Monthly Archives: outubro 2012

Até a Margem do Grande Rio, de Edu Campos

Bruno Zeni | Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes

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Até a Margem do Grande RioO primeiro livro do fotógrafo e escritor Edu Campos reúne textos de diferentes gêneros, acompanhados de algumas fotografias em preto e branco. O tema da paisagem interiorana dá unidade à compilação. São poemas, fragmentos de diário, contos breves, diálogos, anotações, registros e impressões sobre o cenário e a sociabilidade do interior paulista.
A paisagem é desidealizada, feita de mato, pasto, rios de margens ocupadas, urbanidade comercial e selvagem. Os pesonagens são homens rústicos e desconfiados, mulheres que já não se adequam nem se conformam com o papel tradicional, índios adulterados ou acuados, vira-latas, bois, animais selvagens e ameaçadores.
A beleza profunda dos textos está no procedimento instável, no impulso investigativo e tateante promovido pelo narrador, adestrando a incapacidade do sentido último, a fragilidade dos laços sociais, as ambiguidades do convívio e da violência, a fantasmagoria nostálgica de uma natureza bucólica que não tem lugar –e talvez nunca tenha tido conquista do interior de São Paulo.
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Os bastidores de Machado de Assis

Altar & o Trono, O – Dinâmica do Poder em O AlienistaObra analisa contexto pessoal em que o imortal escreveu O Alienista

Carmen Guerreiro | Revista Língua Portuguesa

É muito difícil ler um clássico sem o peso da noção prévia de que se está diante de um clássico. A primeira leitura parece nascer contaminada se lança escritor e obra num limbo atemporal que despreza o contexto histórico, político, social e cultural de publicação.

Machado de Assis pode ter sido ele também vítima desse equívoco crítico. Isso fica claro quando Ivan Teixeira, em O Altar & o Trono – Dinâmica do Poder em O Alienista, nos faz mergulhar na sociedade da qual Machado de Assis fazia parte no fim do século 19, quando publicou o conto O Alienista, que satiriza a oposição entre ciência e igreja.

Vencedor do prêmio José Ermírio de Morais 2011, da Academia Brasileira de Letras, o livro tem o cuidado de não analisar Machado como ícone sagrado da literatura, mas um homem da imprensa vivendo o cotidiano e as questões de sua sociedade. Explora o dia a dia e funcionamento do jornal A Estação, editado por Machado, que para o autor influenciou a produção literária do imortal, como na preferência por capítulos curtos, que se encaixam melhor no formato do periódico.

Teixeira, mestre e doutor em literatura brasileira pela USP e professor livre-docente, faz um levantamento dos discursos de que Machado de Assis se apropriou para escrever o texto, escrito num período conturbado do Segundo Reinado, em que Machado usou o seu trabalho para se posicionar em relação a questões religiosas da época.

