Monthly Archives: junho 2012

Poesia, Fruto Proibido

Affonso Ávila lança Égloga da maçã e mostra por que é considerado um dos maiores poetas brasileiros

Fonte: Estado de Minas/Pensar

O mineiro Affonso Ávila é um dos nossos maiores escritores. Vencedor de vários prêmios literários do país, como o Jabuti de Poesia, em 2007, especialista no barroco mineiro, dono de uma erudição ativa, além de ser também ensaísta e crítico literário, o poeta dispensa apresentações. Pela Ateliê Editorial, Affonso acaba de lançar Égloga da maçã. Nesta nova coletânea, à moda dos poetas renascentistas, Affonso mostra que o seu modo de lidar com a palavra poética continua, no mínimo, frutífero, e rendendo boas surpresas.

A tal maçã, para Affonso, não é mera coisa, desprovida de senso e sentido. Vários riscos que um só nome sugere, o objeto-fruta que vejo não é o mesmo que o poeta bebe. A maçã de Affonso reordena-se em termos de novidade, ela agrega sentido e a suculência de algo que só pode ser dito através da pura poesia. A fruta, assim, pode ser e é também sinônimo de verso, é quadro vivo, é, ao mesmo tempo, fúria e sensatez.

O estilo de Affonso Ávila transforma a poesia, transforma tudo que é palavra em pasto para os bichos, em manjar para os marmanjos, mantilha para homens e mulheres. As palavras tornam-se delicadas e apetitosas. A força dessa poesia não tem nada de frugal. Capitaneadas por uma mera maçã, Affonso põe na roda um rodízio de coisas. Ele não deixa margens para o simples, sua poesia é, sim, difícil, mas é, acima de tudo, necessária. Como ainda são necessários rios e peixes. Como ainda são necessárias as fomes de comer e sobretudo as frutas.

O poeta escreve como quem retira um lacre, um invólucro, ele descortina palavras como quem descobre ventos, para achar e oferecer sabor e nutrição. Affonso respeita sua língua, o bom português e escreve como um esgrimista. Ele produz a partir do barro. Esse tipo de poesia surge como se águas surtassem, como se o poeta acendesse e mantivesse bem acesso algo forte, luminoso, no corpo e no espírito.

“Uma trasmontante demanda”, o ar da graça, a fruta, a maçã de Affonso nasce pelas artes do mistério, ela chega e toma sua forma – emprestada sabe-se lá de que deuses – ao sabor de fluxos e refluxos de um inconsciente expectante e, ouso dizer, bem mais que sábio, ainda que tardio, mas túrgido de cores vivas e fortes. Affonso respeita o sumo, as forças leves/pesadas desse caldo. Por isso, às vezes, sua poesia torna-se quase incompreensível. É preciso preparo, é preciso olhos para ver, e bocas para bem comer.

Resta ao leitor apaziguar-se com o que sobre de ritmo e música que desce destes versos poderosos, que sobram desse doce mistério. O inconsciente não aceita versões e revisões. É preciso atenção e calma. É bom saber que existe um topo de signos e significados. Não há como saber de onde.

Marcello Moreira resenha O Altar & o Trono, de Ivan Teixeira

Resenha crítica do livro O Altar & o Trono – Dinâmica do Poder em O Alienista, de Ivan Teixeira

“O livro de Teixeira representa uma importante contribuição ao estudo do corpus machadiano”

