Monthly Archives: fevereiro 2012

Palestra do tradutor Bruno Palma

Bruno Palma dialogou sobre seu trabalho de tradução de poesias com os participantes do evento “Livro Falado”, organizado pela escritora Simone Homem de Melo, na Casa Guilherme de Almeida, no último sábado, 25. Dentre os presentes na palestra estavam Plinio Martins, Ivan Teixeira e Aline Sato. Veja algumas fotos abaixo.

Conto: O dia em que matei o caçador

Afinador de Passarinhos - Gil Perini

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Gil Perini

O Afinador de Passarinhos

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– A Duquesa ficou louca!

Assim, sem um alô nem nada, o Codé me recebeu na porta da casa, assustado. Não teve abraço, gritaria, nada dessas comemorações barulhentas que a italianada costuma fazer nos reencontros.

Eu tinha acabado de chegar. Desembarquei da Mogiana, deixei a mala na chácara da beira da linha e desci. A velha Santa Rita lá, dentro do buraco, esparramada pelas encostas suaves que margeiam os dois córregos, semelhava cadáver insepulto abandonado em cova rasa. Casario decadente, torres de igrejas, mangueiras nos quintais.

– Morreu?

– Ainda não. Avança em todo mundo. Dois dias sem comer nem beber. Alguém tem de matar ela; ninguém tem coragem. Vai ocê, Goiano.

Fui empurrado portão adentro e chegamos à varanda. Estavam todos lá, o bando de adolescentes ao redor da mesa, triturando uma baciada de laranjas pannazias. O Vitório me entregou a doze.

– Está carregada. Vai, vai.

Rodeei o cômodo da lavanderia e desci. Atrás do monte de lenha, amarrada, encontrei Duquesa, a pointer miúda que nos ensinara a caçar codornas. A mestra, que não ficava muito perto para que o caçador não espantasse a caça, nem tão longe que não a pudéssemos controlar, e que amarrava com elegância, levantava com vigor e trazia à mão, nas raras vezes em que acertávamos o tiro, rosnou, latiu e esticou a corda que a prendia. Em nome da caridade, eu deveria sacrificá-la.

Quem, um dia, já caçou com um perdigueiro, sabe o que vou dizer: ela me olhou de frente e ganiu. Parece que, por um instante, entre lucidez e loucura, ao ver a espingarda e o homem, Duquesa achou que iríamos caçar. Abanou o rabo, fez festas, ganiu novamente e avançou. Vi Duquesa trilhando codornas imaginárias; lembrei Baleia e suas preás gordas no céu.

Levantei a arma, fiz pontaria. A imagem de Duquesa diluiu-se à minha frente como se refletida em poça d’água soprada em manhã de vento. Fechei os olhos, senti um gosto de sal, apertei o gatilho.

Não me lembro do fragor do tiro, mas não consigo esquecer o silêncio que veio depois, só quebrado pelo empregado do armazém, que saiu arrastando alguma coisa pelo quintal coberto de folhas.

Retornei à varanda e eles ainda estavam lá. Ninguém disse palavra; viraram-me as costas. Mãos nos bolsos, saí calado como cheguei. Na rua, nem uma lata pra chutar.

Depois, reclamei da frieza da turma e o Codé disse que eles não queriam que eu os visse chorar; não ficava bem para caçadores. Foi bom. Eu também não queria que vissem como eu estava.

Até hoje penso que não foi com o tiro: foi com aquele silêncio que se seguiu que matei o caçador. O que estava dentro de mim e que eu, na verdade, não queria ser.

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Prêmios do livro: Melhor capa no Creativity Awards e no How Design Awards

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O Artista

O Artista

Acabo de sair do cinema, onde optei – entre tantos filmes em cartaz que gostaria de ver – assistir a O Artista, com direção e roteiro de Michel Hazanavicius: um filme mudo sobre filmes mudos. A obra estreou no Brasil no último dia 10 e conta com dez indicações ao Oscar (entre elas, Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante – Bérénice Bejo) já tendo abocanhado três Globos de Ouro (Melhor Comédia/Musical, Melhor Ator – Jean Dujardin e Melhor Trilha Sonora).

