Monthly Archives: agosto 2012

Os Privilégios, Stendhal

Livro lança a coleção Contraparte, da Ateliê Editorial, que vai publicar obras insuspeitadas de grandes escritores, mostrando complexidades que dialogam em outros patamares
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Os Privilégios, de StendhalOs Privilégios, de Stendhal, obra de grande importância na configuração de uma perspectiva mais ampla sobre o conjunto da criação do escritor, foram escritos em abril de 1840 e publicados vinte anos após sua morte. Stendhal (Henri-Marie Beyle) nasceu em Grenoble em 1783 e morreu em Paris em 1848, em decorrência de um ataque de apoplexia. Para Jerusa Pires Ferreira, que traduziu esta obra e fez o prefácio desta edição, “Crença, sugestão ou apenas subterfúgio para vencer as armadilhas da morte que implacável se aproximava, no receio dos ataques de apoplexia, os pequenos textos de Os Privilégios são o desvendamento de toda uma vida e a abertura para tantos entendimento e mistérios.” Segue um privilégio:
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Em todo lugar, depois de ter dito rezo por minha alimentação, o privilegiado encontrará: duas libras de pão, um bife cozido ao ponto, um quarto de cordeiro idem, um prato de espinafre idem, uma garrafa de São Julião, uma garrafa de água, uma fruta, um sorvete, e uma meia xícara de café. Essa prece será atendida duas vezes em vinte e quatro horas.
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Os Privilégios parece fugir do que se poderia esperar de um livro do autor que escreveu romances realistas como O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma. Composto por 23 sequências, Stendhal apresenta os poderes e possibilidades de um “privilegiado”, um mundo oculto a que teria acesso, por meio de todo um universo à margem dos sistemas literários centrais. Em Os Privilégios, o autor leva o leitor ao convívio com estranhas crenças, ao oculto e, principalmente, a um bizarro e irônico sentido do maravilhoso. Estratégia ou delírio? Acesse o livro na Loja Virtual
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Stendhal (Henri-Marie Beyle, 1783-1848), escritor francês conhecido pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo seco, escreveu O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, entre outras obras.
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A tradutora Jerusa Pires Ferreira é doutora e livre-docente pela Universidade de São Paulo, ensaísta e coordenadora do Centro de Estudos da Oralidade do COS / PUC-SP. É autora de inúmeros artigos além de professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. Pela Ateliê, é autora de Armadilha da Memória e Cultura das Bordas.
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O livro em revista

Com quase 500 páginas, a segunda edição da revista Livro é analisada no texto a seguir por professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

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Revista LIVRO

Lincoln Secco | Jornal da USP

O nome da revista já é por demais sugestivo e simples: Livro, número 2. Tornou-se raro o primeiro número, belamente ilustrado e encontradiço somente nos alfarrábios e em poucas livrarias. Não estará na rede mundial de computadores porque os editores deliberadamente não se ocupam em digitalizá-la, deixando ao porvir a tarefa de fazê-lo. O leitor deste Jornal da USP, seja em seu meio privilegiado em papel de boa qualidade ou na internet, terá que ir ao lançamento ou encomendar este que é seguramente o mais belo periódico da atualidade dedicado a um objeto de tantos desejos, frustrados ou não: o livro impresso.

Lembremos que as últimas revoluções do livro impresso se sucederam freneticamente. Desde a era de Balzac, atravessando a primeira máquina rotativa para impressão, em 1846, o barateamento do papel e as inovações do mercado editorial no século XX, chegamos ao livro on demand, o qual mostra que a indústria livreira incorporou modernos (ou já velhos) processos fabris, como o just in time, salário por peça (terceirização) etc.

Mas há algo no ramo livreiro que não deixa de ser artesanal, a começar pela criação literária. Mesmo tendo deixado de ser manuscrita, a obra que se estabelece no tempo e integra o cânone de urna literatura nacional não pode ser feita em grande escala como os Best-sellers. Hoje só estudiosos de rodapés da história literária sabem quem foi Otavio de Feuillet ou Humberto de Campos, copiosos escritores do passado. Talvez destino semelhante aguarde muitos campeões de vendas atuais das livrarias. Mas também é possível que os futuros “livros de fast-food” se abriguem muito bem nos meios digitais (como o e-book) ao lado de obras acadêmicas restritas a círculos de estudiosos que muitas vezes só necessitam encontrar a citação precisa, o dado único e a referência exata e não ler uma obra integral.

O livro como o conhecemos hoje é o códice, o qual superou o rolo por volta de 400 depois de Cristo. Trata-se de um conjunto dobrado de folhas encadernadas. Nesse formato, tanto o manuscrito quanto o impresso ainda têm e terão um grande papel no futuro. Bem ou mal, a maioria das crianças precisa passar pela escrita manual, ainda que umas poucas escolas dos Estados Unidos já testemunhem o uso de microcomputadores na primeira infância.

É possível que seja assim para toda a população mundial algum dia? Esperamos que não. A lembrança de Jean-Paul Sartre da biblioteca do avô seria uma relíquia do passado: “Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio de livros. No gabinete de meu avô, havia-os por toda parte. Eu ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas”.

Um bem valioso – Recentemente, o grande escritor alemão Günter Grass disse que o livro voltará a ser o que era até um século atrás: um bem valioso que se coleciona e se deixa como herança aos filhos. Um livro assim poderá ser encadernado com beleza. O prazer de ler tal obra continuará a ser estético e físico e encantará os olhos antes de as mãos, o olfato e talvez os ouvidos. É que ainda lemos e declamamos trechos de narrativas ou poemas em voz alta. Por fim, o prazer de todo o corpo permanecerá quando o leitor sentir uma vez mais o balouçar da carruagem que conduz Madame Bovary, por exemplo.