O Altar e o Trono, de Ivan TeixeiraMarcello Moreira

Ivan Teixeira, em seu novo livro, que aqui se comenta, propõe uma nova interpretação de “O alienista”, em que, a par de ampla revisão bibliográfica da recepção crítica da obra, propõe nova interpretação que se funda na consideração das controvérsias históricas de que o texto machadiano participa quando de sua escritura e primeira publicação, quais sejam, a querela entre ciência médica e teologia moral concernente à beneficência das almas dos sujeitos de um Estado que se quer crescentemente laicizado, mas em que a Igreja tem forte autoridade. Essa querela, segundo Teixeira, é evidente na dissenção entre Simão Bacamarte e o padre Lopes, ambos desejosos de ratificar a autoridade, um, da ciência, o outro, a da teologia, com vistas a produzir um determinado controle da cidade baseado em princípios de ordenação divergentes, fundados em uma diferente ratio. A alegorização da dissidência entre Estado e Igreja, segundo Teixeira, tópica central da obra machadiana em discussão, constituía um dos elementos recorrentes no “repertório cultural do período”, apropriado pelo escritor para discutir questões fundamentais respeitantes à vida em sociedade, como aquela do poder e das condições de sua institucionalização e exercício. Teixeira ainda propõe que “O alienista” mimetize referenciais discursivos circulantes no período de sua escritura, como aqueles que diziam respeito à Questão Religiosa (1872-1875), que implicou a submissão de Dom Pedro II ao poder do clero internacional. Segundo Teixeira, as caricaturas que satirizavam a diferença entre a fortitudo corpulenta do clero e a fraqueza e tibieza dos partidos políticos, fossem eles conservadores ou liberais, são retomadas por Machado de Assis para a produção de análogos literários.

O livro de Teixeira apresenta ao leitor excelentes mostras das caricaturas que abordaram a Questão Religiosa e que serviram, segundo ele, para a produção da derrisão machadiana. Com esse procedimento de mimese, Teixeira não quer, por outro lado, subordinar a escrita ficcional à história ou afirmar que a ficção esteja condicionada ao real, mas sim que “O alienista” mimetiza outros referenciais discursivos de seu tempo, mesmo aqueles de natureza iconográfica, que, normalmente, estavam associados a elementos paratextuais de cunho didascálico, que serviam para circunscrever o sentido político das imagens reduzindo desse modo sua ambiguidade.

Essa querela entre Estado e Igreja desdobra-se em meio a outras discussões sobre pontos capitais da organização da sociedade brasileira do Segundo Reinado, conquanto Machado de Assis produza, como o diz Teixeira, no passado colonial de um país independente o “palco de sombras de sua novela alegórica” que resume o problema de fundação de nosso país.

Em “O alienista”, Machado de Assis critica a irracionalidade da exacerbação do desejo de autoridade médica, religiosa, política e popular, tornando evidente que a adesão ao abandono das virtudes é que é a verdadeira insânia.

Voltando à Questão Religiosa, Teixeira expõe uma excelente interpretação do final de “O alienista”, quando o padre Lopes dá o xeque-mate em Simão Bacamarte, demonstrando que o alienado era ele, o que não quer dizer que se deva crer ter sido ele louco desde o início, como propuseram muitos intérpretes da obra; a insânia do médico é uma reviravolta em que se evidencia que a racionalidade das instituições civis não bastaria para o estabelecimento de padrões comportamentais plenamente aceitáveis. Segundo Teixeira, a palavra final de padre Lopes em matéria de loucura, com alijamento da autoridade propriamente civil, médica e científica metaforiza os desentendimentos do clero com o Estado imperial brasileiro entre 1872 e 1875. O aparente prestígio da ciência e o poder da sociedade civil mascaram na verdade “a camaleônica autoridade da Igreja” que dá o veredito sobre a insanidade do alienista, destituindo-o de sua autoridade. A figura do alienista seria desse modo uma alusão ao imperador, que, como ele, teria mandado abrir um hospício, e que teve de ceder à pressão do clero na questão com os bispos, assim como Simão cede perante o padre Lopes.

Segundo argumento central na proposta interpretativa de Teixeira, ao incorporar o pensamento ilustrado da década de 70 do século XIX, posicionando-se contra a doutrina de Pio IX e contra a intromissão da Igreja na organização política do Estado, Machado de Assis satirizaria essa mesma intromissão na figura do embusteiro padre Lopes, que criava artifícios para controlar o ingresso de pessoas na Casa Verde. Como se sabe, Pio IX, por meio da encíclica Quanta Cura, visava à reconquista e à intensificação do poder espiritual da Igreja sobre setores autônomos e libertinos da sociedade. Anexo à encíclica encontrava-se um Syllabus, em que se listavam os presumíveis oitenta principais excessos de liberdade ou erros do poder civil contemporâneo, como o casamento civil, o liberalismo, o racionalismo etc. O Syllabus proscrevia a liberdade de divulgação de ideais, quando estas divergissem dos dogmas católicos, e repudiava o princípio de que a vontade do povo manifestada pela chamada opinião pública pudesse constituir lei suprema. A encíclica promovia o ideário de que a Igreja teria autoridade tanto em questões de matéria eclesiástica quanto em termos de matéria civil. Esse pano de fundo explicaria, segundo Teixeira, as dissenções evidentes em “O alienista” entre Simão Bacamarte e padre Lopes.

