Monthly Archives: maio 2012

Design pra quê?

Vírus da Leitura – Tereza Kikuchi

Tereza Kikuchi

Motivada pela recepção positiva dos leitores ao meu primeiro post aqui no Blog da Ateliê [Bastidores da Produção Editorial], resolvi manter o tema, desta vez para falar de um outro aspecto muito importante, o projeto gráfico.

Trabalhar no projeto gráfico de um livro é sempre uma aventura ímpar. Não existem fórmulas para conceber um bom projeto, mas existe uma extensa e rica tradição tipográfica por trás do ofício da edição. E esse conhecimento dos antigos tipógrafos e impressores deve ser valorizado, pois o objetivo de um bom designer de livro não é reinventar a roda, mas sim pensar sobre seu objeto de trabalho e se perguntar o porquê de suas escolhas. Se suas escolhas forem motivadas por questões puramente ornamentais, algo está errado.

Fazer um projeto gráfico significa refletir sobre problemas e buscar soluções eficientes. Normalmente o problema que o designer enfrenta é como tornar a leitura confortável. Se um texto puder ser lido com fluidez e clareza, a função do desenho da página foi cumprida.

Existem outras questões importantes que devem ser feitas e respondidas antes da elaboração do projeto gráfico de um livro, por exemplo:

  • Quais são as características do livro em que se está trabalhando?
  • Trata-se de um romance? Um livro de poesias? De literatura infantil? De referência? Um livro didático? Um livro de Arte?
  • Qual o público leitor deste livro? Adulto? Infantil? Juvenil? Especializado?
  • Haverá ilustrações, fotografias, infográficos, mapas? Será contratado um iconógrafo? Ilustradores? Fotógrafos? Quem será responsável pela edição das imagens?
  • Qual o número de laudas do original?
  • Qual formato [tamanho] de livro possibilita melhor resultado levando-se em conta custos, aproveitamento de papel e conforto para o leitor?
  • Que tipo de papel é mais adequado para o livro?
  • Qual a verba disponível para a impressão e acabamento da obra? Qual será a gráfica contratada? Que recursos técnicos a gráfica oferece? Haverá um produtor gráfico responsável pelo acompanhamento da impressão?
  • A casa editorial já é conhecida por seguir uma linguagem gráfica específica?
  • Como o livro será comercializado?
  • E, principalmente, quem é o responsável pela aprovação final do projeto?
[Quanto maior no número de questões respondidas, melhor a qualidade do briefing para a realização do trabalho].

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Vamos supor que nosso livro em questão é um romance do Machado de Assis, com cerca de 140 laudas, destinado a estudantes pré-universitários.

Aparentemente simples, não é mesmo?

Vamos especificar ainda mais, digamos que se trata do Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das mais importantes obras da literatura brasileira. A editora, preocupada em oferecer uma publicação especial aos leitores, edita uma obra com texto estabelecido segundo estudos filológicos consagrados, com o objetivo de tornar a edição, tanto quanto for possível, fidedigna ao original revisto pelo próprio autor.

Além disso, o livro apresenta notas diversas que procuram aproximar o leitor jovem às referências apresentadas por Machado de Assis em sua obra. Trata-se de uma edição comentada.

O livro será comercializado em livrarias e também submetido a vendas para Programas de Incentivo à Leitura de órgãos do Governo, para distribuição em bibliotecas e escolas públicas.

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Agora, caro leitor, que tipo de pergunta você faria, se tivesse de desenvolver um projeto gráfico para o livro acima?

Você já sabe qual o público leitor almejado, quem é o autor, qual a especificidade do texto editado e como a obra será comercializada. Já conversou com o responsável pela aprovação do projeto (no caso, o editor) e descobriu que Machado de Assis também foi tipógrafo e que em seu livro, a composição do texto é parte da obra. Como ocorre na poesia concreta, forma e conteúdo apresentam o mesmo peso e são complementares (Veja, por exemplo, o capítulo “O Velho Diálogo de Adão e Eva”, todo ele composto por sinais de pontuação e indicação de falas).

