert Schumann e O Crítico Jornalista, Um Herói, sobre a produção de George Bernard Shaw como crítico musical.

Desde 1971, quando lançou O Estilo Clássico, Rosen, pianista excepcional, desenvolveu uma dupla jornada: de músico notável, tão dedicado a Bach, Mozart e Beethoven quanto à música do seu tempo (com destaque para Schoenberg e Elliott Carter, sobre os quais escreveu e gravou), acrescentou a de crítico musical e literário. Transformou-se num autêntico maître à penser, como diriam os franceses, de todos os que desejam se aproximar da música em prévias convicções ou teses, armados só com a inteligência e um profundo conhecimento do assunto. Brincalhão, dizia que começara a escrever livros no tempo livre que o piano lhe proporcionava.

A imagem que hoje se tem dele corre o risco de distorcer sua personalidade. Rosen era antes de

tudo um músico. Que, de repente, conseguiu o milagre de transformar em palavras tudo o que apreendera com os sons. A maioria dos ensaios do livro, como de vários anteriores, é de resenhas de livros ou efemérides. Transcende, claramente, este status. O chamado artigo de ocasião transforma-se em leitura obrigatória para todo tipo de público – provoca espanto nos que acham que conhecem o tema, leva pela mão, em linguagem fácil, e contamina irremediavelmente os que pouco conhecem o assunto com uma paixão avassaladora pela música.

Sedutor intelectual múltiplo, foi tão formidável na condição de critico musical, literário e de artes plásticas quanto em sua vocação original de pianista que estudou com um discípulo direto de Franz Liszt. Dividiu nas últimas décadas cada ano em duas metades: seis meses em seu apartamento de Paris, e outros seis em Nova York, as duas cidades que ele mais amava.

Você não consegue parar de ler seus textos porque, na verdade, ele se diverte enquanto nos deixa saborear seus inteligentes e inovadores passeios pelas artes românticas do romance, poesia, conto, pintura e música. Rosen quer ultrapassar o estágio da crítica como ato de julgamento e conquistar o estágio do exercício critico como ato de compreensão da obra de arte. E consegue isso de modo admirável. “Será que a crítica nos capacita a fruir melhor as obras? Até que ponto é capaz de nos dizer a respeito das obras algo pertinente que já não saibamos? Baseia-se ela em experiências com conhecimentos particulares ou está franqueada a todos os leitores, ouvintes ou espectadores? Se o profissional entende mais do que o amador leigo, qual é o valor desse entendimento?”

Estas são as questões de fundo que se propõe a responder em seus artigos em geral. Compreende-se a necessidade do crítico de desejar dizer alguma coisa original ou revelar um aspecto de uma obra que pareça completamente novo, diz esta mente brilhante que jamais barateia as questões, mas também jamais deixa a escrita escorregar para o hermetismo que afasta a maioria dos leitores potenciais. Ao contrário, todos podem curtir e sair culturalmente enriquecidos saboreando a graça e o profundo conhecimento com que maneja questões tão amplas como a da resenha da história da música de Taruskin, agora publicada em livro nos EUA – o ensaio ideal para você se aproximar do universo de Charles Rosen.

Ideias Encadernadas

Em Livro, o pesquisador francês Michel Melot traça um instigante painel da história do livro e da leitura, percorrendo caminhos que vão desde o livro como objeto até um inusitado traço erótico que esse mundo entre duas capas pode apresentar

Marcello Rollemberg | Jornal da USP | 5 – 11 de novembro

Livro, - Michel MelotA discussão já ficou até chata: o livro em seu formato papel desaparecerá, dando lugar apenas ao livro eletrônico? Mais do que um debate clichê nesses tempos tecnológicos, o blábláblá sobre o (possível) fim do livro em papel acaba servindo, na verdade, para realçar cada vez mais sua importância cultural e social. Não se perde tempo discutindo irrelevâncias. E o livro em papel, com suas ideias encadernadas, é um bem cultural da humanidade há séculos. E possibilita uma série de leituras – com o perdão do trocadilho – que vão muito além do que suas páginas registram e querem dizer. E afinal, dizem. E é justamente esse o caminho que o historiador e bibliotecário francês Michel Melot percorre com seu importante Livro, que será lançado pela Ateliê Editorial durante o Simpósio Internacional Livros e Universidades, que a Edusp organiza esta semana (entre os dias 5 e 8 de novembro) para comemorar seus 50 anos de fundação.