Mais uma vez é Sartre quem nos revela os usos e os múltiplos sentidos que uma leitura desperta: “Peguei os dois volumezinhos, cheirei-os, apalpei-os, abri-os negligentemente na ‘página certa’, fazendo-os estalar. Debalde: eu não tinha a sensação de possuí-las. Tentei sem maior êxito tratá-los como bonecas, acalentá-los, beijá-los, surrá-los. Quase em lágrimas, acabei por depô-los sobre os joelhos de minha mãe. Ela levantou os olhos de seu trabalho: ‘O que queres que eu te leia, querido? As fadas? ‘ Perguntei incrédulo: ‘As fadas estão aí dentro?”‘.

E por que tudo isso? É que a revista Livro não só tangencia sentimentos como esses como se abre a uma pluralidade de linhas interpretativas acadêmicas e pelo respeito à divergência democrática de todo o debate político que o livro engendra. O anuário foi concebido por dois amadores de livros: Plinio Martins Filho e Marisa Midori Deaecto, professores do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Os títulos das seções da revista soam nos ouvidos depois de lidos: Conversas de Livrarias, Memória, Almanaque, Letra & Arte, Leituras e Debate, Acervo e Arquivo e um dossiê Artífices do Livro.

Embora rigorosa e pertencente ao Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) da USP, a revista se preocupa pouco com as classificações de agências de pesquisa. Não que tais classificações não sejam reconhecidas. Todos os métodos de aferição de aprendizado e de qualidade e quantidade de pesquisa científica merecem reparos, discussões, mas também aperfeiçoamento e estímulo. Assim, a revista Livro é registrada, dotada de ISSN (International Standard Serial Number) e conta com o prestígio e a autoridade dos editores e da Universidade de São Paulo. Mas é carente de outras indexações que moldam as revistas acadêmicas e ditam o seu conteúdo através de simples determinações sobre a forma. Assim como é importante um periódico indexado, a revista Livro não é indexada por opção igualmente legítima de seus editores. Afinal, os periódicos (de divulgação, políticos, jornalísticos, fait divers, científicos etc.) têm públicos diferentes e formas e regras diversas.

A opção dos editores traz a imensa vantagem de permitir reflexões também daqueles que integram a cadeia produtiva e “improdutiva” do livro: livreiros, editores, escritores e, especialmente, buquinistas, ratos de sebos, amadores e amantes de livros, bibliófilos pobres, bibliômanos, andarilhos dos velhos centros urbanos, perscrutadores de bancas de jornais, professores provincianos, poetas amadores, procuradores de obras raras em feiras beneficentes, jovens radicalizados pela leitura em bancos de ônibus e até colecionadores sofisticados e entesouradores de livros.

Porém, a maior indagação que uma revista assim nos causa é: qual o futuro do livro? É que os meios digitais parecem ameaçá-lo com tiros de bytes, enquanto os editores desta revista insistem em se abrigar numa casamata de papel. Qual o destino dos livros impressos?

+ Revista LIVRO n.1

+ Revista LIVRO n.2

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP e autor de História do PT.

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Neruda brasileiro

Crônica de Madô Martins | A Tribuna
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Deste Lugar, de Paulo FranchettiFoi com Pablo Neruda que conheci a capacidade masculina de escrever poesias de amor sem o ranço do machismo. Em seus versos existiam um homem, uma mulher e um sentimento partilhado numa mistura bem dosada de bem querer e paixão que marcaram toda uma geração de leitores e, como não admitir, também de escritores, a tal ponto de vários de nós batizarmos os filhos com seu nome.

Mas não é apenas com palavras que Pablo Neruda traduz emoções. Suas imagens são únicas, plenas pela latinidade, permeadas pelo cotidiano, imantadas nos cinco sentidos. “Para que tu me ouças / as minhas palavras adelgam-se por vezes com o as asas das gaivotas nas praias” ou “Era a sede e a fome, e tu foste a fruta. Era a dor e as ruínas e tu foste o milagre. Ah, mulher, não sei como me pudeste conter na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!” E ainda: “Eu disse que no vento ias cantando como os pinheiros e como os mastros. Como eles tu és alta e taciturna. E ficas logo triste, como uma viagem.”

Recente leitura me fez saber que há entre nós um poeta tão candente quanto o chileno, a mover nosso imaginário em direções até então insuspeitas. Já tivera a sorte de o encontrar em eventos que celebravam a arte do haicai, no qual também se destaca, mas não imaginava quanto ficaria surpresa e grata com seus versos brancos, onde transborda uma sensualidade tão tácita quanto contemporânea.

Há outras obras do autor, mas em Deste Lugar, publicada este ano, Paulo Franchetti se revela um amante arrebatador, quando propõe: “Escrever sobre o seu com o meu corpo as sílabas mudas”. E, da mesma forma que Neruda, traz à cena as coisas comuns do dia a dia: “Desvio a atenção: um cachorro, o saco de lixo, quase invisível no escuro, um carro que passa e dobra a esquina: onde andará,  como um mantra, essa pergunta, alternando com o ruído dos meus passos”.
Igualmente ao antecessor, o poeta de hoje cita sabores — “damascos, nozes ,frutas secas, o coração endurecido, corpo virado do avesso.” E também passeia por fixações nerudianas, como a farinha branca por ele tantas vezes citada. Por tudo isso, sou fã declarada de ambos.