A representação dos caracteres, em “O alienista”, segundo Teixeira, apresenta matriz retórica, já que se basearia em Teofrasto, não se podendo, por essa razão, dizer que se trate de tipos com singularidade psicológica ou densidade existencial, pois que o texto machadiano opera com tipos e situações que representam ideias gerais, sendo de natureza própria da écfrase e da etopeia. Cada caractere apesenta um conjunto de sintomas ou sinais que evidenciam um vício e, desse modo, a figuração do particular para representar o abstrato é recorrente na técnica machadiana.

Apesar de fortemente retoricizado, “O alienista” condena o excesso de eloquência empregado pelas principais personagens para influir na opinião pública, excesso esse objeto de riso por parte do narrador, que, no entanto, é também ele engenhosissimamente eloquente. O texto literário, segundo Teixeira, deve ser sempre compreendido como elemento de uma semiosfera, capaz de produzir continuamente o deslocamento de signos “de um setor da cultura para outro”, ao apropriar-se de matrizes discursivas não literárias participantes também da mesma semiosfera.

Outra proposta interpretativa instigante de Teixeira concerne ao que ele denomina “a volubilidade de estilo” de “O alienista”, que se ligaria não apenas à inconstância das elites e dos que almejam o poder, inconstância essa evidente na variação elocutiva, mas também e sobretudo ao princípio “fragmentário de ordenação da matéria, próprio à diagramação das folhas” do periódico em que foi publicado, intervindo, aqui, a materialidade do suporte no âmbito próprio da forma e da significação.

Quando se fala de Machado de Assis no livro de Teixeira, não se deve enganar o leitor pensando que se trata do homem de carne e osso cuja obra se procura interpretar por relação a uma psicologia ou a uma biografia. O autor, em Teixeira, é invenção da obra, já que “os traços do estilo e as ousadias da invenção operadas na arte geram a imagem que se toma como se fosse o autor”. Segundo Teixeira, as relações sígnicas no texto de arte e destas com os campos discursivos de que a obra é coetânea e de que ela se apropria são condição para a produção da significação mais do que qualquer suposta relação da obra com uma biografia ou psicologia. O autor, então, é a manifestação discursiva de repertórios coletivos de seu tempo e, ao mesmo tempo, é produto do conjunto de leituras de sua obra que o constituem historicamente no âmbito da recepção.

Teixeira avalia ainda a importância da publicação de textos machadianos em jornal, como, por exemplo, A Estação, asseverando que — contrariamente a críticos como Lúcia Miguel Pereira, que criam estar Machado de Assis muito à frente de seu tempo, não escrevendo de modo condescendente para leitores situados historicamente, mais especificamente para um leitorado seu contemporâneo, constituído, sobretudo, de mulheres leitoras de jornais de perfil feminino um pouco ou muito inepto — não se pode sequestrar Machado de Assis do circuito em que suas obras ganharam sua primeira significação, sendo necessário analisar, como ele o faz, o papel da imprensa na produção literária do Segundo Reinado. Teixeira argumenta a favor do papel formativo de um leitorado crítico feminino por meio dos escritos machadianos, propiciando “O alienista” as condições para que as mulheres das elites refletissem sobre problemas contundes do tempo, como, por exemplo, relações entre a Igreja e o Estado moderno e o poder sócio- político da emergente psiquiatria.