E o título é realmente essa simplicidade lacônica apresentada acima: a palavra e uma vírgula. Um título simples, mais eivado de significados, uma obra aberta para inúmeras considerações e vários entendimentos. Porque é exatamente isso o que o livro permite e o que Melot deseja demonstrar. “Um caleidoscópio de tipos que acenam para o significado laico, senão, coloquial do livro nas sociedades contemporâneas. Dessacralização do objeto, cujo longo percurso se apresenta como tema central de Livro, este belíssimo ensaio de Michel Melot”, afirma a professora da ECA e estudiosa da história do livro Marisa Midori Deaecto, que assina o prefácio à edição brasileira da obra.

É esse mundo “dessacralizado” que Melot apresenta ao longo dos nove capítulos de seu trabalho, abordando temas que vão desde os primórdios dos códices até essa contemporaneidade bipolar, passando por assuntos que ganham subtítulos instigantes: “Livro de Culto ou Culto do Livro?”, “O Editor, o Autor, o Livro: uma Nova Trindade”, “A Dialética da Dobra”, “O Espírito da Letra”, por exemplo. Nada escapa ao olhar atento de Melot nem à sua escrita refinada e, ao mesmo tempo, provocativa. Nem um improvável – mas não impossível, como prova o autor – traço erótico que o livro objeto pode ter. Este trabalho do pesquisador francês talvez seja o paroxismo daquilo que seu colega do outro lado do Canal da Mancha, Holbrook Jackson, quis dizer ao escrever sobre os cinco sentidos que o livro instiga, em seu clássico Anatomy of Bibliomania. Os livros inspiram sentidos os mais diversos – seja o cheiro que exala de suas páginas, seja a textura de uma encadernação, a beleza pictórica de uma capa. E, como foi abordado há pouco, esse lado erótico ou erotizante que o livro pode apresentar, mesmo que não haja a intencionalidade. Esse aspecto é realçado graças a um trabalho fotográfico de primeira linha elaborado por Nicolas Taffin, que estabelece um feliz e inusitado diálogo com o texto de Melot.

“Entre Duas Capas” – Para elaborar os tópicos de seu longo ensaio, Melot apresenta uma definição de livro tão simples quanto o título de seu trabalho: livro, para ele, é “aquele que reside entre duas capas”. Mas que não se engane o leitor mais apressado. Nem com o título, nem com a definição. Simplicidade assim guarda um universo de explicações, muitos caminhos e uma erudição que não tem tonalidade de arrogância intelectual nem de hermetismo. Pelo contrário.

O trabalho de Melot é, antes de mais nada, um convite à leitura prazerosa, a um passeio pela história do livro e da leitura, a uma discussão saborosa acerca do que o livro representa para a sociedade, tanto como objeto quanto como fiel depositário de ideias (boas ou não) encadernadas. O livro e todas suas nuances, mesmo aquelas que têm uma tela de cristal líquido ou LCD como anteparo. Como afirma Régis Debray no prefácio à edição francesa do volume: “O que degrada redime (a matéria). O que murcha assegura (os limites). O livro também brinca de quem-perde-ganha”. E toda a tese de Melot acaba por residir em uma obviedade que os arautos da tecnologia se recusam a ver: o livro, todas as suas variáveis e todas as suas encarnações (ou seriam “encadernações”?) chegaram até aqui, ao século 21, e continuam a fustigar corações e mentes. O livro permanece, o homem – seu autor -, não. Pelo menos não no corpo físico. É como afirma Michel Melot, de uma forma tão irrefutável quanto sintética de suas ideias: “O livro é um indicador da condição humana. Como nós, é completo quando está sozinho, é incompleto diante dos outros. A força do livro é que ele sobrevive a nós e tem, como nossa vida, um fim. O leitor deve curvar-se a ele. Escrevi o que eu queria escrever. Que me sigam, ou não, este livro já terá cumprido seu percurso. Mas você não chegou ao fim com o livro”.