Diálogo Adão e Eva

Se o livro será inscrito em licitações públicas, a primeira coisa que você precisa se perguntar é: quais são as regras para venda de obras a órgãos públicos? Existe alguma limitação quanto ao formato do livro, tipo de papel, tipo de capa?

Posteriormente você pode se perguntar, se o livro será vendido para o Governo e para as livrarias, é justo fazer edições diferenciadas? Ou é possível desenvolver soluções viáveis para ambos? Afinal, por que o que é destinado para o uso comunitário deve ter qualidade inferior ao que é destinado para a uso privado?

Após listar todas as limitações impostas pelas características da edição e pelo briefing do editor, o designer tomará algumas decisões orientadas pelas questões realizadas:

  • Qual o formato ideal para a leitura da obra? O livro precisa ser fácil de carregar? O leitor provavelmente carregará seu exemplar em bolsas e mochilas? Quando leio um livro, como eu o seguro?
  • Que tipo de papel é mais indicado para leituras extensas? O papel opaco reflete menos luz e isso pode ser mais confortável para os olhos? Qual gramatura ideal a fim de que o livro não se torne muito pesado e nem a tinta acabe vazando para o verso da folha?
  • Como o livro deve ser composto? Qual será a família tipográfica escolhida? Qual o posicionamento do texto em relação às margens? Qual o número ideal de linhas por página? Qual o tamanho do corpo da tipografia para o texto principal? Qual será o tamanho da entrelinha? Qual a quantidade média de caracteres por linha? Como será o espaçamento médio entre palavras e entre caracteres? Como será desenhado o cabeço, as notas de rodapé e a numeração de página? Como será composto o sumário? Quais são os estilos de parágrafo e de caracteres que o texto exige?…

A lista de questões que o designer precisa responder é muito grande. E suas decisões não são guiadas por valores do tipo, “eu gosto disso ou gosto daquilo”, “isso é bonito” e “isso é feio”. Ou pelo menos não deveriam ser balizadas por esse tipo de critério.

Pela mesma razão, a aprovação de um projeto gráfico não deveria se basear apenas no gosto pessoal do cliente. É preciso refletir sobre o trabalho realizado, buscar soluções responsáveis, inteligentes e práticas. Design não é Arte, o design deve ser fundamentado, precisa de argumentos que o sustente, deve responder a problemas e criar soluções eficazes. Um bom projeto gráfico precisa funcionar, não precisa chamar atenção, nem estar repleto de elementos decorativos.

Portanto, os designers de livro e todos os outros profissionais envolvidos na produção editorial devem ser valorizados, bem remunerados e respeitados. O trabalho executado não é tão simples, fácil e glamoroso como muitos podem supor.

Agora, se formos considerar a produção de um livro eletrônico, a lista de perguntas deve ser ainda mais extensa. A boa notícia: como os problemas referentes à leitura no ambiente digital ainda não foram resolvidos, temos espaço de sobra para buscar soluções eficientes para todos. Vamos tentar?

Por enquanto é só. Obrigada pela leitura e até o próximo post.

Coluna Vírus da Leitura – Tereza Kikuchi

Formada em Editoração pela ECA-USP, escreve mensalmente para o Blog da Ateliê Editorial e quinzenalmente para o Blog Ideia de Marketing. Trabalha com livros há mais de uma década, coordenando projetos editoriais e desenvolvendo projetos gráficos. É organizadora do livro José Mindlin, Editor, publicado pela Edusp em 2004.

Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo

 Porvir que Vem Antes de Tudo, de Renato TardivoLivro propõe a análise das duas obras, o romance e o filme, atentando sobretudo para a correspondência que elas estabelecem entre si

Este trabalho de pesquisa começou quando o autor ainda era aluno de graduação em Psicologia e se encontrou com Freud e Seu Duplo: Investigações entre Psicanálise e Arte (1996), dissertação de mestrado de Noemi M. Kon, em que a psicanálise é explorada em seu parentesco com a estética e as artes; mais especificamente, com a literatura. Cartas de Sigmund Freud endereçadas ao escritor austríaco Arthur Schnitzler mostravam que o psicanalista acreditava que o artista, embora por caminhos distintos, aportava em destinos muito próximos aos seus no que se referia à elucidação dos mistérios da alma humana.