Mas como sei que a cada leitor toca uma certa obra, para que vocês avaliem por si o talento desse professor titular de Literatura da Unicamp, transcrevo o poema da página 20: “Eis que se move como o vento sobre a água. Quando a abracei, a carne firme sob a minha mão. Seus olhos abertos, os cabelos soltos. Eu lhe disse as verdadeiras palavras. O resto, no compasso, junto – uníssono e agitado coração. Agora a contemplo, enquanto caminha. Ou se debruça, em atenção. A boca, os pés, a linha da cintura: tudo ali renova o voto da destinação”.

Saiba mais sobre o livro Deste Lugar, de Paulo Franchetti

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Paulo FranchettiPaulo Franchetti é professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade. Escreveu, entre outros, Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro e Iracema, estes dois últimos em parceria com Leila Guenther.

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Participe do lançamento de Livro n.2 – Revista do NELE

Ateliê Editorial lança a segunda edição da revista LIVRO

Lançamento de Livro n.2 – Revista do NELE, na Livraria da Vila

NELE – Núcleo de Estudos do Livro e da Edição
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LIVRO – a revista – é uma publicação do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE), da Universidade de São Paulo. Nasceu do esforço coletivo de professores, pesquisadores e profissionais no sentido de materializar um fórum aberto à reflexão, ao debate e à difusão de pesquisas que tem na palavra impressa seu objeto principal. Talvez seja por esse motivo que LIVRO já demonstre desde o número de estreia a pretensão de cobrir, por meio de suas matérias, todo o “ciclo de vida da comunicação impressa”, para utilizarmos um termo caro ao historiador Robert Darnton. Também a temática da leitura perpassa toda a revista sob roupagens diversas em artigos que abarcar diferentes aspectos do livro e da leitura em si.
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O projeto da revista LIVRO se delineia diante de uma série de desafios. Mas podemos afirmar que o objetivo maior de LIVRO reside na valorização do suporte impresso diante das mudanças a que temos assistido no campo da produção editorial. LIVRO se rende, enfim, a múltiplas investigações em torno deste objeto múltiplo, agregador de tantas formas de expressão artística e crítica. Donde a pretensão de reunir em suas páginas variegadas contribuições. Dos frutos originados na academia às reflexões daqueles profissionais que vivenciaram ou vivenciam cotidianamente a experiência editorial. Promover a pesquisa, agregar profissionais, provocar o espírito crítico. Eis, em poucas palavras, a razão de sua existência. Saiba mais
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COLABORADORES
Kaio Romero Intervenções Artísticas
Jacó Guinsburg Um Leitor em Formação: Do Sebo à Editora
Michel Espagne Transferências Culturais e História do Livro
Diana Cooper-Richet Para um Estudo Transnacional dos Impressos em Línguas Estrangeiras
José Augusto dos Santos-Alves Da Instituição Censurante no Final da Monarquia Absoluta
Regiane Mançano Albino Jordão
Gilberto Araújo A Fortuna Editorial das Canções sem Metro
Jerusa Pires Ferreira Repertórios Sertanejos
Lyse Dumasy-Queffélec Universo e Imaginários do Romance Popular
Raphaële Mouren Conceber e Fabricar um Livro: Um Empreendimento de Equipe
Vitor Flyn A Invenção da Litografia e a Nova Era do Livro Ilustrado
Frédéric Barbier Berger-Levrault
Ivan Teixeira Poesia & Ficção Gráfica
Jean-François Botrel Escrita e Impresso
Cristiane Tonon Silvestrin Elvino Pocai: “O Artista do Livro”
Oto Dias Becker Reifschneider Salvador Monteiro: História Editorial
Mayra Laudanna Livro de Artista
Pedro Carlos Piantino Lemos Da Carta de Vesalius a Oporinus
Andreas Vesalius Carta ao Impressor do De Humanis Corporis Fabrica
Dorothée de Bruchard O Pioneiro William Morris
William Morris Nota de William Morris
István Monok As Bibliotecas Privadas e a Leitura na Época Moderna
Claudio Giordano A Biblioteca de Urbino
Marisa Midori Deaecto Viagem pelas Antigas Bibliotecas da Transilvânia
Fabiano Cataldo de Azevedo A Livraria Pública da Bahia
Hugo Segawa Bisbliotecar
A. Dimas Tipos e Símbolos
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O que é que a hermana tem?

