Monthly Archives: março 2012

No meio do caminho tinha uma pedra polonesa

Fonte: Publishnews

.

Roney Cytrynowicz

Em meio às celebrações pelo início da reedição da obra de Carlos Drummond de Andrade, pela editora Companhia das Letras, vale lembrar o interessante e curioso Uma pedra no meio do caminho. Biografia de um poema, lançado há pouco pelo Instituto Moreira Salles, reedição de um livro de mesmo nome lançado originalmente em 1967.

O volume original apresentava uma coleção, reunida pelo próprio Drummond, de críticas e comentários sobre seu poema “No meio do caminho”, publicado na Revista de Antropofagia em 1928 e depois incluído em Alguma poesia, de 1930, início de sua trajetória literária. O interessante e divertido é que boa parte das críticas selecionadas pelo próprio poeta são cruelmente negativas, incluindo as escritas por ferrenhos parnasianos, que debochavam e destratavam poema, poeta e Modernismo, tratados como pífios e ridículos.

“No meio do caminho”, também pela violência da crítica, se tornou, com o passar dos anos, uma espécie de poema-manifesto do Modernismo. O livro do Instituto Moreira Salles possui uma segunda parte, organizada por Eucanaã Ferraz, que atualiza a edição de 1967 e inclui páginas posteriores de crítica literária, como a preciosa análise de Davi Arrigucci Jr. “A pedra e a reflexão”, de 2002.

“No meio do caminho tinha uma pedra” se tornou uma frase-pensamento com vida autônoma e integrada às expressões populares do país. Ler hoje a seleção de críticas ao poema, a partir dos anos 1930, é – além de divertido, às vezes hilariante – refazer o percurso do Modernismo e dos debates literários ao longo dos anos 1920 a 1950. Difícil recuperar a importância do debate desencadeado, por exemplo, pela utilização de “tinha” ao invés de “havia”, estabelecendo outro código linguístico para a arte e a poesia.

Eu estava com o pensamento nas pedras quando li os belíssimos Poemas, da polonesa Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, tradução do polonês por Regina Przybycien), prêmio Nobel de Literatura e falecida há pouco, e Duplo canto e outros poemas, do franco-chinês François Cheng (Ateliê, tradução de Bruno Palma). Embalado pela pedra drummondiana, fiquei encantado com os poemas de ambos dedicados às pedras – sem nenhuma intenção de reduzir a pedra poética do poeta de Itabira ao seu aspecto geológico (não que isso desmereça uma pedra, ao contrário; basta visitar o Museu de Geociências da USP para conhecer a veia poética de minerais, rochas, gemas, meteoritos, fósseis e outros).

No singular e intrigante “Conversa com a pedra”, Szymborska dialoga com uma pedra. Sua poesia, bem humorada e irônica, é de uma complexidade tão intrigante e engenhosa que, ao final, parece simples e cotidiana. Reproduzo duas estrofes:

.

“Bato à porta da pedra.

– Sou eu, me deixa entrar.

Venho por curiosidade pura.

A Vida é minha ocasião única.

Pretendo percorrer teu palácio

e depois visitar ainda a folha e a gota d´água.

Pouco tempo tenho para tudo isso.

Minha mortalidade devia te comover.

.

– Sou de pedra – diz a pedra –

E forçosamente devo manter a seriedade

Vai embora

Não tenho os músculos do riso.”

.

De François Cheng, reproduzo um trecho de “Um Dia, as Pedras”, primeira parte de Duplo canto:

“Do pé à pedra

Um passo apenas

.

Mas quantos abismos a transpor

.

Somos submissos ao tempo

Ela, imóvel

no coração do tempo

Somos limitados aos ditos

Ela, imutável

no coração do dizer

.

Ela, informe

capaz de todas as formas

Impassível

Portadora das dores do mundo

.

Rumorejante de musgos, de grilos

de brumas transmudadas em nuvens

Ela é via de transfiguração

.

Do pé à pedra

um passo apenas

.

Para a paciência

Para a presença”

.

Entre tropeços, permanências, enigmas e eternidades, eu sempre gostei de pedras – pedras no sentido leigo e genérico –, desde aquelas que a gente chuta pelo caminho, dos oito aos oitenta anos, e eventualmente entabula uma tabelinha, até, por exemplo, aquela pedra gigantesca do Núcleo das Águas Claras do Parque da Serra da Cantareira, à qual se chega por meio de uma boa caminhada e da qual se tem uma deslumbrante vista de São Paulo. Sentado naquela imensa pedra (que existe desde quando?), a infinita metrópole se torna um pequeno mundo capturável pelo olhar.