A relação entre as duas obras apresentada neste livro não figura apenas no nível da correspondência entre literatura e cinema. Ela também é tratada com destaque em cada uma das obras – o livro e o filme. As tramas trazem para o cerne da narrativa, vertido de metáforas sensíveis, o embate entre o novo e o velho, rigor formal e oralidade, amor e crime, lirismo e tragédia, entre outros. De que forma eles se articulam? Como se dá a sua correspondência? Por meio dessas indagações, o autor se lançou no que viveu como uma aventura com a linguagem: partiu da leitura do romance, investigou as condições para o surgimento do filme, debruçou-se sobre a correspondência entre os registros e, finalmente, aportou de volta à linguagem: “esse terreno onde as palavras voam à procura de si mesmas para aterrar em areia movediça”.

Porvir que Vem Antes de Tudo nos oferece uma leitura original do díptico Lavoura Arcaica na qual livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença. Renato Tardivo promove uma convergência entre psicanálise e fenomenologia para analisar e interpretar essa relação, expondo enfim a lógica de uma clausura e tornando claro que, se é trágico o desenlace, o essencial está aí, nessa lavoura que se volta sobre si mesma, trava o processo de constituição do sujeito pela recusa da alteridade; pela negação, portanto, da condição dialógica, intersubjetiva, do estar no mundo.

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e é autor dos livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras).

Acesse o livro na Loja Virtual

Participe do lançamento em junho


Resultado e detalhes do sorteio do livro Divina Comédia

Realizamos esta manhã o sorteio de um exemplar da nossa edição bilíngue da Divina Comédia, entre todos os que participaram da pesquisa.

O sorteado foi Luiz Amorim, designer, de Atibaia-SP. Parabéns, Luiz! Desejamos uma ótima leitura/aventura pelo céu e inferno de Dante, ilustrado por Sandro Botticelli e traduzido por João Trentino Ziller.

Entraremos em contato com o vencedor por email para tratarmos do envio do livro. Caso não seja possível o contato até a próxima sexta-feira (1º/6), teremos outro sorteio.

Todos os participantes da pesquisa receberam um cupom de desconto que pode ser utilizado até o dia 30/10/2012. Caso você não tenha recebido o seu, entre em contato conosco (contato@atelie.com.br) e enviaremos seu cupom novamente, que permanece o mesmo em nossos registros.

Clique aqui para acessar a página de resultado do sorteio, que ocorreu por volta das 9:20 desta manhã

Abaixo estão as duas capturas de tela, feitas durante o sorteio. Clique para ampliá-las:

Captura 1 às 9:24

Captura 2 às 9:25

Estamos à disposição para esclarecimentos de dúvidas. Acompanhe-nos por meio das redes sociais e newsletter para saber dos próximos lançamentos, promoções e sorteios. A equipe da Ateliê Editorial agradece novamente a todos pela participação dessa pesquisa, muito válida para aprimorarmos nossa comunicação com vocês, leitores.

A História Verdadeira, de Luciano de Samósata

A História Verdadeira - Luciano de SamósataEdição da Ateliê Editorial; com concepção e tradução relativamente fiel de Gustavo Piqueira; e ilustrações de Alexandre Camanho, Carlos José Gama e Jaca; traz obra de humor mordaz escrita no século II, que influenciou autores como Swift, Voltaire, Verne, Morus e Rabelais, e é considerada uma das grandes precursoras da ficção científica.

Um dos livros mais irreverentes da História

A História Verdadeira é uma obra extremamente original e pouco difundida nos dias de hoje. Na sua introdução ela já apresenta um curioso alerta do autor: “Você não encontrará pela frente uma única palavra verdadeira. Nenhuma. Escrevo sobre fatos que nunca vi, nem vivi. De que nem sequer ouvi falar. Sobre o que não existe, nem jamais poderia existir.” E ainda deixa um aviso aos leitores: “Não acreditem em mim.” E defende sua falsidade, como sendo mais honesta, pois assume estar mentindo.