Be Style entrevista Adriana Marcolini, autora do guia 50 Livrarias de Buenos Aires.
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Foto: Alejandro Lipszyc
“São as pequenas livrarias que fazem a diferença, que têm ‘alma’. Várias delas têm frequentadores habitués, que são conhecidos pelo nome.” Adriana Marcolini
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“Gostaria que o guia servisse como um estímulo aos leitores – e aos livreiros – brasileiros… [Os pais] devem instigar as crianças a viajarem por ‘mares nunca dantes navegados’ através das letras.” Adriana Marcolini
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50 Livrarias de Buenos Aires
Eduardo Lemos Martins
Não é preciso apelar à lendária e, por isso, fantasiosa expressão “Buenos Aires tem mais livrarias do que em todo o Brasil”. Eleita Capital Mundial do Livro pela Unesco, em 2011, a cidade possui a incontestável média de uma livraria para cada seis mil habitantes. Em solo verde-amarelo, existem 64 mil brasileiros para cada loja de livros.
Parafraseando o bom baiano, cabe a pergunta: o que é que a Argentina tem? Parte da resposta você pode encontrar no livro “50 Livrarias de Buenos Aires” (Ateliê Editorial), da jornalista e escritora Adriana Marcolini. Ela catalogou os principais sebos, bibliotecas e livrarias de Buenos Aires nesta obra que mescla fotos, informações turísticas e histórias curiosas dos estabelecimentos escolhidos. Ao fazer isto, a autora – que é brasileira, veja só – não presta somente um grande serviço àqueles que estão em busca de aventuras literárias em terras portenhas, como também reacende a velha chama do descaso brasileiro para com a literatura.
Nesta entrevista exclusiva ao Be Style, Adriana conta como os argentinos receberam seu livro, revela os critérios para selecionar apenas 50 das mais de 400 livrarias da cidade e arrisca: o segredo dos hermanos pode estar, simplesmente, em sua relação destemida com a leitura.
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Be Style:  Adriana, primeiramente, gostaria de saber sobre seu interesse por livros. Isto sempre te acompanhou ou surgiu depois que você começou a atuar como jornalista?
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Adriana Marcolini: Comecei a gostar de ler ainda na infância e depois nunca mais parei. Ler é como viajar… Você sai daquele mundo que te rodeia e embarca em outro universo.
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Be Style: O livro “50 Livrarias de Buenos Aires” é dividido em informações, fotos, dicas e histórias curiosas. Como você definiu que o formato de guia seria a melhor opção para juntar estes diversos enfoques?
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Adriana Marcolini: Desde o começo do trabalho quis fazer um guia. A ideia surgiu em 2009, depois que publiquei uma matéria na revista Lugar (editada pela Folha de S.Paulo, mas hoje extinta), sobre 14 livrarias portenhas. Era em formato de roteiro. Quando fui presentear os livreiros participantes com a revista, vários me disseram que haviam recebido clientes brasileiros com um exemplar debaixo do braço, ou seja, os leitores da revista haviam sido ‘fisgados’ pela matéria. Pouco tempo depois, Buenos Aires foi escolhida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Capital Mundial do Livro (abril 2011/abril 2012). Percebi que aquele era o momento adequado para produzir o guia.
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Be Style: A capital argentina possui quase 400 livrarias. Quais foram os critérios que você utilizou para selecionar apenas 50?
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Adriana Marcolini: Embora o guia tenha várias livrarias grandes, priorizei as pequenas. Em primeiro lugar, por em geral os turistas brasileiros conhecerem as de grande porte, uma vez que elas estão nas avenidas Corrientes e Santa Fé, que são locais de grande fluxo turístico. No entanto, são as pequenas livrarias que fazem a diferença, que têm ‘alma’. Várias delas têm frequentadores habitués, que são conhecidos pelo nome.
Também fiz questão de atender a uma gama variada de interesses profissionais e pessoais, a fim de atingir um público amplo. Incluí, por exemplo, um estabelecimento especializado em obras jurídicas, uma livraria de arquitetura, duas na área de cinema, e assim por diante.
Outro critério de seleção foi inserir aquelas “étnicas”, ou seja, as que representam a cultura e o idioma de um país. A livraria italiana é um exemplo. Finalmente, não quis deixar de acrescentar os sebos e as livrarias antiquárias.  Buenos Aires é muito conhecida por esses estabelecimentos, que são um verdadeiro tesouro.
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Be Style: Como foi a repercussão do livro na cidade? Já existia algum trabalho sobre o tema realizado por argentinos?
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Adriana Marcolini: Em novembro de 2011, fiz uma apresentação do guia na Fundação Centro de Estudos Brasileiros, um órgão ligado à embaixada do Brasil na Argentina, que oferece cursos de português e cultura brasileira. A apresentação foi realizada em trio: o fotógrafo argentino Alejandro Lipszyc, autor das fotos do livro, eu e o vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro, Bernardo Gurbanov – um argentino residente no Brasil há mais de 30 anos. Todos os livreiros cujos estabelecimentos estão no guia foram convidados e a maioria compareceu. Cada um deles recebeu um exemplar de presente.
Foi uma noite especial. Gurbanov foi convidado a participar da mesa porque ele conhece profundamente a realidade do livro nos dois países e fez uma exposição muito interessante. Os livreiros gostaram muito do guia e se sentiram valorizados, sobretudo ao ver que uma estrangeira se interessou pelo trabalho deles. Vários já me disseram que receberam clientes brasileiros graças ao meu livro. Isto me deixa muito contente.
Já havia um guia publicado em Buenos Aires; o autor é o livreiro argentino Guido Indij. Chama-se El Libro de los Libros: Guía de Librerías de la Ciudad de Buenos Aires. Utilizei este livro como fonte e o mencionei na minha bibliografia.
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Be Style: Além de servir como guia para os amantes da literatura que estejam de viagem marcada para Buenos Aires, o livro acaba sendo, de certa forma, um tapa na cara da realidade brasileira sempre muito distante dos livros e do universo que os compõe. Você também viu sua obra como uma forma de criticar a atual situação do nosso país onde, segundo recente pesquisa do Instituto Pró-Livro , apenas 1 em cada 4 brasileiros leram um livro no último ano?
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Adriana Marcolini: Gostaria que o guia servisse como um estímulo aos leitores – e aos livreiros – brasileiros. Seria muito bom se as pessoas aqui dessem mais valor à leitura, mas acredito que ler seja um hábito que (em termos ideais) deve começar a ser cultivado na infância ou na adolescência. Os pais e, na medida do possível, os avós, têm um papel muito importante nisso. Eles devem instigar as crianças a viajarem por “mares nunca dantes navegados” através das letras. Ler ativa a imaginação e o raciocínio; o cérebro fica ativo e não passivo – como acontece com a televisão.
Gostaria de reforçar que o guia é um pequeno testemunho da diversidade livreira e editorial que a cidade de Buenos Aires oferece. Quem sabe, um dia, tenhamos mais variedade de títulos por aqui. A meu ver, as livrarias enormes não oferecem uma variedade grande de títulos; elas priorizam os best-sellers e costumam ter muitos exemplares, mas não escolhem “a dedo” o que vão colocar nas prateleiras.  As editoras oferecem descontos para que o dono da livraria exponha suas obras na vitrine, ou em um canto especial da loja.
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Be Style: No livro você conta alguns acontecimentos históricos que influenciaram a disseminação da leitura na Argentina e, em especial, na cidade de Buenos Aires. A que se deve a manutenção da paixão do argentino pela literatura, que se mantém até hoje?
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Adriana Marcolini: É importante ressaltar que a paixão dos argentinos pela literatura, e pelos livros em geral, não se estende a todo o país. O hábito da leitura é muito difundido em Buenos Aires, La Plata, Rosario e Córdoba, ou seja, as regiões mais populosas e economicamente mais importantes do país. Em primeiro lugar, acredito que o hábito da leitura ainda se mantenha nessas regiões porque há muitas atividades de incentivo, como encontros de poesia e seminários de literatura, bastante divulgados.
Boa parte dessas iniciativas é promovida pelas próprias livrarias. Elas sabem que promover atividades é uma maneira de manter e até aumentar a clientela. Também há iniciativas realizadas pelo governo, como a “Noite das Livrarias”, que acontece sempre em meados de dezembro em Buenos Aires. Nesta ocasião, muitos estabelecimentos da cidade só fecham por volta das 2h da manhã. Mas há outros fatores que contribuem para a manutenção do hábito da leitura: o preço dos livros, que ainda é mais baixo que no Brasil, é um deles.
Há outro aspecto simples, mas importante: o fato de não considerar o livro como uma ‘coisa difícil’, ‘só para poucos’, mas como um ‘companheiro’, da mesma forma que uma bolsa ou uma blusa à qual temos um apreço especial. Creio que a paixão pelo livro pode se perpetuar de pai para filho, de irmão para irmão, de amigo para amigo, justamente porque é uma paixão – e acredito que isto contribua para que o hábito da leitura ainda se mantenha na Argentina.
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Be Style: Existe alguma característica comum às livrarias argentinas que tenha te chamado atenção?
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Adriana Marcolini: Como o idioma espanhol é bem mais importante que o português, uma característica comum talvez seja a profusão de títulos nas mais diversas áreas.
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Be Style: Você pensa nas futuras edições do livro, com atualizações e inserção de novas livrarias e histórias?
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Adriana Marcolini: Se tudo der certo, é bem provável que seja publicada uma nova edição até o final de 2012. Vou atualizar alguns dados e substituir uma livraria que fechou, a 1690 Tierra Adentro. Gostaria de incluir cinco livrarias de Montevidéu, mas ainda não tenho certeza.
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Be Style: Por fim: há ideias para outros livros?
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Adriana Marcolini: Sim. Gostaria de dar continuidade a esta temática, produzindo, inicialmente, um guia de livrarias de São Paulo e Rio, e em seguida outro, reunindo livrarias de alguns países europeus. Mas tudo isso depende de verba e agora estou à procura de financiamento. Mais adiante gostaria de publicar obras sobre outros temas.
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Conheça nossos títulos da Coleção Artes&Ofícios