Já no letreiro de entrada uma viagem no tempo começa. Com as características letrinhas tremidas e barulhinho de filme de rolo, o filme é introduzido com a mágica nostalgia dos anos 20. Ambientado nessa década, o enredo tem como principal personagem George Valentin, um célebre ator de filmes mudos da época, interpretado excepcionalmente bem por Jean Dujardin. Casado, bem-sucedido e com grande aceitação do público, George Valentin contracena com Peppy Miller – interpretada por Bérénice Bejo – em um dos pontos altos de sua carreira artística. Com direito a muita dança, música e sorrisos, os atores interpretam seus papéis no melhor estilo cinema mudo: com movimentos afetados, expressões faciais exageradas e uma alegria quase que desesperada. Ao longo dos anos, porém, o cinema mudo sofre ameaças devido ao surgimento do novo cinema; o falado. Os diretores, pensando sempre em agradar ao público, rapidamente começam a trabalhar a fim de produzir novos filmes que seriam sucessos de bilheteria, enquanto os atores se veem obrigados a adaptar-se. Entretanto, para uns é mais fácil do que para outros. Enquanto Peppy Miller está sempre em ascensão profissional, George Valentin se recusa a participar desse novo futuro: se aquele era o futuro, que os outros ficassem com ele. A partir daí a história se desenrola com vários momentos de tensão, alegria, romance e um inteligente humor.

Com brilhantes atuações – incluindo a do cachorro – o filme trata com sensibilidade de um momento histórico, de inseguranças, de atitudes e emoções humanas e possibilita reflexões a respeito de situações similares pelas quais o mundo passou, está passando e ainda passará, pelo menos enquanto houver o avanço tecnológico. Os figurinos e cenografia trabalham para uma ambientação realista, enquanto a sonoplastia e fotografia são recursos usados de forma muito inteligente de acordo com o momento do enredo.

O fato de o filme ser mudo envolve o público de uma forma diferente; em certos pontos é possível escutar com maior facilidade o choro do senhor que se sentou à sua frente, o suspiro da mulher ao seu lado, ou o seu próprio leve riso de carinho por um personagem ou cena. Isso gera uma espécie de cumplicidade entre as pessoas presentes na sala e faz com que todos percebam o tipo de experiência que o cinema pode proporcionar.

Absolutamente impecável, O Artista vale cada centavo do ingresso, cada indicação ao Oscar, cada choro e riso que provoca na plateia. É um filme realmente mágico, capaz de entrar na alma do público, consequência do visível esforço de todos os envolvidos na sua produção. Com todo mérito que lhe cabe, eu parabenizo e agradeço a execução de O Artista, pois creio que enquanto existirem no mundo manifestações artísticas desse nível ele será um bom lugar para se viver.

Cinema - Laura Ammann

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário Andrade #Semanade22

Lição AproveitadaA partir de Amar,Verbo Intransitivo, obra-prima do Modernismo, livro mostra como Mário de Andrade “escreveu” um filme ou “viu” um livro e pode ajudar na leitura de qualquer outro filme

O livro A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade, escrito por João Manuel dos Santos Cunha e publicado pela Ateliê Editorial, foi originalmente a tese de doutoramento que o autor apresentou ao Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Esta obra apresenta uma versão reduzida do que foi a tese, embora mantenha a estrutura, as hipóteses e as conclusões relativas à pesquisa original. Este texto ainda incorpora as contribuições da Comissão Examinadora composta pelo cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos (UNB e UFF), pelos doutores Telê Porto Ancona Lopez (USP), Marcia Hoppe Navarro (UFRGS), Robert Ponge (UFRGS), e também da orientadora Tânia Franco Carvalhal. Este livro situa Mário de Andrade na posição de “mestre” e reitera a sua contribuição para a cultura brasileira, destacando mais essa sua vertente: possibilitar a leitura da relação entre literatura e cinema no âmbito do Modernismo brasileiro. João Manuel dos Santos Cunha, como professor e crítico de cinema, sempre defendeu essa análise, de que é possível associar a paixão pelo cinema e a formação literária.

“No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, ‘andradinamente’, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade ‘escreveu’ um filme, ou ‘viu’ um romance.” (Nelson Pereira dos Santos em 13.03.1999 – participou da Comissão Examinadora da tese de doutoramento do autor)

João Manuel dos Santos Cunha é professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III). É também autor dos livros Mito e Cinema (EDUFPel) e A Tradução Criativa – A Hora da Estrela: Do Livro ao Filme (Mundial; EDUFPel), além de diversos artigos e ensaios publicados em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior.