A história começa com a partida de um navio das colunas de Héracles, pelo Oceano Ocidental, com o desejo de descobrir onde acabava o mar e quem habitava esse lugar. Durante o percurso são descritos seres, paisagens e situações, realmente, inacreditáveis. Algumas são tão absurdas que o narrador chega a dizer, com evidente ironia, que tem “receio de descrever…”, “pois são tão impressionantes que talvez você não creia em mim.” A narrativa é dividida em duas partes, a primeira conta as viagens interplanetárias e a segunda mistura figuras ilustres que realmente existiram junto a outras que nunca saíram da ficção.

Para Gustavo Piqueira, A História Verdadeira é uma espécie de Odisseia sem Ulisses, Penélope ou Ítaca; uma Odisseia sem heroi ou heroísmo. E acrescenta: “Luciano tem uma ironia sem freios, ele ri de todos. Da imaginação de Homero: ‘O grande mentor de toda essa palhaçada foi Ulisses, de Homero, ao entreter a corte de Alcínoo com ventos aprisionados, cíclopes, canibais, criaturas de muitas cabeças e companheiros transformados em bestas por feitiçaria’. Da eloqüência de Sócrates, que ‘parecia apaixonado por Jacinto, de tanto que o refutava’. E do idealismo de Platão: ‘pelo que me contaram, ele vivia numa república construída por si próprio, sob leis que ele mesmo promulgara’. Ou seja: ninguém escapa – e ele não bate em cachorro morto. Pelo contrário, inclusive.”

O autor

Luciano nasceu em Samósata, província romana da Síria, perto do ano de 120, e morreu pouco depois de 181, provavelmente em Alexandria, no Egito. Pouca coisa se sabe a respeito da sua vida, mas o apogeu de sua atividade literária se deu entre 161 e 180, durante o reinado de Marco Aurélio. Escreveu em grego e se tornou conhecido por seus diálogos satíricos e suas críticas aos costumes e à sociedade da época. A História Verdadeira e o estilo de seu autor influenciaram escritores como Swift, Voltaire, Verne, Morus e Rabelais.

O tradutor

Gustavo Piqueira é autor de dez livros entre eles Marlon Brando – Vida e Obra (WMF Martins Fontes, 2008), Manual do Paulistano Moderno e Descolado (WMF Martins Fontes, 2007), Morte aos Papagaios (Ateliê Editorial, 2004), A Vida sem Graça de Charllynho Peruca (Biruta, 2009) e Eu e os Outros Pioneiros da Aviação (Escala Educacional, 2007), ambos selecionados para o PNBE 2010. Também ilustrou livros infantis, desenhou alfabetos e, à frente da Casa Rex, é um dos designers gráficos mais premiados do país, com mais de 100 prêmios internacionais de design, além de dois Jabutis.

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Ateliê e Casa Rex convidam para o lançamento do livro no Bar Balcão (SP), segunda-feira, dia 28 de maio. Saiba mais

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Algumas ilustrações do livro abaixo. Clique para ampliar:

Ilustração do livro Ilustração do livro

Poeta, o poema

Fonte: Hoje em Dia (MG)
Clarissa Carvalhaes
José Antônio Bicalho
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“As coisas se transformaram, mas o homem continua vendo o mundo pela fresta de uma caverna”
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Quando publicou o livro “Poeta Poente”, em 2010, Affonso Ávila estava triste. A morte recente da esposa com quem fora casado por décadas fez o poeta recolher-se em pranto e pessimismo, carregar-se de arrependimento e nostalgia. Dois anos se passaram e, ainda que a saudade permaneça, o escritor confessa: “Cansei de ser triste”. Desde então, passou a dedicar-se a “Égloga da maçã”, obra que acaba de lançar pela Ateliê editorial (80 páginas, R$35). E como quando se trata de Affonso Ávila o que se espera é sempre o novo, desta vez não poderia ser diferente. “Égloga” e uma poema, único.

Clique aqui para ler a matéria completa

Entrevista Affonso Avila

Futuro do Pretérito

Camila Pitanga

Renato Tardivo

A literatura brasileira já nos apresentou muitas mulheres fortes e misteriosas. Os “olhos de ressaca” de Capitu que o digam. Mais recentemente, Ana, de Lavoura Arcaica (1975), romance de Raduan Nassar, é outro exemplo. Mas não parou aí.