Em “O alienista” pode-se observar o entrecruzamento de campos discursivos, já que, se o jornal prescreve a necessidade de elegância, prevê, por outro lado, certa parcimônia nos dispêndios com moda, bastando para ser elegante a posse de uns cinco conjuntos para as senhoras. Em “O alienista”, a mulher de Simão Bacamarte é internada por excesso de vaidade, depois de comprar 37 vestidos. A apropriação de referenciais discursivos de variada natureza pela ficção é constante no escrito machadiano, sem o quê, não se pode compreender perfeitamente o sentido do livro ao tempo de sua primeira recepção. Esse mesmo entrecruzamento de discursos jornalísticos e literários pode ser apreendido em seção de “O alienista” que prescreve o comedimento no falar, sem exageros elocutivos, o que se vê também em editorial de A Estação datado de 31 de janeiro de 1881. A busca desses entrecruzamentos é recurso constante da interpretação de Teixeira, o que evidencia a correlação entre sistema literário e a semiosfera que lhe é contemporânea. Desse modo, Dona Evarista seria um contraexemplo da elegância, fundada no dispêndio racional e no gosto, a que se oporia o luxo desordenado. Tanto o jornal como “O alienista” proporiam, portanto, às leitoras de A Estação imagens suas que elas deveriam esforçar-se por interiorizar.

Pode-se desse modo dizer que “O alienista” dialoga incessantemente com as outras seções do jornal em que foi publicado.

O livro de Teixeira ainda propõe o resgate de uma reflexão sobre o gênero “conto” a partir de uma reflexão sobre ele desempenhada tanto por Edgar Allan Poe quanto por Machado de Assis, que, segundo Texeira, teria lido os escritos de Poe concernentes à prática da escrita de contos.

Por fim, cabe dizer que o livro de Teixeira representa uma importante contribuição ao estudo do corpus machadiano, ao propor uma análise histórica de “O alienista”, sem descurar, ao mesmo tempo, de uma consideração sobre a natureza da fictio no século XIX.

Ivan Teixeira é mestre e doutor em literatura brasileira pela USP, e professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da mesma Universidade e ocupou a posição de full professor na Universidade do Texas em Austin. Escreveu, entre outros, Apresentação de Machado de Assis e Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica. Concebeu e codirige a coleção Clássicos Ateliê, para a qual organizou Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente; Os Lusíadas – Episódios, de Camões; e Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Publicou ainda o estudo crítico de Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira.

James Joyce está de volta!

Finnegans Wake, de James Joyce

O primeiro volume da premiada edição bilíngue de Finnegans Wake, escrita pelo irlandês James Joyce, foi reimpresso e está disponível na Loja Virtual, bem como o pacote com todos os volumes e um desconto especial

Finnegans Wake é a primeira tradução completa para o português do romance mais experimental de James Joyce. A partir de um pequeno núcleo de personagens, o autor tenta contar a história do mundo e da literatura. Para isso, associa mitos e ícones antigos aos protagonistas do folclore e da história de seu país, a Irlanda. A obra, escrita ao longo de dezesseis anos, levou quatro anos de trabalho para ser vertida ao nosso idioma. Nos cinco volumes desta premiadíssima edição bilíngue, o leitor encontra notas explicativas do tradutor, o professor Donaldo Schüler, além de belas imagens produzidas por Lena Bergstein e Hélio Vinci especialmente para a publicação. O texto original, um fluxo único de 628 páginas, foi dividido em 17 capítulos, a fim de facilitar a leitura.
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Prêmios
APCA de Tradução 2003
“Fato Literário” da Feira do Livro de Porto Alegre 2003
Jabuti de Tradução 2004
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Finnegans Wake, de James JoycePacote Especial (5 volumes)

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James Joyce (1882-1941) nasceu em Dublin e foi polêmico por sua literatura de vanguarda. Em 1922, ganha notoriedade mundial por Ulisses, considerado desde então um novo paradigma para o romance.
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Donaldo Schüler é doutor em letras e professor livre-docente pela UFRGS. Traduziu Heráclito, Sófocles e Joyce. Como ficcionista publicou Império CabocloO Homem que Não Sabia JogarMartim Fera, entre outros. Pela Ateliê, traduziu Finnegans Wake, trabalho ganhador de inúmeros prêmios, e publicou Na Conquista do Brasil.
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Mentiras Fantásticas