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Coleção Artes&Ofícios

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Especial Restauração

Pacote Especial Restauração

Esta seleção compõe uma bibliografia básica para a área da restauração, com autores fundamentais como Viollet-le-Duc, Cesare Brandi e John Ruskin. Essencial para estudiosos e interessados na área:
Restauração – E. E. Viollet-le-Duc
Os Restauradores – Camillo Boito
Teoria da Restauração – Cesare Brandi
A Lâmpada da Memória – John Ruskin
Catecismo da Preservação de Monumentos – Max Dvorák
de R$ 147,00 | por R$ 117,60

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Claudia Valladão de Mattos
Hackert ensinou desenho a Goethe durante sua passagem pela Itália. Goethe o admirava tanto que pensou em abandonar a poesia para também se tornar pintor. Este volume contém a tradução dos Fragmentos Teóricos de Hackert, editados pelo aluno ilustre. Traz ainda textos sobre a importância do artista para o poeta alemão e para a pintura de paisagem no Brasil do século XIX. Essas reflexões confrontam as ideias de Goethe e Hackert sobre a relação da arte com a ciência e a natureza.

de R$ 28,00 | por R$ 22,40

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Memórias Biográficas de Pintores Extraordinários
William Beckford
Tradução de Paulo Mugayar Kühl
William Beckford foi um notável escritor, crítico de arte e político do século XVIII. Este livro, publicado pela primeira vez em 1870, retrata artistas que, muitas vezes, são absolutamente inventados. Divertimento de um diletante das artes, seu texto é uma sátira das tradicionais biografias de artistas. A obra sugere diversas leituras e instiga ainda hoje a curiosidade do público, que tenta identificar os pintores por trás dos pseudônimos – como se eles fossem reais.
de R$ 26,00 | por R$20,80
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J. Le Breton
Mais conhecido como líder da Missão Francesa ao Brasil no século XIX, Le Breton tece aqui um elogio à obra do compositor austríaco. Cheio de anedotas biográficas, o texto confirma a posição de artistas e políticos da época que buscavam novos caminhos para a arte brasileira. Editado no Rio de Janeiro em 1820, este foi o primeiro livro sobre música publicado no país. Nesta reedição, constam ensaios de Mônica Lucas e Paulo Mugayar Kühl, além do prólogo e dos apêndices do tradutor anônimo.
de R$ 25,00 | por R$20,00
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Deus e o Diabo e Abril Despedaçado: do sertão ao mar

“ambos questionam as possibilidades e limites para o destino do sertanejo”

Renato Tardivo

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Deus e o Diabo.