Na última década, para citar apenas algumas, surgiram Matilde (de Leite Derramado, de Chico Buarque), Beatriz (de Um Erro Emocional, de Cristovão Tezza), Dinaura (de Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum).

Lavínia, do livro Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, romance de Marçal Aquino, também faz parte desse time. E, no corpo de Camila Pitanga, é um dos pontos altos do filme de Beto Brant e Renato Ciasca, a partir do livro de Aquino.

A história, que tem o mesmo título do livro, se passa na região Norte do país, em uma pequena cidade. As três personagens principais, além de Lavínia, o fotógrafo aventureiro Cauby (Gustavo Machado), narrador-personagem do romance, e o pastor Ernani (Zécarlos Machado) foram parar ali fortuitamente.

Lavínia, esposa de Ernani, prostituía-se na cidade grande quando este a “salvou”. O pastor, funcionário público aposentado (e viúvo), é transferido para a igreja do vilarejo. Cauby lá estava, fazendo “bicos” com fotografia.

Nessa cidade sem nome, o destino dos três se atrai e se repele. A geometria espacial nos diz que três pontos formam um – e apenas um – plano. Não por acaso a imagem de três pontos é comumente associada a equilíbrio. Ocorre que, pelo mesmo motivo, quando os três pontos se desencontram, o estrago é irremediável. Triângulos amorosos – a referência a Édipo é inevitável – são evidências disso.

É uma triangulação desse tipo que movimenta a trama. Se é forte o que mantém Lavínia e Ernani (re)ligados (culpa, castigo, proteção, lealdade), é também intenso o que a mantém ligada a Cauby – se tivéssemos de condensar em uma só palavra: olhar.

A busca pelo novo, o interesse pelos contornos (ambos gostam de fotografia), a hesitação entre realidade e alucinação, enfim, são elementos trabalhados no olhar dessas duas personagens: aquele que fotografa e a fotografada. É linda, diga-se, a atuação de Camila Pitanga, que doa o corpo à Lavínia.

A câmera é ora muito próxima ora mais aberta. A proximidade, como nas cenas de relações sexuais, é emblema do mergulho – a partir do olhar – nos corpos. Os planos abertos nos lembram de que se trata de seres-em-situação, isto é, tais mergulhos ocorrem numa dimensão de espaço-e-tempo. Não são raros os planos inclinados, tortos, lembrando-nos de que olhamos a partir de um lugar. Mas qual?

No caso do filme, não sabemos objetivamente de que dimensão se trata, mas há uma série de elementos (a corrupção e exploração em torno do desmatamento, por exemplo) em nome dessa dimensão. Do ponto de vista das personagens principais, talvez possamos chamar essa dimensão de exílio. Esse “exílio encarnado” – o cenário é mais uma personagem –, presente no texto de Marçal Aquino e, por extensão, nos olhares de Cauby e Lavínia, é muito bem construído pela excelente fotografia de Lula Araújo – junto com Camila Pitanga, o outro ponto alto do filme.

O enredo conta ainda com o jornalista Viktor, que encarna de forma limite o que temos de melhor e de pior e que, justamente por isso, tanto tem a dizer e tantas vezes fala demais. O próprio sucumbe às mensagens que deixa.

O futuro do pretérito, tempo verbal da frase-título, é assim: quem fica, persiste nas marcas – como o exílio de “lindos lábios”, os contornos de um corpo frágil, ou como se um raio tivesse nos abatido. Aquilo que Cauby, na última frase do livro, chama de “amor”; e que os olhos de Lavínia, no último plano do filme, também.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor, mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, psicanalista. Autor do livro de contos Do Avesso (Com-Arte) e de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial/Fapesp).

Lançamento de livro sobre Noel Rosa e entrevista com a autora

Fonte: Agenda Samba & Choro

Julia Engler

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Noel Rosa – O Humor na Canção, de Mayra PintoNoel Rosa compôs quase trezentas canções entre seus 20 e 26 anos. Apenas seis anos de produção foram suficientes para que o jovem sambista estabelecesse um novo paradigma na história da canção popular brasileira. Por isso, setenta e cinco anos depois de sua prematura morte, Noel continua sendo um fecundo objeto de estudo para pesquisadores interessados em compreender a música popular brasileira.