Livro do século 2 que mistura narrativa surreal e sátira retorna às livrarias em edição ilustrada e com nova tradução

A História Verdadeira

Fonte: Correio Braziliense – 8 de junho de 2012

Felipe Moraes

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Um certo livro do século 2 abre o jogo na introdução: “você não encontrará pela frente uma única palavra verdadeira. Nenhuma. Escrevo sobre fatos que nunca vi nem vivi. De que nem sequer ouvi falar. Sobre o que não existe nem jamais poderia existir”. O autor corajoso é Luciano, natural de Samósata (Síria). O livro, intitulado A História Verdadeira (Ateliê Editorial), direta ou indiretamente, é referência para a literatura fantástica e de ficção científica produzida adiante e influenciou autores como Júlio Verne. Mais do que isso, é um texto de sátira que brinca com ideias de filósofos e as grandes aventuras contadas na época de Homero. Ainda assim, a obra de Luciano é pouco popular.

“Mais até do que o sarro, a liberdade despreocupada ainda é uma lição aos dias de hoje, quase 2 mil anos depois. Desde entregar a ‘falsidade’ da narrativa na introdução, as viagens absurdas da Parte 1 até as piadas com Platão, Sócrates, estoicos e demais correntes na Parte 2, Luciano não tem freios”, diz Gustavo Piqueira, que assina uma tradução “relativamente fiel”. Que os puristas tenham calma, porém. O escritor e ilustrador explica, nas primeiras páginas, que ao material original, fora as imagens assinadas por outros três artistas gráficos, “nada foi suprimido, nada foi acrescentado”. Ele é tão irônico quanto o próprio Luciano.

Saga humorística

A História VerdadeiraPassado o prefácio, o escritor de Samósata relata, em primeira pessoa, uma viagem motivada pela curiosidade de saber “onde acabava o mar e quais os habitantes que por lá encontraria”. Com uma tripulação de 50 homens, ele desbrava ondas e resistia a tempestades. Numa dessas, a comitiva era envolvida por um tufão, que erguia o navio, acredite se quiser, a 500 quilômetros de altura. A jornada, agora, é espacial. Após uma semana à deriva, os aventureiros gregos pousavam na Lua, ajudavam os curiosos habitantes — lá, homens nasciam de homens — a guerrear contra o povo do sol — tudo por causa de desentendimentos a respeito da colonização de Vênus pela Lua — e vivem histórias, de fato, inacreditáveis.

Tanto que Luciano, vez ou outra, reconhece que ninguém vai acreditar nele. “A gente tem que pensar no que ele escreveu considerando o contexto histórico, século 2, quando — ele dá a entender — ainda se tomavam muitos mitos criados na literatura (como a Odisseia, de Homero, muito citada) como verdadeiros. O livro é uma ironia quanto à essa crença”, explica Piqueira.

O tradutor não arrisca apontar trabalhos ou autores contaminados por A História Verdadeira, mas identifica vontades literárias semelhantes em outros títulos. “Quando você lê o Cândido, de Voltaire, por exemplo, é difícil não achar que o francês havia lido Luciano. O mesmo ocorre com Viagem à Lua, de Cyrano de Bergerac”, acrescenta.

Em parágrafos breves, mas lotados de detalhes, o sírio cria situações e seres bizarros. Os nativos da Lua têm olhos removíveis, e os bebês são fertilizados, não no útero, mas na batata da perna. Num dia de azar, em que os gregos aproveitavam a tranquilidade do mar, uma baleia de 500 quilômetros de comprimento engoliu os viajantes — com navio e tudo.

Os exageros têm propósitos mais humorísticos do que fantásticos. “Não acho que a influência do livro na ficção científica seja direta — creio que a obra é mais um precursora involuntária do gênero do que um cânone. O aspecto ficção científica me parece ter surgido muito mais como uma vontade de ‘vou escrever a viagem mais absurda possível’ do que ‘vou criar uma aventura interplanetária’”, delineia Piqueira.