Literatura e Psicanálise: O Alimento do Desejo

Escritas do DesejoEscritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise (Ateliê Editorial) é o tipo de livro indispensável àqueles que se interessam pela relação – fecunda e ambígua – entre literatura e psicanálise. Mas será útil também ao leitor que, interessado em cultura e ciências humanas, se dispuser a viajar, isto é, a lançar-se em busca do novo.

Onze são os ensaios que compõem o volume – organizado por Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum. Além das organizadoras, assinam os capítulos: Adélia Bezerra de Menezes, Leda Tenório da Motta, Noemi Moritz Kon, Camila Salles Gonçalves, Philippe Willemart, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Maria Rita Kehl e Márcia Marques de Morais. Como se vê, autores consagrados.

Conforme escrevem as organizadoras na Breve Apresentação, a maioria dos ensaios “compôs um colóquio sobre „Crítica Literária e Psicanálise‟, organizado em 2008, pelos departamentos de Teoria Literária e Literatura Brasileira da USP”. Talvez por isso, em que se pese a densidade das reflexões, a leitura seja fluida e agradável.

O conjunto, além da Breve Apresentação, é dividido em três partes: A Experiência e o Verbo, A Palavra Encobridora, A Emergência da Palavra. A primeira parte traz ensaios que mapeiam as articulações entre literatura e psicanálise enquanto uma problemática relevante. Vejamos, a propósito, o capítulo de abertura, “A Palavra Poética: Experiência Formante”, de Adélia Bezerra de Menezes. Ao finalizar a reflexão com a análise de poemas de Ferreira Gullar (“Traduzir-se”) e de Adélia Prado (“Arte”), Adélia Bezerra de Menezes é, também ela, inspiradora: “Essa coisa visceral, em que lateja um ritmo, está na imagem da tripa, mas também na do coração: o que o caracteriza, quando pensamos nele, é a sua presença acústica, antes de maisnada: o tum, tum; tum, tum: o pulsar”. Com efeito, tanto a literatura quanto a psicanálise lidam com o ritmo da vida – na e pela palavra.

Noemi Moritz Kon, ainda na primeira parte, habita a “íntima” e “conflituosa” relação entre “a psicanálise e a arte – e a literatura em particular”. Sua reflexão explora desde as ambiguidades de Freud com a figura do artista e a própria arte, até as aproximações e limites entre a psicanálise e a literatura, sobretudo a fantástica, por meio, dentre outros, de Merleau-Ponty, Barthes e Foucault. Escreve Kon: “Penso que, apesar das inclinações de Freud e de seu temor quanto a uma cumplicidade com o trabalho criador do artista, compreendido como anverso do trabalho do cientista que ele pretende prioritariamente ser, o que liga o ato psicanalítico ao ato artístico é justamente a capacidade criadora”.

Se a Parte I procura mapear um campo mesmo de diálogo entre literatura e psicanálise, a Parte II, A Palavra Encobridora, aborda problemas de pesquisa, ou seja, as reflexões são norteadas por uma questão. Sugestivamente, o ensaio que abre a seção, de Camila Salles Gonçalves, dialoga o tempo todo com o texto de Freud “Lembranças Encobridoras” (1899), em companhia, dentre outros, de Theodor Adorno, Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Vale citar o arremate de Gonçalves: “[…] há uma fabricação inconsciente dessa recordação bucólica, que encobre outros sentidos sob sua aparente banalidade. Acompanha um tipo de verdade que a literatura freudiana compõe, ainda que se esmere em demonstrar que o texto está além do princípio do prazer do próprio texto” (grifo meu). Isto é, à ânsia de elevar a psicanálise a um, digamos assim, estatuto de ciência, o pai da psicanálise cai (felizmente) na própria armadilha. Desencobre-se em Freud, a partir de Freud, uma verdade mais afeita à literatura do que à ciência.