A pesquisadora e professora Mayra Pinto, lança Noel Rosa: O Humor na Canção (Ateliê Editorial/FAPESP) terça-feira, dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo.

No livro, Mayra Pinto investiga o uso do humor na construção de um olhar crítico sobre uma sociedade desigual que passava por um período de profundas transformações, principalmente no que se refere à identidade nacional.

Em entrevista dada à Agenda Samba & Choro, a autora conta um pouco de suas descobertas pelo universo do Poeta da Vila.

Em seu livro, você fala do estabelecimento de um novo paradigma na música popular brasileira a partir da obra de Noel Rosa. Que novo paradigma é esse?

Junto com compositores contemporâneos, Noel criou um formato de canção que permanece até hoje – um estribilho, várias estrofes, determinado tempo de duração, a estrutura musical do samba etc. Quanto à singularidade de sua obra, o paradigma propriamente dito foi criado pela voz que Noel imprimiu em suas composições. É basicamente a voz de um sujeito desprovido de força social, em todos os sentidos, porque é o sujeito do samba, o artista popular não valorizado que, com sua conduta boêmia, festiva, e, sobretudo, crítica no caso de Noel, confronta os valores dominantes ora de um modo debochado, satírico, ora de uma forma irônica, mais agressiva, com um tom menor de amargura. Essa voz não existia na canção antes de Noel.

Você observa que o humor funciona como disfarce nos sambas de Noel. Disfarce do quê?

A ironia está em muitas canções, e não só na poesia da letra. Há ironia na interpretação, nos arranjos, no próprio fato de Noel ter gravado muitos de seus sambas com sua voz “pequena”, que favorecia certos timbres mais sinuosos e ambíguos. Pra mim, na obra dele, a ironia tem a função de marcar essa ambiguidade, de possibilitá-la. O efeito é que em Noel o sujeito que se coloca em confronto – não só com os valores dominantes do trabalho, da moral, mas também do próprio universo do samba em várias canções – pode não ser alvo de sanções em consequência de sua atitude crítica, dado que seu tom é de “brincadeira”, é o humor aí “disfarçando” a agressividade da crítica – entramos aqui na sua próxima pergunta. O humor funciona como disfarce porque historicamente é visto como um discurso “desvalorizado” – o exemplo dos bobos da corte, que podiam criticar inclusive o rei, é ótimo para ilustrar esse lugar secundário do discurso de humor na história; ao bobo era permitido dizer qualquer coisa, até mesmo a verdade mais dura, porque afinal ele era só um “bobo”, isto é, “ninguém” com voz de poder real na sociedade. O humor só passa a ser valorizado na arte, e só na arte até agora, no século XX. Valorizado como? Como um discurso que também dá conta de arquitetar reflexões profundas – lembre-se das vanguardas europeias que foram em boa medida inspiradoras do nosso modernismo, atravessado pelas categorias do humor. Nesse sentido, Noel estava em sintonia com o que de mais moderno estava sendo produzido no sofisticado mundo da cultura erudita nacional e internacional.

De que forma se constrói nessa época a poética própria do samba? Como Noel participa desse processo?

A poética do samba é construída por todos os grandes contemporâneos de Noel: os sambistas do Estácio – com Ismael Silva à frente -, com os compositores e cantores brancos como Francisco Alves, Braguinha, Mário Reis, Lamartine Babo, dentre tantos outros. Há uma confluência incrível de influências vindas das mais diversas fontes para consagrar essa poética tal como existe até hoje. Por exemplo, segundo depoimento de Ismael Silva, o ritmo do samba criado pelo grupo do Estácio, menos sincopado que o anterior – feito por Sinhô, João da Baiana e outros – foi consequência da necessidade de permitir dançar e ao mesmo tempo andar nas ruas durante o carnaval. Noel participa intensamente contribuindo para construir essa poética, bem como para cristalizá-la, sobretudo, no que concerne à articulação das linguagens: o tom coloquial das letras/interpretação, marca da época, é manejado por Noel com tremenda segurança na articulação com a melodia.