Deus e o Diabo

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), pertencente ao Cinema Novo, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro moderno. Seu diretor, Glauber Rocha, é um dos principais nomes – senão o principal – do cinema brasileiro. Foi sobretudo Glauber quem incorporou às motivações políticas do Cinema Novo um trabalho sofisticado no plano mesmo da linguagem cinematográfica, cunhando esse estilo de filmar por “estética da fome”, cujo slogan mais conhecido foi “câmera na mão, ideia na cabeça”.

Em Deus e o Diabo, Glauber teatraliza, a mis-en-scène é complexa, isso para não mencionar o radical trabalho de montagem e a reflexão que ela suscita. O filme acompanha as andanças do vaqueiro Manuel e sua esposa, Rosa, pelo sertão do Brasil. Podemos dividir a trama em duas partes: na primeira, Manuel junta-se a Santo Sebastião; na segunda, ao cangaceiro Corisco. Seja no plano religioso (primeira parte), seja no plano da violência (segunda), o bordão do filme “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão” – conforme aponta Ismail Xavier, um dos principais analistas da obra de Glauber Rocha – é emblema de destino certo no sertão, e não propriamente de liberdade.

Por meio de um impulso totalizador, Glauber realiza um cinema de transe, no qual a trama se desenrola em uma sucessão de catarses. A história, em linguagem de cordel, é contada pelo cego cantador e tem como personagem-síntese (se é que se pode usar a expressão; melhor seria falar em dialética sem síntese, ou, com Adorno, em “dialética negativa”) Antônio das Mortes – que anuncia e encampa a “grande guerra sem Deus e o Diabo”, o que só se consumará “depois que todos morrerem”.

Abril Despedaçado

Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, também se passa no sertão do Brasil, embora seja baseado no livro homônimo de Ismail Kadaré, cuja trama se desenrola na fria Albânia. Introduzindo a cena inicial, há a legenda: “Sertão Brasileiro, 1910”. O filme, a partir do menino Pacu, conta a história de uma infindável disputa por terra entre duas famílias, guerra pautada pela Lei do Talião e que tende a dizimá-las. Os retratos dos mortos perfilam-se em um corredor da casa sombria, como que a assombrar os vivos – que devem cobrar o seu sangue. Nesse sentido, chama a atenção o contraste entre a luminosidade de fora e a pouca luminosidade no interior da família: a morte que não dá trégua.

A propósito, em “O mal-estar na cultura”, Freud, desenvolvendo as noções acerca da pulsão de morte, defende a ideia de que, para que haja civilização (cultura, coletividade), os indivíduos precisam abdicar, em algum grau, da satisfação pulsional, submetendo-as às normas culturais – à lei. A descarga total da carga pulsional traz a desordem, o caos. Para Freud, ter de se haver com essa carga recalcada implica, inevitavelmente, algum grau de mal-estar. Daí os indivíduos, se não podem ser plenamente felizes, se valerem de recursos culturalmente permitidos para lidar com essa insatisfação: sublimação, religião etc.

Ocorre que, em Abril Despedaçado, é a obediência estrita à lei que traz a morte, a destruição. Trata-se da existência que tende à não-existência. No filme de Salles, o mal-estar é levado às últimas consequências e a destrutividade é culturalmente permitida, não porque a lei é violada mas justamente pelo seu oposto. Há uma ordem pervertida das coisas.

Do sertão ao mar

Apesar de pertencerem a momentos históricos distintos e, mesmo, referindo-se a diferentes épocas, os dois filmes abordam temas afins. Embora em Deus e o Diabo tenhamos o foco sobre a opressão implicada pelas relações de poder no âmbito social e o Abril Despedaçado aborde a disputa entre duas famílias aprisionadas à tradição, ambos questionam as possibilidades e limites para o destino do sertanejo.

Do ponto de vista dos dispositivos cinematográficos, o filme de Glauber é mais complexo. A carência de recursos materiais trabalhada com refinamento estético resulta em um cinema mais difícil. Abril Despedaçado, por sua vez, é um filme mais lento, contemplativo. Neste, a violência – banalizada – não liberta; aprisiona, e é a reflexão a partir da sua repetição o meio para se atingir o destino.

Abril Despedaçado aborda questões existenciais e possui atmosfera atemporal. O filme não se pauta pela lógica da profecia, senão da ressignificação da experiência. São a ingenuidade e a criatividade infantis, disparadas pelo encontro do menino com os andarilhos circenses, que disparam a ruptura: o passado petrificado que pesa sobre o sertão é reconstruído pelo menino. O desfecho é incerto.

Em Deus e o Diabo, a preocupação é outra: o olhar se volta para o futuro. O plano final, no qual o mar via ao sertão, é a maior das catarses, no sentido de que encampa todas as demais; expressão, como vimos, do impulso totalizador de Glauber – o mar vai ao sertão.

Em Glauber, o mar é destino certo no sertão. Não há “trégua” no caminho em direção à mudança. Em Abril Despedaçado, o destino se constrói por meio de transformações no âmbito da família, e do embate geracional nela compreendido, delineando-se, portanto, por meio da reflexão e ressignificação da travessia. Entre a falta e a plenitude oceânica – o sertanejo vai ao mar.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor, mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, psicanalista. Autor do livro de contos Do Avesso (Com-Arte) e de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial/Fapesp).