Trecho de A História Verdadeira

“Cruzando o rio por um trecho raso, descobrimos as mais extraordinárias espécies de videiras. Brotavam da terra num tronco grosso e bem formado, mas, da cintura para cima, tornavam-se lindas mulheres (como nas pinturas que representam Dafne se transformando em árvore após ser capturada por Apolo). Seriam fêmeas perfeitas, não ostentassem ramos carregados de uva na ponta dos dedos e a cabeça coberta por vasta folhagem em vez de fios de cabelo. Logo nos saudaram, animadas. Algumas em lídio, outras em indiano, a maioria em grego. Beijavam nossas bocas, e aquele que era beijado imediatamente ficava bêbado. Só não nos permitiam colher as frutas de suas mãos, urrando de dor a cada tentativa. Algumas ofereceram sexo, e dois de meus homens que aceitaram o convite não conseguiram mais desvencilhar seus corpos após o ato. Transformaram-se também em planta, envoltos por galhos e enraizados ao solo.”


A Luz da Palavra

Priscila Nobre David resenha o livro de Renato Tardivo, que será lançado sábado, dia 16 de junho, na Livraria da Vila – Fradique, em São Paulo.


Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura ArcaicaEm Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, Renato Tardivo lança-se em uma viagem por duas terras, a da palavra e a da imagem, e é justamente na fronteira entre estas que a leitura desta obra torna-se imprescindível ao leitor interessado na comunicação estreita entre literatura e cinema. Falando em comunicação, escreve Tardivo nas páginas finais deste trabalho: “Passado e futuro ora se aproximam, ora se afastam, mas sempre se comunicam – naquilo que nomeamos presente. Sem embate, não há tempo, não há outro, não há nada”. Neste trecho derradeiro, Tardivo diz da temporalidade, tema primordial em Lavoura arcaica (livro e filme), assim como em seu próprio texto. Não menos importante seria notar que o trecho fala também da relação que se estabelece entre as duas linguagens analisadas no livro, a da escrita e a do cinema. Para esse percurso, o do estudo das obras, a teoria psicanalítica e a fenomenologia de Merleau-Ponty são companheiras, num delinear das travessias. São quatro as partes que compõem esse caminho: “A partir do livro”, “A descoberta do filme”, “A correspondência” e “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”.

Em “A partir do livro” encontramos uma leitura profunda e atenta da obra de Raduan Nassar, que nos mostra o poder da palavra escrita. Ao nos levar pelos caminhos trilhados por André (protagonista do romance), Tardivo nos comunica dos pares autor/personagem, continente/conteúdo, que, nessa obra, além de atravessar o ato mesmo de escrever do artista, viabiliza a existência de seu personagem. Na descrição de André, encontramos passagens como: “Em alguns momentos, os contornos de André perdem-se concretamente nos (des)contornos do mundo” ou “continente e conteúdo se confundem” e até mesmo o termo “mistura insólita” que retornará, entre outros conteúdos, ao texto mais adiante. Ao escrever “o romance se constrói justamente entre o novo – lavoura – e o velho – arcaica: ele é o jorro que corre entre essas margens. Ao voltar os olhos para a história de sua família e (re)criá-la em um texto, André presentifica em si – e por extensão na narrativa – conflitos e forças passadas e futuras entre os restos de tempos primitivos e novas possibilidades de existência”, Tardivo inaugura a discussão que será a de maior relevância no decorrer de seu trabalho: a questão do tempo. E como esta, através de ferramentas como a escrita e o olhar da câmera, firma-se como criatura e criador, apresentando-se como presente, espaço que funde passado e futuro, sujeitos sempre articulados. Habitando a última parte do capítulo inicial, os dizeres “neste caso, é a própria palavra do pai que está contida no olhar de André” nos colocam em contato (pela primeira vez?) com a relação entre escrita e cinema que será cuidadosamente discutida no terceiro capítulo, assim como uma anunciação, como que oferecendo já na abertura uma parcela do fim.