A Parte III, A Emergência da Palavra, apresenta análises de poéticas, conjunto de obras de um autor, ou um conto literário, sempre na interface da literatura com a psicanálise. No ensaio “Bovarismo e Modernidade”, Maria Rita Kehl vale-se da expressão fundada a partir de Emma, célebre personagem do romance Madame Bovary, de Flaubert, para refletir o bovarismo nacional presente em Machado de Assis e a permanência desses traços no contexto

contemporâneo. Mas não nos apressemos. O que seria “bovarismo”? Leiamos com a psicanalista: “O termo já se incorporou ao senso comum, mas vale lembrar que é uma expressão cunhada pelo psiquiatra francês Jules de Gaultier em 1902 […] a fim de designar „todas as formas de ilusão do eu e insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre-arbítrio‟”. Mas, como nos lembra Kehl, a possibilidade de tornar-se um outro, nas sociedades capitalistas, está inscrita no laço social. O problema está colocado, portanto. E, se “tornar-se um outro implica reconhecer o caráter simbólico da dívida para com os antepassados, de modo a não se deixar capturar pelas armadilhas da culpa”, o problema transforma-se em “uma das figuras mais expressivas da subjetividade moderna”, podendo ser encaminhado, também, pela psicanálise.

E muito mais poderia ser dito a respeito destes e dos demais ensaios de Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise. Se, como diz Lacan a partir de Hegel, “o desejo é o desejo do outro”, a leitura dessas “escritas” irá, com efeito, nutrir o leitor desejoso por compartilhamento – um dos alimentos de que mais necessitamos.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Professores, temos uma página exclusiva para vocês!

Página do Professor

A Ateliê Editorial desenvolveu um ambiente virtual voltado para os professores, onde eles podem usufruir de benefícios especiais. Para ter acesso a essa Página do Professor, deve-se preencher o formulário do site e enviar um comprovante de vínculo com a instituição de ensino para professor@atelie.com.br e aguardar pela liberação do cadastro. Após isso, basta o professor entrar no site da editora (www.atelie.com.br) e inserir as informações de login, para acessar a Página do Professor .

Nesta página, o professor tem 50% de desconto em todos os livros (exceto o Dicionário Grego-Português) e pode solicitar livros para análise.

Preencha o formulário aqui

Livro Falado: Bruno Palma dialoga sobre sua tradução da obra de François Cheng

Duplo Canto e Outros Poemas, de François ChengBruno Palma participará do evento “Livro Falado” na Casa Guilherme de Almeida, no dia 25 de fevereiro

A obra do poeta sino-francês François Cheng (1929) é um exercício tradutório entre sua cultura oriental, de origem, e ocidental, de exílio e escolha. Em Duplo Canto e Outros Poemas, Bruno Palma traduz uma amostra representativa da poesia de Cheng e transpõe para o português esse universo intercultural. O evento faz parte da série Livro Falado, que apresenta livros recém-editados ou a serem publicados em breve, por meio de um diálogo com o tradutor. A conversa abordará procedimentos tradutórios do livro em questão e apontará aspectos relevantes do processo de criação do tradutor.

Bruno Palma, tradutor de poesia francesa, dedica-se sobretudo às obras de Saint-John Perse (1887-1975) e de François Cheng (1929). Do primeiro traduziu Anábase (1979), trabalho pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti em 1980, e Amers – Marcas Marinhas (2003), entre outros livros publicados e inéditos. Por sua contribuição à propagação da lieratura francófona foi condecorado pelo governo francês, em 1989, Chevalier dans l’Ordre des Arts e des Lettres.

Visite a página de programação da Casa Guilherme de Almeida para mais informação.

Interferências na escrita – parte 2 e final

Interferências da escrita

Embora eu não goste da palavra “coincidência” e tenha de começar este texto com ela (logo na primeira linha!), assim pode ser chamado o curioso fato de que quando meu dedo indicador pressionou a primeira tecla, um trovão sacudiu as folhas metálicas da janela. Um novo jogo de boliche acontecendo nas pistas úmidas das nuvens, um novo pigarro – desta vez da cadeira onde me sento, ela reclamando de escoliose num espaldar nada lisonjeiro –, um novo pássaro que ora canta três notas iguais, ora quatro – e vou imaginando que ele dá um ligeiro salto em cada uma delas, ou que gira o corpo roliço num discreto rodopio para secar as penas borrifadas de chuva. Mas desta vez o silêncio é mais palpável, mais viscoso, e penso que se eu pudesse enxergá-lo da minha janela, veria brilhantes pingos de sombra prateada explodindo no ar como se rompidos por cada partícula de som mais próxima. É uma imagem que me agrada, e que apesar de romântica, abstrata, não poderia ser diferente quando a brisa que entra também faz barulho, empurrando a cortina e produzindo o som de um sussurro dentro de uma concha. Um sussurro com perfume de eucalipto, terra quente, lavandas e magnólias – tão doces que a boca saliva, que os cantos da língua repuxam nervosos de vontade, como se morder as cremosas pétalas amarelas fosse provar o sabor de um fim de tarde.