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Livros em debate

Simpósio Internacional "Livros e Universidades"
Simpósio Internacional “Livros e Universidades” será o maior encontro internacional de especialistas do mundo editorial e acadêmico já realizado no Brasil. Entre eles, representantes das Universidades de Cambridge, Yale, Leipzig, Buenos Aires e Sapienza di Roma, entre outras.
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Pesquisadores do livro e especialistas do meio editorial e acadêmico do Brasil, Américas e Europa reúnem-se de 5 a 8 de novembro, em São Paulo, no Simpósio Internacional Livros e Universidades, que acontece no auditório da Biblioteca Mindlin, na Universidade de São Paulo (USP). O encontro, gratuito e aberto ao público, cobrirá o amplo universo do livro, da edição ao mercado, da diversidade de conteúdos às novas plataformas, da produção à formação de público.
“Será uma oportunidade para refletir sobre a história do livro e do conhecimento”, explica Marisa Midori Deaecto, curadora do Simpósio, que o dividiu em três eixos temáticos: Editores (reunindo editores de universidades do Brasil, Américas e Europa), Formadores (destinado a formar profissionais na área editorial) e Pesquisadores do livro (acadêmicos renomados no campo da História do livro e da leitura).
O eixo dos Editores contará com representantes das universidades de Cambridge, Oxford, Harvard, Yale, Chicago e Califórnia, e das universidades brasileiras USP, Unicamp, UERJ, UFMG, UFSC e UFPA, além dos presidentes das associações de imprensas universitárias do Brasil, dos Estados Unidos, da Europa, da América Latina e do Caribe.
Entre os Formadores destacam-se especialistas das universidades alemãs Joahnnes-Gutenberg e Leipzig, da canadense Sherbrook, da Universidade de New York e da francesa Arts e Métiers du Livre, de Paris, além das brasileiras USP e UERJ.
Já a História do livro e da leitura reunirá pesquisadores brasileiros e de mais 11 países: Estados Unidos, Canadá, Argentina, México, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália e Hungria. Os temas vão desde a Conglomeração e Monopólio nas Mídias, a ser apresentado por André Schiffrin (The New Press, NY), autor de O negócio dos livros e de O dinheiro e as palavras, até a polêmica que envolve os e-books, apresentada pelo alemão Andreas Degkwitz (Humboldt-Universität zu Berlin), em Livros, Bytes ou Ambos. Veja a programação completa em www.edusp.usp.br.
O Simpósio Internacional Livros e Universidades é promovido pela Edusp, com apoio do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) e da Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, e integra as comemorações dos 50 anos da Editora da Universidade de São Paulo.
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Informações: Fabio Rigobelo fabio@lufernandes.com.br / Leonardo Neto leonardo@lufernandes.com.br
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O Conto

O Conto

Uma, duas, três  palavras. Assim é possível criar uma ação, uma narrativa popular que tenta dizer o real, mas investe na ficção.

Paulo Vasconcelos | Brasileiros

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“(Natal) Minha sogra ficou avó.” — Oswald de Andrade, em Memórias Sentimentais de João Miramar,  1924.

Era uma vez, um homem que…,  O conto é, por excelência em suas raízes, uma narrativa popular, que tenta dizer o real e instaura a ficção. Mesmo os povos ágrafos tinham os seus contos orais.
O gênero é tão antigo quanto a fala e encontramos narrativas de povos indeterminados, até egípcios, gregos e romanos, orientais e africanos, passando assim por lendas, parábolas bíblicas, novelas medievais e fábulas que constituem nosso conhecimento narrativo e nos faz adentrar ao romance, à novela, enfim, a uma diversidade de gêneros literários.
O conto aparece familiarmente entre nossos grupos: família, amigos e igreja… Ele se constitui de uma corrente de fatos, fazendo o encadeamento do enredo instaurando o espaço, o tempo e os personagens.
Com a imprensa, o conto popularizou-se como gênero e ganhou status de narrativa no campo da literatura. Machado de Assis, os irmãos Artur e Aluísio Azevedo e Lima Barreto, entre tantos, que o digam. Sendo uma narrativa breve, o conto chega a seus extremos nos minicontos, em que a quantidade de letras varia desde que o sentido e a estrutura tenham amarras.
Dalton Trevisan, em 1994, por meio de sua obra Ah, É? (Editora Record), traz pequenas histórias que, na verdade, entram no reino dos minicontos: “Só de vê-la – ó doçura do quindim se derretendo sem morder – o arrepio lancinante no céu da boca.”
Marcelino Freire, em seu excelente atrevimento literário, nos aponta essa carpintaria literária, em obras de muitos autores de medonha oficina da palavra. Em 2004 ele publicou Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, SP), que reúne cem escritores brasileiros em cem minicontos de até 50 letras. Alguns deles:
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Assim
“Ele jurou amor eterno. E me encheu de filhos. E sumiu por aí.” – Luiz Rufatto
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Aeroporto
“Banheiro na chamada do voo. Cálculo renal salta. Ele guarda.” – João Gilberto Noll
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Quem
“Sim, doutor, estou louco. Mas quem é esse que diz estou louco?” – Sérgio Sant’Anna
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Confissão
“- Fui me confessar ao mar.
– O que ele me disse?
– Nada.”
Lygia Fagundes Telles
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Pedofilia
“Ajoelhe, meu filho. E reze.” – Marcelino Freire
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E aí vem o poeta, que me convence que os limites dos gêneros textuais são fronteiras muito tênues:
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Amor
“Maria, quero caber todo em você.” – Manoel de Barros
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E parece nosso saudoso Moacyr Scliar (1937-2011): “Um microconto em 50 letras? Pior. A vida toda em 50 letras.”
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Mas o êxtase vem com as palavras do pernambucano Raimundo Carrero: “Quatro letras nada.”
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Paulo VasconcelosPaulo Vasconcelos é paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP, Professor de Teoria Literária na Anhembi Morumbi, professor colaborador da ECA-USP, Fundação Escola de Sociologia e Política-FESP, além de contista e poeta com livros publicados (paulo@brasileiros.com.br).