Aos que gostam de poesia e pedra, sugiro – além de ler esses poemas e livros – que encontrem muitas pedras pelo caminho, façam o passeio da pedra da Serra da Cantareira e visitem o Museu de Geociências na Cidade Universitária, em São Paulo, lugares onde as pedras ganham vidas inesperadas, com suas infinitas faces, cores, brilhos, ranhuras e texturas. A combinação de pedra e poesia pode iluminar sempre os bons e maus tropeços nos caminhos da vida.

Treze*

Treze - Ficção Interrompida

GG. contou tudo no início da noite. Depois que o aviso para colocar o cinto de segurança foi desligado. Então GG. contou que voltava de Londres ainda com um vestígio de raciocínio, mas o que ele não sabia é que por dentro do seu corpo de capoeirista não havia (e nunca houve) nenhum S. Poderia ser um, ou dois, ou muito mais de cem: mas os Ss mesmo não havia. Desapareceram para sempre. Para ele tudo era um. Mesmo lá em cima, no ar, quando voltou de Londres nove horas sem falar. Disseram-lhe apenas excuse me, na hora em que o passageiro do lado derramou suco de tomate sobre sua calça branca quando pulou por cima das suas pernas para ir ao banheiro. Apenas uma palavra: excuse me. Nove horas durante. Mesmo que não existisse nenhum S em um, em dois, em mais de mil. Que importam os Ss se o que mais ele queria era descer embaixo do sol, dentro do Carnaval, gemer muito enfiando seu cacete suado em alguma cavidade seja ela qual for, mas onde coubesse o seu cacete bem direitinho. Assim, reto, como quando ele era criança e entrava no túnel sentado ao lado de papai e de mamãe no trem fantasma. Então, quando o aviso do cinto fosse desligado outra vez ele poderia beijar todos aqueles corpos, tomar a bênção a sua avó, rezar, acender uma vela e esquecer o passado: a bomba explodindo entre os avisos do metrô e muito mais não lembrar daquelas almas voando como pigmentos pelas janelas amanhecidas.

*No voo entre Londres e Salvador, o capoeirista sem nenhum plural.

.

Diógenes Moura

Conto extraído do livro Ficção Interrompida [uma caixa de curtas]

Vencedor do Prêmio APCA de Contos/Crônicas 2010

.

Salvações no Nordeste – Política e Participação Popular, de Flávia Borges Pereira

Salvações no NordesteLivro utiliza a literatura de cordel para entender as transformações sociais do Nordeste

No próximo dia 23 de março, sexta-feira, da 19h00 às 22h00, na Livraria da Vila – Lorena, a Ateliê Editorial lança o livro Salvações no Nordeste – Política e Participação Popular. Escrito por Flávia Borges Pereira, livro utiliza a literatura de Cordel para entender as transformações da sociedade de Pernambuco, Alagoas e Paraíba desde os fins do século XIX. A Livrara da Vila Lorena fica na alameda Lorena, 1731 – Jardins, São Paulo (SP), telefone (11) 3062-1063.

Em sua pesquisa a autora recorreu a uma enorme quantidade de fontes, das mais diversas. Recorreu a jornais, nem sempre facilmente disponíveis, e cujas informações precisam ser analisadas com extremo cuidado, devido ao seu engajamento político ou ideológico. Encontrou dados importantes nos folhetos de literatura de cordel. Por meio desses poemas conseguiu entrelaçar o político e o socioeconômico. Recorreu a bibliografia existente até 1988 para delimitar as Salvações no tempo e no espaço, para poder inserir os vários grupos sociais que são mencionados na literatura de cordel. E também procurou o apoio de teóricos como Paulo Sérgio Pinheiro, Sedi Hirano, Faoro, entre outros, para conseguir explicar as transformações da sociedade de Pernambuco, Alagoas e Paraíba desde os fins do século XIX.

O cenário dos movimentos sociais salvacionistas investigados pela autora assemelha-se a muitos outros: uma aguda crise econômica instalada no Nordeste, associada às transformações políticas dos primeiros tempos do regime republicano. Nesse contexto, a população pobre e urbana foi uma das que mais sofreu. Os embates por ela travados, suas aspirações, dificuldades e resistência às condições adversas da existência encontraram sua voz mais clara na literatura de cordel.

