Deus e o Diabo e Abril Despedaçado: do sertão ao mar

“ambos questionam as possibilidades e limites para o destino do sertanejo”

Renato Tardivo

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Deus e o Diabo.

Deus e o Diabo

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), pertencente ao Cinema Novo, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro moderno. Seu diretor, Glauber Rocha, é um dos principais nomes – senão o principal – do cinema brasileiro. Foi sobretudo Glauber quem incorporou às motivações políticas do Cinema Novo um trabalho sofisticado no plano mesmo da linguagem cinematográfica, cunhando esse estilo de filmar por “estética da fome”, cujo slogan mais conhecido foi “câmera na mão, ideia na cabeça”.

Em Deus e o Diabo, Glauber teatraliza, a mis-en-scène é complexa, isso para não mencionar o radical trabalho de montagem e a reflexão que ela suscita. O filme acompanha as andanças do vaqueiro Manuel e sua esposa, Rosa, pelo sertão do Brasil. Podemos dividir a trama em duas partes: na primeira, Manuel junta-se a Santo Sebastião; na segunda, ao cangaceiro Corisco. Seja no plano religioso (primeira parte), seja no plano da violência (segunda), o bordão do filme “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão” – conforme aponta Ismail Xavier, um dos principais analistas da obra de Glauber Rocha – é emblema de destino certo no sertão, e não propriamente de liberdade.

Por meio de um impulso totalizador, Glauber realiza um cinema de transe, no qual a trama se desenrola em uma sucessão de catarses. A história, em linguagem de cordel, é contada pelo cego cantador e tem como personagem-síntese (se é que se pode usar a expressão; melhor seria falar em dialética sem síntese, ou, com Adorno, em “dialética negativa”) Antônio das Mortes – que anuncia e encampa a “grande guerra sem Deus e o Diabo”, o que só se consumará “depois que todos morrerem”.

Abril Despedaçado

Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, também se passa no sertão do Brasil, embora seja baseado no livro homônimo de Ismail Kadaré, cuja trama se desenrola na fria Albânia. Introduzindo a cena inicial, há a legenda: “Sertão Brasileiro, 1910”. O filme, a partir do menino Pacu, conta a história de uma infindável disputa por terra entre duas famílias, guerra pautada pela Lei do Talião e que tende a dizimá-las. Os retratos dos mortos perfilam-se em um corredor da casa sombria, como que a assombrar os vivos – que devem cobrar o seu sangue. Nesse sentido, chama a atenção o contraste entre a luminosidade de fora e a pouca luminosidade no interior da família: a morte que não dá trégua.

A propósito, em “O mal-estar na cultura”, Freud, desenvolvendo as noções acerca da pulsão de morte, defende a ideia de que, para que haja civilização (cultura, coletividade), os indivíduos precisam abdicar, em algum grau, da satisfação pulsional, submetendo-as às normas culturais – à lei. A descarga total da carga pulsional traz a desordem, o caos. Para Freud, ter de se haver com essa carga recalcada implica, inevitavelmente, algum grau de mal-estar. Daí os indivíduos, se não podem ser plenamente felizes, se valerem de recursos culturalmente permitidos para lidar com essa insatisfação: sublimação, religião etc.

Ocorre que, em Abril Despedaçado, é a obediência estrita à lei que traz a morte, a destruição. Trata-se da existência que tende à não-existência. No filme de Salles, o mal-estar é levado às últimas consequências e a destrutividade é culturalmente permitida, não porque a lei é violada mas justamente pelo seu oposto. Há uma ordem pervertida das coisas.

Do sertão ao mar

Apesar de pertencerem a momentos históricos distintos e, mesmo, referindo-se a diferentes épocas, os dois filmes abordam temas afins. Embora em Deus e o Diabo tenhamos o foco sobre a opressão implicada pelas relações de poder no âmbito social e o Abril Despedaçado aborde a disputa entre duas famílias aprisionadas à tradição, ambos questionam as possibilidades e limites para o destino do sertanejo.

Do ponto de vista dos dispositivos cinematográficos, o filme de Glauber é mais complexo. A carência de recursos materiais trabalhada com refinamento estético resulta em um cinema mais difícil. Abril Despedaçado, por sua vez, é um filme mais lento, contemplativo. Neste, a violência – banalizada – não liberta; aprisiona, e é a reflexão a partir da sua repetição o meio para se atingir o destino.

Abril Despedaçado aborda questões existenciais e possui atmosfera atemporal. O filme não se pauta pela lógica da profecia, senão da ressignificação da experiência. São a ingenuidade e a criatividade infantis, disparadas pelo encontro do menino com os andarilhos circenses, que disparam a ruptura: o passado petrificado que pesa sobre o sertão é reconstruído pelo menino. O desfecho é incerto.

Em Deus e o Diabo, a preocupação é outra: o olhar se volta para o futuro. O plano final, no qual o mar via ao sertão, é a maior das catarses, no sentido de que encampa todas as demais; expressão, como vimos, do impulso totalizador de Glauber – o mar vai ao sertão.

Em Glauber, o mar é destino certo no sertão. Não há “trégua” no caminho em direção à mudança. Em Abril Despedaçado, o destino se constrói por meio de transformações no âmbito da família, e do embate geracional nela compreendido, delineando-se, portanto, por meio da reflexão e ressignificação da travessia. Entre a falta e a plenitude oceânica – o sertanejo vai ao mar.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor, mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, psicanalista. Autor do livro de contos Do Avesso (Com-Arte) e de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial/Fapesp).

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