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Sessão de Terapia: Campo e Contracampo

Sessão de Terapia

Renato Tardivo

O sucesso mundial “Bi Tuful”, série criada pelo israelense Hagai Levi (“In Treatment”, nos EUA, em sua versão mais conhecida), ganha produção no Brasil, com direção de Selton Mello. Como na versão original, a série de televisão mostra o terapeuta, Theo (Zécarlos Machado) em quatro atendimentos por semana (um em cada dia) e, às sextas-feiras, é Theo quem se encontra com a terapeuta Dora (Selma Egrei).

Inicialmente, é preciso que se leve em conta a especificidade da linguagem, isto é, trata-se de um produto para televisão que busca capturar o espectador pela via do entretenimento. Essa especificidade, óbvia na aparência, serve para que o espectador não seja levado a crer que as sessões de terapia, tal como mostradas na série, sejam cópias fieis de sessões de terapia reais. Nem todas (se tomadas isoladamente, talvez uma pequena parte) as sessões de terapia de verdade são interessantes (entenda-se “prazerosas de assistir”) como as da série. Na vida real, não há um roteiro prévio a ser filmado: o roteiro se desenha ao longo do processo. Daí, do meu ponto de vista, o que menos importa é tecer considerações sobre a verossimilhança das sessões da série. O contexto da psicologia – ou, mais especificamente, da psicanálise, se considerarmos a maior parte da conduta do terapeuta e os livros captados vez ou outra pela câmara: Freud, Lacan, Roudinesco – talvez funcione mais como o continente, isto é, uma espécie de pano de fundo para que conteúdos (via de regra atrelados ao sofrimento, no entanto, como disse, com vistas ao entretenimento) possam aflorar.

Esse cuidado faz justiça à própria série, que deve ser avaliada dentro da sua linguagem, bem como à dinâmica que se estabelece no contexto complexo de uma psicoterapia; dinâmica sobre a qual o público leigo não possui referências bastantes para opinar (mais ou menos como não se esperaria um parecer técnico do espectador leigo em uma série, por exemplo, que abordasse o ofício de um engenheiro).

O consultório do terapeuta – o que no Brasil não é muito comum – é um dos cômodos de sua própria casa: uma ampla sala de estar com sofás, poltronas, divãs, mesa com computador, estantes para livros. Os pacientes, no entanto, não circulam pelas demais áreas da casa. São eles: Júlia (Maria Fernanda Cândido), Breno (Sérgio Guizé), Nina (a estreante Bianca Muller) e o casal João e Ana (André Frateschi e Mariana Lima). Além do próprio Theo, que, às sextas, se senta no sofá de Dora, cujo consultório segue o mesmo conceito do dele, embora mais suntuoso e sofisticado.

A propósito dos encontros com Dora, há certa confusão na configuração da relação entre eles – trata-se de uma conversa entre amigos/colegas, de supervisão ou de análise? Theo fazia supervisão com Dora – situação em que o terapeuta recorre a um colega, via de regra com mais experiência, a fim de obter um outro olhar com vistas a auxiliá-lo na condução de um caso clínico. No entanto, cerca de 8 anos atrás, após um rompimento traumático, ele deixa de procurá-la. Ocorre que, na quinta-feira da primeira semana da série, após sessões difíceis em seu consultório, Theo sente-se impelido a procurar Dora novamente.