Ao ler “A descoberta do filme”, deparamos com um passeio delicado pelas peculiaridades do olhar (cinematográfico) lançado à obra (literária). Através da análise de vários fragmentos de entrevistas com o diretor Luiz Fernando Carvalho, assim como com os demais componentes da equipe, entre eles o responsável pela fotografia do filme, Walter Carvalho, Tardivo recupera e destaca mais uma vez a temporalidade que pauta o encontro entre os dois campos, as duas criações artísticas. Ao discorrer a esse respeito – “na obra de Luiz Fernando Carvalho, o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça. O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela” -, o autor atenta para os limites entre os dois terrenos, e através de contribuições psicanalíticas, como a retomada do termo après-coup, posiciona a imagem como anterior à palavra, o que confirma a ideia de um porvir (preciso título do livro), no sentido em que foi necessário ao diretor encontrar-se com a obra escrita (ou até, segundo o mesmo, encontrar-se na obra, novamente o porvir…), para nascer o filme, este que já estava vivo: “eu tinha visto um filme, não tinha lido um livro”. Há uma recuperação do tempo através da escrita e do olhar, tanto de André, como dos autores (escritor e cineasta) que não passa despercebida no texto de Tardivo, mas ao contrário, apresenta-se em seu texto como alicerce, que sustenta as frutíferas percepções apresentadas. Na história de André e sua família, há a partida e há o retorno, e entre eles um tempo que fica suspenso, petrificado. Não parece haver separação entre esses dois destinos, um remete ao outro – a presença constante do avanço e da transgressão. O fragmento do futuro já se encontra instalado no passado.

É com a procura que a obra de Tardivo se preocupa em especial. Em “A correspondência”, o trânsito entre as linguagens é discutido em suas minúcias. Escreve o autor a respeito da experiência do cineasta: “Ele se reconhece no texto. Adentra-o por entre as frestas das palavras”. Há nas palavras de Lavoura Arcaica algo de luminoso, que nos convida o olhar, e foi para a construção desse olhar, que a equipe de produção do filme se preparou, até realizar uma “escrita de luz na tela”. Foi ao avistar na escrita de Nassar aquilo que se escondia por entre as palavras, o que elas guardavam, que a escolha da fotografia do filme se deu, trabalhando com a transição entre luz e sombra, acompanhando a história reconstruída por André. Podemos dizer que foi no percurso entre literatura e cinema que se revelou a “luz da palavra”. A esse respeito, Tardivo escreve: “Assim, quando se trata de trabalhar a imagem do cinema a partir de Lavoura Arcaica, cujo cenário envolve concomitantemente tradição e transgressão, a atmosfera construída no filme deve propiciar a proliferação dos mistérios, do invisível”.

É interessante notar também nesse capítulo o retorno da correspondência entre Psicanálise e Fenomenologia, que acompanha o trajeto entre as duas linguagens (escrita e cinematográfica), visando traçar reflexões significativas. Remetendo ao conceito de perversão como possibilidade de interpretação do funcionamento psíquico do protagonista, Tardivo traz à discussão o movimento de circularidade encontrado no discurso e no olhar de André, mas, além disso, aborda os limites da relação entre as duas obras, num movimento que sempre envolve aproximação e distanciamento, transgressão e tradição, e que por fim, de alguma forma, sugere uma volta: na trajetória de André, a busca pela transformação só é possível através da preservação.

Ao encerrar o livro, em “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”, Tardivo anuncia a seus leitores as reflexões desde o início já contidas em seu texto, em um movimento de contorno do passado, a fim de ressignificar a experiência, assim como fazia André. É interessante perceber contida na palavra “lavoura” a idéia de movimento, ao significar um cultivo da terra, e por sua vez no termo “arcaico”, o sentido de anterior. Também como o protagonista, Tardivo adentra os resquícios, passeia pelos detalhes, carrega os objetos antigos para a construção de um olhar. Em algum lugar ele escrevia: “O olhar é fundante da história”. Tanto na narração de André, como na análise das obras realizada neste livro, a ressignificação da história se dá através de um retorno ao futuro. É o vestígio de um retorno que possibilita o correr da travessia.

Acesse o livro na Loja Virtual

Participe do lançamento

Priscila Nobre David é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos e em Comunicação Social – Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado.

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e é autor dos livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras).