Flávia Borges Pereira é licenciada e mestre em História pela USP. Atualmente é Professora de Arquivologia em cursos especiais do IEB-USP. Há vinte anos dedica-se à sua empresa Tempo e Memória localizada em São Paulo, onde desenvolve projetos de pesquisa de história empresarial, em geral, focadas em complexos empresariais em todo o Brasil.

O Sonho dentro do Sonho

Cambaio

Cambaio, musical com texto de João e Adriana Falcão e músicas da célebre dupla Chico Buarque e Edu Lobo, autores do clássico O Grande Circo Místico (1983), teve direção musical de Lenine em sua primeira montagem, cerca de dez anos atrás.

À época, Lenine era (ainda) um dos nomes mais promissores da mpb, tido em alta conta pela crítica e pelo público devido à sua habilidade, inventividade e ao violão com personalidade (talvez, desde Jorge Benjor, a maior novidade no instrumento). A (boa) novidade, entretanto, não foi aprovada com unanimidade e, para alguns, não fez par com o estilo um tanto sóbrio dos autores de “Beatriz”.

Este mês, o musical ganhou cara (ainda mais) nova. Com direção do jovem talentoso Rafael Gomes, arranjos e execuções do versátil coletivo 5 a Seco, que se une à Companhia Empório de Teatro Sortido, o musical conta com Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone, Vinícius Calderoni, Tatiana Parra, Mayara Constantino, Geraldo Rodrigues e Guilherme Gorski e está em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo.

O enredo gira em torno justamente de um espetáculo – um show de música sobre um show de música. A questão metalinguística é colocada antes mesmo do início, quando as três campainhas (para indicar o começo do espetáculo) são acionadas.

Cambaio é aquele que tem pernas tortas; que é cambeta. Talvez possamos pensar esse desvio – algo na direção do gauche que cantava Drummond – encarnado nos pares ficção/realidade, sonho/vigília.

Essas camadas são muito bem trabalhadas no cenário com sucessivos véus. Mas, ainda mais interessante, é o uso que é feito do espaço físico do teatro – o palco do teatro Sesc Pompeia, como se sabe, fica entre duas plateias. Em Cambaio, apenas uma delas é aberta ao público. E, assim, a simetria mesma da plateia é extensão do palco onde habitam os sonhos – as músicas.

Três são as personagens principais – dois garotos (um deles, é verdade, um rato, bem interpretado por um Geraldo Rodrigues muito à vontade) e uma garota. As três perspectivas – o show dentro do show dentro do show – são emblemas de que cambaia – incerta – é a vida.

Fica, contudo, uma certeza: cantar o sonho do outro é, em grande medida, apropriar-se do próprio sonho. E, sem sonho, a vida, esta “irrequieta criatura”, morre.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Professor Aziz Ab’Sáber falece aos 87 anos

É com muita tristeza que informamos que Aziz Ab’Sáber, um dos maiores estudiosos de biodiversidade do Brasil, faleceu hoje pela manhã.

A Ateliê Editorial expressa suas condolências à família e lamenta profundamente a perda de uma pessoa ímpar e exemplo de caráter, perseverança, dedicação e preocupação com o desenvolvimento e preservação de toda a biodiversidade brasileira. Temos orgulho de podermos ter trabalhado com Aziz Ab’Sáber e publicado alguns de seus mais importantes trabalhos.

Abaixo, mais informações, extraídas da Folha:

Silva Júnior/Folhapress

Aziz Nacib Ab’Sáber, pesquisador da USP e um dos maiores especialistas em geografia física do país, bem como uma voz ativa nos debates sobre biodiversidade e preservação ambiental, morreu na manhã desta sexta-feira, às 10h20, em São Paulo. Ele tinha 87 anos.

A informação foi dada pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), instituição que Ab’Sáber presidiu de 1993 a 1995 e da qual era presidente de honra e conselheiro.

Segundo informações do departamento de geografia da USP, Ab’Sáber morreu em casa. A causa da morte ainda não foi identificada. Não há, por enquanto, informações sobre o velório do geógrafo.

Ab’Sáber nasceu em São Luís do Paraitinga (SP) em 24 de outubro de 1924. Seu pai era libanês.

.