A confusão sobre a relação entre eles já se revela no ato falho inicial de Theo, que, ao entrar no consultório de Dora, senta-se na poltrona da terapeuta. Após ser colocado no seu lugar, por meio da intervenção de Dora, a conversa entre eles aponta para aquilo que (como sabemos) será o espaço de análise para o próprio terapeuta – levado por questões que experimenta com seus pacientes mas que, inevitavelmente, os afetam também em sua humanidade. Aliás, essa inversão talvez seja o aspecto mais interessante da série: o protagonista é o terapeuta; não os clientes. Em reuniões clínicas, relatos de caso, supervisões etc., conquanto a humanidade do terapeuta esteja sempre presente (também enquanto protagonista do processo), toma-se devidamente uma série de cuidados para não se avançar o sinal e tocar em questões que devem ser trabalhadas pelo analista em sua própria análise.

Na série, no entanto, a câmara invade o setting; mostra o terapeuta momentos antes de receber o cliente (por exemplo, desmascarando a farsa do filho de 8 anos, que simulava uma febre para faltar à aula) e momentos após o término das sessões. E, nessa medida, a série desmistifica a noção ultrapassada e reducionista do terapeuta enquanto uma tela em branco na qual os pacientes projetam suas angústias, medos, sofrimentos etc. No âmbito da psicanálise, o analista precisa manter certa distância entre sua vida pessoal e os seus clientes a fim de poder ocupar os mais diversos lugares diante dos pacientes na dinâmica da transferência, isto é, para que, sem se fixar em apenas um lugar, possa acompanhar os clientes nos mais variados aspectos e relações a partir dos quais eles (clientes) se constituem. Isso não significa, no entanto – e muito ao contrário –, que os aspectos obscuros do próprio terapeuta não façam parte do jogo. Daí a importância da supervisão e análise pessoal, ou seja, o cuidado de si (terapeuta) é condição para o cuidado do outro (paciente).

E a série, ao colocar a câmara no consultório do terapeuta e mostrá-lo em diferentes situações clínicas, vai abrindo frestas em sua rigidez profissional, ao modo de um vouyer que se deleita com a sua vida pessoal, e o acompanha em seu próprio sofrimento. Com efeito, se a dinâmica das sessões nem sempre é verossímil, se as atuações, tomadas do ponto de vista documental, deixam a desejar (Theo, por vezes, é inexpressivo; aqui ou ali há algum excesso por parte dos pacientes, por exemplo, o amor de transferência que irrompe na sessão com Júlia, paciente de Theo há um ano), do ponto de vista da dramaturgia as atuações funcionam bem. A sobriedade do terapeuta (gestos, fala, figurino) e da direção de Selton Mello contribui para que a imagem de Theo se construa na relação entre os fragmentos trabalhados com os clientes e em sua análise; fragmentos, aliás, muito bem executados pelo trabalho de câmara e pela edição, sobretudo nas possibilidades da relação campo e contracampo.

E, neste aspecto, campo e contracampo, talvez se encontrem: ao problematizar a imagem segundo a qual o terapeuta é aquele que tudo sabe, o espectador tem a chance de habitar o seu interior e, por meio da fruição, constatar que o cuidador é também um ser faltante. Para o público especializado, é igualmente importante quebrar a crença da onipotência do analista e/ou da linha teórica que ele segue; do contrário, em vez de cuidado, adoeceriam ambos: campo e contracampo.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Rosário Fusco, “o gigante voraz”

Escritor mineiro admirado por Mário e Oswaldo de Andrade hoje é quase desconhecido.

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Rosário Fusco

Ronaldo WerneckHoje em Dia

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rosário fusco o que foi físsil rosário fósforo
foi-se de fato lume fora do fusco do rastro do risco
que já foi sim e não porque nunca foi nunca foi-se de fato
rito rosto rateio ritmo rumo ruminação relíquia