Escritores precisam de concentração para escrever, do contrário suas obras seriam impossíveis, inexistentes. É preciso uma fatia generosa de solidão e silêncio para ser escritor; cada som, por mais ínfimo e inocente que seja, rasgando essa frágil película que envolve o escritor e todas as suas imagens transformadas em palavras, penetrando seu mundo privado, é um pequeno ato de violência. Cada som invasor é uma fração de um todo que é caos, esta vida que pulsa de todos os lados e da qual não conseguimos nos desvencilhar enquanto pulsamos junto. Fazemos parte do caos, da invasão que perturba o processo criativo, e por isso ele também faz parte de nós – sobretudo quando sua imposição inexorável se transforma na temática indesejada. É um truque da vida, do destino, se você preferir, escrever sobre o que se tentou evitar para conseguir escrever. Então a arte literária se mostra bem-humorada, perspicaz.

Virginia Woolf, na segunda metade de sua vida, tinha o trabalho constantemente interrompido por visitas indesejadas, dúvidas das cozinheiras, e na borda da Segunda Guerra Mundial, aviões sobrevoavam sua casa e bombas a alguns metros do seu escritório chacoalhavam as janelas fazendo-a perder a pesca de alguma palavra – lá se vai ela, livre do anzol! Entre versos amargos e duros, Sylvia Plath, ao contrário de Virginia, era interrompida pelo choro estridente dos filhos pequenos, e assim também vivia, ainda que de maneira mais organizada, Enid Blyton, famosa escritora de livros infantis que batia em sua máquina cerca 10 mil palavras todos os dias. Logo o barulho incessante foi substituído pela eficiência das babás, e a criação voltou a ser silenciosa (a despeito das teclas metálicas), concentrada, imperturbável.

Agora ouço o grasnar de um tucano, uma abelha ardendo no gramado ainda úmido de orvalho, um vento macio nas copas umbrosas das araucárias. Penso que escrever é um exercício de contemplação: contemplar um mundo externo e outro interno, e transformá-los num terceiro, a obra literária. Para isso, o silêncio, a solidão e toda ausência de ecos – inclusive os próprios, aqueles que perturbam os pensamentos, preocupações vagas que de nada ajudam, como se aquela conta que vencia ontem foi paga ou se o gás na cozinha foi desligado – são necessários. Franz Kafka disse em carta a um amigo que seu lugar ideal para escrever seria nas profundezas de uma caverna, munido de uma lamparina e tudo o que é necessário para escrever. É assim que me vejo escrevendo, distante do mundo, resguardado de seus acontecimentos, indiferente à queda da Bolsa ou à desapropriação de um bairro ocupado ilegalmente.

A escrita será sempre interferida porque

(Precisei ir ao banheiro. Volto quando o mundo silenciar.)

Coluna Autor sobre Autor - Alex Sens

O Pai de Max Bauer e Outros Contos – Marcos Rodrigues

O Pai de Max Bauer e Outros ContosLançamento da Ateliê Editorial e da revista Brasileiros reúne narrativas curtas de Marcos Rodrigues publicadas mensalmente na revista

Desde outubro de 2008, Marcos Rodrigues vem colaborando com a revista Brasileiros e traz sempre o seu olhar arguto sobre situações cotidianas. Na divisa entre o registro irreverente da crônica e a magia sintética do conto, suas narrativas, com espaço pré-definido de uma página, convidam o leitor a refletir sobre a mágica de algumas experiências aparentemente ordinárias, como no conto Um Grande Circo. “[…] as coisas do circo encantam porque são metáforas significativas para todos nós […] Quem já não enfiou a cabeça na boca do leão? Quem já não se sentiu alçado em voo incerto? Quem já não foi aparado por um braço forte? Quem já não caminhou no arame? Quem não empilha coisas sobre a cabeça? Quem não se sentiu como leão domado contido por chicote?”