Acesse o livro na Loja Virtual

Severidade em Santiago

Santiago

Renato Tardivo

Filme de casa se exibe em casa

Santiago (2007), documentário idealizado e dirigido por João Moreira Salles, é um dos melhores filmes do cinema nacional da última década. O filme faturou prêmios importantes, incluindo o Festival Du Réel, em Paris – talvez, o reconhecimento máximo que um documentário possa receber.

No entanto, advertiu à época o diretor, Santiago entraria em poucas salas. É que a temática do filme é muito pessoal, e Salles julgava que apenas sua família iria se interessar. É sugestivo que, em São Paulo, Santiago só tenha entrado em cartaz no Espaço Unibanco e, no Rio, na Casa da Gávea (palco da própria história). Qualquer relação com a família Moreira Salles, nesse caso, não é mera coincidência: um filme de casa se exibe em casa.

A grande partida

Santiago, que dá nome à história, foi mordomo na mansão dos Moreira Salles – a casa da Gávea – por trinta anos. Sua personalidade afetuosa e extremamente peculiar marcou a infância dos filhos do patrão – Walther Moreira Salles.

Tudo começa quando, dez anos após ter deixado a casa da Gávea, João, um dos filhos, ao completar trinta anos, decide revisitá-la. Com sua câmera, ele volta ao lugar em que cresceu: a casa que se confundia com seu maior guardador, Santiago. É por isso que ele aporta também no pequeno apartamento onde o ex-mordomo passaria, aposentado, os últimos anos de sua vida. E colhe, em cinco dias, aproximadamente nove horas de um rico e belo depoimento.

Roteiro, decupagem, filmagem. Tudo ia bem… até a montagem. Na sala de edição o filme não funcionou. Não aconteceu. As imagens com Santiago foram captadas em 1992, mas o projeto foi abortado um pouco depois. Assim como um pouco depois morreria, aos oitenta e dois anos, o seu personagem: “a grande partida”.

Olhar encarnado

Cerca de dez anos depois, o documentarista retomou o projeto. E, então, o filme aconteceu. Porque Santiago não é o documentário pensado quinze anos antes: um projeto que, interrompido, é levado adiante do ponto em que parou. Em vez disso, trata-se de um documentário sobre o documentário que não houve. Sobre o filme que, na sala de edição, não aconteceu. O material de montagem do primeiro projeto dispara o trabalho de criação de um novo projeto.

Salles revisita a sua própria (não) produção.

Intrincado a esta fórmula, aos quarenta e poucos anos (não mais aos trinta), o documentarista retorna amadurecido à casa da Gávea e ao riquíssimo universo de Santiago. Assim, ao voltar o olhar para o seu próprio projeto, ele não realiza um documentário – como seria antes – sobre o mordomo da família, senão sobre a sua própria vida (dele, cineasta). Daí o mergulho na figura de Santiago ser tão intenso, verdadeiro. Encarnado.

Imagens da memória

Os planos de Santiago – o homem – são “severos”, influenciados, segundo o diretor, por determinado cinema japonês. Mas essa severidade, que se volta sobre si mesma e é com frequência bem-humorada, não se limita às cenas com o ex-mordomo. Ela permeia todo o filme, esteja em foco Santiago, esteja em evidência, por meio da voz off, o narrador-diretor.

Tomando-se as partes pelo todo, não se demora a perceber que Santiago é um documentário severo. As imagens da memória são porosas. E em preto-e-branco. Poros que se infiltram em outros poros, memória que constrói mais memória, trinta mil páginas de histórias, da História. Nada mais coerente que o projeto abortado tenha servido de embrião para o documentário enfim concretizado. Um tocante retrato de processo.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Por que editar os clássicos

Coleção Clássicos Ateliê

João Luiz Marques

O romance brasileiro Til, de José de Alencar, entrou para a lista do vestibular da Fuvest em 2012. Isto mobilizou muitas editoras a publicar a obra e atender a procura por esse livro, que, certamente, irá aumentar. Entretanto, a lista dos vestibulares e as indicações de leitura para os currículos escolares não são os únicos parâmetros que orientam as editoras para a publicação dos clássicos da literatura. Para Plinio Martins, editor da Edusp, “há inúmeras obras que o público praticamente não tem contato na escola, mas que são importantíssimas”. E acrescenta: “Os clássicos são obras que conseguem sintetizar condições humanas que transcendem seu tempo. Felizmente, muitas pessoas buscam ainda os clássicos mesmo depois de saírem da escola”.