Biografia

Aziz Ab’Sáber foi um dos mais importantes nomes das ciências no Brasil. Sua extensa obra é resultado de trabalhos de campo feitos no país todo. Essas pesquisas contribuíram para diversas áreas do saber, como a geografia, a geo logia e a arqueologia. Destaca-se sua produção acadêmica sobre meio ambiente, que o torna a maior autoridade em ecologia no país. Professor titular aposentado do Departamento de Geografia da USP, está também ligado ao Instituto de Estudos Avançados da mesma universidade.

o silêncio tange o sino, de Mariana Botelho

.

Estudos sobre o silêncio
.
I
.
ficamos imóveis
diante do imenso
pássaro de pedra:
.
silêncio
.
sólido impassível belo
.
falamos
e ele assume-se leve
ave emplumada
.
num vôo de morte
.
II
.
n’algumas coisas o silêncio
canta
.
n’outras arde
.
em mim
.
III
.
no fundo da noite
o silêncio
canta
.
tarde
o escuro morre
ele agita a carne
morna e
voa –
.
essa ave
nua
.
Mariana Botelho
.
Esta semana os livros de poesia estão com 30% de desconto. Acesse aqui
.

Poema do livro Memória Futura, de Paulo Franchetti

Memória Futura

Os dias são longos.

Como flores abertas,

Suportam a desatenção.

O sangue negro da madrugada

Empapa as paredes, desce

Sobre o rosto horizontal.

Barulho de asas.

Ave noturna sobre a presa.

Roçar das patas, aranhas,

Cães distantes, gatos, galos.

O corpo empurra

As mesmas palavras.

Elas vão e voltam,

Até que tudo afunde

No aquoso buraco vigilante das pupilas,

Na hora sombria

Da noite que termina.

.

Paulo Franchetti

do livro Memória Futura

.

Esta semana os livros de poesia estão com 30% de desconto. Acesse aqui

.

Poema do livro laetitia, sp., de Gabriel Pedrosa

laetitia, sp.

a tarde verde nas pastilhas da parede

todos aguardam

no prédio art-nouveau a chuva que tombe

.

flores de tinta, cerâmica, metal, adiam o fim de um mundo

flores laranjas adiam o fim do verão

fora

.

um sem fim de linhas risca os planos do dia, e todos aguardam,

a tarde verde nas pastilhas da parede

conversas molem

.

a umidade, nas juntas, crescendo

chuva nos ossos, nas vigas, nos meus lassos

pensamentos

.

a tarde verde nas pastilhas da parede

todos aguardam

.

Gabriel Pedrosa

laetitia, sp.

.

.

Pedra de Tinta

Duplo Canto e Outros Poemas

Esmeralda-azul anil

Ouro-vermelho-laranja

.

Que são as cores da luz

Como as cores da matéria

.

Que são esponsais sem nome

Seja da carne ou do sangue

.

Paixão breve duma noite

Que queimou entre olho-mão

.

Laranja-vermelho-ouro

Azul anil-esmeralda

.

Arco-íris retornado

À sua nuvem de origem

.

Que dizer sabe e só ele

Em sonho o sabor sem-cor

.

Dizer sabe em preto-branco

O indizível ponto cinza

.

François Cheng

do livro Duplo Canto e Outros Poemas

Tradução de Bruno Palma

.

Semana da Poesia

Semana da Poesia

Dia 14/3 é o Dia Nacional da Poesia. Reservamos a semana desta data para publicarmos algumas de nossas poesias para vocês apreciarem. Além disso, todos os livros de poesia da Loja Virtual estarão com desconto de 30%, até o dia 18, domingo. Comemore essa data ao melhor estilo, lendo poesia, e aproveite para descobrir novos autores!

.

Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia

do nicho elipse ontem fresta

sem coroa ou aura à sobretesta

sem louvor barroco à testa

cheia de graça em enfesta

lindeira de urbe e floresta

névoa ao olho imanifesta

oculta por imolesta

flor ou bem que se requesta

coração que se empresta

a nenhum juro infunesta

em seu sol tarde seresta

de som noite que se apresta

ao ardor deste à ânsia desta

dada mão furtiva ou presta

príncipes de brim voile em véstia

rímel pó rouge à arte honesta

na esquina de amor ou festa

ao cadente beijo da hora é esta

sua luz vertia em réstia

nossa senhora da modéstia

.

Affonso Ávila

de R$ 36 por R$ 25,20

.

Acesse aqui os livros de poesia com 30% de desconto

.