O ridículo das ‘verdades’, ainda mais ridículo

Gustavo Piqueira, tradutor A História Verdadeira, responde a resenha do livro publicada no jornal O Globo

A História VerdadeiraEstá lá, no quarto parágrafo da resenha: “Luciano é bem atual.” Já no sétimo: “Sim, Luciano é um ficcionista, mas sua intenção não é apenas fazer rir. Mas será que isto importa quando lemos ‘A história verdadeira’? Não! Podemos apenas fluir com Luciano em seu saboroso desatino.” Tudo ótimo, tudo ótimo…

Tudo ótimo até tropeçarmos na edição. Em primeiro lugar, pecado mortal, “a concepção visual impressiona”. Pior: a tradução… Ah, a tradução. “(…) a fonte original nem é mencionada”, imagine só! Afinal, todos sabem que “o que difere uma obra de outra é o estilo de quem a escreve”. Apenas isso, nada mais — ou seja, todas as obras escritas até hoje sempre abordaram sempre o mesmo tema, com o mesmo olhar. Como conclusão, “é difícil não lamentar que o mundo contemporâneo se deleite cada vez mais com a ideia de reduzir o passado aos seus próprios valores e medida.

Escrevo isto, portanto, não como uma réplica ao artigo. Pelo contrário. Este texto não passa de um humilde e envergonhado pedido de desculpas, dirigido não apenas à autora como a todos os medievalistas do Brasil. Confesso, porém, ter imaginado que minha tradução relativamente fiel para A história verdadeira era uma opção, não um erro. Opção, aliás, assumida na capa e no texto introdutório do livro. Na minha cabeça, era possível tornar a obra acessível ao leitor de hoje sem precisar descaracterizá-la. Editar um livro para ser lido, não para ser estudado. Mesmo porque, até onde meu restrito conhecimento alcança, Luciano chegou aos dias de hoje como satirista, não como mestre do estilo literário. Não por coincidência, “Luciano influenciou Voltaire, Machado de Assis e Swift.” Eles tinham senso de humor, os três, não tinham? Um pouco iconoclastas também, não? Mas, que eu saiba, Voltaire não revolucionou a literatura francesa.

Sim, toda opção deixa algo para trás. No meu caso, a fidelidade formal e o contexto histórico deram lugar à fluidez da narrativa. E, já que estamos falando de ortodoxia, escolhas que a aproximaram da “edição” original muito mais do que a grande maioria das demais (ou você acha que Luciano incluiu notas explicativas em sua “edição” original? Ou que todos os que a leram decifraram, de primeira, todas as citações e menções do autor? Ou que sua linguagem não era reflexo de seu tempo presente?) Opção, portanto. Não erro. Escolha consciente daquilo que me pareceu uma boa possibilidade — não a única, mas a que me atraiu a conceber e desenvolver o projeto. Se, afinal de contas, Luciano é atual e o mundo contemporâneo carece de suas ideias, por que não difundí-las para além dos muros do feud… ops, da universidade? Por que não permitir que um número maior de pessoas possa “fluir com Luciano” sem que sua leitura deva assemelhar-se a uma aula de História?

Eu estava enganado, claro. Deveria ter sido mais reverente — dane-se que livro é um dos mais irreverentes da história. Mantido Luciano mumificado, enquanto o próprio avacalha sem piedade Homero, Platão e Sócrates — para ater-me aos mais sagrados. Deveria ter preservado o “estilo encantador” de Luciano, mesmo que isso restringisse sua leitura a doze pessoas (numa projeção otimista). Adicionado centenas de notas de rodapé, pois como rir de uma sátira sem o auxílio de duzentas e quinze notas de rodapé? Além de ter evitado ilustrações, capa dura…Cores! Como pude usar cores num livro clássico? Desculpe, desculpe, desculpe.

Mas sou esforçado e sigo aprendendo. A instrutiva leitura da resenha me ensinou, por exemplo, que um medievalista não apenas detem o saber avançado sobre a referida época, mas também absorve parte de seus valores — como tachar qualquer opção diferente da sua como errada. Pode me enviar o endereço da fogueira por email mesmo, ok? Prometo comparecer sem demora e expiar todos meus erros.

E, nunca é demais repetir: desculpe, desculpe, desculpe!

(Nota de rodapé: o primeiro parágrafo do artigo é uma pérola, repare só. Uma elegia a “um tempo bem diferente do nosso, no qual não se aplaudiam os vícios e nem se desprezavam as virtudes, como se os valores humanos fossem ninharias sem importância.” Grécia e Roma antiga, além da Idade Média. É verdade. Tempos áureos… O coliseu, onde não se aplaudiam os vícios. Tantos imperadores vivendo a virtude em estado puro. Inquisição, cruzadas e similares não tratando os valores humanos como ninharias sem importância… época boa, mesmo. Dá saudade, né?)

Saiba mais sobre o livro A História Verdadeira

Acesse aqui a resenha publicada no jornal O Globo

Gustavo Piqueira é autor de dez livros entre eles Marlon Brando – Vida e Obra (WMF Martins Fontes, 2008), Manual do Paulistano Moderno e Descolado (WMF Martins Fontes, 2007), Morte aos Papagaios (Ateliê Editorial, 2004), A Vida sem Graça de Charllynho Peruca (Biruta, 2009) e Eu e os Outros Pioneiros da Aviação (Escala Educacional, 2007), ambos selecionados para o PNBE 2010. Também ilustrou livros infantis, desenhou alfabetos e, à frente da Casa Rex, é um dos designers gráficos mais premiados do país, com mais de 100 prêmios internacionais de design, além de dois Jabutis.