Você diz que o olhar crítico do poeta só se desarma diante do universo do samba. O que esse universo representa na obra do Noel?

O universo do samba representa o lugar em que o artista popular pode ser, pode se expressar, pode refletir sobre o mundo e, sobretudo, pode ser reconhecido em sua originalidade. Veja o refrão do lindo samba “O X do problema”, gravado por Araci de Almeida: “Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá/E felicidade maior neste mundo não há./Já fui convidada/Para ser estrela de nosso cinema/Ser estrela é bem fácil/Sair do Estácio é que é/O X do problema”. É o reconhecimento de sua trajetória como sambista que importa; e o bacana é que Noel, contrariamente à maioria de suas canções, cria um eu lírico feminino pra falar dessa adesão incondicional ao samba. Por que ele enaltece isso? Um dos motivos, dentre tantos, é porque, à época, o universo da cultura popular era desvalorizado socialmente, era visto pelas elites como um lugar desprestigiado; mais ainda o universo do samba, “coisa de gentinha”, como está registrado no excelente Noel Rosa: uma biografia, de Máximo e Didier. Então, coerente com sua voz de confronto, marca discursiva de sua obra, Noel elege o universo do samba como um lugar só de positividade.

Na sua opinião, qual o principal legado deixado pela obra de Noel Rosa?

A obra do Noel é uma matriz de onde parte uma linhagem na nossa canção popular urbana. E uma matriz genial porque imprimiu, desde o começo da produção da canção, uma sofisticação discursiva que só podia se manter depois dele em um tom maior – vide todos os brilhantes compositores brasileiros que vieram depois de Noel e, certamente, foram inspirados e influenciados por sua obra.

Noite de autógrafos com a aultora
Dia 08 de maio, terça-feira, das 18h30 às 21h30
Livraria da Vila (piso superior)
Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros – São Paulo/SP

Noel Rosa: O Humor na Canção, de Mayra Pinto

Noel Rosa: O Humor na Canção, de Mayra PintoLivro faz uma análise da obra de Noel Rosa e mostra como o compositor articulava a coloquialidade da língua falada, a oralidade e a musicalidade, e ainda destaca o humor nas suas canções

Noel Rosa é um dos nomes mais importantes da famosa Época de Ouro da canção brasileira, que vai de 1930 a 1945, e autor de uma obra considerada como para- digma da canção popular urbana no Brasil tal como é conhecida até hoje. Produziu mais de trezentas canções em apenas sete anos mostrando uma voz que fala sobre o universo social da pobreza, pouco retratado até então na canção popular urbana, muito menos sob um viés crítico. Seus traços inovadores são a sofisticação poética – arquitetando uma sintonia perfeita entre o discurso verbal e o musical – e a criação de uma voz discursiva cuja marca mais evidente é a confrontação com os valores dominantes, que não admitia os valores do mundo do artista popular e do samba.

Para a autora, “Noel Rosa mostrou, junto com Drummond, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, e outros, que o discurso coloquial não está fora da grande poesia. Ao contrário, juntamente com os escritores modernistas, que inauguraram um novo tempo na literatura brasileira, Noel mostrou que o dis- curso coloquial, próprio do português falado no Brasil, poderia ser substância poética de primeira grandeza”.

O modo como Noel Rosa criou uma obra de alta voltagem poética, articulando a coloquialidade da língua falada à musicalidade, é tratado com acuidade por Mayra Pinto. Na análise de suas canções, Mayra mostra como o tom coloquial, próprio de samba, se apoia em estrofes construídas com base em paralelismos poéticos, entoativos e rítmico-musicais – a única alteração nessa “fórmula” está na letra, que a cada estrofe descreve com mais detalhes a situação do locutor. Este livro é uma contribuição original ao estudo da obra de Noel Rosa e, ao mesmo tempo, à canção brasileira e sua dignidade cultural.

Mayra Pinto é Doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Participou da edição de diversos livros didáticos.

Acesse o livro na Loja Virtual

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