Na pressa de publicar títulos, para responder ao mercado e a procura crescente por um clássico, algumas edições correm o risco de fazer uso de versões pouco confiáveis de uma obra – que passaram por atualizações equivocadas ou correções indevidas e, eventualmente, deturpado o texto original. O que deve ser feito, então, e que cuidados tomados para selecionar uma obra e fazer uma edição confiável? Ivan Teixeira, professor da USP e um dos coordenadores das coleções Clássicos Ateliê e Clássicos Comentados, da Ateliê Editorial, acredita que “para publicar uma edição confiável de um clássico devem ser contratados profissionais especialistas em cada obra, tanto para o estabelecimento do texto quanto para introduções ou traduções”. E acrescenta: “Cabe ao editor manter contato com bons profissionais. Sem eles, uma coleção de clássicos não seria possível”. Na Ateliê Editorial, a seleção para publicação de clássicos é feita seguindo os critérios da relevância e da oportunidade de encontrar esses profissionais.

O que é um clássico?

Para Ivan Teixeira, os clássicos têm a capacidade de apreender a essência dos grandes debates existenciais e culturais de seu tempo, manipulando a língua de modo imprevisto e criador. “Os clássicos resultam não só da força de um autor, mas também do vigor de sua cultura. Sendo confluência de momentos privilegiados tanto no indivíduo quanto na coletividade, as obras clássicas oferecem à história o que há de melhor na própria história. Por outro lado, a tradição cuida de preservar e divulgar os clássicos. Por essas razões, eles sobrevivem e persistem na função de oferecer modelos e alterar padrões.”

Clássicos que não devem faltar na livraria

Sobre os clássicos que não devem faltar em uma livraria, Plinio Martins diz ser tarefa difícil fazer uma seleção, mas acredita ser imprescindível ter toda a obra de Machado de Assis, Eça de Queirós, Shakespeare, a Divina Comédia, clássicos gregos como Ilíada e Odisseia, Os Sertões, Dom Quixote, Guimarães Rosa, Gabriel García Márquez… Para ele, “é impossível fazer uma lista fechada, mas certamente uma livraria deveria ter a maior quantidade de clássicos que puder, não apenas os best-sellers do momento”.

Conheça!

Coleção Clássicos Ateliê

Coleção Clássicos Comentados

.

Nota de falecimento de Segismundo Spina, professor emérito da USP

Segismundo Spina

A Ateliê lamenta profundamente a perda do professor emérito da USP, Segismundo Spina, que publicou obras importantes, tais como Do Formalismo Estético Trovadoresco e História da Língua Portuguesa. Conheça os livros do autor publicados pela Ateliê: http://www.atelie.com.br/livros/segismundo-spina

.

Leia abaixo a nota de falecimento publicada no site da USP:

.

Com pesar, comunicamos o falecimento do professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Segismundo Spina, ocorrido no dia 22 de dezembro de 2012.

Nascido em Itajobi, em São Paulo, em maio de 1921, Spina fez a graduação no curso de Letras Clássicas e a pós-graduação na USP. Em 18 de setembro de 1944, iniciou na FFLCH como auxiliar técnico da cadeira de literatura portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas em 12 de fevereiro de 1987. E, em 13 de abril de 1989, recebeu o título de professor emérito pela Faculdade.

Ao longo de sua carreira de professor dos cursos de Letras da USP – atuando principalmente nas áreas de linguística, letras e artes; literaturas vernáculas – Spina deu contribuições fundamentais à filologia, à crítica textual e aos estudos literários. No Brasil, tornou-se referência obrigatória para os estudos da obra camoniana e da estética barroca. Foi também responsável pela difusão do conhecimento objetivo das estruturas do poema.

É autor de diversos livros, tendo como obras mais destacadas os estudos Do Formalismo Estético Trovadoresco e Apresentação da Poesia Barroca Portuguesa. Na Editora da USP (Edusp), tem três títulos publicados: A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária.

Paralelamente, ensinou ainda Literatura Portuguesa na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e regeu a cadeira de Filologia e Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

.