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“Morreu de talento. É a urna de cinzas detergentes do modernismo” — ele declarava sobre Oswald de Andrade, na entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos para o Pasquim, em 1976. Parecia falar de si mesmo, de seu talento, que lembrava o de Oswald. Há 35 anos, no dia 17 de agosto de 1977, morria em Cataguases o escritor Rosário Fusco. Nascido em 19 de julho de 1910 em São Geraldo (MG), Fusco veio com um mês para a cidade onde se tornaria, ainda adolescente, um dos fundadores e enfant terrible da revista Verde. Lançada em 1927, a Verde foi um dos principais braços do movimento modernista em Minas Gerais. Após longo périplo “oropa-frança-bahia” (Rio /Paris/Nova Friburgo), Rosário Fusco voltou em 1968 para Cataguases, onde ficou até o final da vida. Em 2010, o seu centenário de nascimento passou praticamente esquecido. “Lá se foi o velho Rosário Fusco” – escrevia o cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil de 21 de agosto de 1977, quatro dias após a morte do romancista: “um gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se preferirem) a aventura antropofágica proposta pelos modernistas. Cosmopolita, para onde quer que fosse levava um coração provinciano. Teria que terminar em Cataguases, misteriosa cidade com vocação de radioamador – dentro das casas, nos bares, na praça, na modorra da roça é apenas uma prevenção de forasteiro: na verdade, Cataguases está em febril contato com o mundo, é pioneira em cinema, em literatura, em arquitetura”.
Cataguases deve muito a Rosário Fusco, verdadeiro motor da revista Verde, um vulcão que escrevia, ilustrava, diagramava, mandava (e recebia) cartas pra todo mundo – principalmente para o modernista Mário de Andrade. Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira. Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho, bedel no Ginásio.
Aos 15 anos, já colaborava no Mercúrio, jornal dirigido por Guilhermino César, e logo em dois outros jornaizinhos, Boina e Jazz Band. Com José Spindola Santos, edita Itinerário — e juntos fundam a livraria-editora Spindola & Fusco. Aos 17, é um dos criadores da Verde e, aos 18, publica “Poemas Cronológicos”, com Enrique de Resende e Ascânio Lopes (1928). Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937.

Fusco só escrevia à mão com uma velha e rombuda Parker 51

Romancista, funcionário federal, dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista, crítico literário, ensaísta, secretário da Universidade do Distrito Federal e procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um homem só, mesmo um muito enorme e da melhor qualidade como Rosário Fusco. Melhor dizer, simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque ele foi o primeiro escritor brasileiro a ser reconhecido como tal pelo antigo INPS. Em meados dos anos 1960, ele volta para Cataguases. “Onde anda Rosário Fusco?” – (se) perguntava, em 1996, um poeta da terra. Por acaso, eu mesmo. “Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, anotando trechos ou gravando situações que irão compor um próximo romance?” Fusco só escrevia à mão: “assim me sinto mais ligado ao que estou escrevendo. Além de péssimo datilógrafo, a máquina me distancia das coisas, da densidade dos corpos”. Onde andam o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário – aquela que ficava sobre a mesa do seu escritório na casa do bairro da Granjaria? Onde andam aquela panela, aquela bota? Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações “do rol dos confessáveis (as outras; Machado de Assis, Dostoievski, Beethoven). Mas que coisa é Rosário Fusco, que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.”?

a.s.a. – associação dos solitários anônimosObras

De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance L’Agressore, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio, Fusco publica inúmeros títulos em vários gêneros: Fruta de Conde, poesia, em 1929; Amiel, ensaio, 1940; O Livro de João, 1944; Carta à Noiva, 1954; O Dia do Juízo, 1961, romances; Vida Literária, crítica, 1940, Introdução à Experiência Estética, ensaio, 1949; Anel de Saturno e O Viúvo, de 1949, teatro; e Auto da Noiva, farsa, 1961. A Ateliê Editorial publicou seu romance póstumo a.s.a.: associação dos solitários anônimos.

Em 1976, sai nova edição de O Agressor, pela a Editora Francisco Alves. O mesmo romance é também republicado cm 2000, pela Bluhum. Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor, a.s.a. – associação dos solitários anônimos. Existem ainda outros inéditos, como Vachachuvamor, romance; Um Jaburu na Tour Eiffel, livro de viagem; e Creme dc Pérolas, poemas eróticos.

Vida e Morte

Que coisa é Rosário Fusco? Um escritor e basicamente um romancista, com toda a sua danação e glória: “Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever… Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes.., Vivo – quem não vive? — sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protestos de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça, irremovíveis. Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair… Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”.

Em sua crônica quando da morte do escritor, Carlinhos Oliveira brinda à vida e faz de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem duvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”. Sim, Rosário Fusco viveu e morreu de talento…

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