Direito ao não direito

Como outros grupos, caminhoneiros recusam certas vantagens legais alegando que trariam prejuízos maiores que os benefícios
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José de Souza Martins | O Estado de S. Paulo
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José de Souza MartinsIndevidamente chamada “greve” de caminhoneiros, dessa semana, perturbou a movimentação nas estradas, causando prejuízos ao País. Retardamentos de ônibus e carros e elevação dos preços dos alimentos, pela retenção dos produtos agrícolas na origem, foram algumas das consequências. Nesse vamos ver quem pode mais, o governo sentou à mesa para discutir o assunto. O momento dos caminhoneiros foi desencadeado contra direitos que lhes foram concedidos em lei: repouso contínuo de 11 horas em cada 24  e descanso de meia hora a cada 4 horas rodadas. O objetivo da lei é diminuir os acidentes nas rodovias.
A palavra greve é, nesse caso, uma usurpacão semântica, pois greve é outra coisa. Greve é movimento social pela obtenção de um direito ou o reconhecimento de um direito que, em relação a um grupo, não está sendo respeitado. O movimento dos caminhoneiros foi o oposto do que uma greve é. Os manifestantes insurgiram-se contra norma destinada a proteger a sociedade contra os riscos decorrentes do trabalho excessivo. Negam aos outros o beneficio que vetam para si.
Eles têm argumentos para resistir ao cumprimento do que a lei ordena. Alegam que nas rodovias brasileiras não há pontos de parada e abrigos suficientes para assegurar que, ao observar os limites da jornada de trabalho, terão a contrapartida de lugares adequados à interrupção. Uma questão difícil de resolver na nossa cultura do eu quero, logo posso. Estão dizendo que o governo impõe leis, mas não cumpre sua parte ao não prever condições para que sejam cumpridas. Ainda padecemos a limitação de achar que lei é simplesmente papel escrito, que basta escrever, assinar e publicar no Diário Oficial que o que nela se prevê acontecerá.
Em matéria de reivindicações esdrúxulas, de recusa de direitos e benefícios, os caminhoneiros não estão sozinhos. Vários têm sido os episódios de grupos sociais que, por
uma razão ou outra, recusam direitos sociais inscritos na lei, alegando que os prejuízos
que terão serão maiores que os benefícios. Há poucos anos, a extensão de direitos trabalhistas às empregadas domésticas teve reação antagônica de dirigentes da categoria e
temor por parte das beneficiadas. Argumentavam que o direito ao FGTS por parte das
domésticas teria o efeito bumerangue de fazer com que as patroas, que deveriam contribuir para o fundo, procurassem outra alternativa para os serviços domésticos. Coisa
que aconteceu em outros países, como a substituição das empregadas baratas, que se tornavam caras, por equipamentos domésticos substitutivos e por um relaxamento notário nos cuidados da casa, seja quanto à limpeza, seja quanto ao passar roupa. Sem contar que as cozinheiras já haviam desaparecido há muito, o que em vários países levou a desastrosas inovações e improvisos culinários.
O mesmo vem acontecendo em relação ao combate ao trabalho escravo aqui no Brasil.
Não é incomum que os fiscais do Grupo Móvel de Fiscalização, do Ministério do Trabalho, ao localizarem e libertarem trabalhadores escravizados, se vejam na estranha situação de que haja trabalhadores que recusam a intervenção e recusam a libertação e o retorno ao lugar de origem e de recrutamento. Sem contar os que fogem para o mato e se ocultam enquanto dura o ato de fiscalização.
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José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da faculdade de filosofia da USP e autor, entre outros, de Uma Arqueologia da Memória Social.
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Este livro mostra uma trajetória pessoal de adversidades e superações, expondo o Brasil pela margem de dentro de seus dilemas, dias de blecaute e racionamento da Segunda Guerra Mundial, a morte de Getúlio Vargas, a greve dos 400 mil, em 1957, a violência doméstica resultante do embate entre a ordem rústica que se desagregava e o urbano anômico que se impunha. Com seu olhar microscópico e cotidiano, José de Souza Martins conta sua infância e adolescência, na roça e na fábrica, traçando o retrato de uma era decisiva no advento da modernidade no Brasil: a era Vargas. Sua história é um convite à iniciação nas ciências humanas. Um jeito diferente de conhecer o que elas têm a dizer sobre o homem comum sem desconhecer-lhe o imaginário que dá sentido às incertezas do viver sem rumo. Saiba mais
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Lançamento do livro de contos de Edu Campos

Edu Campos lançou seu primeiro livro, Até a Margem do Grande Rio, na Livraria FNAC de Campinas

O livro de estreia de Edu Campos lança um olhar duro, ao mesmo tempo generoso e exasperado, sobre os vestígios de um universo em vias de extinção: a paisagem rural, revelando assim o rosto caricatural de nossas pretensões civilizatórias. Para a maior parte dos leitores (e escritores) atuais, a paisagem rural parece congelada nas páginas da literatura regionalista. A ficção contemporânea é urbana e raramente ultrapassa o subúrbio. Sem qualquer sentimentalismo ou melancolia, Edu Campos realiza um livro moderno sobre um universo banido pela modernidade literária.
Edu Campos nasceu em São Paulo, em 1969. É fotógrafo e, atualmente, vive no interior do Estado. Em 1993 graduou-se em cinema na cidade de São Paulo e começou a trabalhar com fotografia. Recém-formado, acreditou ter inclinações agrícolas e transferiu-se para uma fazenda no interior do Estado. Poucos anos depois, percebeu que preferia olhar para terra a cultivá-la. E fotografar seria olhar para sempre. Visite o site do autor: www.educampos.fot.br
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