Semana do Meio Ambiente 2012

Semana do Meio Ambiente

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Brasil: Paisagens de Exceção – Aziz Ab SáberBrasil: Paisagens de Exceção – O Litoral e o Pantanal Mato-grossense: Patrimônios Básicos
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Este volume aborda duas paisagens brasileiras ricas em biodiversidade e beleza natural. A primeira delas é o pantanal mato-grossense, analisado em detalhes na primeira parte do livro. A segunda parte, por sua vez, contém uma síntese dos elementos geomorfológicos de nossa extensa região litorânea. Os textos aqui reunidos, de leitura universitária, têm uma linguagem concisa e atual. Imagens de satélite, mapas e encartes ilustram a obra.
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de R$ 41,00
por R$ 32,80
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Ilustrado, Geografia, Ecologia
16 x 23 cm | 184 páginas
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Os Domínios de Natureza no Brasil – Aziz Ab'SáberOs Domínios de Natureza no Brasil – Potencialidades Paisagísticas
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O professor e geógrafo Aziz Ab’Sáber foi um dos pesquisadores brasileiros mais dedicados à compreensão espacial e territorial do país. Essa é a condição, segundo ele, para que os espaços não sejam usados inadequadamente, em benefício de poucos e em detrimento das gerações futuras. Este livro trata das características e potencialidades das grandes paisagens que compõem o mosaico ecológico brasileiro. Constitui rico material para as necessidades teóricas e práticas de planejadores, professores e alunos.
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de R$ 37,00
por R$ 20,00 (46% de desconto)
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Ilustrado, Geografia, Ecologia
16 x 23 cm | 160 páginas
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Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo – Aziz Ab SáberGeomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo
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Esta é uma reedição fac-similar da tese de doutorado de Aziz Ab’Sáber, defendida em 1956. Contém uma rica análise do relevo e do solo de São Paulo, além de abordar questões sociais e ambientais relacionadas ao processo de urbanização da capital paulista. Mais de 50 anos após sua gênese, esse trabalho de pesquisa permanece atual. Sua leitura é indispensável aos interessados em planos de uso e ocupação do solo e em políticas públicas de habitação, preservação e transporte.
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de R$ 46,00
por R$ 36,80
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Urbanismo, Ilustrado, Geografia
15,3 x 22 cm | 360 páginas

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 Leituras Indispensáveis – Aziz Ab SáberLeituras Indispensáveis
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Preocupado com a formação cultural dos jovens universitários, Aziz Ab’Sáber propõe esta série de textos indispensáveis. Eles não se restringem a uma área específica, porque a diversidade de conhecimentos é necessária a uma vida ética e responsável. Leituras Indispensáveis é essencial não só para estudantes, mas também para técnicos, políticos e administradores. Fundamental para que possamos construir uma nação séria – uma verdadeira democracia.
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de R$ 18,00
por R$ 14,40
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Sociologia e Sociedade, Educação e Pedagogia, Ecologia, Cidadania
16 x 23 cm | 64 páginas
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Leituras Indispensáveis 2
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O processo de construção do conhecimento é necessariamente pluridisciplinar, se faz no diálogo entre diferentes campos do saber. A série “Leituras Indispensáveis” foi concebida para apresentar aos estudantes universitários um conjunto de textos fundamentais para a formação de profissionais e cidadãos empenhados no compromisso com a ética e a democracia. O segundo volume da série apresenta 13 textos – alguns inéditos e outros de difícil acesso – de destacados autores brasileiros e estrangeiros que refletem sobre diversos aspectos da nossa civilização.
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de R$ 20,00
por R$ 16,00
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Sociologia e Sociedade, Ecologia, Cidadania
16 x 23 cm | 104 páginas
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Aziz Ab’Sáber foi um dos mais importantes nomes das ciências no Brasil. Sua extensa obra é resultado de trabalhos de campo feitos no país todo. Essas pesquisas contribuíram para diversas áreas do saber, como a geografia, a geo­logia e a arqueologia. Destaca-se sua produção acadêmica sobre meio ambiente, que o tornou a maior autoridade em ecologia no país. Foi ainda professor titular do Departamento de Geografia da USP e membro do Instituto de Estudos Avançados da mesma universidade.