As narrativas de Marcos Rodrigues revelam o amor, a amizade, a inveja, a sensação de perda, o desalento, o medo da morte, a generosidade, a luxúria e o papel da memória nas relações humanas no mundo contemporâneo. O contador de histórias, que também é personagem, é bom observador do que se passa à sua volta, e dono de um senso de humor surpreendente, às vezes tendendo para a ironia ou muito próximo da sátira, como nos contos Lata 83, Uma Bobagem, Lambanças e Sasta. Marcos Rodrigues tem uma maneira rara de observar e descrever o mundo. Para Ricardo Kotscho, “Marcos Rodrigues escreve como quem fala e tem um texto bom de ler que nos faz sentir e pensar”, e acrescenta: “Se eu fosse você, não deixaria de ler uma única linha deste livro”.

Marcos Rodrigues é PhD pela Universidade de Cambridge. Foi Professor Titular da USP e consultor da ONU. É autor do livro de contos Choro de Homem (Ateliê Editorial, 2001) e um dos vencedores do concurso de contos 50 Anos de Bossa Nova, do jornal O Estado de S. Paulo. Desde 2008, escreve “Pequenos Contos” regularmente na Revista Brasileiros.

Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi – Herom Vargas

Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação ZumbiGuardião do mangue, o caranguejo preserva o equilíbrio do ecossistema, alimentando-se de detritos e oxigenando a lama ao revolvê-la. Não é à toa que se tornou uma das principais imagens do Manguebeat, movimento estético-musical de vanguarda criado por um grupo de jovens nos anos 90, entre eles, Chico Science, líder da banda Nação Zumbi, e um de seus principais mentores.

Como o crustáceo, o Manguebeat se propôs a revolver a cena musical de Recife para arejá-la ao sopro das vanguardas pop e das tecnologias eletrônico-digitais, ligando-se também à cultura tradicional de Pernambuco, com criações híbridas nas quais influências distintas se amalgamavam a favor da experimentação, da crítica sociocultural e da recuperação das tradições populares. O movimento, que tanto impacto teve para a identidade artístico-cultural do estado nordestino e da cultura brasileira em geral, é tema de Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi, do professor de comunicação Herom Vargas.

O foco são os dois primeiros discos lançados pelo grupo Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ) – Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) –, produzidos antes da morte de Science, em 1997. Vargas analisa em particular as mesclas de ritmos e instrumentos afro-brasileiros (maracatu, alfaias, embolada, por exemplo) com gêneros musicais globalizados (rock, rap e funk/soul) e os hibridismos poético-musicais presentes nas canções. O híbrido é um conceito que tem sido muito debatido em função dos estudos sobre pós-modernidade e sobre cultura latino-americana; de natureza sincrética, desafia as noções correntes sobre identidade, trazendo à cena combinações provisórias e inusitadas.

Segundo Herom Vargas, sua análise é fundamentada“no debate teórico-ide- ológico que deu origem, em parte, à cena Mangue, entre as posições tradicionalistas e ‘essencialistas’ dos armoriais, consubstanciadas em Ariano Suassuna, e as posições antropofágicas e híbridas tomadas pelo Manguebeat”.

O livro divide-se em quatro capítulos. “Armoriais, Nacionalismo e Tradição de Essência” destaca as posturas nacionalistas e tradicionalistas ligadas à cultura pernambucana nas vozes de Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Ariano Suassuna, com enfoque no Armorial (movimento estético criado nos anos 70, que associa a arte sertaneja ao medieval ibérico), e faz um contraponto entre o discurso purista da ditadura militar e o tropicalista do final de 60. Já “Hibridis- mos do Mangue” apresenta o Manguebeat (conceitos, manifestos, emblemas etc.), o contexto de seu surgimento, os paralelos com o tropicalismo, questões de identidade cultural etc. “Chico Science & Nação Zumbi”, capítulo central do livro, analisa o trabalho do grupo nos dois discos – capas, performances, letras, estruturas rítmicas e arranjos instrumentais. Por fim, “Nação Zumbi e os Hibridismos” retoma a produção da banda pós-Science e as discussões a respeito dos hibridismos. A obra traz ainda um apêndice que analisa a miscigenação como elemento-chave das dinâmicas musicais latino-americanas.

Herom Vargas é doutor em Comunicação e Semiótica, professor, membro da seção latino-americana da International Association for Study of Popular Music (IASPM- AL) e líder do grupo de pesquisa Música, Cultura e Linguagens da Mídia (CNPq).